O Feiticeiro De Unäeris
1 Capítulo 1
Numa pequena aldeia de nome Razenhut, a sul da cidade capital do reino de Mor’odar, caía uma leve névoa que se confundia com o castanho e dourado do pôr-do-sol de Outono. Lembrava aos seus habitantes que o Inverno chegaria em breve, ainda que o sentimento que provocasse não fosse tão preocupante. A Morton concedia-lhe uma sensação de paz que se juntava com o cheiro dos pinheiros tão familiar como lhe eram as suas próprias unhas sujas e desgastadas pelo trabalho na ferraria. Morton estava na casa dos trinta, tinha cabelo negro pelos ombros, trajava roupa oleosa e esfarelada própria do seu trabalho e possuía uma estatura forte, musculada e compacta que era invejada por muito dos aldeões de Razenhut. E pelas aldeãs…
Adorava simplesmente tudo naquela aldeia, não tivera ele lá morado desde que se lembrava. Adorava o caminho que fazia todos os dias da sua casa até à oficina, percorrendo as ruas solitárias pela madrugada e encontrando, uma vez ou outra, crianças que se esgueiravam para os campos já fartas de dormir e ansiando pela diversão das lutas de espadas (de madeira) e caça aos sapos com os seus paus bifurcados e espetos. Adorava as montanhas que rodeavam Razenhut a norte e oeste, subindo em direção aos céus por quase três quilómetros de altura onde as nuvens frequentemente se instalavam, tais titãs brancos vigilantes. Adorava o rio Zanaris que por ali passava, ziguezagueando calmamente num sussurro delicado, mas robusto, ao qual qualquer um habitante da aldeia responderia com o agradecimento mudo da sua presença vital na aldeia, abastecendo famílias com a sua dose de água fresca e pura, regando os campos de cultivo, lavando as costas sujas e suadas dos jovens agricultores… Ali era a sua casa.
Morton saíra da ferraria e dirigia-se agora para a habitação que herdara dos pais, há muitos anos. Partilhava-a com a sua mulher, Amelia. Amelia era magra e baixa e possuía uns cabelos longos castanhos escuros que salientavam o brilho dos seus olhos avelã. À primeira vista passaria por uma mulher fraca e delicada, mas seria errado subestimá-la. Ela era, e Morton sabia-o muito bem, das mulheres mais fortes e com o maior espírito de coragem que moravam naquela aldeia. Fora isso que agradara a Morton, quando a conhecera há mais de dez anos.
Abandonada pela mãe apenas com seis anos após a morte do pai numa rixa de bar, Amelia havia sido criada pela tia até aos dezanove. A tia, que mais tarde acabara por morrer padecendo de escarlatina, deixou-a entregue ao mundo, abandonada e sem sustento pelo facto de nenhum dos familiares lhe ter deixado um tostão que fosse. Desenvolveu assim a sua personalidade férrea, agarrando-se à vida com uma esperança de que poucos se orgulhavam de terem ouvido falar. Morton, que havia perdido os seus pais com quinze anos, dando continuação ao negócio de aço e carvão da família, entendeu melhor que nunca o sofrimento da jovem, acabando assim por se aproximar da órfã mal vista pelos aldeões de Razenhut. O casamento dos dois ocorreu sob os olhares de descrença dos habitantes, primeiro pelo facto de Amelia não possuir qualquer tipo de dote, o que, em circunstâncias normais a proibiria de unir laços a quem quer que fosse, e segundo, Morton era desejado por muitas jovens do seu tempo.
Eram agora um casal feliz, unidos pelo amor verdadeiro e não pelo tamanho do dote de cada um, como Morton deduzia que se passasse em variadíssimos casos naquela aldeia. Viviam uma vida modesta e sem luxos. Bom, não propriamente. Haveria maior luxo que a felicidade que sentiam? Para Morton sim, agora que refletia sobre isso, ao aproximar-se do centro da aldeia, onde se encontrava a sua casa e de Amelia. Sentindo o cheiro a pão quente e madeira a arder que desejava terem destino da sua chaminé – estava esfomeado – pensou que realmente não existia maior dádiva do que a que havia recebido oito meses antes. Abriu a porta, inspirou, confirmando o odor quente e delicioso que provinha da sua lareira e procurou Amelia com um olhar. Sem demoras, eram-lhe arremessados dois pequenos braços à volta do pescoço. Energética como sempre, sorria-lhe de modo travesso a sua esposa a poucos centímetros do seu rosto. Beijou-a, por entre gargalhadas afetuosas.
– Tens de ser mais cautelosa, lembra-te que não podes arriscar dessa maneira a sua segurança com os movimentos bruscos que fazes – proferiu Morton meigamente, porém sério e preocupado – Ainda que adore quando me recebes desta maneira…
Amelia desviou o olhar do marido, olhando agora em direção ao seu ventre inchado e desproporcional à sua estatura diminuída. Colocou um braço à volta da barriga como que protegendo de modo terno e amoroso o fruto do seu amor por Morton.
– Espero que não estejas a insinuar que sou pouco responsável – respondeu em desafio, de modo divertido. Sorria.
– De maneira nenhuma, mas sabes que tens de te conter nessas ações, ou colocas a vida do nosso bebé em risco. Tem mais cuidado, sim? – beijou-lhe a testa e aproximou-se do fogo.
Amelia riu-se, anuindo e, dirigindo-se à mesa no centro da sala, preparou-se para servir o jantar, pedindo a Morton que lavasse as mãos e o rosto e se sentasse.
No decorrer silencioso da refeição apenas marcado pelo barulho leve dos talheres e o sorver de água dos copos de madeira, Amelia olhava fixamente a janela com uns olhos vagos, pensando, preocupada. Morton apercebeu-se deste facto, pois raramente observava tal comportamento na mulher que sempre fora tão concentrada e prática, não se permitindo pensar demais. Sempre que havia algo que a preocupava, conseguia sempre ultrapassar mentalmente a ansiedade, o que lhe permitia não demonstrar excessivamente o que sentia. Porém, neste momento, estava claro que algo a afligia. Antes que Morton pudesse questionar a razão do seu mal estar, ela olhou-o nos olhos fixamente.
– Estou preocupada – lançou, simplesmente.
– Ora aí está uma novidade! Aproxima-se um eclipse ou alguma tempestade? – perguntou com a voz marejada de sarcasmo.
– Não – retomando o olhar inexpressivo para a janela não atendendo à tentativa de amenizar o seu estado de espírito, por parte de Morton – é sobre o bebé…
Morton começava a ficar realmente preocupado. Se algo era suficiente para colocar toda aquela insegurança a Amelia, esse algo tinha que ser grave. A conjugação de “grave” e “bebé” na mesma frase não lhe agradava mais do que o pensamento de uma catástrofe natural provocada por dragões, ou algo do género.
– O que tem o bebé? Passa-se algo de errado? – quis saber, sério.
– Não necessariamente – enquanto falava, esmagava uma batata assada com a ponta do seu garfo – Não tens reparado em nada de anormal durante a minha gravidez?
Morton puxou pela memória. Desde que haviam descoberto que Amelia estava grávida, na Primavera passada, devido aos sintomas naturais do fenómeno que uma curandeira da aldeia denominara de “gravidez inconsciente” – pelo menos até ao dia –, não tinham havido grandes problemas relativos a dor ou que efetivamente demonstrassem que Amelia se encontrava grávida, para além de a sua barriga ter triplicado o tamanho! Agora que pensava melhor, não tinham existido problemas absolutamente nenhuns.
– Nem por isso. Quero dizer, nunca houve problemas nem anormalidades durante este tempo todo, o que é bom, não é? – tentou parecer convicto, todavia a sua voz denunciava um medo crescente.
– Mas é exatamente isso! As outras mulheres queixam-se dia sim, dia não das dores e contrações de que sofrem. Aos oito meses seria de esperar que eu sentisse uma ou outra, mas nada… Para não falar das mudanças de feitio de que tanto os homens troçam.
– Achas que se passa algo de mal com o bebé? Não seria assim tão incomum, fala-se de várias mulheres por aí que… — interrompeu-se a si mesmo, não se permitindo pensar no que poderia acontecer.
Amelia perdera a fome. Levantou-se, largando os talheres que caíram com uma pancada estridente de metal sobre metal. Aproximou-se da lareira, fitando as chamas, sentindo a sua preocupação a arder como os paus secos que se encontravam na sua frente. Este ardor, diferente de o do fogo, gelava-lhe os ossos com a fricção da ansiedade que o causava.
– A curandeira não consegue dizer-me nada sobre isto, apesar de já lhe ter perguntado inúmeras vezes. Apenas diz que se algo de mal tivesse acontecido ao bebé, já se notaria por mim – tentava agarrar-se a estas palavras com toda a sua força, obrigando-se a pensar positivamente – Mas não consigo deixar de me sentir preocupada com isto tudo. Tenho um mau pressentimento.
Percorrendo a breve distância entre a mesa de jantar e a lareira, Morton juntou-se a ela, passando-lhe a mão à volta da cintura de forma apaziguadora. Apesar de estar imensamente preocupado com a saúde do bebé, estava agora também receoso pela vida da mulher. Dois em um. E não saberia se aguentaria a perda de qualquer um deles…
– Tenhamos calma. Algo me diz que vai correr tudo bem – aumentando o tom da sua voz, agora com mais certezas – Tu és a mulher mais forte que eu já conheci. Tens um alento que faria tremer um urso pardo como duas varas verdes ao vento do Norte, caso sentisses algo precioso ameaçado. O nosso filho – pausou – ou a nossa filha, com certeza sairão à mãe. Tenho a certeza disso.
Olharam um para o outro, sorriram. Sabiam que unidos, naquela situação, era a única maneira de sobreviverem, acontecesse o que acontecesse. Ali, em frente à lareira e ao aquecimento da alma que esta proporcionava, a esperança reerguia-se.
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