O Feiticeiro De Unäeris
2 Capítulo 2
Na madrugada seguinte, ouvindo o piar excitado e o cantarolar alegre dos pardais, Amelia acordou. Ao habituar-se à pouca luz que começava a entrar pelas janelas, deixou-se ficar deitada por uns momentos. Olhava o teto de madeira de carvalho escura do seu quarto, que por sua vez contrastava com os variados tons de cinzento que compunham as pedras de que a parede era feita. A casa tinha sido erguida haviam muitos anos passado, mas ainda se mantinha em tão bom estado como no seu primeiro dia. Era constituída por três divisões: uma sala com cozinha onde passavam a maior parte do seu tempo, o quarto em que se encontrava, pequeno mas luminoso, e uma pequena divisão que possuía apenas baldes com água, que usavam para a sua higiene.
Amelia levantou-se cuidadosamente para que não acordasse Morton, que dormia profundamente, emerso nos seus sonhos, com uma respiração calma e leve. Sentia um vazio enorme no estômago que era proporcionado tanto pela fome que sentia, como pela constante preocupação que a discussão da noite anterior tinha provocado. Afagou levemente a barriga inchada, ao olhar o marido a dormir, desejando estar no sítio onde este se encontrava agora, sem preocupações, relaxado e entregue a múltiplos mundos inconscientes onde a realidade se entrecruza com o sonho num brando vórtice confuso e emaranhado de sensações.
Lembrava-se vagamente dos seus sonhos assim que acordava, porém , ao longo do dia ia-os esquecendo, à medida que os tentava relembrar. Era como tentar aprisionar fumo branco por entre os dedos, em que cada movimento o liberta aos poucos, até que não restasse nenhum. Naquela manhã lembrou-se dos estranhos episódios que haviam passado na sua mente enquanto dormia: imagens confusas de fogo e sofrimento, gritos de desespero e dor, dor de perder aqueles que amamos, inércia de os ver cair sem poder fazer nada para os segurar, para os manter vivos... Amelia tinha a vaga sensação que não era a primeira vez que sonhara com aquilo, mas também não tinha a certeza de que assim fosse. Acabou por se esquecer de tudo isto até ao meio dia.
Saiu do seu quarto para a sala, num andar cambaleante, e beliscou a ponta de um pão duro do dia anterior, empurrando-o com um pouco de água fresca da vasilha que se encontrava em cima da mesa. Agora que o entorpecimento mental do sono se desvanecia, conseguia pensar mais racionalmente. Sabia que os seus medos poderiam ser infundados e completamente vãos e tentava com todas as suas forças manter a esperança em que tudo ficaria bem: que teriam um filho saudável como mereciam e que cresceria belo como o pai e forte como a mãe.
Um assunto, no entanto, parecia-lhe inacabado. Já tinha falado dele com Morton, mas não tinham chegado a conclusão alguma: o nome que dariam ao seu bebé.
Morton defendia que seria sensato atribuir-lhe um nome apenas após saberem o seu sexo. Mas Amelia, ainda que concordasse, sentia bem dentro dela que o seu bebé seria um menino, sentindo assim a necessidade de se adiantar neste aspeto. Obviamente que era impossível deduzir com certezas o sexo de uma criança até a mãe da mesma o ter dado à luz, e todos os mitos que se criavam à volta das gravidezes não tinham fundamento algum: mitos como “se a mãe tiver um imenso desejo de carne de enguia é menina” ou até mesmo “deite-se de barriga para baixo; se doer é menino, pois por norma desenvolvem um maior medo de se sentir encurralados” e barbaridades deste género. Na maior parte das vezes, as tentativas de descobrir precocemente o seu sexo criava mais complicações do que alívios.
Mas Amelia não podia deixar de se sentir desejosa de ter um menino. Algo lhe dizia que a honra de ter um filho aconteceria em breve, e ela agarrava-se a esta esperança com todas as suas forças. Sabia, porém, que demasiadas espetativas em relação ao assunto poderiam ser altamente dolorosas caso as suas suposições se encontrassem erradas…
Mas não, dizia-se a si mesmo, uma mãe é a única que sabe o sexo do seu filho, e o meu é um rapaz. Ocorreram-lhe alguns nomes, entre eles, o nome do próprio marido. Morton seria um nome de que mais tarde se viesse a orgulhar, com certeza.
Abriu a porta de entrada e deu apenas dois passos até ao exterior, sentindo a brisa matinal que, ao mesmo tempo que arrastava as folhas envelhecidas e vermelhas dos áceres antigos, levava, também, com ela, os vestígios da sua insegurança. O sol nascia a Norte, visível agora erguendo-se lentamente acima dos colossais pinheiros e abetos que compunham a floresta dos Mil Pássaros. A floresta era o limite Norte de Razenhut. Atravessando-a, dar-se-ia de caras com a capital do Império de Mor’odar – Arisen. Sempre fora uma floresta calma apesar dos ataques de ursos aos caçadores, que por vezes eram relatados. Mas os ataques só ocorriam na floresta. Felizmente os ursos temiam demasiado a vida humana para se aproximarem demais de Razenhut.
Deviam ser cinco da manhã, a rua estava deserta e não se ouvia barulho algum causado pelos habitantes. Um cão ou outro latia, respondendo e comunicando entre si como que para confirmar que se encontravam atentos. Morton acordaria brevemente: a sua profissão exigia grande esforço por parte dele, sendo um dos primeiros a percorrer aquelas ruas pela madrugada, a fim de pôr o seu cansativo trabalho em dia. Quando eram necessários instrumentos agrícolas como arados ou ceifas, navalhas ou facas para os talhantes ou alfaiates, espadas ou pontas de flechas para a caça ou para equipamento defensivo, era Morton que o fazia. Sozinho.
Amelia perguntou-se se quereria que o seu filho enveredasse pelo mesmo caminho do seu pai. Seria o negócio dos Morton, pensou ela, engraçando a ideia.
Enquanto respirava fundo, tentando identificar todos os odores que sentia a esvoaçar em seu redor, sentiu algo que nunca antes sentira. Um toque por dentro do seu ventre. Um pontapé! Ali estava o sinal do seu bebé, como que anunciando a sua presença, ao fim de tanto tempo, fora a enormidade da barriga. Amelia estava estupefacta. Não conseguiu entender a situação nos primeiros segundos, mas, recompondo-se da surpresa, deixou-se invadir de uma felicidade que lhe poderia facilmente fazer explodir o coração. Extasiada, fez subir a sua blusa branca apenas o suficiente para olhar para o próprio umbigo e ver o formato daquele pezinho minúsculo contra o seu ventre. Ele tinha força, descobriu, mas não o suficiente para lhe causar algum tipo de dor.
– Meu filho… – esfregava a barriga suavemente sentindo um afeto que não poderia em vez alguma ser exprimido por palavras. Sentiu-se protetora, sentiu-se como se possuísse o maior tesouro do mundo, e ele estava protegido dentro dela, onde ninguém lhe poderia fazer mal algum.
Sentiu as lágrimas de orgulho e felicidade a inundar os seus olhos, mas não fazia mal chorar agora. Por entre toda aquela emoção que lhe toldava os sentidos, surgiu-lhe na mente o nome que desejava realmente oferecer ao seu filho. Puxou a blusa novamente para baixo, dirigiu-se para a porta nunca largando a sua barriga. Dormiria mais um pouco, se conseguisse.
– Serás Jon, filho de Morton e Amelia.
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