O Fantasma - Legados
2 Capítulo 2 - Perguntas
O Coronel Smythe estava à janela olhando a cidade de Mawitaan, Bangala, uma megalópole em tudo semelhante a tantas grandes cidades espalhadas pelo mundo, nas quais a modernidade e todos os seus avanços convivem de perto com a pobreza e a miséria. O que distingue Mawitaan de outras cidades é sua proximidade com a selva, um território selvagem ainda, embora já não tanto quanto costumava ser no passado não muito distante. Para uma região como esta, a força policial não basta.
Ele ainda se lembrava da primeira vez que contemplara aquelas ruas e aqueles caminhos. O que era então? Um jovem recruta da Patrulha da Selva, medroso, sem nenhuma vocação para o serviço, mais afeito aos livros que às atividades físicas. Sua entrada para a força dera-se por imposição paterna, seguindo uma velha tradição de família. Sua primeira missão quase terminara com a morte de dois colegas patrulheiros; não fosse por “ele” ter surgido do nada, é provável que Smythe fosse, na melhor das hipóteses, expulso da corporação¹.
– Coronel, senhor, – era o sargento Guerra – um chamado na frequência especial. É ele!
Apressadamente, Smythe dirigiu-se à sala do rádio, que ficava praticamente colada à sua. Um chamado do Comandante Supremo, a quem nenhum patrulheiro já vira, era sempre motivo para pôr-se em alerta e não era bom deixá-lo esperando.
– Coronel Smythe, – a voz inconfundível, soando como a de um rei – aqui fala o Comandante Supremo. A senha é Justiça e Paz.
– Às suas ordens, Comandante. – Smythe ainda tremia ao ouvi-lo.
– Houve um ataque à aldeia Llongo. Homens armados mataram três nativos enquanto procuravam um sujeito que havia sido acolhido pelo chefe Llota.
– Quem era o homem que procuravam, senhor?
— Não temos nenhuma ideia. Segundo Llota, o homem foi encontrado na selva há duas noites, estava com alguns arranhões e febre. Os Llongo o acolheram e trataram, mas antes que pudessem entrar em contato com a Patrulha da Selva, surgiram esses sujeitos armados e o levaram.
— Entendo, senhor. Não temos nenhuma pista de quem seja?
— Apenas uma: Llota ouviu-os chamando-o de “presidente”.
— Presidente? Não pode ser o...
— Não, os Llongo conhecem bem o ex-presidente Lubanga², é por isso que preciso que pesquise se desapareceu algum empresário que seja presidente de uma empresa. É o melhor caminho por onde podemos começar.³
— Sim, senhor.
— Ótimo. Por via das dúvidas, cheque também os membros ligados ao governo. Tornarei a entrar em contato daqui a duas horas. Desligando.
Ele realmente não perdia tempo com palavras.
Smythe expediu a ordem para que se levantassem quaisquer registros de desaparecimentos nos últimos dias.
— Guerra, venha à minha sala.
— Sim, senhor.
Havia pouco mais de um ano que ele chegara ao comando da Patrulha da Selva, substituindo o Coronel Worubu que passara para a reserva. Um ano. Período o suficiente para entender que não era nada simples continuar o legado de tantos outros que vieram antes dele, como o próprio Worubu, que era sargento quando Smythe fora aceito na corporação, e Weeks, que o admitira e o treinara. Sentia falta do aroma do cachimbo de Weeks.
* * *
“Hoje tudo parece uma grande coincidência. Dias antes meu pai me havia dito que era necessária tanta coragem para tirar uma vida quanto para preservá-la. Lembrou o que aprendera com um guerreiro estrangeiro: que havia dois medos o de morrer e o de matar. Que alguns homens desprezavam o medo de matar, mas todos sem exceção sentiam o medo da morte. Quando perguntei se para cumprir nossa missão ele já matara muitos criminosos, ficou sério e limitou-se a dizer:
— Nós não somos justiceiros, Kit. Nosso juramento é sobre fazer o certo, e isso não inclui tomar o papel de carrascos, não importa contra quem lutemos.
— Então o senhor nunca mata?
— Eu não disse isso...
Seguiu-se um longo silêncio até que ele finalmente continuasse:
— Como Fantasma, Kit, por vezes ficamos com duas vidas numa balança e então precisamos fazer uma escolha entre um criminoso declarado e um possível inocente. Só que podemos fazer é torcer para que tenhamos discernimento para que a escolha feita seja a correta.
* * *
— Coronel Smythe, aqui estão os resultados preliminares da pesquisa que o Comandante Supremos pediu. Aparentemente ninguém ligado à presidência desapareceu nos últimos dias, pelo menos não houve qualquer registro de desaparecimentos.
— Certo, Guerra. E quanto às empresas?
— Nada, senhor. Ainda estamos procurando informações nos países vizinhos que fazem fronteira com a selva.
— Tentem apelidos de criminosos e vocês terão mais sucesso.
Smythe e Guerra voltaram-se para a direção de onde viera a voz que os interrompera. Para à porta estava uma das mais belas mulheres que o jovem sargento já vira e mesmo o veterano coronel ficou impressionado com a presença que aquela mulher impunha. Era como se ela preenchesse toda a sala: os olhos vivos, os lábios expressivos, os cabelos com um leve tom grisalho que emoldurava ainda mais sua beleza austera e madura.
— Desculpem a intromissão, mas tenho informações que pelo que vejo serão muito úteis aos senhores.
Ela entrou e parecia dominar ainda mais o ambiente. Guerra pensou em falar algo, mas o Coronel Smythe lançou-lhe um olhar em que dizia “Espere, observe e aprenda”. Podia ser apenas uma grande coincidência que aquela mulher surgisse com informações sobre uma investigação que eles mal haviam iniciado, mas Smythe aprendera com seus dois antecessores a não acreditar em coincidências.
— Gostaríamos mesmo de ouvir o que sabe, senhora. Quanto à utilidade de suas informações, caberá a mim verificar.
— Tenho certeza de que não se desapontará, Coronel Smythe.
— Pelo menos nisso vejo que a senhora está em vantagem, pois ainda não sei seu nome nem quem é, senhora...?
— Sou agente especial da Interpol. Me chame de Sala.
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