O Exorcista
7 Capitulo 7
Notas iniciais
–Quando tudo começou? – perguntou Daan sentado num banco próximo da garota que tremia com medo a mais de três metros de distancia sentada numa pedra que um dia foi uma cama e coberta por uma seria de coisas que antes deveria ter sido palha, mas agora estava petrificado. Ela não tinha roupas, pois elas também viravam pedra então aquele foi o jeito que encontrou de esconder seu corpo
–Faz quase duas semana, moço – disse a mãe da garota se aproximando oferecendo um pedaço de pão que ele recusou com um gesto
–Muito obrigado, mas não, já vim para cá bem alimentado – aquele era realmente um lar humilde e não iria abusar da hospitalidade deles quando eles já não tinham muito e com tal crise tinham ainda menos – Qualquer coisa que ela toca vira pedra?
–Tudinho, sinhô – finalmente falou a garota observando ele com lágrimas caindo de seus olhos – Não posso nem comê nada que vira pedra na minha boca
–Já viu algo assim? – comentou Bonham próximo de seu colega sem que ninguém ouvisse e pelo olhar que recebeu a resposta era um terrível não
–Como tem se alimentado ultimamente? – o Exorcista fazia as perguntas mais para manter a garota focada do que qualquer outra coisa, ela estava instável demais mentalmente e isso não ajudava no problema ela. Na verdade ele queria mesmo era sair dali, seu olho estava o enlouquecendo, mas ele tinha que resistir
–Só de papa que mainha faz, sinhô. Ai ela tenta derrama na minha boca sem toca e as veze da ceto
–Entendo – era visível o estado de desnutrição que aos poucos assolava a garota, ela devia ser muito bonita como ele reparava atentamente, mas a desolação física e mental que a assolava estavam tornando-a decrépita. O cabelo dourado agora mais parecia palha seca, a pele estava suja e qualquer curva que um dia tivera sumia além de profundas olheiras – Tente beber isso
Daan se aproximou da jovem enquanto puxava um frasco de dentro de suas vestes. O liquido vermelho parecia brilhar enquanto a garota o encarava fascinada:
–Só um gole – falou o rapaz tomando o máximo de cuidado possível para que o liquido caísse direto na garganta dela
–Tem gosto de ruim – resmungou ela fazendo uma cara de enjôo
–Tente não vomitar, garanto que pode ser horrível, mas fará bem
Com um simples sinal Bonham o acompanhou para fora do quarto. A mãe da garota que estava no cômodo também saiu com eles e então o trio se sentou numa mesa que havia no local junto do pai da garota e de seu irmão mais novo com apenas dez anos:
–Quantos anos ela tem mesmo? – perguntou o Exorcista enquanto tentava impedir que o garoto pegasse no seu colar, mas vendo que era inútil simplesmente deixou então que tocasse e no segundo seguisse recuasse com os olhos marejados – É a prova de que sou o que lhes digo ser, podem confiar em mim
–Confiamos no sinhô – disse o pai da família coçando sua volumosa barba negra – Mas também sabemo do valo que ocês cobram e não temos dinheiro pra isso
–Não precisa se preocupar com dinheiro, senhor Poty. Farei tudo de maneira gratuita contanto que me auxilie como peço
–Ela tem dezesseis, sinhô – respondeu enfim a mãe encarando-o com uma intensidade que chegava a ser incomoda – Pode salva minha minina, sinhô? Nos livro contam que vocês podem mata até bruxas então acho que pode salva minha minina
–Garanto senhora Poty que salvarei sua filha custe o que custar por mais difícil que seja. Preciso agora que me dêem um tempo para fazer algumas pesquisas e no tempo que passar fora devem dar a ela de beber apenas esta poção e água – Daan então entregou a mãe da garota o frasco com o liquido vermelho e algumas moedas de ouro – Servira para mantê-la viva por um tempo, apenas um rápido e pequeno gole no horário do almoço e pronto, fora isso apenas água será necessário e isso podem dar a vontade. Se fizerem direito deve dar para mais quatro ou cinco dias sem problemas. Caso a poção acabe antes do meu retorno voltem a tentar alimentá-la como antes. Usem o dinheiro para comprar o que mais necessitarem
–Vamo faze isso, sinhô. Nós vamo. Muito brigada, sinhô.
Então a dupla de aventureiros saiu da casa. Assim que se viram fora do local e que não havia ninguém por perto o gamuriano se deixou cair sendo segurado a tempo por Bonham que o encarou visivelmente assustado:
–Ficou tão triste pela garota que agora está chorando sangue? – o comentário poderia parecer ridículo da parte do bardo, mas era verdade, o olho direito de seu colega sangrava
–Não é nada demais, só um incomodo
–Podia ser um incomodo lá dentro, mas aqui fora não. O que é isso?
–O preço que paguei por querer ser um prodígio e querer andar ao lado de um Exorcista, além de ser um gigantesco idiota. Se tiver sorte morre antes que algo do gênero aconteça a você.
Com dificuldade o moreno se desvencilhou dos braços de seu parceiro e subiu no seu cavalo negro. Limpou o sangue que escorria com a capa e tentou controlar a respiração. Manteve-se forte por tempo demais, o olho agora cobrava seu preço. Por sorte não havia ficado vermelho dessa vez........
–Vai ter segredos de mim? – perguntou o ruivo seguindo seu colega de perto montado no cavalo branco e preocupado com seu estado
–Fala como se fossemos amantes de longa data e tivesse descoberto algum podre meu – disse com dificuldade e rindo o pardo
–Sou seu amigo – respondeu o outro sério por um momento e então voltou as feições usuais que pareciam estar num eterno e singelo sorriso
–Na sua cabeça é. Aceito que seja meu companheiro de viagens e burro de carga, mas nada mais que isso.
–Posso então ao menos saber se está bem, não é?
–Estou bem. É mais comum do que imagina
–O que significa?
–Significa que não é uma charlatã usando reles truque de ilusionismo. Aquela garota está amaldiçoada e talvez seja pelo feitiço mais poderoso que já vi – o olhar que Bonham lançava indicava que aquilo não bastava para ele – Já lhe disseram que é bem irritante quando quer?
–Você pelo menos umas cinco vezes desde ontem e algumas outras pessoas também, mas ninguém que não conquistasse com meu sorriso, meu alaúde e minha camaradagem
–Confia demais no seu senso de julgar as pessoas
–Confio mesmo. Sei que só preciso errar uma vez para me dar mal, mas agora que tenho você como colega não importa mais
–O que viu em mim que te fascinou tanto?
–Exorcista, jovem, de uma terra exótica, pele escura, músculos fortes, cicatriz charmosa, voz sedutora, olhar conquistador e ainda chora sangue. É bem mais incrível do que acredita
–Desisto de você, desisto
Bonham riu do comentário e ambos foram em direção ao castelo. Talvez o conde pudesse auxiliá-los na sua busca pela bruxa que lançou tal maldição. Diferente do lobisomem Daan não podia matar uma garota inocente e já que não tinha idéia de como trazê-la de volta precisaria matar quem invocou tal feitiço.
Por um momento o Exorcista não acreditou no que viu, pessoas gritavam de dentro do castelo, guardas corriam para dentro, funcionários e pessoas de alto nascimento fugiam visivelmente enlouquecidas. A dupla se aproximou de dois guardas que tentavam impedir o tumulto externo com uma falha absurda:
–O que esta ocorrendo? – brandiu o moreno deixando claro para eles o colar que pendia do seu pescoço
–Um Exorcista, os deuses então estão do nosso lado – respondeu com visível alivio na face um dos dois guardas e o outro suspirou em alivio – Bom Exorcista deve ir ao centro do castelo imediatamente, eu mesmo irei guiá-lo. Seu cavalo ficará em boas mãos com meu parceiro
O gamuriano duvidava daquilo vendo o caos que eles não eram capazes de conter, mas deu um simples olhar para Bonham e o ruivo entendeu o recado e cuidaria bem do animal além de auxiliar o pobre homem no seu serviço.
Descendo do cavalo Daan foi guiado pelos corredores do suntuoso castelo com velocidade. Podia ver nobres ajeitando suas coisas em quartos aleatórios, com medo em seus olhos e mãos tremulas. Aquele não era um bom sinal. E com mais poucos minutos de caminhada o moreno entendeu o que acontecia ali.
Todo o salão central estava congelado e ao centro uma jovem chorava desesperadamente enquanto pessoas tentavam confortá-la a distancia. Uma moça jazia congelada a poucos metros dela além de dois guardas. Pânico era visível em todos e aquele que pela coroa que usava era o Conde do local consolava junto a mulher que ele deduziu ser sua esposa um jovem que pelas feições e os cabelos negros devia ser seu filho:
–Senhor, conseguimos um Exorcista! – gritou o guarda se aproximando e fazendo com que o Conde se erguesse de sobressalto com surpresa em seus olhos
–Um Exorcista? Seriam os deuses tão bons assim para comigo num momento de crise? – indagou o homem com vários fios de cabelo brancos e o resto acinzentado encarou Daan por um momento e logo o sorriso que esboçou sumiu de seu rosto – Quem é você?
–Daan – respondeu o moreno se aproximando e finalmente notando o obvio que ainda não havia reparado pelo pânico que se instalava antes, as pessoas o encaravam com nojo ali – Sou um Exorcista e vim aqui averiguar o que está ocorrendo
O jovem podia ver algo como um riso de escárnio se formando nos lábios do nobre, mas antes que ouvisse isso e saísse do serio e aproximou e pôs sua peça rúnica nas mãos do conde que grunhiu de dor recuando para trás. Ele de propósito tinha comprimido as mãos do homem contra a peça para sentir mais dor do que deveria:
–Então realmente é um deles – falou o conde sem esconder eu espanto, mas lutando para esconder o nojo – Não pensei que houvessem gamurianos na Ordem
–Pelo que pode averiguar estava equivocado – disse o pardo querendo socar o nobre ali mesmo no salão, mas observou a todos ali e como a garota que chorava aos poucos se controlava e resolveu se focar no seu trabalho – O que aconteceu aqui? Estava de passagem pelo seu condado quando notei tamanho tumulto as portas de seu castelo
–Uma amaldiçoada – só pelo dizer daquelas palavras a garota voltou a chorar em desespero e só então Daan notou que suas lágrimas congelavam ao tocar sua pele
–Como aconteceu? – perguntou o moreno se aproximando da garota e parando a menos de um metro dela – Não se preocupe, não irá me congelar se não me tocar – não sabia da onde tirara tamanha certeza, mas ele podia sentir isso pelo olho, era um caso semelhante ao da garota de antes e a dor que sentia no olho era semelhante
–Estávamos todos comendo e ai....... arghhh! – a garota tentava falar, mas era visível o pânico instalado na sua mente
–Respire fundo e tente se concentrar no ocorrido – as roupas da garota estavam congeladas então Daan tentou se aproximar e tocou as vestes congeladas, ele não congelou então poderia tocar nela indiretamente sem problemas – Eu estou aqui para ajudar, mas só posso fazer algo se me ajudar e se acalmar
–Eu não sei o que aconteceu. Todos apenas comíamos quando então o leite que tomava congelou e gritei jogando tudo para o alto enquanto tudo ao meu redor começava a congelar – mais lágrimas começavam a escorrer e a congelar e com cuidado o moreno as afastava para o lado
–Entendo. Agora apenas relaxe, vai ficar tudo bem. Tragam alguns panos para impedir que os outros a vejam e a levem a distância para o seu quarto. Todos devem me deixar a sós com o Conde. E, por favor, guardas, levem com muito cuidado essas pessoas congeladas daqui para um local seguro. Podem tocá-los sem problemas, mas impeçam a todo custo que sequer se arranhem.
Todos os nobres no ambiente, mesmo com suas feições de descontentamento e até nojo, obedeceram. Em poucos minutos guardas chegaram com algumas cobertas e a distancia cobriram o corpo da jovem da vista de todos e começaram a guiá-la sendo acompanhados de perto por aqueles que o Exorcista presumiu serem suas damas de companhia.
Não demorou para então apenas Daan e a família dona daquele condado ficarem sozinhos naquele salão congelado. Aqueles congelados ainda os observavam, mas não demorou para serem retirados:
–O que estava acontecendo aqui? – indagou o Exorcista aproximando-se do filho do conde que era o único dos três ali que não o encarava com nojo
–Era o dia da escolha da minha esposa – disse o rapaz parando de tremer aos poucos – Sou Brenno, futuro Conde de Varmar e como deve saber esses são meus pais
–Percebi. Então era para ser uma simples cerimônia?
–Sim, iria fazer quase duas semanas que estavam nesse processo irritante e queríamos por logo um fim em tudo – falou intrometendo-se o conde com visível raiva por estar sendo deixado de lado na conversa – Hoje ele escolheria uma dessas filhas de barões e viscondes para se tornar sua esposa e me suceder finalmente, mas pelo que notou não acabou muito bem
–Notei, notei. Para tal feitiço ter sido lançado a bruxa tinha que estar nas proximidades, mas depois de um caos como aquele não duvido que ela tenha sido uma das pessoas a fugir.
–O que faremos? Aquela era a escolhida, mas sem ela precisamos recomeçar do zero e duvido que poderemos fazer isso tão cedo.
–Ela era a escolhida? – o futuro conde apenas assentiu com a cabeça, mas o pardo pode ver visível descontentamento no seu olhar, não era para ser ela – Quero que então comecem um novo processo de seleção. Envolvendo apenas aquelas que tiverem vontade de ficar. Algo me diz que haverá ao menos duas. Enquanto isso preciso que a garota amaldiçoado permaneça no castelo
–Jamais permitirei que uma amaldiçoada imunda permaneça no mesmo castelo que eu – falou a condessa com nojo escorrendo por cada poro de seu corpo, as palavras dela pareciam ser veneno puro – Já estamos com tipos desprezíveis demais aqui dentro, uma amaldiçoado está fora de cogitação
–Ela TEM que ficar – o aumenta da voz de Daan só gerou um olhar de fúria em resposta, ele sabia que pelo menos um dos tipos ao qual ela se referia era ele, mas não podia fazer nada – Se ela não tivesse sido vitima de tamanho mal seria a futura condessa e quando conseguir curá-la ela se tornará
–Então será apenas um falso novo processo? – perguntou o conde encarando-o deixando claro que queria acabar aquela conversa o mais rápido possível exalando a mesma sensação que a mulher
–Sim, sim. Algo me diz que a bruxa será uma das pessoas que aqui permanecerá se o novo processo se iniciar e já que ficaram menos pessoas será mais fácil de fiscalizar a todos.
–E obviamente para isso precisará dormir no castelo?
–Sim – pelo olhar que recebeu aquela não era uma opção
–Existe uma pequena estalagem na cidade. Poderá dormir lá sem lhe ser cobrado nada. Um guarda o levará e avisará o dono do local disso. Nosso castelo está tumultuado demais, não é o local para alguém de alta posição como um Exorcista
–Claro que não – Daan apertou com força seu punho, estava ficando irritado e isso não era bom. Se não saísse dali logo acabaria fazendo alguma grande besteira além de seu olho que já estava enlouquecendo naquele local tão maculado – Então irei lhes deixar a sós
–Obrigado, Exorcista
O gamuriano deu as costas para os nobres e logo um guarda surgiu para guiá-lo. Aquele realmente seria um longo e irritante trabalho.
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