O Exorcista
6 Capitulo 6
Notas iniciais
Finalmente Daan havia conseguido terminar o primeiro capitulo de seu diário. Todo bom Exorcista tinha consigo um local onde anotava todos os fatos pertinentes sobre as criaturas que enfrentava e sobre outras coisas que fosse descobrindo. Qualquer outro Exorcista podia ler contanto que tivesse a permissão daquele que escreveu, mas os diários pertenciam apenas a seus donos e graças a uma ligação mágica assim que o escritor morria toda as suas anotações eram queimadas. Semelhante ao que ocorria a sua espada.
O pardo gostaria de ter aproveitado para ler o diário de seu mestre, mas o velho nunca havia o deixado ler mesmo as partes que eram apenas trechos de memórias sobre aventuras e não envolviam nenhum conhecimento. De acordo com o falecido seu pupilo tinha que aprender apenas com ele diretamente e não com suas palavras escritas num livro. E parando pra pensar o moreno não conseguia ver falhas em seu treino ou conhecimentos ocultados de si, não parecia do feitio de seu mestre e ele preferia acreditar nisso. Aprendeu tudo que podia aprender naqueles poucos anos de treino.
Guardou o livro de capa de couro recheados de runas dentro do baú principal onde também carregava suas ervas. Uma belíssima caixa feita de ébano e recheada de runas de proteção assim como o diário e a espada do Exorcista. Por dentro cheio de resistentes amarras e completamente acolchoado para não permitir que nada quebrasse.
Checou com calma os frascos, tinha ainda um frasco de poção vermelha e que guardava ao seu lado sempre, mas os outros dois ainda estavam em produção. Demorava quinze dias deixando a mistura de ervas decantando dentro d’água para fazer qualquer uma das três de maneira satisfatória e só fazia dois dias que havia preparado aquelas e uma outra vermelha.
Fechou o baú e o deixou num canto próximo do que estava cheio de ouro e suas armas. Por sorte a estalagem que achou era segura e o dono era uma pessoa de boa índole então não precisava se preocupar em ser roubado. Realmente algo raro nos dias atuais.
O rapaz então saiu do quarto vestindo apenas uma calça marrom e o colar dos Exorcistas e desceu com calmas as escadas do local, embaixo havia um grande espaço cheio de cadeiras e mesas onde os residentes podiam comer algumas das três refeições ali oferecidas e pelo horário o desjejum matinal já estava próximo.
Quando Daan finalmente chegou lá os pratos já estavam espalhados pelas mesas e ele simplesmente sentou em uma das várias vazias e começou a comer. Além dele apenas outros dez comiam ali embaixo e pela analise que fez havia apenas mais dois inquilinos no local e estavam dormindo totalizando treze moradores temporários. Sem pressão o rapaz pegou alguns pedaços de pães recheados bem quentes, por dentro junto do suculento miolo parecia vazar presunto e queijo, ambos de boa qualidade. Aquele era realmente um local que merecia seu nome. Fim da Jornada.
Qualquer um que ali chegasse só desejava aquilo para si. Camas confortáveis, lareiras sempre acesas pela noite. Comida deliciosa e quentinha. Tudo regado a bebida que desejar, que no caso do pardo era uma boa caneca cheia de leite recém-tirado de uma das vacas que o próprio dono do local criava. Podia ser uma fortuna viver ali, uma moeda de ouro por semana. Mas valia cada moeda.
Por sorte viver naquela região do mundo era simples com relação a parte monetária. O dinheiro era basicamente dividido em três moedas, cobre, prata e ouro. Doze moedas de cobre equivaliam a uma de prata assim como doze de prata equivaliam a uma de ouro. Todas as moedas feitas em formato circular e com buracos no centro além de escrituras nas bordas. O sistema monetário que aplicava taxas de doze em doze eram estranhas para o gamuriano acostumado de dez moedas de certo nível equivalerem a uma de nível superior, mas logo se acostumou. Além disso, na sua terra natal trabalhavam com moedas de ferro também, inferiores as de cobre. Logo aprendeu também que o valor das moedas era muito relativo, coisas que para o seu povo custava duas moedas de cobre ali poderiam valer trinta, talvez pela menor versatilidade cambial o valor fosse bem diferente, mas ele não era bom com economia e não se preocupava com tais coisas.
Nada no mundo parecia importar para ele durante aquela tão deliciosa refeição. Além do pão recheado tinha algumas frutas frescas ali para comer, de uma diversidade deliciosamente fantástica para ele. Teria passado pelo menos uma hora apenas no desjejum, mas seu companheiro não permitiria.
Até mesmo ao acordar Daan sabia de quem se tratava pelo alto bocejo e a espreguiçada longa e barulhenta:
–Bom dia a todos – disse Bonham chegando ao recinto onde agora apenas seu colega de aventuras e outros três ainda comiam – Ainda tem comida quentinha, não é?
–O desjejum já esta próximo do fim, mas ainda deve achar um ou dois pães quentes – falou o Exorcista sem tirar os olhos da sua comida e por um instante sentindo a cicatriz no seu lábio, por algum motivo estava começando a gostar dela, talvez pela forma como deixava seu rosto mais velho – O leite já esfriou, mas ainda assim continua bom e todas as frutas estão bem frescas
–Já agradeci pela sua boa ação de nos ter permitido dormir aqui, não é? Nunca dormi tão bem na vida e poucas vezes fui tão bem alimentado. Como conheceu um local desses?
–Conhecia apenas de nome. Nas minhas viagens com meu mestre muitos citavam a estalagem o Fim da Jornada como o melhor local para encerrar suas ações fossem pelo tempo que desejasse e meu próprio mestre elogiava muitíssimo o local. Mas que estivesse pronto para o valor.
–Notei. Uma moeda de ouro por semana e cabeça. Desculpe ser tão caro para você. Garanto que quando a história que você mesmo me der for um sucesso eu mesmo irei lhe pagar por isso
–Não preciso do seu dinheiro, apenas de paz
–E garanto que terá
O ruivo praticamente devorou a comida a sua frente da mesma forma como tinha feito no jantar da noite anterior. Uma coisa que Daan já havia aprendido sobre seu colega. Tocava tão bem quanto era insistente e comida por pelo menos três homens com o triplo do seu peso. Era realmente alguém bem peculiar para se ter ao lado e querendo assumir ou não o moreno adorava ouvir as canções de comedia que o rapaz conhecia.
Logo o Exorcista saiu do local deixando seu colega músico a sós, Bonham podia ser um completo maluco, mas se dedicava a música como ninguém. Como o próprio bardo gostava de citar passar um único dia sem tocar pelo menos uma vez seu instrumento por uma hora diminuía suas habilidades em três dias. Alguém com tamanha paixão pelo que fazia não podia ser alguém TÃO ruim assim.
Enquanto isso o gamuriano sentou próximo do balcão onde o dono da estalagem trabalhava fazendo algumas diversas contas e assinando papeis, o senhor Fitz era um homem robusto, mas corpulento, calvo e detentor de uma enorme e volumosa barba castanha. As roupas brancas e bem passadas dele eram apenas uma regalia a parte para compor a imagem de um homem de alto que passava:
–Precisava falar com você, Exorcista – comentou o homem mais velho e já próximo dos quarenta anos sem sequer se virar
–O que alguém como o senhor deseja da minha pessoa? – indagou o pardo se aproximando
–Trabalho – Fitz não hesitou em pegar no colar do rapaz assim que ele se aproximou o suficiente e no mesmo largou a peça metálica marcada pela runa em forma de flecha – Se incomoda?
–Não, não, por mais que pudesse simplesmente ter pedido
–Sei disso
–Sobre o que se trata o trabalho e quanto custará?
–Não sei sobre o custo, mas sei muito bem do que se trata
–O que quer dizer?
–Rumores contam que no condado mais próximo daqui, o condado de Varmar, uma jovem está sofrendo de uma terrível maldição – aquilo não alegrou Daan, maldições estavam surgindo com uma freqüência muito maior nos últimos anos e isso não era um bom sinal principalmente quando o numero de bruxas mortas só diminuía, algo que antes alegrou a Ordem porque pensavam ser sinal de quem elas acabavam. Estavam enganados – Dizem que tudo que ela toca vira pedra
–Tudo? – o jovem não escondeu a surpresa
–Sim, literalmente. Pessoas, animais, utensílios de madeira, até mesmo comida – agora realmente o Exorcista estava preocupado, nunca tinha ouvido falar de uma maldição que se estendesse a tantas coisas, normalmente era apenas pessoas e animais
–Tal coisa não deve ser fácil de solucionar
–E ai é que vem o problema. A jovem amaldiçoada é de família humilde, eles mal tem como sobreviver pelo que soube e sei que poucos são os da sua Ordem que fazem algo de graça
–Isso é uma verdade
Querendo assumir ou não a Ordem dos Exorcistas era um grupo ganancioso demais. Os únicos que realizam trabalhos sem cobrar eram alguns poucos filiados a alguns ducados que permitiam que eles vivessem nos castelos de qualquer nobre ou em qualquer estalagem sem cobrar, dessa maneira então não era cobrado nada de recompensa pelos trabalhados realizados ali dentro. Com exceção desses poucos, ninguém realizava nada de graça. Eram uma Ordem com o objetivo de livrar o mundo do mal. Mas apenas enquanto tivesse dinheiro para isso.
Não que o real foco fosse o dinheiro, Exorcistas não podiam ter posses como casas ou títulos de nobreza. Deviam ser eternos nômades em sua missão e por isso precisavam sempre se manter não importasse a região. E tendo uma vida tão cheia de ferimentos e provações precisavam de muito mais dinheiro que uma pessoa normal. Além disso, não eram permitidos constituir família ou pertencer a qualquer outro grupo social ou religioso. Tornava-os ainda mais solitários. E até arrogantes e frios para com os outros. Mas novamente Daan não os julgava, salvar o mundo quando eram tão poucos era mais difícil do que qualquer um sonhava imaginar.
A Ordem dos Exorcistas era limitada a ter no máximo o número de colares que existiam. Que se limitavam a cento e oito. Um para cada mal que corrompia a alma, relatados no Código da Ordem. Um colar só passava para aquele que era merecedor e se o dono anterior morresse antes de achar seu sucessor então o colar estava perdido.
Boatos falam de um Exorcista aposentado conhecido apenas como o Coletor que estavam tentando reunir os colares perdidos e treinando sucessores para eles. A Ordem tinha atualmente noventa e sete Exorcista em atividade além de quatro colares em posse do Coletor. Ainda faltavam sete serem achados. O Coletor era uma figura especial mesmo naquela Ordem, o único em mais de um século a se aposentar. Para um Exorcista receber o direito de se aposentar e poder finalmente parar de seguir o Código de trinta anos de serviço além de viver tempo o suficiente para passar seu colar a seu sucessor sem ser pela morte como normalmente ocorria. E ocorreu com Daan. Como a maioria dos Exorcistas começava seu trabalho aos vinte eles ficavam livres de seu fardo aos cinqüenta e podiam então fazer o que desejassem que no caso do Coletor era tentar fazer a Ordem voltar a seu ápice.
Cinqüenta. A idade de seu Mestre. O pardo se odiou por um instante. Seu Mestre realizava trabalhos de graça sempre que podia. Para ele dinheiro era a coisa mais irrelevante do mundo material e nunca precisou daquilo para sobreviver mesmo com um jovem ao seu lado. E ele teria conseguido ser o segundo a se aposentar em séculos. Se não tivesse morrido:
–No condado mais próximo, você disse? – perguntou o gamuriano ajeitando próximo do galpão e apertando seu punho, seu mestre não recusaria um serviço assim, principalmente com tanto dinheiro em mãos já
–Sim – respondeu com calma Fitz observando o jovem a sua frente de cima a baixo – Só seguir a estrada que leva ao norte, se partir agora a cavalo pode chegar no meio da tarde
–Meio da tarde.......
As palavras de Daan se perderam no ar enquanto ele deu as costas ao dono do local que agora exibia um singelo sorriso no rosto. Ele realmente era pupilo do seu Mestre e agora Fitz não tinha duvidas disso. Algo que era um excelente sinal.
O pardo subiu as escadas com pressa rumo ao seu quarto e um surpreso Bonham o seguiu em seguida querendo entender o que acontecia:
–Partirei em breve – comentou o Exorcista sem sequer se virar para seu companheiro
–Partiremos, você quer dizer – cortou o ruivo encarando o homem fazendo suas malas com uma velocidade e precisão dignas de uma pessoa que vivia viajando a um longo tempo – Já disse que irei com você aonde for
–Não vou mais me importar em debater isso
–Então acho que essa foi a primeira discussão nossa que ganhei, a primeira de muitas – o bardo riu enquanto dava um tapinha nas costas de seu parceiro de viagens e foi pegar as suas coisas – Para onde vamos?
–Condado de Varmar, poucas horas de viajem daqui rumo ao norte
–Interessante. E o que o apressa tanto a partir?
–Maldição – finalmente a primeira aventura, aquilo alegrou o bardo
–Como a do lobisomem, matador de lobos?
–Já disse para não me chamar assim e não, é algo um pouco diferente. Ela não transforma seu usuário, mas sim aquilo ao seu redor
–Pode ser mais claro?
–Vai entender quando chegarmos
Bonham quase entrou em desespero quando notou que seu colega sairia da estalagem sem ele, mas com um acesso de adrenalina para não perder o começo da jornada que ele gostaria tanto de registrar conseguiu montar em seu cavalo a tempo. Cavalo aquele que Daan deixava claro que era apenas emprestado temporariamente. Mas pela forma como o animal branco tratava seu novo dono ele duvidava que mesmo que ordenasse o cavalo abandonaria o bardo.
A jornada realmente era rápida como prometido, mas ainda assim aquilo não alegrava o jovem ruivo. Bonham não era fã de cavalos, pois por algum motivo que não compreendia tendia a ficar com a pele ferida mais fácil do que as outras pessoas graças as montarias. Preferia muito mais se locomover a pé ou em pelo menos uma carroça, mas aparentemente o Exorcista não tinha uma carroça consigo e tinha pressa em suas viagens então andar com seus próprios pés não era uma opção. Ainda assim era um sacrifício que estava disposto a correr. Nunca tinha se enganado sobre a grandiosidade de alguém e logo agora não cometeria seu primeiro erro.
Era realmente no meio da tarde quando finalmente identificarem estarem no condado. Casas cercadas começaram a surgir enquanto galinhas e leitões eram perseguidos por crianças risonhas e adultos cuidavam de animais maiores e até de pequenas lavouras. Aparentemente era um local bem calmo e se não fosse por alguns guardas espalhados de maneira aleatória e a figura de um castelo distante a dupla juraria estar em um vilarejo:
–Ali é o nosso destino? – perguntou o bardo observando o castelo
–Não, não – respondeu o gamuriano vendo como os guardas o observavam com atenção redobrada – Pelo menos não ainda. Nosso alvo não é um nobre desta vez
–Ainda mais simples então
–Por que diz isso?
–Nobres na maioria das vezes requerem convocações, espera e muita conversa, achar alguém mais humilde é normalmente apenas uma necessidade de achar onde ela mora e algo me diz que será bem simples
Daan iria contestar as palavras do colega quando observou o ruivo se aproximar com calma de uma senhora que passava a poucos passos deles:
–A senhorita sabe dizer onde ela mora? – indagou o ruivo com uma feição tão seria que o pardo não conseguiu acreditar que era realmente ele ali
–Ela? – e então o Exorcista quis rir, obviamente a senhora não sabia do que falavam porque nem o próprio Bonham sabia
–Sim, ela – o foco na palavra final pareceu fazer com que um brilho de idéia surgisse na mente da mulher
–Ela. Sim sei. Siga para leste, daqui a cavalo não dará nem dez minutos. É a casa dos Poty, vai ter uma porta de pedra
–Muito obrigado – o ruivo então encarou seu companheiro e apenas sorriu zombeteiro fazendo um gesto para que o seguisse e logo Daan estava ao seu lado
–Não acredito que aquilo deu certo – comentou o moreno se aproximando e cavalgando ao seu lado
–Subestima minhas habilidades de persuasão, expurgador de males
–Essa é nova
–Devido aquele espetáculo no salão
–Pensei que por aquilo eu fosse o purificador de corpos e o caçador de infiéis
–Também. Quanto mais títulos melhor para sua imagem
–Maluco
A falsa indignação do rosto do gamuriano fez o bardo rir e então logo avistaram aquele que deveria ser seu destino. Todas as casas tinham portas de madeira gravadas com o nome da família. Aquela era a única que a porta era de pedra e estava aberta. E mesmo que não fosse Daan saberia que aquele era o seu destino no mesmo instante. Seu olho direito ardia como nunca antes havia acontecido e quanto mais ele se aproximava e ouvia o choro de alguém sabia que seu alvo estava ali. Havia começado sua nova missão.
Fale com o autor