Notas iniciais
Segundo capitulo do dia e com um terceiro vindo ai ;)

O rito fúnebre havia sido rápido. Não havia tempo a perder ali com falatório, o antigo mestre não gostaria disso e muito menos o pupilo.

Após uma rápida busca Daan averiguou que seu antigo mentor carregava consigo algo que muitos chamavam de fogo grego enquanto outros de fogo alquímico, uma mistura de conhecimento dos alquimistas, mas também Exorcistas e que era capaz de queimar até pedra. E alguns dizem que até espíritos. Ele provavelmente teria usado se nenhum outro método tivesse sido efetivo. Guardou então ela consigo retirando apenas algumas poucas gotas que deixou cair sobre o cadáver humano.

As chamas rubras como sangue logo se encarregariam de devorar o corpo do antigo membro da ordem e também do lobisomem. Do alvo deles apenas a cabeça seria necessária para receber a recompensa. Aos poucos o pardo podia sentir ambas as poções parando de surtir efeito e aquilo nunca era algo bom, precisava tomar logo a terceira.

Pegando então a poção vermelha de seu antigo mestre o rapaz tomou seu conteúdo numa rápida golada. Diferente da poção azul e da poção verde que melhoravam o corpo aquela tinha um efeito um pouco distinto. Era um alimento. Um concentrado de ervas que podia servir como refeição, diziam que se você tomasse aos poucos o conteúdo de um único frasco poderia passar uma semana inteira sem precisar se alimentar, apenas ela e água seriam necessários. Mas para Exorcistas o objetivo dela era mais do que apenas alimentação.

O rapaz escreveu no próprio peito ferido usando seu sangue as runas que formavam a palavra na língua antiga para cura e ele pode sentir o efeito da magia antiga começar. Como o seu mestre sempre dizia se um ferimento doía podia ter certeza que sua cura doeria vinte vezes mais. Principalmente se efetuado com magia. Havia um motivo pelo qual se demorava tanto para curar um ferimento por menor que fosse, era para que o corpo agüentasse o processo. Curas rápidas demais eram processos dolorosos e que consumiam tanta energia do corpo que podia até matar o usuário antes de curá-lo por completo. Por isso o liquido vermelho. E por isso ser usada apenas enquanto a poção azul surtia efeito. Sem a redução da dor ele podia desmaiar ali e sem os nutrientes da poção escarlate ele acabaria perdendo parte de sua força vital e até anos de vida para se curar, algo que não era uma boa opção sendo um Exorcista.

Daan gritou alto, mas por sorte não havia ninguém para ouvir ou para ver ele deitado no chão rolando de dor. O processo era até rápido dependendo da gravidade do ferimento que no caso dos dele não eram tão intensos. Era um processo útil, mas não podia curar tudo, membros amputados ou órgãos dilacerados nunca eram uma boa opção se curar daquela forma. A pessoa tinha mais chances de morrer se curando do que se não. Mas o rasgo em seu peito era superficial, mal tinha chegado as costelas, e seu golpe no rosto no máximo deixaria alguma cicatriz mesmo que fosse gastar muita energia para refazer a mandíbula dilacerada e os pedaços do nariz que perdeu.

Diferente dele o mestre não poderia ter sido curado, pulmões rasgados, costelas destruídas e garganta transpassada. Era inútil. Magia não podia fazer milagres. Não sem um preço alto demais.

A alvorada surgia quando a dor começou a regredir, por sorte em sincronia com a poção azul que também acabava aos poucos. Seus músculos doíam, a cabeça latejava, seus olhos ardiam, seus ouvidos pareciam assoviar e seu nariz entupido. Tudo conseqüência do uso das poções e que ele já estava acostumado. Mas ao menos o olho direito parecia normal.

Sabia que seu peito já estava curado e não demoraria até sua boca estar completamente refeita então se permitiu levantar e andar. Pegou a cabeça do nobre morto do chão e pôs num dos seus sacos, guardou os dois punhais de prata e sua própria espada. A espada de seu mestre não era um problema, ligada por magia antiga ao seu criador a lâmina simplesmente iria se desfazer quando a força vital de seu dono acabasse e tanto o cabo quanto a bainha eram protegidas por selos antigas, nenhum ser maligno as teria.

A caminhada havia sido longa e dolorosa, o efeito da poção azul castigava seu corpo e a magia de cura não o ajudava a manter o vigor necessário. Mas ainda assim conseguiu chegar ao castelo.

Nenhum guarda ficou no seu caminho, nenhum nobre comentou do seu estado. Era próximo do zênite já quando chegou, mas não fazia diferença para si. A demora apenas ajudou, deu tempo da magia completar seu trabalho e dos efeitos das poções não estarem evidentes:

–Realmente conseguiu – as palavras do marquês vieram junto da sua chegada no salão, ali no mesmo trono de antes com seus suntuosos e majestosos leões de mogno o nobre não escondia sua surpresa – Onde está seu mestre, gamuriano? Ou deveria dizer, Exorcista?

–Morto, no mesmo local onde achará os restos dele – respondeu o pardo deixando a cabeça cair do saco de couro e rolar pelo chão até a metade do caminho entre os dois, os conselheiros do rei cochicharam em sincronia ao ver tal cena e logo Daan confirmou as especulações de seu mestre, realmente aquele morto era o marquês anterior – Caso queira fazer os ritos fúnebres deve ir logo ou as chamas que lá deixei consumiram seu corpo. Mas não deve tirar antes que restem apenas os ossos. Reconhecerão ele por ser o corpo sem cabeça.

–O que fará com o corpo do seu mestre?

–Nada, está morto e assim continuara independente do que aconteça. Nós Exorcistas, porque sou um pelo que pode notar pelo meu medalhão, não temos a mesma relação que vocês com a morte e o pós-vida

–Então que assim seja, mandarei alguns soldados cuidarem dos ossos

–Peça para que tomem cuidado, as chamas não se apagaram com água ou nada do gênero, apenas quando não houver mais nada para queimar é quando sumirão então apenas homens muito bem protegidos devem recolher os ossos. E devem jogar fora o equipamento utilizado imediatamente

–Assim faremos, Exorcista – finalmente ele não se referia a ele como gamuriano, um avanço talvez graças ao respeito que seu titulo impunha, ou o medo vindo pelo fato de ter sobrevivido a batalha contra um lobisomem – Como gostaria que o dinheiro lhe fosse entregue?

–Um baú com a maior parte, para levar em meu cavalo. Além disso, duas bolsas cheias até o limite

–Assim será, pode aproveitar o almoço real no seu quarto. Após estar limpo e arrumado poderá ir até o seu cavalo que está bem tratado e estará com todas as duas mil moedas de ouro

–Muito obrigado, Marquês de Denna

Daan não demorou mais ali. Simplesmente deu as costas e se retirou do salão seguindo o caminho que ainda lembrava até seu quarto. Foi acompanhado apenas de dois guardas, um levando duas bandejas que pelo cheiro tinham comida e o outro carregando mudas de roupas limpas. No estado deplorável que estava o moreno não reclamaria.

Ali no resguardo de seu quarto o jovem então começou a se banhar na banheira de madeira que havia. Comendo mesmo dentro d’água o rapaz ficou de barriga cheia. A comida era basicamente um frango apetitoso e um punhado de grãos muito bem cozidos, tudo regado a um vinho de excelente qualidade.

Não demorou para se vestir, as roupas não eram pomposas, apenas uma calça marrom e uma camisa branca, mas eram aconchegantes e de excelente qualidade. Então agora pelo menos bem vestido o jovem seguiu seu caminho rumo ao estábulo real onde os dois cavalos que possuía, o seu negro e o branco de seu falecido mestre, esperavam muito bem tratados. No cavalo negro estava tanto o baú que pediu quanto ambos os sacos. Daan não se importava se a quantia estava certa ou não, era um Exorcista e dinheiro só servia para suprir suas necessidades básicas e nada mais.

Teria saído dali no mesmo momento se das sombras o próprio marquês em pessoa não tivesse surgido encarando-o a distância:

–Sabe quem ele era? – indagou o nobre e o rapaz apenas assentiu com a cabeça

–Seu pai – a resposta foi satisfatória pela cara que o homem mais velho fez

–Não poderia descobrir quem o amaldiçoou, não é?

–Faz dois anos, duvido muito que o culpado esteja próximo – então as palavras de seu mestre queimaram na sua mente e ele as ignorou, era jovem e estúpido, se fosse para errar e ir contra o Código que fosse agora – Mas talvez aquele que contratou a bruxa que executou tal ato esteja mais próximo do que imagina

–Temia algo do gênero, mas vindo da boca de um Exorcista isso até me conforta. Realmente alguém pagou para amaldiçoar meu pai

–É apenas uma teoria, mas era isso que meu mestre acreditava e é isso que acredito

–Saberia dizer quem?

–Não, não. Mas posso garantir que estava naquele salão com o senhor quando cheguei. Um dos três mais próximos de si – o olho nunca se enganava e o moreno havia sentido uma forte dor quando observou os três a cochichar

–Ajude-me, Exorcista. Ajude-me a vingar meu pai

–É contra o Código da Ordem ajudar em assuntos dos reinos dos homens, Marquês.

–Então não pense como se fosse ajudar a mim, mas sim ao mundo. Alguém ali fez um pacto com uma bruxa como você mesmo teoriza, se descobrirmos quem garanto que antes deu executá-lo como merece posso permitir que passe um tempo com ele para obter o máximo de informações sobre o paradeiro de tal vil ser

Aquela não era uma proposta tão ruim. Bruxas eram atualmente o maior mal que a Ordem enfrentava. Espalhando suas maldições causavam problemas sem fim ao longo dos reinos e do tempo e isso tinha que acabar:

–Ótimo então, marquês – comentou o rapaz encarando o nobre que agora sorria – Até o fim do dia terá seu traidor e eu minhas informações

Notas finais
Comentários, elogios, críticas, ou melhorias, comentem :)