Notas iniciais
Terceiro e último capitulo do dia pra terminar a pseudo-maratona de carnaval, espero que tds gostem :)

O banquete era grandioso. Todos comemoravam a morte da besta e agora a sucessão oficial do marquês.

Um jovem bardo de madeixas ruivas tocava no centro com seu alaúde inundando o salão com uma música tão bela que acalmava o coração de todos. Era realmente alguém talentoso e não demorou para começar a se aproximar de Daan:

–Soube que você foi o herói do dia – comentou com um largo sorriso o homem da mesma idade que o Exorcista, vestindo-se com roupas vermelhas adornadas de símbolos dourados e colocando o instrumento nas costas enquanto encarava-o com seus intensos olhos azuis – Faço questão de tocar a música que quiser

–Bem, bem, acho que o rei-macaco estaria de bom tamanho – disse em resposta o pardo

–Ora vejam só, valente guerreiro, matador de lobos e amante de baladas de comedia – o rapaz riu e as moças próximas deles também, moças essas que apenas trocavam olhares com ambos deixando claro seus objetivos – Acho que algumas pessoas aqui tem intenções nem um pouco puras para com o herói

–Não que eu vá me importar – o olhar do moreno sempre cruzava com o de uma delas que apenas ria em resposta, seria ela seu alvo – Mas então, onde está a música, exímio trovador?

–Não precisa bajular-me para obter o que quer, herói. Por mais que eu ame ser bajulado – respondeu rindo o rapaz pegando seu alaúde e mandando uma piscadela – Sou Bonham e não sou trovador algum, apenas um bom tocador de alaúde

–Sou Daan e não sou herói nenhum, apenas um Exorcista fazendo seu serviço

–Daan, o matador de lobos então

–Para alguém que não se considera um trovador gosta de dar títulos as pessoas

–Disse que não sou, não falei que não gostaria de ser – Bonham deu uma piscadela ao moreno que apenas riu em resposta – Só me considerarei um trovador quando contar minha própria historia

–E qual ela seria?

–Não achei nenhuma digna ainda, mas talvez um Exorcista tenha alguma digna para mim

–Sou apenas um iniciante para sua desilusão, só carrego um serviço feito

–Ótimo então, quer dizer que se lhe seguir a partir de agora poderei registrar toda sua vida e poderei cantá-la com ainda mais afinco e fidelidade

–Quer ser meu músico particular? – o pardo não deixou de rir daquilo

–Preferiria que se referisse a mim como um amigo

–Amigo? Acabei de conhecê-lo

–E não acha isso suficiente com o carisma que tenho? – ambos apenas riram muito daquilo – Então já lhe dou conselho para ver se confia mais em mim, vá logo para o seu alvo ou outro tomará seu lugar. Não é só porque é um herói, tem feições tão exóticas e uma cicatriz charmosa que todas cairão aos seus pés. Eu acho.

E novamente ambos começaram a rir enquanto o músico ia em direção ao meio do salão tocar finalmente a música pedida.

Daan comeu apenas mais um pedaço de porco e se focou na jovem que tanto queria. A garota dançava pelo salão exibindo seu belo vestido verde e um sorriso jovial que parecia apenas reforçar a beleza causada pelos cabelos castanhos encaracolados.

O moreno então finalmente tocou na cicatriz que ganhara, durante a regeneração nem todo o seu rosto voltou perfeitamente. No exato local em que a garra deve ter começado a rasgar sua face agora havia uma marca bem clara. Uma pequena, e de acordo com um bardo também charmosa, cicatriz no lado direito da boca bem próximo da parte central. Um corte vertical dividido pelos dois lábios de maneira igual sendo que a parte superior quase chegava ao buraco da narina.

Aos poucos o Exorcista foi para o centro do salão e ofereceu a mão a jovem nobre que apenas sorriu em resposta aproximando sua mão delicada da dele. Ambos começaram a dançar animadamente enquanto todos diziam os últimos versos daquela famosa canção cantada em todos os cantos e dita ser tão antiga quanto o mais antigo dos reinos. Uma balada simples composta sobre como um macaco acendeu e decaiu do trono de um reino.

E o povo aos prantos gritou:
Queda ao rei danado!
Maldito que só nos enganou!
Queda ao rei safado!

Expulsem o maldito enganador
Queda ao rei desmiolado!
Ladrão de tronos e só causa dor!
Queda ao rei abobalhado!

Mentiroso que quebrou o reino
Queda ao rei puxa-saco!
E o fim nos trouxe muito cedo
Queda ao rei macaco!...

Gargalhadas então tomaram conta de todo o salão. Fosse pela bebida, pela dançaria ou pela empolgação todos agora estavam finalmente no estado que o Exorcista precisava para executar seu plano com perfeição.

Logo o prato principal chegou, um enorme cervo untado com mel e diversas ervas. Na sua galhada pedaços de carne de diversos outros animais estavam presos formando um arrojado, belo e delicioso espetáculo. O cheiro pareceu tirar vários do torpor que se encontravam, principalmente os três que importavam.

Acompanhado do prato um enorme jarro de ouro com um vinho escuro que derramava ao menor dos movimentos de tão cheio que estava. Quatro homens traziam o cervo enquanto os dois logo atrás traziam o jarro de vinho. Todos começaram a aplaudir o prato que se aproximava enquanto o marquês se erguia de seu trono com um enorme corno em mãos:

–Um brinde ao Exorcista que livrou nossa terra de tamanho mal – brandiu o marquês e todos urraram em resposta erguendo suas canecas metálicas ou seus cornos – E aos meus conselheiros que tanto me auxiliam em minha missão de guiar está terra

Mais e mais gritos de aclamação então com um gesto o nobre permitiu que todos os conselheiros e o herói da noite se aproximassem para pegar um pedaço do cervo e enchesse seus respectivos recipientes com o vinho. Doze eram ao todo, mas os olhos de Daan só se focavam em três que andavam próximos uns dos outros desde o inicio das festividades.

Todos encherem seus recipientes ao mesmo tempo e prometeram tomar tudo juntos de uma vez e assim ocorreu. Braços para o alto e então todo o liquido foi em direção das suas bocas. O vinho escuro desceu pela garganta de cada, mais saboroso do que qualquer outro que já tivessem provado. Mas não para dois dos presentes. Dois dos três alvos de suspeitas do Exorcista começaram a vomitar logo após beberem cuspindo rumo ao chão gosma negra.

Gritos foram ouvidos pelo salão. Todos ali presentes recuaram, alguns escondendo o rosto em visível nojo e controlando a ânsia de vomitarem. A mistura negra que escorria pelos lábios de todos era quase horripilante. Logo o mais nobre entre os presentes encarou seu companheiro de plano e o pardo acenou com a cabeça. Estava na hora.

Dois punhais de prata cortaram a extensão do salão e atingiram seus alvos. Os dois conselheiros vítimas das suspeitas de Daan foram ao chão segurando o peito enquanto sangue saia de seus ferimentos junto de fumaça. Ambos grunhiam de dor enquanto o vomito negro parava de sair, mas deixando por dentro deles a sensação de terem bebido magma puro e agora tivessem suas entranhas destruídas:

–Os dois serão executados por alta traição acusados de arquitetar uma maldição contra seu senhor anterior, meu falecido pai! – gritou o marquês fazendo um gesto com as mãos e logo os guardas começavam a avançar com armas em mãos cercando ambos – Algo a falarem antes de serem levados?

–Como? – indagou um dos dois gemendo de dor notando que o punhal que o acertara não havia acertado nenhum ponto vital – Como descobriu?

–O vinho – respondeu o Exorcista andando até próximo de ambos – Realmente acharam que podiam barganhar com bruxas sem pagarem o preço? Todos que cometem pactos por menores que sejam com as maiores das servas do Mal sempre acabam tendo seus corpos envolvidos pela magia negra usada, principalmente após usar algo tão poderoso quanto licantropia, e restos dessa magia ficam pelo corpo corrompendo-o. Em alguns casos gera deformações, tumores e erupções cutâneas, não a toa as bruxas são das feições que conhecemos nas cantigas infantis. Em casos mais sérios a própria pessoa seria amaldiçoada, pensando nisso obviamente foram em dupla para repartir a carga ruim. Seus corpos agora eram maculados pelo poder obscuro, a única coisa que fiz foi purificá-los, qualquer sacerdote sabe fazer isso. Uma mistura de ervas benignas foi posta no vinho que todos beberam e tinha a função de expurgar qualquer coisa ruim que tivessem em seus corpos e assim aconteceu. Não deveria feri-los nem nada do gênero, guardarei isso para o marquês e seus guardas, mas deve deixar vocês com uma absurda queimação interna, fruto da purificação que sofreram. Levem o outro também, podia não estar com eles na hora do feitiço para ter a mesma quantia de mal dentro de si, mas fazia parte do complô e parte da maldade agora habita o seu corpo, se quiserem confirmar esperem que ele faça suas primeiras necessidades fisiológicas, o liquido negro sairá com elas independente de qual.

Os guardas não se demoraram, pegaram ambos os homens pelos braços assim que Daan retirou seus punhais de prata cobertos previamente com a mesma mistura de ervas do peito deles. Dois guardas então após a confirmação de seu senhor pegaram o terceiro conselheiro e o levaram dali. Os dois tentavam argumentar, mas suas gargantas queimadas impediam que falassem muito e em tons altos demais e os gritos do terceiro eram tapadas pelas mãos daqueles que o levavam:

–Celebrem, meus verdadeiros companheiros! – falou o marquês de Denna a todos os seus súditos de alto nascimento – Hoje não apenas nossas terras estão livres do mal sobrenatural como também do mal dos homens, a corrupção da alma e dos valores foi expulsa da minha marca assim como dos seus respectivos condados e condados. Tudo graças ao Exorcista!

Gritos de alegria foram ouvidos. Taças erguidas. Sorrisos nos rostos. Damas agora o desejando mais do que nunca. Por uma noite Daan não se importou de ter ido contra seu Código mesmo que indiretamente já que havia acabado de achar pessoas que pactuaram com uma bruxa. Podiam ter informações úteis.

Então ali, em meio a bebedeira, jovens loucas para possuí-lo e ouro sem fim o jovem se permitiu descansar. Se não fosse fazer isso aos dezoito então quando faria?

Notas finais
Comentários, elogios, críticas, ou melhorias, comentem :)