O Exorcista
22 Capitulo 22
Notas iniciais
– Por que vocês Exorcistas têm que ser tão frios? Sério que não pudemos ter nem sequer uma despedida decente? – perante a pergunta de Bonham tanto Daan quanto Driane apenas deram de ombros.
– Somos eremitas e assassinos de monstros – respondeu o gamuriano – Sentimentalismo é o que temos de menos por mais que as vezes alguns novatos tendam a demonstrar fraqueza em alguns momentos. E sim, me inclui nisso antes que me irrite dizendo algum comentário.
Já haviam saído da floresta de Givia a um dia e começavam a chegar na sua primeira vila no meio da tarde. Tinham dormido no dia anterior em uma barraca improvisada com o equipamento que obtiveram com o Coletor. Todo o equipamento era carregado pelo cavalo branco já que no negro iam Daan e Driane que fazia questão de dizer que agora que pertencia a ele era bom que ele cuidasse muito bem dela ou só teria mais problemas. E ele sabia que ela não mentia.
Aquela seria a primeira lua cheia das duas. Faltava então um ciclo até o derradeiro encontro.
A vila era pequena e não possuía nenhuma estalagem ou taverna então o trio teve que conseguir subornar o líder do local para obter camas e refeições. Por mais que se mantivesse seria, o bardo podia ver a felicidade transbordando no olhar da aspirante a Exorcista enquanto seguiam seu caminho. Como olhava com fascínio para tudo a seu redor. Aquele talvez fosse o mais distante que ela já houvesse ido em dez anos:
– O mundo é tão grande e fantástico, não é? – comentou o ruivo e recebeu como resposta apenas um tímido aceno com a cabeça, ela não tinha notado que era observada – Não se preocupe, sei exatamente como é isso. Quer ver o mapa de novo?
Driane não negou e logo quando puderam em fim se sentar em outra coisa que não a cela de um cavalo ela abriu o pergaminho feito de couro de algum caprino e viu maravilhada cada detalhe do mapa. Os desenhos que representavam os reinos principais estavam bem no centro enquanto uma rosa-dos-ventos no canto inferior direito indicava o norte. As densas florestas a oeste de Feligia que comentavam serem pertencentes àqueles do Eterno Verão. As terras esquecidas do norte de Northundrank onde o frio dominava mesmo no verão. Logo a cima a cordilheira da Mão de Deus, onde diziam viver os anões na sua cidade subterrânea secreta. O deserto da ferrugem e toda a Gamuria, tudo no sudeste. Ao leste, a uma boa distância no Mar da Serpente, se erguia o Arquipélago de Han Go Dan.
A garota adorava ainda mais aquele mapa do que os que seu mestre possuía, pois ali tinham vários novos detalhes. Daan como morador de Gamuria havia dividido o reino de maneira tão precisa quanto os cartógrafos dividiam os reinos principais ao centro. Adicionou o nome de cidades, grandes formações geológicas e até aumentou a parte de baixo do mapa para caber mais coisas que ele conhecia e que o mapa não permitia pôr já que dava enfoque nos reinos daquela parte do mundo. Havia também anotações sobre algumas ilhas que o mestre do gamuriano visitara em vida e Bonham fez questão de por uma marca circular no mapa em algum local das florestas além de Feligia, mesmo com visível dor. Driane não entendia o que aquele círculo queria dizer e o bardo respondia apenas rindo a sua pergunta.
Daan não deixava de reparar que a evasão do bardo era bem vinda por parte dela, mas um simples espirro dele era visto com ódio pela garota e ele não entendia aquilo. A derrota a marcara tanto assim? Mulheres eram complicadas demais para ele, não a toa ele adorava a companhia de homens as vezes. Tão mais práticos.
O local que ficaram não era nada confortável, as camas eram duras e a comida escassa e até bem ruim levando em conta o que pagaram, mas era tudo que precisavam no momento. Bonham saiu por um momento dizendo que tinha que fazer suas necessidades e tentaria implorar por uma comida mais decente além de cobertas mais grossas.
Assim que o ruivo saiu Driane deu mais alguns segundos e então encarou o Exorcista que estava na cama do lado enquanto a cama do bardo era logo atrás da dele:
– Acha que eles ficarão bem? – questionou a garota ajeitando seus cabelos encaracolados e amarrando-os com uma fita, o pardo podia ver a dúvida nos seus olhos, longe de todos finalmente podia demonstrar o que realmente se passava dentro de sua cabeça e sendo ele o único Exorcista ali seria o único a quem ela poderia se abrir de verdade desgostando dele ou não.
– Ioleu e Tytus? – a garota assentiu e o moreno apenas deu de ombros como sempre fazia – Acredito que sim. Ioleu é um excelente guerreiro e Tytus domina as runas como ninguém. Algo me diz que logo Ioleu forjará sua espada e daí só mais alguns meses até algum colar o escolher, só precisa melhorar nas runas e achar uma forja, além de obviamente ter os materiais. Já Tytus ainda deve demorar um pouco mais, mas andando ao lado do colega não será um problema para ele.
– Uma dupla de Exorcista. Bem exótico não?
– Sim, sim. Nunca li nada sobre isso. Já li sobre duas pessoas treinadas ao mesmo tempo, mas apenas uma recebia a medalha. Talvez tenhamos visto o nascer de uma lenda. Também nunca ouvi falar de um Exorcista deficiente.
– Nunca ouvi falar de um Exorcista gamuriano também.
– Porque não existiam – respondeu ele dando de ombros novamente e suspirando – Fui o primeiro assim como seu colega Ioleu será. Já você nem de longe será a primeira mulher, pouco mais de um século e já havia uma entre nós. Por sinal deve ser difícil para vocês por terem de lidar com a gravidez e o sangramento. Soube de mulheres que realmente enlouquecem nesse período enquanto outras parecem afundar em algum tipo de depressão e outras que apenas gemem de dor loucamente. Ser homem é tão mais simples as vezes.
– Não tenho problema com isso.
– É do tipo comum então? Graças a todos os deuses de todas as religiões. Vocês são as mais difíceis de achar e sem dúvidas as mais bem vindas num serviço como este.
– Eu não sangro por ali, Daan. Pensei que o meu ex-mentor tivesse lhe dito isso. Só uma vez sangue saiu por ali e ao que parece meu corpo não deseja que ocorra de novo – o gamuriano não escondeu sua tristeza, não tinha ideia da dor que a garota devia ter passado naquele momento tão horrendo e tão nova, também não escondeu a surpresa – No começo não me preocupava. Achava que só demoraria mais que o normal, todos dizem que varia de mulher para mulher. Mas quando cheguei aos meus dezesseis e vi que nada acontecia desisti disso. O mestre até tentou usar algumas ervas e a runa de cura, mas tudo completamente inútil. Sou estéril. Ou suponho que seja.
– Desculpe – ele não sabia porquê, mas era a única palavra que conseguia dizer e como sentia raiva por isso, queria ser mais útil para ela de alguma forma por menor que fosse – Pela floresta. Por te fazer reviver aquilo.
– Foi apenas um mal entendido – ele podia ver pela expressão dela que fora bem mais do que isso – Agora sou sua serva, escrava, ou o termo que preferir. Nada mais importante.
– Para mim importa e muito. Por sinal vamos chamá-la por amiga – disse o bardo entrando e rindo carregando duas canecas enormes e cheias de hidromel – Não pudemos comemorar decentemente ontem, mas hoje celebraremos a entrada de mais uma pessoa no nosso grupo.
– Eu não bebo – falou a garota dando as costas ao ruivo.
– Cedo demais para beber tanto – comentou o moreno pegando uma das canecas e bebendo uma rápida e grande golada soltando um suspiro de alivio logo depois – Quem diria que num local assim teria um hidromel tão bom. Devia provar, Driane. Esse hidromel é até bem fraco, parece ter sido feito focado no sabor doce, excelente para damas.
– Não sou uma dama, sou uma futura Exorcista – grunhiu ela apertando os dentes.
– Nosso Código não nos proíbe de beber.
– Nem de copular, mas nem por isso sairei dando a todos os caras a minha frente – o comentário era bem mais pesado do que parecia principalmente agora que o gamuriano sabia do fato da esterilidade, algo que notou que o ruivo já aparentava saber – Sei que notou que apenas você bebeu algo alcoólico durante o tempo que passou com o mestre. As cervejas na verdade são preparadas exatamente para o caso de um visitante aparecer. Meu mestre odiava o álcool, dizia que ludibriava a mente e só causava malefícios. Seguimos a conduta dele.
– Por isso o tomo de maneira muito bem controlada. Tudo usado sem responsabilidade pode fazer mal, desde o aço que pode cortar árvores a matar um homem. O álcool pra mim é só uma forma de diversão como a música é para nosso adorável bardo e suas cortes. Uso ele como uma forma de esquecer nosso Código por algumas horas e voltar a ter uma forma de pensamento normal e não a nossa maneira usual fria e sem sentimentos. As vezes preciso parar de fazer isso ou sinto que me torno mais um monstro. Até hoje não me perdôo por não ter enterrado meu falecido mestre de maneira digna, mas nossa forma de pensar não me permiti me arrepender disso.
– Sem isso não dormiríamos a noite com tantas mortes que carregamos.
– Verdade. Mas as vezes é bom que o passado nos atormente. Lembra que não vivemos nele, mas sim no presente – ela finalmente havia se virado para encará-lo de novo e mais uma vez naquele dia ele notou o quão belo eram os olhos castanhos dela, algo que notava cada dia com mais frequência – A maioria de nós foge do seu passado por ele só carregar coisas ruins. Eu me agarro ao meu e faço questão que ele não me deixe, acho que isso me torna mais focado e até mais forte, faz que eu queira jamais copiá-lo.
– E quando não somos fortes o suficiente para derrotá-lo, Matador de lobos? – a voz dela saiu tão fraca que era óbvio sobre o que ela falava – E quando nosso passado nos destrói toda vez que ele chega até nós? Como posso viver meu presente assim? – os acordes do alaúde percorreram todo o recinto e toda a tensão que teimou querer começar se dissipou.
– Dessa maneira – disse Bonham rindo – Meu passado também me atormenta e as vezes acho que não vou superá-lo. Não sou tão forte quanto meu companheiro, mas ainda assim achei meu caminho. Você já sabe boa parte da minha vida, não é? Pelo que passei devia odiar a música e tentar me separar dela, mas foi exatamente a ela que me agarrei com todas as forças. O homem a quem jurei amar morreu e quando me vi sem ele simplesmente não tinha mais chão. Foi ai que decidi que viveria por nós dois mesmo num mundo onde o que sou não é bem visto e tenho que esconder isso nas sombras. É na minha dor que busco forças exatamente pra domá-la. Não vencê-la, mas sim domá-la.
– E se eu não for forte o suficiente para domá-la? Se eu não for forte o suficiente para me atrelar a parte boa do meu passado ao ponto de superar a ruim? Se no final eu não for forte o suficiente para carregar esse peso?
– Então você o reparte conosco – o sorriso do ruivo era tão sincero que era impossível não sorrir vendo-o. Daan tentou evitar, mas podia sentir um sorriso tímido se formando no seu rosto também enquanto a garota o encarava atônita, mas também sorrindo – É bem melhor carregar algo quando se tem alguém pra ajudar, não é? No caso dos nossos problemas essas pessoas que te ajudam se chamam amigos e como disse vou chamá-la de amiga a partir de agora. Esse gamuriano pode parecer malvado e rabugento na maior parte do tempo, mas é uma boa pessoa também. Garanto que pode ser um bom amigo contanto que dê um tempo a ele. Só nunca espere que ele assuma isso – a piscadela foi seguida de um riso por parte também do Exorcista.
– Por que trata como amiga alguém que acabou de conhece? Demorei anos até reconhecer aqueles dois idiotas com que cresci como meus amigos.
– Simplesmente acho sua voz bonita. Sou um bardo, os sons pra mim são o que me encantam. Alguém como você não pode ser uma má pessoa.
– Então um bardo não pode ser um criminoso?
– Claro que pode. E como pode! – o olhar falso de espanto durou poucos instantes, mas foi o suficiente para fazê-la rir – Existem pessoas que mal tocam uma pestana e ousam cobrar moedas de prata por suas apresentações. Ladinos malditos e não bardos. Meretrizes e não menestréis. Mas esses são os que não produzem belos sons.
– O que define pra você um belo som?
– Um que me faça bem ora mais. Sua voz me faz sentir bem. Seguro sendo mais especifico. É a voz de alguém a quem posso confiar minhas costas.
– Ele é sempre assim? – perguntou a garota encarando o pardo que apenas deu de ombros rindo e vendo pelo sorriso no rosto dela que ela havia sido fisgada assim como ele pelo ruivo.
– Você se acostuma uma hora......... Eu acho.
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