Notas iniciais
Depois de um LONGO tempo sem escrever a faculdade finalmente me deu uma folga e aqui venho postar o mais novo capitulo saido do forno para vocês, queridos leitores e queridas leitoras, espero que apreciem ;)

A lua brilhou intensa no céu aquela noite lembrando a eles que restava apenas mais um ciclo lunar. Daan não gostava do ritmo que estavam obtendo, algo o dizia para agilizar isso ou não chegaria a tempo então tomou uma decisão que o alegrou no dia seguinte. Depois de barganhar um pouco com o líder da vila ele obteve tudo que precisava e mesmo com as péssimas condições do quarto estava alegre.

O Exorcista foi o primeiro a acordar, tanto pelos seus recorrentes pesadelos que nunca pareciam parar de atormentá-lo quanto para conseguir preparar tudo a tempo e quando viu o sorriso nos lábios de Bonham e o brilho no seu olhar ele sabia que tinha acertado:

– Tem ideia de o quanto devo a você por isso? – o ruivo perguntou quase pulando no colega de alegria, finalmente poderia parar de montar num cavalo.

– Só não cobre a divida agora e muito menos quando eu estiver no quarto com vocês – disse Driane jogando suas coisas no seu novo meio de locomoção e realmente implorando a forças superiores que os dois não dormissem juntos com ela por perto. Ela odiava se notar acordando por barulhos emitidos pelos dois. E não entendia quando era apenas o pardo que gritava e simplesmente levantava e saia a acordando.

O gamuriano havia conseguido comprar dois novos cavalos além de uma carroça de quatro rodas coberta por uma grossa lona. Grande o suficiente para caber seus dois colegas deitados, tudo que eles possuíam e as novas coisas que ele havia comprado que eram basicamente mantimentos, vestimentas e reforços para as barracas. Ainda sobrando um bom espaço lá dentro para caso Daan quisesse se deitar sobrando um bom espaço. Havia valido cada moeda de ouro.

Todos então aos poucos subiram na carroça já com seus desjejuns na barriga com exceção do pardo que comia aos poucos enquanto subia para comandar os cavalos sozinho na frente. O bardo fez questão de se jogar na carroça e se deitar com a cabeça apoiada numa das celas agora inutilizadas e coberta por um amontoado de panos enquanto sorria por dentro por não ter que ficar mais com a cabeça no sol tendo apenas um chapéu para protegê-lo e as pernas assadas, agora o chapéu só taparia seus olhos e suas pernas ficariam assadas por outro motivo. Bateu na madeira da carroça e pelo barulho que ela fez sorriu ainda mais, era de uma qualidade excelente para algo feito numa cidade tão pequena. Os dois cavalos novos também pareciam bem fortes e sadios e eram ambos malhados, mas em cores alternadas, um era branco com manchas marrons e o outro era marrom com manchas brancas.

Logo quem sorria era o moreno, a velocidade da viagem havia aumentado e muito enquanto o desgaste dos animais só diminuiu então atravessariam uma distância ainda maior precisando descansar ainda menos. Agora não temia mais algo como um atraso. E nem mesmo se iria dormir na floresta ou não, as lonas da carroça protegeriam eles da chuva, do vento e do frio e as cobertas novas eram bem mais grossas e quentes que as antigas. Estava perfeito.

Os dois antigos cavalos de Daan iam a frente da carroça atrelados lado-a-lado com os dois novatos logo atrás também atrelados lado-a-lado. O branco malhado atrás do branco e o marrom malhado atrás do preto. Os cavalos já experientes não precisavam ser tão estimulados para seguir seu caminho e de alguma maneira pareciam reger os novatos diminuindo o esforço do gamuriano em guiar a carroça dando-o mais tempo para descansar e até tocar sua gaita. Hábito que agora que havia retornado a ter não abandonaria mais.

O único ponto negativo que parecia surgir era o gasto com comida que agora crescia com dois novos cavalos, mas era algo que não fazia incomodo ao bolso do Exorcista. Se duvidasse no futuro poderia até ter mais dois deles.

E por três dias eles viajaram daquela forma. Parando apenas ocasionalmente para fazer refeições nas vilas que avistavam e descansar um pouco. Dormindo sob as estrelas no meio da floresta e passando os dias ouvindo as canções do bardo agora incrementadas pelo som da gaita negra e por uma recém-descoberta percussionista. Ao longo de um dos caminhos Driane havia batido os dedos contra a madeira da carroça e Bonham não deixou escapar a habilidade e o ritmo perfeito com que ela havia feito isso. Não demorou para toda música ser acompanhada das batidas nela. Algo que o ruivo conseguiu usar para tornar a Canção do Rei-Macaco ainda mais fantástica do que todos conheciam.

Uma canção que Driane confessou nunca entender a graça que todos viam nela, mas após um comentário de Bonham ela entendeu perfeitamente. A música tentava mostrar o quanto a burrice, a ganância e até mesmo certa maldade, não existiam apenas nos homens. Era apenas mais uma forma de se enganar do que qualquer outra coisa. E a forma como a música era tocada, lembrando a alegria de uma balada de comédia só ajuda a mascarar sua real intenção e a história de tragédia por detrás. Ela não poderia ter pedido uma justificativa melhor.

[...] Assim ele foi eleito
Sendo esperto e amado
Cobrindo o reino em deleito
Assim nasceu o Rei-Macaco! [...]

Também havia as histórias que compartilhavam. Daan contava sobre missões com seu falecido Mestre e Driane sobre o treino maluco do Coletor. Os dois em vários momentos apenas riam de coisas absurdamente dolorosas que faziam Bonham tremer só de imaginar acontecendo, mas ele também notava o quão mais amigos eles se tornavam e isso sempre o forçava a deixá-los continuar com aquilo.

Haviam até mesmo chegado ao ponto de confiarem suas mais intimas memórias com a garota. Não demorou a ela aprender sobre Bonham e os Enlinares além de saber sobre a história de Daan e o djinn. Ainda assim ela não pareceu demonstrar antipatia para nenhum deles. Para ela não fazia diferença aparentemente.

E graças aquelas conversas ele finalmente convenceu a garota a fazer a pergunta que ele sempre quis a resposta:

– Como foi sua primeira vez com um rapaz? – o gamuriano quase cuspiu os pedaços de queijo que comia com a pergunta tão repentina enquanto guiava a carroça e via a aspirante a Exorcista se sentar ao seu lado. Ele também podia ver os olhos azuis de Bonham por uma fresta e sabia que era tudo culpa dele.

– Se queria tanto assim saber era só ter perguntado, bardo idiota – o ruivo riu de dentro da carroça com o comentário do colega e pôs toda a cabeça para fora.

– Então como foi? – seus olhos brilhavam querendo saber – Vamos, fale.

– Sabe que posso demorar nisso, certo? – ambos apenas assentiram com a cabeça e ele deu de ombros – Seu nome era Carlo. Ele era o filho mais novo de um barão. Meu Mestre havia sido convocado para libertar o garoto de uma maldição, mas não comentaram que a maldição era licantropia. Hoje sabemos como curar, só que naquela época não. Quero que saiba antes de prosseguir que lobisomens não precisam necessariamente da lua cheia para se transformar, eles se transformam qualquer dia pela noite com exceção de quando a lua some completamente do céu. Apenas a força de vontade pode mantê-lo humano mesmo a noite e mesmo que a pessoa seja forte no dia da lua cheia ela se transforma independente de sua vontade.

– Isso era algo que não sabia. Como posso andar com um Exorcista a tanto tempo e não saber ainda desse tipo de coisa? – Bonham comentou aquilo com uma falsa cara de indignação para Driane fazendo a garota rir bastante.

– Porque não é relevante para você saber disso – Daan tentou ao máximo ignorar a cara dele e sua frase e conseguiu por muito pouco não rir – Faltava alguns dias até a lua cheia e meu Mestre fez questão de apenas executar o garoto quando confirmasse sua transformação. O barão aceitou. Para poder observar Carlo com cuidado, meu Mestre teve a ideia de enganar o rapaz dizendo que ele seria treinado por um Exorcista. Ele automaticamente se animou. Aos quinze anos, eu tinha recentes catorze, e com vontade de lutar, ele adorou o plano. Mas óbvio que o velho desgraçado não ia treinar o rapaz, ele mandou que eu fizesse isso como forma de fixar o aprendido. E assim começamos. Passávamos os dias juntos, alternando entre treinos de espada, refeições e conversas idiotas. Só nos separávamos na hora de dormir. Então no terceiro dia de treino eu o derrubei mais uma vez só que daquela vez não deixei ele se levantar. Entenda, desde o começo ele trocava olhares comigo e eu não vi motivo para não tentar. Deitei-me sobre ele e ali estive com ele pela primeira vez. Naquela noite não fomos dormir separados. Satisfeito?

– Bem, eu até estaria se não fosse por um detalhe. Seu Mestre executou ele ou não?

– Sim, ele executou. Dois dias após a nossa primeira vez ocorreu a transformação dele. Estávamos na cama pós-relação e conversando bobagens quando ele me empurrou e gritou que estava começando. Gritei chamando pelo Mestre e puxando um punhal de prata que carregava comigo durante os treinos para qualquer problema. Podia tê-lo matado ali, mas não consegui. Simplesmente não consegui. Ele então me atacou e quase teria me matado seu o Mestre não tivesse entrado a tempo lhe cravando a espada.

– Que traumático. Como conseguem não enlouquecer com coisas assim?

– Depois de um tempo você se acostuma – comentou Driane encarando seus colegas de viagem – O Coletor sempre dizia que apenas no começo é difícil.

– Acho que nunca vou aceitar isso.

– Não é uma questão de aceitação, Bonham – disse Daan suspirando – É assim e ponto final. Pior é quando no lugar de ficarmos traumatizados e tensos acabamos por relaxar. Isso havia acontecido ali também.

– Como assim?

– Assim que Carlo morreu pensamos que havia acabado. Não foi bem assim. A bruxa que o transformou estava escondida nas proximidades e quando soube da chegada de um Exorcista ali ficou atenta e quando notou a morte daquele que amaldiçoou ela surgiu para nós. Atacou meu Mestre com uma magia brutal que o jogou para fora do quarto e grunhiu dizendo podia ter perdido um lobisomem, mas ganharia outro.

– Ela rogou uma maldição de licantropia em você?! – o grito de Driane assustou o ruivo que a encarou sem entender nada – Impossível! Estamos na lua cheia e você não se transformou.

– Porque não funcionou. Não sei até hoje o porquê disso, mas simplesmente não funcionou. A própria bruxa não pareceu entender, apenas balbuciava algo sobre ter haver com meu sangue. Eu já tinha a maldição correndo pelas minhas veias. Antes que eu pudesse perguntar algo sobre isso a espada de meu Mestre atravessou seu coração e ela morreu.

– Como alguém tem uma maldição consigo e não sofre dela? Ela provavelmente apenas enlouqueceu sem entender como falhou. Pode apenas ter sido uma palavra dita errada ou a falta de ingredientes.

– Talvez. Nunca vou saber e algo me diz que não quero saber. Já tenho o olho de um Djinn comigo. Mais que o suficiente de maluquice para um corpo só.

– Agora que respondeu a pergunta dele responda a minha – falou com firmeza a garota e conseguiu extrair um riso de ambos – Não estou brincando oras.

– E o que você quer tanto assim saber?

– Como consegue gostar dos dois? – e naquele instante Bonham quase caiu da carroça de tanto rir, era possível ouvir ele rolando de um lado para o outro de tão barulhento que estava – Qual o problema da pergunta? Consigo entender alguém que gosta de uma pessoa com o órgão genital diferente. Consigo entender alguém que gosta de uma pessoa com o órgão igual. Mas não os dois. É demais pra mim.

– Você sabe que ele não vai parar tão cedo, certo? – o gamuriano tentava se controlar para não rir também e encarava o bardo que enlouquecia atrás deles – Se quer tanto saber é simplesmente questão de gosto. Tem gente que não gosta de beber enquanto tem gente que gosta e aqueles que só bebem se assim for necessário assim como tem pessoas que gostam do sexo oposto, do mesmo sexo e ambos. Tem até os que dizem que não sentem atração por ninguém. Os deuses criaram as mulheres e os homens, se não fosse para aproveitar ambos que tivesse feito apenas um ou criasse alguma impossibilidade física. Eu quando fecho meus olhos e toco alguém a sensação é a mesma então por que mudar a forma de agir por estar de olhos abertos?

– Um homem não pode engravidar de outro assim como uma mulher não pode engravidar de outra.

– Isso não impede o ato de ocorrer.

– Nesse ponto concordo com Daan – articulou Bonham finalmente parando seu riso mesmo deixando claro que logo recomeçaria – Por sinal, e daí que não podemos ter filhos? Vocês Exorcistas tem como pupilos seus próprios filhos? Não. Vocês adotam crianças órfãs. Eu também posso fazer isso. Vários nobres até adotam crianças depois que finalmente garantem o nascimento de seu sucessor. Entenda, da onde vim família não se define por algo como sangue, mas sim por afeição. Considero você minha família tanto quanto esse gamuriano aqui e tanto quanto a mulher que um dia chamei de mãe. Não me incomodo em adotar uma criança. E antes que argumente sobre a sociedade não ver bem, não me incomodaria de fingir um casamento com você e pelas costas ter como criado o meu verdadeiro amor assim como você poderia fazer também. Reclamaria tanto assim?

– Nem um pouco – a garota riu um pouco e logo o ruivo deu uma piscadela se deixando sumir dentro da carroça voltando a rir – Ele venceu.

Daan pôde sentir a confiança de Driane para com ele crescer depois daquela conversa maluca deles. De alguma forma conhecer a vida dele mudava a forma dele de enxergá-lo. Talvez uma semana a mais de viagem fizesse ela parar de o enviar tantos olhares sedentos pelo seu sangue. E sem dúvidas os momentos de cantoria e em que contavam histórias uns para os outros auxiliava nisso.

A garota jamais o odiou em momento algum ou sequer realmente temia pela sua segurança, ela sabia o Código da Ordem e como os Exorcistas o seguiam. Jamais sofreria mal algum por parte dele e o ruivo não era o que ela consideraria de um inimigo ou sequer um adversário. Ela também só não demonstraria gostar de alguém que não gostava. Não gostava muito.

O riso dele era cativante tanto quanto o do bardo. O dar de ombros já era para ela a melhor resposta de todas. O sorriso cada dia lhe parecia maior. E amava o som da gaita. Como ele tocava bem aquilo. Mas ainda assim ele tinha aquela aparência.......

Notas finais
Comentários, elogios, críticas, ou melhorias, comentem :) Não há combustível melhor para mim como escritor do que seus feedbacks ;)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.