O Exorcista
2 Capitulo 2
Notas iniciais
A dupla havia sido guiada até um quarto numa torre qualquer e informados de que a fera atacaria aquela noite nos arredores de um castelo um pouco mais ao norte. O velho apenas assentiu e começou os preparativos.
Parecendo mais um boticário do que um guerreiro, o Mestre abriu uma serie de sacolas marrons de couro revelando diversas ervas e três frascos. Cada um aproximadamente do mesmo tamanho, mas carregando líquidos bem distintos. Um de cor avermelhada como sangue, o outro de um azulado escuro e o terceiro de um esverdeado bem claro:
–Quais tomaremos hoje? – indagou o homem e o rapaz apenas o encarou, novamente testando-o como sempre
–O azul e o verde, sendo que o azul deve vir primeiro – respondeu Daan vestindo sua cota de couro
–Por quê?
–O azul afia nosso corpo e nossa mente. Melhora nossa concentração, aumenta nossa força e velocidade, diminui nossa dor. Com esses efeitos ajuda a acelerar o efeito da poção verde e a diminuir seus efeitos colaterais
–Que seriam?
–A poção esverdeada melhora nossos sentidos, olfato, audição e visão melhorados ao nível de feras. Além do quê, não há escuridão que não vamos poder ver através mesmo não havendo luz
–Perfeito. Com que equipamentos iremos hoje, por sinal?
–Sendo nosso adversário vitima de licantropia levaremos nossos equipamentos de sempre. A espada da Ordem que nos representa tanto quanto nosso medalhão e um punhal de prata. Além de acônito, conhecido como a perdição do lobo pelo povo, é uma erva mortal para lobisomens
–Excelente – o velho então suspirou, não apenas de alivio, mas de contentamento, ele havia aprendido bem – Sabia que não havia errado quando escolhi o treinar
–Fala como se fosse o senhor a ter uma divida aqui quando sou eu que tenho para com o senhor. O Mestre salvou minha vida e me deu um propósito. Uma missão, mesmo eu tendo cometido o crime que cometi.
–Se você diz então não irei contestar. Nada é mais durador e irritante do que um debate entre um jovem e um velho. Vamos voltar a preparação. A noite será longa.
–Não duvido, não duvido
O Mestre aos poucos também colocou sua cota, feita de couro como a do pupilo. Separou a espada da Ordem e um punhal de prata além de outro frasco azul e outro verde. Num saco de couro a parte pôs um amontoado de acônito em pó enquanto em outra uma poção vermelha. Guardou as armas e os sacos na cintura e vestiu duas luvas de couro. A noite cairia logo mais e mesmo bem alimentados como foram enquanto estiveram no quarto não era bom se demorar ali.
Observou então com calma seu pupilo guardando sua espada, havia forjado aquela peça com uma maestria tão invejável que ele mesmo não deixou de sentir inveja. Nunca tinha visto uma espada tão bem feita na vida. A espada era uma das duas coisas que um Exorcista carregava sempre além do medalhão. A arma era forjada pelo próprio aspirante ao cargo usando ferro, prata e um método de conhecimento apenas dos membros da Ordem. Usando estes dois materiais maléficos as feras e ritos antigos e ditos por muitos como mágicos eles criavam o item bélico mais mortal contra forças sombrias. Além do medalhão. A peça era feita de um metal por muitos desconhecido e trazia de ambos os lados a mesma runa que lembrava uma seta, uma escrita antiga e poderosa a muito esquecida a não ser pelos próprios Exorcistas e alguns druidas. Todos os pupilos herdavam o medalhão de seus Mestres já que só havia um determinado numero de medalhões feitos e ninguém sabia o processo para recriá-los. Isso tornava os Exorcistas raros e com números que só tendiam a diminuir. Graças a runa e o feitiço usado durante sua criação a peça podia parecer uma simples moeda marcada, mas quando tocada por qualquer um que não fosse seu devido dono ardia como a mais intensa brasa podendo até queimar se não fosse solta logo.
Ambos então aos poucos começaram a sair do quarto, com as armas na cintura e tomando as bebidas azuis. O crepúsculo já havia sumido do céu e apenas a escuridão dominava. Imponente no firmamento a lua se erguia brilhando sobre todos incluindo a fera. Não demoraria para ela começar a agir:
–Como derrotamos um lobisomem? – perguntou o Mestre caminhando a frente e já tomando sua poção verde enquanto o pupilo logo também fazia isso
–Cortamos a cabeça fora, resolve com praticamente tudo – a resposta de Daan tinha agradado o homem, realmente nada que uma boa decapitação não resolvesse – Mas apenas prata perfura a pele rígida da criatura. Acônito a machuca tanto quanto brasa a pele de um homem e chamas também são úteis, os pêlos deles são bastante inflamáveis. Qualquer outra coisa é esforço desnecessário e inútil. Depois pegamos o corpo e queimamos até sobrar apenas os ossos
–Excelente, vejo que não irá atrapalhar meu ultimo trabalho
–Jamais ousaria cometer tal crime – ambos riram por um momento, o rapaz não podia negar que sentiria saudades da companhia do velho Mestre
–Este será um bom trabalho, matar um nobre sempre me excita – disse o velho rindo ainda mais e deixando o pardo visivelmente assustado
–O que quer dizer com nobre? – os olhos cinzentos do Exorcista mais velho encararam os dele e por um momento ele lembrou de uma regra muito importante do seu treinamento, sempre tente saber o máximo possível sobre seu próximo destino
–O lobisomem vem atormentando estas terras a dois anos já, garoto. Adivinha a quanto tempo o marquês têm seu titulo?
–Dois anos.........?
–Exato. Há dois anos ele assumiu porque o pai teve que sair devido a ter ficado debilitado demais, uma doença a família alegou. O velho fica desde então trancado num castelo longe da cidade.
–Aquele ao qual estamos indo?
–Perfeito.
–Acha que o filho teria feito isso ao próprio pai?
–Não, improvável demais. Haveria jeitos bem mais simples de sucedê-lo sem arrumar tantos problemas. O jovem marquês pode não lucrar com a perda de seu pai, ele até mesmo amava o patriarca........
–Mas alguém vai lucrar
–É claro. Sem experiência, mesmo um homem feito como ele precisará da ajuda de um conselho pessoal composto dos homens mais sábios e ricos de suas terras
–Algo muito útil para se subir na vida, financeiramente e até socialmente. Adquirir um titulo de barão ou visconde apenas por serviços prestados enquanto desvia dinheiro sem o líder atual notar e talvez nunca note já que não é ele que cuida das finanças
–Exato, um belíssimo complô
–Se notou tudo isso por que não tentou descobrir o culpado?
–Sou um Exorcista, tolo pupilo, não um político. Somos maiores do que qualquer reino e qualquer lei. Não nos ajoelhamos a ninguém que não queiramos e não prestamos satisfação a nada ou ninguém. Ficamos longe de politicagem e religião. Nosso único trabalho é livrar o mundo do mal sobrenatural, deixe que os homens lidem com os problemas mundanos sozinhos. Não esqueça do nosso Código, ele transcende qualquer um desses reis que um dia apenas morrerão como qualquer outra pessoa
–Não esquecerei, não esquecerei
Ambos já podiam sentir os sentidos melhorados. Como a noite tão silenciosa agora parecia criar vida. O som de pequenos animais que corriam para se esconder deles, o cheiro das criaturas e da terra. Mesmo com apenas a lua a lhes iluminar tudo parecia tão luminoso quanto de dia. Daan também podia sentir o poder fluindo por dentro de si, a força aumentando, o vigor intensificando, a mente ficando mais rápida e precisa. Por mais que mesmo sem tudo aquilo eles teriam notado a aproximação da fera.
O uivo era tão alto que deveria ser ouvido quilômetros dali e sua massa disforme era enorme o suficiente para ser percebida de longe. Mas isso não diminuía o perigo que representava. Com velocidade e poder o lobisomem havia cortado a distancia entre eles e se aproximava rápido como uma flecha. Mas bem maior e mortal.
O moreno girou para o lado a tempo, mas o Mestre não teve a mesma sorte e logo era possível ver Exorcista e fera rolando pelo chão. Daan não pensou duas vezes e sacou seu punhal lançando-o contra a fera, caso acertasse em seu Mestre sabia que ela não perfuraria a proteção de couro, mas no caso de acertar o lobisomem causaria um ferimento mortal. Ou foi isso que imaginou.
A lâmina se cravou bem no ombro da criatura, mas extraiu dela apenas um pouco de sangue e uma montanha de fúria. Aquele que um dia havia sido um marquês agora se erguia furioso de cima do corpo do homem mais velho. O pupilo não era capaz de averiguar a situação de seu mestre, mas sabia que ele estava vivo principalmente por ver o punhal do velho cravado no estômago da besta, provavelmente no mesmo momento em que o seu havia se cravado.
Mesmo ferido o lobisomem grunhia de raiva e avançava sem parecer machucado e isso não surpreendeu o gamuriano que apenas puxou sua espada e abriu uma de seus dois sacos de couro jogando seu conteúdo para ser levado pelo vento para a criatura.
Se a pobre vitima de licantropia ia fazer algo o acônito em pó não permitiu. Jogar aquilo contra ele era como jogar brasas em direção a uma pessoa comum, só que aumentado em pelo menos cinco vezes. A fera gritou de dor e o jovem se aproveitou disso para atacar.
Com sua velocidade e força aumentadas o golpe foi preciso e mortal. Sangue escuro jorrou do corte feito no peito jogando o lobo humanóide com mais de dois metros ao chão. A lâmina da espada era ainda mais mortal que prata comum ou acônito graças ao método mágico nela utilizado e isso se mostrava agora pondo aquela besta abaixo.
Ela gemia de dor pelo corte que parecia fumegar e pelo acônito que ainda não havia se soltado completamente de seus pêlos negros, mas como se guiado por um vontade maior a fera se levantou e tentou atacar. A garra acertou em cheio Daan jogando-o para longe com o rosto sangrando, podia sentir que tinha perdido um pedaço do nariz e parte de sua mandíbula havia sido destruída e não apenas isso. Seu peito ardia de dor enquanto sangue vazava. Uma pessoa comum talvez tivesse apagado pelo impacto ou pela dor, mas com o efeito das poções o moreno se ergueu do chão com a espada em mãos e encarou seu alvo que o encarava de volta com seus olhos vermelhos. Daan podia sentir seu olho direito queimar e a visão dele se intensificar enquanto tons de vermelho dominavam sua vista, era o sinal que o poder do olho havia despertado ele querendo ou não. Por mais que naquela situação aquilo pouco importasse.
O lobisomem voltou a avançar, mas antes mesmo de chegar a metade do seu caminho algo se chocou contra seu peito fazendo-o grunhir de dor. Pequenas bolotas de lama pareciam queimar seu peito e logo o pupilo percebeu do que se tratava. Aparentemente feitas de lama, naquelas bolinhas também havia acônito na superfície.
Então surgindo das sombras com a ferocidade digna do próprio rival o Mestre agarrou os braços da criatura pelas costas prendendo-os com uma força sobre-humana que o rapaz duvidava que apenas a poção azul seria capaz de garantir a alguém. Mesmo ferido o Mestre ainda era sem dúvidas superior a qualquer mero guerreiro.
Palavras não precisavam ser ditas. Daan avançou com tudo que lhe era permitido na sua posição e atacou. Um corte rápido e limpo que pôs a cabeça do lobisomem a baixo.
Logo em seguida o que caiu foi o corpo da própria besta sendo então acompanhada pela queda do corpo do Exorcista. O pupilo tentou segurar seu Mestre com os braços enquanto aos poucos o corpo ferido do inimigo regredia ao formato humano como sempre ocorria quando um amaldiçoado morria. Só agora o pardo notava os ferimentos no corpo de seu Mestre, uma série de rasgos tão fundos que obviamente havia rasgado os pulmões, além de uma mordida poderosa na jugular que fazia sangue sair aos montes. Não havia mais salvação para ele:
–Disse a você, pupilo idiota – falou o Mestre com as ultimas forças que tinha e soltando um leve riso – Ultimo trabalho. O trabalho de um Exorcista só acaba quando a vida dele acaba por mais que tolos fiquem citando aposentadoria. Esqueceu do Código por sinal?
–Jamais esquecerei, Mestre – disse em resposta Daan não demonstrando sentimento algum graças a poção que mantinha sua mente focada no principal
–Não sou mais seu mestre, tolo. Você agora que será o Mestre de alguém quando a hora chegar assim como chegou para mim
Então o rapaz pode sentir em suas mãos a peça metálica circular característica da Ordem. Com sua runa que lembrava uma flecha ardendo nas suas mãos, mas não como brasas mortais, mas sim como a pele morna de uma mãe ao consolar o filho na noite escura. Estava feito.
Ele era um Exorcista.
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