O Exorcista
19 Capitulo 19
Notas iniciais
O som da gaita acordou Bonham que levantou da cama bocejando e logo abrindo um sorriso reconhecendo a canção gamuriana. Tinha sido a segunda vez que ele o acordava. Como já tinha ocorrido outras vezes, seu colega acordava gritando e suando frio como se estivesse em meio a um pesadelo, mas pelo menos agora ele compreendia o motivo disso. O ocorrido em Kith.
O quarto em que dormia era na parte superior da casa duplex e pelo que o ruivo notava a música vinha do lado de fora então ele foi até a janela do quarto e a abriu vendo aquilo que já esperava.
Sentado na macieira ao lado da casa estava um Daan sem camisa exibindo seu peito desnudo e de pele marrom com algumas pequenas cica-trizes obtidas a várias anos ao longo de sua vida e tocando sua gaita negra. Seus cabelos e a calça estavam molhados indicando que tinha se banhado no lago a não muito tempo, ou ele havia suado mais naquela noite do que o usual. O colar que era a marca de sua Ordem pendia de seu pescoço brilhando em meio aos raios de luz que conseguiam passar pelas folhas.
O bardo então resolveu que ouviria aquilo de perto e desceu com muito cuidado a janela. Segurou-se na borda com os braços e sob o olhar assustado do moreno ele pulou dali caindo no chão e rolando com perfeição:
– Você é maluco, maluco! – gritou o Exorcista se aproximando e sendo recebido por um sorriso.
– Pare com a bajulação, assim me seduz – a piada dita por Bonham fez o pardo rir e aliviar um pouco a tensão – Por que ficou tenso? Estou mais que acostumado a fugir de locais pela janela após uma noite de amor assim como sei que você também. Por sinal odeio isso, dê-me seu corpo pela noite, mas na manhã seguinte fuja o mais rápido possível antes que minha mulher que sabe que me deito com outros homens nos veja e me mate e a você também caso. Detesto esse joguete dos nobres.
– Mas nunca para com eles – o riso era mais do que necessário para responder aquilo – Precisava dessa maluquice?
– Claro que não. Mas com ela ficou bem mais divertido, não é?
– Suicida.
– Gostoso – a sobrancelha erguida o fez rir – Pensei que fossemos elogiar um ao outro.
– As vezes esqueço que para você essas coisas são elogios.
– E não gosta quando falo a verdade sobre você? Pode renegar o quanto quiser, mas é a minha perdição envolvendo o pecado da luxúria e ainda tem o bônus de simplesmente não ter pêlos.
– Não tenho culpa se nós gamurianos não temos pêlos que não sejam os cabelos, as sobrancelhas e os cílios. Por algum motivo que algum estudioso talvez invente, nós simplesmente não temos pêlos abaixo do pescoço para baixo. Ainda conseguimos ter barba, mas apenas isso.
– Devia considerar isso uma bênção, mulheres dariam a vida por um homem assim. Nada é pior que ir se deitar com um rapaz e ele parecer um macaco por debaixo de suas roupas.
– Há pessoas que gostam.
– Há pessoas que gostam de tudo. Tem gente que gosta de praticas envolvendo sua urina e suas fezes. Tem gente que gosta de apanhar e outras de causar dor. Tem até mesmo idiotas que são malucos a tal ponto que gostam de homens e mulheres. Isso não significa nada – o riso emitido pelo pardo o agradou, agora poderia mudar de assunto e ir para o que queria – Voltando aos velhos hábitos não é?
– Sim, sim – Daan não escondeu o sorriso enquanto passava os dedos pela gaita e pelo lobo em alto relevo – É tão bom quanto lembrava, devo tanto a você por isso.
– Já me deu três baladas só com sua história, eu que lhe devo. A história de como se tornou o pupilo de um Exorcista aos treze derrotando um ser lendário. A história de como se tornou Exorcista com apenas cinco anos de treino matando um lobisomem. E a história de como derrotou duas bruxas. Tem ideia do quão incrível é a sua vida?
– Aparentemente bastante – disse a voz que o moreno reconheceu no mesmo instante pela beleza do timbre mesmo soando de maneira tão irritada – Cinco anos de treino que começaram aos treze? E ainda tem a ousadia de se considerar um Exorcista?
– Eu não me considero, eu sou – cortou Daan se levantando e indo em direção a Driane que não escondia sua fúria enquanto Ioleu e Tytus apenas observavam tudo na porta com os rostos impassíveis – O medalhão que me considera assim como deve ser.
– Então talvez ele esteja maluco. Se eu te bater o suficiente será que então ele voltará ao normal e abandonara alguém com apenas cinco anos de treino? Além disso, irá me reconhecer?
– Isso foi um desafio? Porque se foi irei aceitá-lo de muito bom grado – droga, como ele queria não gostar dela, mas ele simplesmente não conseguia, adorava aquela ira explosiva.
– Não foi um desafio. Foi o anúncio de um massacre.
– Por que tanto ódio de mim, Driane? O que eu fiz a você?
– Se forem se matar então irão fazer isso bem longe daqui – a voz rouca tirou ambos da onda de violência que entravam e logo observaram o Coletor surgindo visivelmente indignado – Não aceitarei tamanha infantilidade em minha casa.
– Não precisa se preocupar, mestre – grunhiu a garota – Iremos resolver isso logo e assim que acabarmos a peça reconhecerá quem é o verdadeiro Exorcista aqui.
E logo a dupla resolveu tudo aquilo. Tinham cruzado o lago com a magia de gelo do Coletor e chegaram ao outro lado carregando a arma que haviam selecionado previamente. Driane com um arco, uma aljava com doze flechas e um punhal. Daan vinha com sua espada de aço na cintura e não nas costas como sempre fazia e o punhal de aço de Bonham.
Tinham fechado o pacto rapidamente, quem vencesse teria a vida do outro para si para o que quisesse e para sempre. O gamuriano achava aquilo tudo ridículo, mas não iria recusar um duelo contra ela. Não podia perder aquela chance. Se a derrotasse talvez pudesse mentir para si mesmo dizendo que também então seria de derrotar aquela outra. E também havia o outro motivo.
O velho acendeu uma pira com sua magia e logo ambos fizeram um leve corte na palma de suas mãos deixando o sangue cair. Agora haviam realizado o que o povo chamava de o Pacto pelo Fogo e uma vez tal pacto selado jamais poderiam dar para trás. O ex-Exorcista então curou o ferimento na mão de ambos para não prejudicar o combate e então partiram. O vencedor seria decidido por quem desistisse antes ou ficasse inutilizado.
O Coletor encarou a ambos e olhou nos olhos do seu jovem Irmão de Ordem e ao observar aqueles olhos notou suas reais intenções. Então contendo um sorriso bateu o cajado que carregava no chão e deu-se inicio ao combate.
Driane correu com a aljava nas costas rumo as árvores e Daan não deixou de se surpreender com a agilidade e habilidade com que ela subiu o tronco pegando em galhos que pareciam ser aleatórios mesmo ele sentindo que não eram e cravando o punhal em pontos específicos para auxiliar na subida. Antes mesmo que o Exorcista pudesse raciocinar a garota de cabelos encaracolados havia sumido na copa das árvores. Havia começado o combate e para não perder tempo o pardo começou a se mesclar nas árvores também:
– Tenho medo de como isso pode acabar – comentou Tytus sendo acompanhado por um balançar de cabeça de Ioleu concordando lendo as frases escritas.
– Eu não – disse o velho agora exibindo seu sorriso – Será bom para Driane este embate.
– Não teme pela vida de Daan?
– Não me faça rir. Conheci o Mestre dele e se ele foi capaz de merecer a peça dele em apenas cinco anos duvido que ela poderá vencê-lo.
Na verdade o Coletor não acreditava que ele mesmo pudesse vencer. Talvez no seu ápice por volta dos vinte e cinco anos, mas não aos vinte quando começou. Se aquele garoto realmente aprendesse mais runas e dominasse o poder de seu olho talvez pudesse se tornar o Exorcista mais forte em séculos:
– Concorda comigo, bom bardo? – indagou o ex-Exorcista e recebeu um riso como resposta.
– Já vi meu colega em ação e duvido que algo humano possa derrotá-lo num combate de igual para igual, mas não sei as habilidades de sua pupila então não falarei nada.
– Sábio. Mas ainda assim duvido de sua derrota. Se ele aprendeu o estilo de seu falecido Mestre não pode ser derrotado num combate de espada.
– O mestre dele era tão bom assim?
– Um dos melhores quando em atividade. Sem dúvidas entre os melhores do século e dono de um estilo de espada único criado a partir do estudo de diversos estilos não apenas deste lado do mundo, mas também de Gamuria e até de Han Go Dan.
– Han Go Dan? O lendário arquipélago do leste onde dizem ser o primeiro local ao ver o sol surgir e onde contam existirem armas de longa distância que atiram projéteis de metal e não flechas?
– Sim, lá mesmo. Os espadachins de lá dominam técnicas incríveis e ele conheceu alguns dos estilos provenientes de lá. Não sei se em cinco anos o garoto foi capaz de aprender tudo, mas se dominou pelo menos a base do estilo então apenas os monstros sobrenaturais são capazes de enfrentá-lo de igual para igual.
– Quando lutamos contra a bruxa não vi nada disso.
– Tente usar técnicas contra uma bruxa e será morto enquanto pensa em qual. Contra monstros estilo de luta não é o mais necessário, são bestas e devem ser enfrentados principalmente com força bruta e poder, por isso nossas ervas e magia.
– Então por que o treino com a espada?
– O caminho da espada não nos ensina apenas a lutar, seu tolo. Ensina-nos a ter disciplina, a controlar nossa fúria em momentos de crise. A medirmos a mortalidade de nossos atos. E é bem útil quando se tem que lidar com humanos indesejáveis. E não é como se o estilo de luta fosse inútil. Só necessita de uma preparação muito grande que a maioria de nós não é permitido ter antes do serviço. Agora vamos retornar a casa, pois tenho cartas a escrever e o combate mesmo já decidido o campeão ainda pode demorar.
– Devia acreditar mais em Driane, mestre – falou Tytus ainda surpreso com a velocidade na qual o seu mestre era capaz de escrever o que falava e o que os outros também falavam só para Ioleu poder entender o que se passava, nunca cansava daquilo mesmo com todos aqueles anos.
– Acredito nela, garoto. Na verdade a superestimo. É por isso que acredito que ela vai perder e não ser morta.
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