O Exorcista
18 Capitulo 18
Notas iniciais
O jantar era uma combinação de um gordo faisão com uma série de legumes e grãos cozidos. Como bebida havia um suco feito da mistura de frutas para todos com exceção de Daan que bebia cerveja escura. O alimento tinha acabado de ser preparado e estava deliciosamente quente, tudo feito por Driane que tinha deixado assar antes do duelo.
Era possível sentir no ar a raiva da garota de cabelos cacheados por não ter podido terminar seu duelo da maneira como gostaria mesmo enquanto comia. O gamuriano apenas ignorava aquilo e comia em paz uma enorme coxa coberta de deliciosas ervas e um molho branco que ele realmente queria saber a receita por trás, tinha um gosto que lembrava o sabor de vários queijos ao mesmo tempo e era gostoso demais. Ele duvidava que ficasse tão bom assim em outro tipo de comida sem o acompanhado das ervas. Talvez com massas desse certo. Mas sem dúvidas não com carnes.
Já terminavam de comer quando o Coletor se uniu a eles. Restava apenas restos de frango e um punhado de grãos, além de alguns pedaços de cenoura e batata cozidos. O velho sentou-se a mesa e ninguém comentou nada enquanto ele preparava seu prato e pegava a jarra de cerveja:
– Nem pense nisso – falou Tytus pegando a jarra da mão do velho enquanto Ioleu enchia seu copo de madeira com suco – Tem que cuidar da sua saúde, mestre. Não é um adolescente como nós. E o senhor mesmo já disse que não gosta de álcool, até nos batia quando provávamos.
– E ai se vê a injustiça do mundo para com seus filhos – brandiu o velho, mas ainda assim bebendo o suco – Eu que tanto fiz pela criação sou sentenciado a velhice enquanto diversas pessoas nascem cheias de juventude e as desperdiçam com idiotices irrelevantes. Além de ser julgado pelos pupilos que eu deveria julgar.
– Claro, injusto. Então não aumente a injustiça sendo leviano com essa idade.
– Que seja – o homem comeu um pedaço do frango e suspirou de alivio pelo sabor – Está ainda melhor que o habitual, Driane.
– Obrigada, mestre – disse a garota finalmente fazendo uma feição diferente da de raiva que Daan conhecia e não podia negar que adorou o sorriso que ela fez – Mudei um pouco a combinação das ervas dessa vez e deixei o molho um pouco mais aguado dessa vez, bom saber que foi do seu agrado.
– Driane tem mãos absurdamente habilidosas seja para o combate ou para a cozinha como deve ter notado, jovem Exorcista. E por algum motivo dessa vez ela caprichou, jurava até que fosse para impressionar alguém mesmo que ela mesma não tenha notado – a garota ficou tão vermelha que parecia uma pimenta e causou um riso de seus dois colegas de treino.
– Notei, Coletor – comentou sorrindo o gamuriano e tentando não gerar mais ódio e vergonha nela – Poucas vezes comi algo tão bom e não lembro de lutar com alguém tão habilidoso e voraz com exceção de meu falecido Mestre.
– Sim, ela é muito boa. Mas não tem o mínimo pingo de habilidade para as runas. Até hoje não despertou o poder da magia em dez anos de treino.
– Mestre! – a reclamação da garota foi calada pelo simples erguer de mãos do velho.
– Não a problema em falar com o Exorcista sobre isso, talvez ele possa até mesmo nos ajudar. Demorarei a escrever todas as cartas necessárias, mas já terminei cinco delas explicando toda a situação e falando sobre o ponto de encontro e a data. Tem uma cidade próxima das ruínas pelo que deduzi pelos mapas, ela deve ficar a quase dois dias de viagem das próprias ruínas, mas é a mais próxima que achei e escolhi lá como local para se reunirem.
– Não vejo problema algum nisso – falou o pardo concordando com a cabeça.
– Então poderia continuar o favor que pedi mais cedo? Enquanto termino todas as cartas necessárias, que garanto terminar antes do que prevê, treine meus pupilos no necessário e garanto que eles podem ensiná-lo a usar algumas runas novas.
– Bem Ioleu e Driane já são excelentes guerreiros, falta apenas a eles experiências na prática real e isso só obterão saindo daqui. Mas posso ensinar vários movimentos novos e úteis a eles e treinar Tytus.
– Excelente.
– Se me permiti dizer acho que a melhor coisa que poderia fazer a eles é deixá-los irem. Tudo que o senhor poderia ensinar já foi ensinado e não vejo nada tão novo assim a ensiná-los. Falta só a boa e velha pratica. É isso que acho tão mortal, mas ainda assim útil, no treinamento da Ordem. Você aprende andando ao lado de outro Exorcista, estando lá para auxiliá-los nos trabalhos. Na mesma época em que eles começam a envelhecer e começam a se tornar mais fracos que o habitual. Não vejo forma melhor por mais que não negue que o trabalho que presta aqui em sua casa é útil e bastante incrível. Consegue treinar muitos mais e numa velocidade bem melhor. Mas acho necessário que a partir de certo momento eles sejam liberados para andar ao lado de outro Exorcista, do qual herdarão o colar.
– Só impressão minha ou isso me soou como se quisesse criar uma espécie de escola para Exorcistas?
– Não realmente. Sei que algo assim não ocorreria porque um Exorcista deve sempre estar em missão sem jamais parar a não ser após trinta anos. Ou seja, como professores só poderia haver aposentados. Mas se no futuro mais conseguirem se aposentar então sim, gostaria muito que houvesse uma escola para a Ordem. Nossos números diminuem a cada dia e o senhor deve saber disso melhor do que eu.
– Sim. Na última atualização que tive soube que estamos reduzidos a noventa e três de nós.
– Quinze medalhas sem donos? – Daan não pode deixar de se surpre-ender, nunca antes na história houve tão poucos Exorcistas na história.
– E apenas cinco em minha posse. Dez perdidas por ai.
– Deixe que seus pupilos partam então. Se tornarem-se dignos, duas dessas medalhas virão ao encontro deles. É sempre assim. Como se fosse mágica ou o próprio destino.
– Entendo seu ponto e sempre tive essa ideia. Talvez se mais Exorcistas ouvissem isso mais deles buscassem se aposentar e não simplesmente deixar a vida deles se acabar. Três ou quatro por geração seriam mais do que úteis.
– Com certeza. Nossa vida mesmo que busquemos a paz sempre será recheada de morte. Mas ainda assim é algo a se pensar.
– E garanto que vou pensar com carinho no seu conselho. Enquanto escrevo as cartas obviamente, já que nosso foco inicial é salvar o mundo e não nossa Ordem.
– Muito obrigado, Coletor.
O resto da refeição do velho foi em silêncio e após o final dela todos partiram para seus quartos. Com apenas uma indicação dos seus quartos por Tytus a dupla de convidados partiu para dormir. Além do quarto do Coletor havia outros quatro ali e para dar um local para a dupla de convidados dormir os dois outros rapazes forem dormir no mesmo quarto aquela noite e quantas outras eles passassem ali. Duas novas camas foram improvisadas em cada quarto permitindo assim que dormissem ali sem problemas.
Daan e Bonham arrumaram suas coisas ali no pequeno local, o cômodo era realmente apertado e parecia ainda menor quando havia duas camas ali:
– Quer unir as camas? – o ruivo riu de sua própria pergunta e recebeu apenas um suspiro como resposta.
– Passou o dia em silêncio. Pensei até que estivesse doente.
– Por um momento até me senti mal. A surdez de Ioleu é algo que me incomoda muito. Sou um músico como bem sabe, Daan. Vivo da música e de como ela afeta os homens. Seja de maneira boa ou ruim. Sempre que vejo alguém que sofre de surdez um incômodo quase que espiritual me atinge. Só em imaginar um mundo sem música ou som tenho vontade de provocar.
– Assim é o mundo, Bonham. Nem todos nascem inteiros. Alguns vêm cegos, outros aleijados. Muitos sem as faculdades mentais. A criação é assim. Não existe justiça na mãe-natureza e tolos são os homens que buscam algo assim nela. A única coisa que podemos fazer é lutar contra isso e nos adaptar.
– Para um lutador como você é fácil falar. Eu sou um músico, um artista. Minha forma de lidar com a criação é outra. É sofrendo e pondo para fora minha dor e minha frustração com minhas habilidades.
– Enfrenta uma bruxa e viaja com um Exorcista, é bem mais forte do que pensa.
– Adoro que me bajule, continue – o ruivo riu e outro apenas deu de ombros provocando mais risos ainda – Você e seu dar de ombros.
– Não reclamo dos seus risos e sorrisos, não é?
– Sou uma pessoa feliz oras. Estou vivo e sadio podendo fazer e ouvir minha música. É claro que vou sorrir e rir a vontade.
– E eu sempre tento não me importo com as coisas então sempre dou de ombros – novamente risos e dessa vez ele não controlou um sorriso – E não estava o bajulando, estava falando sério. Você é muito forte, Bonham. Só não percebeu sua força ainda.
– Sabe que se continuar a falar assim vou ter que dormir com você enquanto grito o quanto te adoro, não é?
– Controle-se, controle-se. Estamos como convidados e não numa estalagem em que pagamos muito bem.
– Outra coisa sobre você, as palavras repetidas. Quantas vezes já não começou frases repetindo a palavra inicial?
– E quantas vezes já terminou uma frase com “não é?”? – os dois caíram sentados nas suas respectivas camas rindo, cada vez mais o Exorcista agradecia pelo bardo ter sido insistente e ter vindo com ele. Era uma companhia mais que bem vinda e agradável – Não vai dormir comigo só por me fazer rir.
– E o que mais vou precisar fazer? – então os dois riram novamente, é talvez só bastasse aquilo.
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