O Exorcista
15 Capitulo 15
Notas iniciais
As runas que formavam a palavra medo queimaram no ar e aos poucos os kubolds que antes avançavam começaram a se afastar. Daan sabia que não era um ato muito efetivo, mas precisava ganhar tempo para processar uma estratégia. Eram três deles para cada um deles, uma proporção mais que aceitável levando em conta suas habilidades, mas sabia que Bonham não teria chance contra um, imagine contra três. Teria que cuidar de pelo menos cinco deles e isso mudava tudo já que não gastaria sua massa azul de ervas com aqueles seres.
Um deles pareceu resistir a magia e voltou a grunhir com fúria nos olhos. No momento em que ele avançasse o Exorcista sabia que não demoraria para os outros também escaparem do efeito amedrontador das runas. Então ele tomou sua decisão.
A espada girou no ar após o gamuriano a arremessá-la para cima. No mesmo instante se utilizando de seus reflexos superiores ele atirou dois punhais de ferro. O kubold mais a frente não teve chance de se defender e tomou a arma bem no centro de sua cabeça e caiu no chão enquanto a outra se cravava na garganta de mais outro logo atrás. Ao verem seus dois colegas caírem os outros quatro kubolds avançaram em fúria libertos da magia branca.
No mesmo momento Daan agarrou a espada que caia e avançou descendo a arma num golpe preciso rasgando desde o focinho até o peito do adversário mais próximo dele. O sangue azulado das criaturas jorrou para cima e o pardo aproveitou para desenhar no ar a runa para fogo fazendo uma bola de fogo explodir na cara de outro kubold. Os outros dois atacaram então o moreno relaxou e simplesmente manteve um ritmo reduzido de combate. Não perderia nem para dois bons guerreiros quanto mais para duas feras como aquelas.
Com rápidos movimentos duas gargantas de kubold foram rasgadas espirrando sangue e quando o Exorcista se virou para ver aquele que tinha tomado a bola de fogo viu que Bonham dava cabo da vida dele cravando o punhal três vezes no peito da criatura:
–Eles nem se igualaram a bruxa – comentou o ruivo limpando suor que escorria do seu rosto mais pela tensão da situação do que por esforço e observando com cuidado sua roupa para ver se não estava sujo.
–Nada se iguala a uma bruxa – rebateu Daan guardando sua espada e recolhendo seus punhais, limpando antes todas as lâminas nas roupas dos próprios kubolds – Essas criaturas são fracas, é fácil enfrentá-las sem muito esforço contanto que saiba o que faz. Problemas mesmo são amaldiçoados do tipo metamorfo como lobisomens e aquelas que os criam. Os monstros são fortes e rápidos a um nível sobrenatural enquanto as bruxas têm suas magias que são perigosas demais. Se aquela desgraçada que matamos antes não tivesse usado aquela torrente de chamas tudo teria sido muito mais fácil, mas aquelas chamas verdes eram mortais não apenas ao corpo, mas também ao espírito então tinha que ser cauteloso.
–Compreendo isso, mas ainda assim fácil demais.
–Está reclamando?
–Pelo contrário. Agradeço aos espíritos por isso.
Logo os dois voltaram ao seu caminho deixando os corpos ali e não menos de meia hora depois avistaram seu destino. Ali no meio da floresta surgia uma enorme lagoa de águas azuis cristalinas.
No meio da lagoa se erguia uma pequena ilha e nela uma pequena cabana de madeira soltava fumaça por uma chaminé. A dupla amarrou ambos os cavalos numa árvore próxima do lago e observaram tudo a sua frente:
–Sortudo esse tal de Coletor – falou Bonham observando a casinha – É um local bem bonito e aparentemente calmo esse em que vive. Realmente parece um aposentado.
–Verdade – disse Daan tirando sua capa e colocando no cavalo junto de seus quatro punhais e sua espada de aço – Tenho que chegar até lá.
–E deixa eu adivinhar. Vai nadando? – o moreno não respondeu e pelo olhar que mandou o ruivo entendeu tudo – Acho que então vou ficar aqui mesmo sentado na sombra. Não vai reclamar, não é?
–Claro que não. Prefiro ir sozinho mesmo – então quando passaram um do lado do outro o punhal do bardo deslizou para o cinto do Exorcista e o pardo seguiu seu caminho rumo ao lago de costas para a floresta.
A poucos passos da água o barulho foi emitido das árvores e o gamuriano girou para o lado e para baixo com velocidade lançando o punhal no seu cinto na direção de seu parceiro cravando a flecha que iria acertá-lo contra árvore que ele se deitou.
Os cavalos relincharam com o ocorrido e então a espada de lâmina cheia de ondulações foi sacada. O moreno girava sua espada em mãos até que seus olhos acharam o que ele buscava e ergueu a lâmina no ângulo preciso. A luz do sol refletiu na lâmina e foi direto no seu alvo.
Com um grunhido de dor uma figura caiu de cima das árvores, mas por não ter produzido som nenhum devia ter caido sem problemas. Daan respirou fundo e correu na direção de onde sabia que o arqueiro deveria estar agora e no meio do caminho desviou de um punhal com um golpe de sua espada. Quem quer que tivesse feito aquele ataque saiu de sua posição, mas agora o Exorcista já estava próximo o suficiente para reconhecer qualquer silhueta inimiga e sabia exatamente para onde seguir agora.
Antes que conseguisse chegar as árvores uma nova figura caiu das folhas e dessa vez em cima dele. Por sorte o gamuriano rolou para o lado e quando notou estava num combate de espadas com um adversário bem habilidoso, mas não bom o suficiente.
Após uma rápida série de golpes o moreno conseguiu jogar o adversário para trás e recuou para próximo do lago onde não havia as sombras da floresta para impedir sua visão. Do meio das árvores então começaram a surgir três silhuetas.
Um deles era branco, com grandes cabelos negros caindo nos seus ombros e carregava uma espada enquanto limpava o suor que escorria de sua testa e tentava cair nos seus olhos azuis. Ao seu lado direito vinha um rapaz carregando seis punhais, um entre cada dedo de cada mão e com um cabelo negro cortado bem baixo como se fosse um guarda e com olhos escuros, mas mesmo com o cabelo cortado daquela forma o rosto fino entregava que era jovem.
Foi a terceira pessoa que mais surpreendeu Daan. Uma garota vinha por último portando um arco, com longos fios castanhos encaracolados, ela o fuzilava com seus olhos castanhos claros. Se ele tivesse olhado só para acima da cintura e abaixo do pescoço teria dificuldades em reconhecer o sexo, ela tinha seios pequenos cobertos pela camisa, algo que deveria auxiliar no uso do arco já que corpos volumosos demais nunca eram bons na hora de se manejar aquela arma. Não a toa existiam as lendas sobre mulheres guerreiras que arrancavam um de seus próprios seios para não prejudicar seu uso. Mas mesmo com a camisa não havia calça que encobrisse as grossas coxas e o rosto. Pelo que analisou rapidamente o bardo, a garota era a mais velha entre eles e ninguém ali deveria superá-lo em idade:
–Quem são vocês? – perguntou o Exorcista com Bonham se aproximando dele com o punhal em mãos.
–Meus pupilos e protetores, caro invasor – a voz era rouca e velha, mas ainda assim imponente e fez o moreno se arrepiar. Atrás dos três surgia uma silhueta corcunda e velha, com nenhum cabelo na cabeça e olhos tão semi-serrados que impedia de serem vistos. O gamuriano não havia sentido a presença dele.
–Você deve ser o Coletor.
–E você pelo colar que carrega é um Exorcista.
–Sou Daan e vim ao seu encontro com uma proposta. Este ao meu lado é Bonham, um bardo e colega de viagem.
–Uma proposta de que tipo?
–Uma que prefiro explicar com calma em sua residência se possível.
–Compreendo. Não se preocupe. Pode relaxar essa sua postura, ninguém lhe fará mal. Era tudo apenas um teste.
–Um teste que poderia ter matado a mim e a meu colega.
–Então é porque não teriam passado nele. Mas sobreviveram então pode parar de me encarar como se fosse me matar e sigam-me. Aceitarei conversar com vocês em minha casa – então desenhando runas no ar o velho começou a andar e atrás da dupla ambos sentiram o ar esfriar e quando se viraram ainda conseguiram ver a tempo a ponte de gelo se formar.
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