O Exorcista
13 Capitulo 13
Notas iniciais
Aquilo tudo era inimaginável demais para o jovem Exorcista. O conteúdo daqueles pergaminhos não podia ser verdade por mais que já o relesse pela terceira vez naquele mesmo dia.
A maior parte continha receitas de feitiços e como quebrá-los, alguns que ele mesmo acreditava não poderem. Mas o que mais o perturbava eram aqueles que ele reconheceu como algum tipo de carta escrita por alguma colega da bruxa. Elas trocavam frequentemente correspondências e seus conteúdos não eram em nada agradáveis.
Por diversas comentavam sobre os colares que já tinham consigo, coisa que Daan descobriu ser real quando achou três deles escondidos no fundo do baú em um recipiente muito bem protegido que ele precisou recorrer as runas para abrir.
Também havia descoberto algo muito interessante. Aparentemente a colega da antiga condessa era a bruxa que havia enfeitiçado o antigo marquês de Denna e o transformado num lobisomem. Aquilo era algo muito útil já que de acordo com os responsáveis pelo feitiço da licantropia a bruxa vivia em eterna viagem escondendo-se em florestas profundas sendo que pelo conteúdo das cartas ele podia prever para onde ela iria a seguir. A questão era que mesmo que partisse naquele segundo era inútil, eles não a alcançariam antes dela já ter partido para seu próximo destino. Mas se o conteúdo ali presente fosse verdadeiro ele também saberia qual era o próximo destino e pegaria não apenas ela, mas um Coven inteiro lá.
Havia se passado quase um mês que era um Exorcista e se havia previsto bem as datas das cartas daqui a duas luas cheias contando com a próximo que ocorreria em pouco mais de uma semana elas iriam se reunir em um amontoado de ruínas próximas de uma das fronteiras deste lado do mundo. Um grande ritual iria ocorrer e elas tentariam trazer alguma coisa para este mundo. Algum dos demônios presos no Abismo. E um dos ingredientes para isso eram os colares.
Depois de ler tudo aquilo o pardo precisava de um tempo para absorver seu conteúdo então resolveu sair para treinar um pouco. Fazia tempo que não se exercitava e não podia deixar suas habilidades se reduzirem um dia que fosse além do quê precisava testar seu ombro para ver se estava bom o suficiente.
Do lado de trás da estalagem Fim da Jornada ele puxou sua espada e começou a treinar diversos cortes e movimentos. O ombro ainda estava duro pela falta de esforço, mas aquilo era algo que resolveria com treino. Já sua mão esquerda estava perfeita, seus dedos não aparentavam ter perdido nem um pouco da mobilidade original. Algo que tanto sua espada quanto as damas com que dormiria iriam agradecer.
Enquanto cortava o ar com seus golpes e sua encenação de luta, Daan pensava em como faria a partir daquele ponto. Tinha que dar um jeito de avisar a Ordem sobre o que as bruxas planejavam, mas não sabia como. Era difícil reunir um grupo composto por eremitas. Então teria que recorrer ao único deles que permanecia sempre no mesmo local. O Coletor. Contudo se quisesse recorrer ao Exorcista aposentado e ter esperanças de reunir todos a tempo ele devia partir em no máximo um dia, tanto pelo tempo de viagem até o velho quanto o tempo de viagem de lá para as ruínas citadas nas cartas.
Não demorou mais no seu treino e logo retornou para dentro da estalagem onde encontrou um Bonham curtindo os últimos restos do desjejum e logo o acompanhou para terminar de uma vez os pães recheados e o leite:
–Acordando tarde como sempre – comento o moreno e o outro apenas riu terminando de comer.
–Posso acordar cedo qualquer dia, mas deve concordar comigo que hoje era impossível. Depois de ontem a noite eu estava exausto oras – o ruivo riu ainda mais e recebeu apenas um dar de ombros como comentário – Sei que não quer nada sério comigo, Daan. Não precisa se preocupar com isso. Entendo perfeitamente seus motivos. Garanto que também não quero nada com você, por mais que adoraria que fossemos mais do que meros companheiros de viagem a partir de agora.
–Não vejo problema nenhum com isso – o bardo sorriu de orelha a orelha com aquilo por sentir na voz dele que aquele dar de ombros não era tão frio quanto ele fazia parecer – Vamos ter que partir. Temos um grande trabalho pela frente.
–Descobriu algo tão preocupante assim com o material da bruxa, não é? – o gamuriano olhou ao seu redor para ver se estavam sozinhos e assentiu com a cabeça pedindo para falarem mais baixo.
–Algo sério, muito sério. Elas parecem estar preparando uma reunião em algumas ruínas muito distantes daqui. Tudo com o objetivo de trazer alguma das crias do Abismo.
–Um demônio? – por um momento cada fio de cabelo do ruivo se arrepiou com a notícia, o ar pareceu ficar mais frio, o leite azedo e o pão mofado. Era apenas impressão, mas ainda assim foi terrível.
–Sim, sim. E aparentemente elas terão um Coven inteiro lá. Você não deve saber, mas é assim que chamamos um grupo de bruxas. Normalmente composto por sete delas.
–Sete bruxas no mesmo local. Era óbvio que não viria algo bom disso.
–E não estarão sozinhas. Pelo que li haverá um feiticeiro lá com elas.
–Pensei que fossem uma lenda os homens capazes de usar magia negra. Deveria ser um dom exclusivo das mulheres.
–Sim, você está certo. Diferente da magia branca usada pela Ordem a magia negra é limitada pelo sexo do individuo. Mas existem lendas de homens capazes também de usar esses poderes arcanos obscuros e de acordo com as cartas um deles não só existe como está lá presente.
–Então sete bruxas e um feiticeiro?
–Cinco. Elas não sabem que a condessa e sua pupila estão mortas e contavam com ambas para chegarem ao número ideal que é sete. De acordo com as cartas o plano que teorizamos realmente estava correto e a pupila seria oficialmente iniciada nesse dia.
–Então não temos com o que se preocupar, não é?
–Não tenho tanta certeza. Logo elas devem descobrir sobre a morte da companheira, se é que já não descobriram, e irão dar um jeito de providenciar mais bruxas. Seja de outro Coven ou alguma nova pupila que não tem idéia do que realmente fará.
–E como vamos parar elas? Interceptar uma a uma até matarmos todas?
–Primeiro vamos nos reunir com o Coletor. Ele é o único Exorcista aposentado conhecido. Seu real endereço é desconhecido, mas sei por onde teorizam que ele vive. Ele deve manter contato com outros Exorcistas ainda então usaremos a influencia dele para reunirmos o máximo possível dos meus Irmãos e iremos ao combate.
–Uma reunião de Exorcistas. Só tinha ouvido falar disso em histórias muito antigas e grandiosas.
–E por um bom motivo. Não andamos juntos sem um bom motivo. Espero que esse seja um deles.
–Daan, o que reuniu outros Exorcistas.
–Mais um título?
–Quantos um ser em uma vida puder ter – o pardo apenas suspirou e abanou o ar com as mãos.
–Vamos voltar ao nosso quarto e fazer nossas coisas. Vamos almoçar aqui e então partiremos rumo ao nosso destino.
E assim aconteceu. Com suas malas feitas e a barriga cheia da agradável comida da Fim da Jornada a dupla partiu mais uma vez. Partiram rumo ao leste daquela vez, indo em direção ao pôr do sol e ao nascer de mais um trabalho:
–Tem ao menos noção de para onde vamos? – perguntou o bardo irritado por voltar a andar de cavalo tão rápido, no tempo que seu colega passara de cama pôde ficar longe do inferno que considerava o transporte eqüino.
–Sim, sim. Contam que o Coletor vive numa ilha.
–Mas as praias ficam para o leste.
–Numa ilha no meio de uma floresta.
–Algo assim existe?
–É isso que vamos averiguar. A floresta em questão é a Floresta de Givia.
–Já ouvi falar dela. Lá que dizem haver um grupo de kubolds a vários anos, não é? Sempre quis conhecer os seres que clamam serem descendentes dos dragões. A religião de Gamuria pode idolatrar dragões, mas nem por isso é a única parte do mundo onde eles são relatados como lendas. Em todo o mundo, até em Enlinar, temos histórias sobre eles.
–Não duvido. As lendas tão antigas e tão enraizadas nos espírito humano que praticamente todas as civilizações as possuem apenas com leves mudanças. A existência e o poder dos dragões é uma delas. E sim, essa é a floresta dos kubolds. Dizem que se instalaram de um lado da floresta e a atormentam desde então.
–Nenhum Exorcista nunca foi lá resolver o caso?
–De acordo com meu Mestre sim, mas todos que foram recuaram e nunca mais pisaram lá. Alguns dizem que foi um pedido feito pelo próprio Coletor para eles e todos acataram. Mas ninguém sabe dizer se é verdade ou não. O que importa mesmo é que é lá que ele reside e se ele tem a moral para dar ordens a outros Exorcistas então precisamos dele para reunir aliados suficientes.
A viagem demoraria ainda, quatro dias parando apenas para descansos ocasionais ou dormir e nenhum dos dois quis assumir que não gostavam da idéia quando ela também os forçava a sair logo da Fim da Jornada. O local os cativara de um jeito absurdo. E ainda assim partiram em suas montarias.
Então no meio do primeiro dia de viagem o bardo ouviu talvez a coisa mais surpreendente desde a história de vida do Exorcista e da confissão de sua sexualidade. Ele o ouviu assoviar uma canção:
–Posso saber que canção é essa? – Bonham realmente estava intrigado com a melodia, nunca havia ouvido aquelas notas e com sua excelente memória auditiva podia confirmar isso.
–É uma simples cantiga gamuriana – respondeu o pardo coçando a cicatriz em seu lábio e parando a cantoria – Minha mãe cantava para mim antes de dormir quando tinha medo do escuro e dos monstros que nele se escondem. Ela fala sobre Tibault e como ele nos protege com sua luz. Não lembro com exatidão da letra, mas acho que nunca esquecerei da melodia.
–Sabe tocar algum instrumento, Daan? Sempre esqueço de o perguntar isso e acho uma informação sempre importante a se saber sobre alguém.
–Para sua surpresa a resposta é um sim – o bardo não deixou de sorrir.
–Qual seria? O clássico alaúde? Ou prefere coisas mais exóticas como chocalhos e tamboretes? Ou nobres como liras e órgãos? Sei que não toca flauta já que eu que sou o bom com a boca de nós dois.
–Não precisava desse seu comentário – o ruivo apenas riu imitando seu colega com um clássico dar de ombros, mas com uma rápida troca de olhares ele perguntou se era mentira e o moreno apenas virou a cara – E só para lhe chocar o instrumento que sei também envolve sopro.
–É mesmo? – os olhos azuis do ruivo brilharam com a informação – Qual seria ele?
–Gaita.
–Gaita? – Bonham não deixou de se admirar, as gaitas pareciam instrumentos simples e dignos da plebe, mas alguém que dominava tal instrumento era realmente alguém muito habilidoso.
– Meu pai tinha uma e me ensinou a tocar desde cedo. Sabia diversas canções nela incluindo essa que o assoviei.
–Valorizo-o ainda mais agora que sei que toca um instrumento.
–O que me surpreende é que só o vi tocando alaúde até hoje por mais que me pareça alguém habilidoso com outros instrumentos.
–Nunca o vi vestindo mais do que essa cota de couro e usando a espada e atirando punhais nem por isso contexto suas habilidades de batalha – falou Bonham encarando o homem ao seu lado e rindo.
–Armaduras de metal não são boas para o nosso trabalho. Pesam demais para serem usadas por pessoas que precisam ser ágeis e cá entre nós não são tão úteis. Diversas feras rasgam metal tão fácil quanto a carne então usar uma armadura é apenas peso extra e mais problemas para tentar estancar um ferimento, além do fato de que a própria armadura poderia me ferir se estivesse avariada. O couro não pesa tanto e se a criatura não é nem sequer capaz de perfurá-lo o metal também não seria necessário. E qual a sua desculpa?
–Pura preguiça – o ruivo então riu novamente – E não brinco. Alaúdes para mim sempre foram mais práticos. Mas também não são o que sou melhor.
–Flauta?
–Quase isso – comentou o bardo rindo ainda mais e naquele instante o pardo não se controlou vendo o sorriso que se formava no rosto do companheiro – Falo sério. Os enlinares são divididos em classes determinadas pelo instrumento que mais dominam e lá na tribo tocávamos tambor, ocarina e algo que não conhecem neste lado do mundo, mas na tribo chamávamos de algo que pode ser traduzido aqui como berimbau que se resume a uma vara de madeira com uma única corda, mas garanto que é bem mais interessante do que soa. Eu era do grupo dos ocarinistas se é esse o termo correto, mas quando vim para esta parte do mundo quis me reinventar e ser alguém mais pratico para cortes então optei pelo alaúde.
–É realmente alguém muito habilidoso.
–Tento ser. Mas já faz três anos que não toco nada que não seja um alaúde. Se duvidar já estou muito enferrujado para o resto, mas só a um jeito de saber.
–Quando tivermos a chance me mostrara todos esses dons.
–Assim farei então.
E assim, em meio a cantorias, falatório e por diversas vezes até xingamentos a dupla seguiu seu caminho.
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