O Exorcista
12 Capitulo 12
Notas iniciais
–O que sabe sobre Gamuria? – perguntou o Exorcista respirando fundo, não gostava de sequer lembrar daquela parte de sua vida
–Não muito – respondeu com sinceridade Bonham – Apenas que todos vocês tem esse fenótipo tão característico. Nunca visitei o local
–Então é bom que eu comece logo deixando claro que nossas diferenças vão muito além da simples cor de nossas peles. Por mais que por aqui chamem Gamuria de reino lá não vivemos sob as ordens de um rei. Vivemos em coisas que chamamos de cidades-estados, cidades com sua própria autonomia política. Cada uma governada por um certo líder escolhido pelo método como o povo da cidade prefere. O termo Gamuria em nosso idioma significa apenas algo próximo de terra-natal. Quando perguntavam a um de nós da onde víamos respondíamos isso e interpretaram como se fosse um reino quando na verdade seria algo mais próximo de uma serie de cidades-estados.
–Muitíssimo interessante – pelo olhar dele Daan não duvidava que ele realmente tivesse achado interessante saber daquilo
–Também temos outras diferenças. Nossas moedas são diferentes das de vocês e, indiferente do governo, seguimos um único sistema financeiro por lá, algo que auxiliou a falsa ilusão de que somos um reino além do fato de nossos lideres das cidades-estados se reunirem com certa freqüência e elegerem um líder entre eles para regular as relações entre as cidades e manter qualquer conflito entre elas reduzido ao mínimo. Mas diferente de um rei ele é eleito por apenas um pequeno período do tempo e depois outro é escolhido no seu lugar. E o líder máximo é apenas uma espécie de chefe militar, ele não pode mudar as leis de um certo local e nem depor um líder.
–Seu povo é fascinante
–Se é. Mas outro fator que pode ter ajudado, e será meu foco inicial, é que diferente deste lado do mundo em que veneram diversos deuses e aparentemente a cada mais templos surgem para nós a apenas uma religião a ser seguida. Todos nós veneramos o deus-dragão Tibault. Ou pelo menos todos que lá vivem já que eu não venero deus nenhum. Entenda que para a história é necessário conhecer um pouco de nossos mitos.
–Adoro ouvir histórias novas, Daan. Não importa de que caráter sejam – pelo olhar de Bonham ele apenas queria que ele continuasse e assim fez
–No inicio havia o Ovo. E do Ovo brotaram os irmãos Tibault e Balf. Os deuses-dragões e gêmeos. Do sopro de calor de Tibault a criação surgiu numa explosão e tudo que cobre o firmamento se formou. Mas o universo criado mesmo sendo belo não tinha vida e vendo o enorme poder de seu irmão Balf teve uma idéia. Ele nada podia criar, apenas destruir, então usando de seu poder tentou matar a seu irmão para que seu sangue jorrasse pela criação e a vida pudesse proliferar. Tibault prevendo tal ato gerou com seu sopro seus primogênitos. Os dragões. E com seus filhos e filhas que eram tão numerosos quanto as estrelas eles mataram Balf. E assim, do corpo do irmão traidor, a vida surgiu, pois da morte também surge vida. Sendo uma entidade de morte a vida criada pelo sangue de Balf estava sentenciada a morte diferente dos poderosos dragões de Tibault que só conheceriam tal mal pela derrota e não pelo tempo, além de poderem gerar luz e fogo assim como seu pai. Assim surgiu nosso mundo.
–Esta dizendo que tudo aqui brotou do sangue de um dragão?
–Não estou aqui pra debater teologia ou a lógica de um mito de criação. Eles não precisam de lógica e mesmo que precisassem não a possuem. O importante é o que vem a seguir. Toda a criação se dividia em quatro elementos que a regiam e ao provarem do sangue do deus morto de cada uma delas vida brotou. Do mar todos os peixes e moluscos surgiram, além daqueles que por aqui chamam de sereianos, mas para nós são marids. Dos céus se ergueram as aves, os monstros alados e os sylphs. Da terra vieram todos os animais que aqui vivem ao nosso lados, nós, os homens, moldados a partir do barro mole e por isso tão moldáveis as diversas situações e aos diversos caminhos do bem e do mal, os anões, vindos da pedra e por isso tão firmes, vigorosos e diretos, sem jamais se corromper ou ruir perante mal algum, e aqueles do eterno verão, nascidos das árvores e tão longevos e belos como elas. E então, do fogo emergiram as salamandras e os ifrits.
–Hmmmmm...... – o bardo ainda tentava entender aonde aquilo iria dar, mas manteve sua reclamação aquele som já que ele pode ver o olho direito de seu companheiro brilhar ali no quarto por uma fração de segundos e manteve-se quietinho ouvindo
–Agora com um mundo tão cheio de vida surgiram os pecados e a corrupção e para impedir que sua amada criação fosse destruída Tibault enviou ao nosso mundo seus dragões em busca de manterem a ordem entre os quatro elementos. O problema era que o deus-dragão criou a luz e podia ver apenas o que dela emergia então não viu que das sombras vida também brotou do sangue de seu irmão. Da escuridão nasceram os demônios, entidades de puro mal que tinham como objetivo lançar as trevas sobre tudo e trazer a morte para todos já que nascidos dela e sem jamais ver a luz era apenas isso que conheciam. Assim começou o combate entre os protetores da ordem, os dragões, e os senhores do caos, os demônios. E após incontáveis anos a guerra conheceu seu fim. Os dragões foram levados a extinção restando apenas seus ossos que tantos reis se gabam de possuir e os demônios que sobreviveram foram aprisionados no Abismo da onde jamais sairão.
–Estou ainda tentando descobrir como isso vai resultar em você
–Paciência, vai entender o porquê de lhe contar tudo isso. Saiba que no meio da guerra os dragões e demônios não lutaram sozinhos. Os filhos de Tibault recorreram a aliados, ensinaram aos anões o poder do fogo e com isso eles forjaram suas ferramentas de metal para lutar a guerra enquanto para os filhos do eterno verão eles ensinaram o poder sobre o tempo para que pudessem viver além de qualquer outro povo e mantivessem a ordem dos selos que prendem o Abismo. Mas os demônios também tomaram aliados indo recorrer aqueles que foram ignorados. Aos homens eles ensinaram a magia e daí surgiram os primeiros Covens de bruxas. E também ensinaram aos ifrits tais habilidades, mas sendo seres de um elemento diferente a magia se manifestou neles de maneira diferente gerando verdadeiros monstros de corpos etéreos imateriais e capazes de fazer verdadeiros milagres e realizar os mais nefastos desejos transformando aqueles que cederam ao mal naquilo que chamamos de djinn – a palavra ficou presa na mente do ruivo, finalmente a citação aquela criatura que tanto o interessava – Então após o final da guerra ainda havia um conflito a ser resolvido agora entre os herdeiros daquelas raças. Os anões reconhecendo o potencial do meu povo os ensinou também a arte do fogo para que assim seus espíritos fossem iluminados e afastados do caminho da magia negra. Dizem que graças a isso nossa pele também escureceu pelas forjas e por isso somos tão diferentes de vocês deste lado do mundo além de não termos bruxas daquele lado. Não sei o que há de verdade nessa história, mas é um fato que é em Gamuria que as melhores forjas são realizadas, nem mesmo o melhor dos Exorcistas com a liga especial usada se iguala a mestre ferreiro gamuriano.
–E então chegamos a você?
–Sim, chegamos para o seu agrado. Mas antes é bom deixar claro que antes do final da guerra as pessoas tinham que dar um jeito de deter os poderosos e invencíveis djinns que diferente das bruxas não eram de carne então não poderiam ser mortos por armas convencionais. Então utilizando itens de metal imbuídos de magia vinda daqueles do eterno verão nós aprisionamos essas criaturas tão malignas. Seus recipientes então foram espalhados pelos cantos mais distantes do mundo para nunca serem achados novamente. E assim tinha sido por um longo tempo.
–Até que alguém achou?
–Exatamente. Um ladrão vindo de origens na pobreza foi capaz de pegar um desses recipientes, no formato de uma velha lâmpada a óleo e carregando poderes inimagináveis. Ninguém sabe como, mas o ladrão domou o djinn e usando de seu enorme poder se tornou o sultão de toda a sua cidade-estado e proximidades. Agora é o senhor daquele local a duas décadas e por algum motivo que ninguém compreende ele permanece lá sem jamais desejar mais do que aquilo mesmo tendo o poder para conquistar tudo. Então levados pela sede de poder diversos outros nobres foram atrás destes itens. E um único deles também obteve sucesso. Mas diferente de seu antecessor ele não conseguia abrir a lâmpada. Então guiado pela fúria, mas ainda querendo ostentar tal item, ele o levou até sua cidade e o usou como forma de suborno e acendeu a liderança do local. Foi nessa cidade em que nasci.
–Ora que interessante.
–Se você acha. Eu nutro pensamento bem diferente do seu. Minha família nunca foi rica, na verdade neste lado do mundo seriamos apenas comerciantes de pequeno porte, com o suficiente para vivermos longe da pobreza, mas também do luxo. Meu pai era um ferreiro mediano e também um fazedor de vidros enquanto minha mãe cuidava de nossa casa e da pequena horta que tínhamos. Acho que posso dizer que minha história começou quando tinha doze anos já que foi a idade de quando conheci a filha do líder da cidade.
–Hmmmm – Bonham não deixou de rir com o comentário já prevendo o que viria a seguir, mas pela seriedade que o rosto do gamuriano assumiu ele logo se arrependeu do que dissera e até pensara
–Ela era linda e fazia seu décimo quinto aniversario naquele mesmo ano. A mulher mais linda que já conheci em toda minha vida. E como era sedutora a desgraçada, podia deixar qualquer homem, novo ou velho, maluco por ela com aqueles seus movimentos e gingado. Quando dançava temíamos que até os deuses parassem para observá-la dançar e hipnotizar a todos os homens.
–Qual era seu nome?
–E importa? O nome do seu amado não foi relevante para sua história assim como garanto que o nome desta maldita também não. Mas se quer saber o nome de minha cidade eu posso revelar e era Kith.
–Daan de Kith então.
–Que seja, que seja. Nada de títulos, só a história. Todos os jovens do reino festejavam enquanto diversos homens em busca de sua mão começaram a surgir. Ela recusou a todos. Para uma mulher como aquela nenhum daqueles senhores pomposos e cheios de ouro era algo chamativo. Ela já tinha tudo que eles ofereciam. Ela queria algo mais. Na época eu e outros dois amigos formávamos uma equipe que apenas eram chamados pelo povo de Auxiliares. Fazíamos pequenos serviços e vez ou outra até ajudávamos os guardas a prender bandidos. Daquele jeito obtivemos várias moedas de ferro e até de cobre então papai nunca me proibiu de nada daquilo mesmo mamãe alegando ser muito perigoso para um jovem. Corríamos pelos telhados das casas, deslizando pelos becos, se escondendo nas sombras. E como éramos bons naquilo. Então durante as festividades resolvemos cometer alguns atos nem um pouco puros.
–Foram roubar os riquinhos que chegavam? – o riso que ouviu foi toda a resposta que precisava
–Sabíamos dos riscos caso fossemos pegues, mas assim que conseguimos a primeira bolsa com dezenas de moedas de prata a imprudência nos dominou. Estava quase a invadir o quarto em que um nobre dormia quando vi um vulto se mover nas ruas abaixo de mim, alguém andando sozinho naquele dia não devia estar fazendo algo bom. Todas as pessoas decentes ou estavam em casa ou estavam na festa dada no palácio. Então eu como alguém que também não estava fazendo algo bom resolvi seguir aquela figura. Logo notei que ela não tinha um destino certo e apenas andava pelas ruas observando as casas então resolvi surpreendê-la. Queria apenas dar um susto nela veja bem, nada demais, sequer iria roubá-la. Quando ia me aproximar pelas suas costas para dar o susto a idiota escorregou e caiu para trás em cima de mim. Rolamos pelo chão com ela gritando querendo se afastar de mim e eu apenas tentando calá-la para os guardas não nos pegarem e quando finalmente consegui no mesmo momento reconheci quem era. A tatuagem de rena que cobria os braços, o cheiro de ervas de excelente qualidade, a maciez de sua pele. Só podia ser uma figura, ainda mais com feições razoavelmente mais maduras que a minha.
–Tinha dado de cara com uma aniversariante fujona?
–Exatamente, exatamente. Na hora foi algo até interessante. Divertido. E a diversão só aumentou. Entenda, eu era um jovem de doze anos com o fogo da juventude já começando a queimar desejos em mim e ela era apenas o maior desejo sexual de todos naquela cidade. Não demorou para aproveitarmos a noite de uma maneira mais interessante. Mostrei a ela cantos que apenas eu conhecia, contei a ela história sobre as estrelas que cobriam o céu e o que representavam. E ali nas ruas da cidade ela me presenteou com alguns beijos e caricias. O suficiente naquela idade para ganhar qualquer jovem. Não nego que também pode ter sido culpa do sorriso dela. O sorriso mais lindo que já. Mais belo que qualquer constelação do firmamento....... Como deve prever logo marcamos novos encontros.
–O amor juvenil – daquela vez Bonham riu sem se preocupar em ser julgado
–Na calada da noite nos encontramos diversas vezes. Sem jamais ir até onde eu queria. Ela sendo mais velha e esperta era capaz de me submeter as suas vontades com facilidade e logo me vi sendo seu brinquedo predileto. Mas um brinquedo muito feliz em sua função recebendo os privilégios que recebia. E durante um ano ficamos naquele jogo nosso. Até que ela me veio com uma proposta. Ela precisava que eu pegasse algo. Veja bem, ela oferecia sua virgindade para um garoto de agora treze anos em troca do roubo de um item. Era claro que não recusaria. Quem recusaria ter a primeira vez daquela mulher? Eu deveria ter recusado. Mas obviamente que não. Não quando ela me chamava de lobinho como tanto gostava de me chamar. Nem temos lobos em Gamuria, mas ela disse que quando viajou para este lado do mundo quando pequena viu um e ele tinha os olhos negros como os meus e eu era forte e bravo como ele então eu era seu lobo – o bardo conseguiu ver descontentamento no olhar do colega, pela primeira vez entendeu porque o titulo de matador de lobos o afetava mais do que os outros – Bajulado e coberto de caricias. Como recusar?
–E o que deveria ser roubado? – tentou falar o ruivo cortando o mais rápido possível aquela linha de pensamentos que ele via entristecer seu colega
–A lâmpada do Djinn – novamente o olho direito pareceu brilhar como uma estrela rubra incomodando Bonham – Ela me colocou dentro do palácio e me entregou uma planta do local bem amadora, mas útil. Falou como ocorria a guarda do cofre real que era onde o item estava e me deu um agrado antes de partir. Um excelente agrado que apagou de minha cabeça qualquer provável “não” que poderia ter dito para uma idéia tão maluca.
–E você bom como é conseguiu a lâmpada, obviamente
–Sim, consegui. E levei até o quarto dela como prometi que faria. Era o dia posterior ao seu aniversario então a guarda ainda estava prejudicada pela bebida e festejos. Isso auxiliou o roubo mesmo que se fosse um ladrão qualquer jamais teria conhecido. Não posso negar que naquela idade já era melhor que o resto dos garotos anos mais velhos que eu em praticamente tudo. Mas teve algo que havia omitido dela e não sei o motivo. Quando peguei a lâmpada o djinn havia aparecido para mim.
–Esta brincando – os olhos do bardo brilharam com a noticia como se uma canção já começasse a surgir na sua mente – Quer dizer que ele era seu agora, não é?
–Aparentemente sim. De alguma maneira meu toque havia desfeito o selo e ele agora me servia, mas não tinha idéia do que fazer naquela hora então apenas pedi para ele retornar até sua lâmpada e fui para o quarto dela. Durante todo o processo de volta tudo me pareceu mais fácil. Desde que havia tocado a lâmpada meu corpo parecia diferente. Uma estática estranha percorria meus músculos e sentia como se o mundo ao meu redor estivesse diferente. Não sabia ainda, mas havia despertado o dom a magia. Algo que suponho estar ligado ao fato de possuir um djinn, mas nunca conheci o sultão que detém o outro para saber se é verdade.
–E o que ocorreu a seguir?
–Ganhei minha recompensa, oras. Assim que cheguei com a lâmpada até ela fui recebido com um largo sorriso. Ela me encheu de beijos e me jogou contra sua enorme cama. Soltava um risinho tão charmoso enquanto pegava a lâmpada e eu me sentia completamente extasiado ali. Ela tentou esfregar o recipiente para ver se o djinn saia, como contavam nas histórias era necessário apenas aquilo. Mas nada aconteceu e vendo o quão idiota e inútil era a peça ela a jogou para o lado. Ia comentar com ela que eu poderia fazer o djinn sair quando ela pôs seu fino indicador nos meus lábios e fez eu me calar fazendo com que eu me deitasse e relaxasse. Mesmo sem ter obtido o que queria ela havia visto a lâmpada e para ela apenas aquilo bastava então recebi minha recompensa.
–Dormiu com a garota então?
–Você sabia que isso iria ocorrer. Na verdade prefiro dizer que ela que dormiu comigo. Sempre tive minhas suspeitas, mas agora tenho certeza que ela tinha certos desejos estranhos, não que desse em particular eu reclame. Na verdade não lembro de nenhuma transa melhor. Ela fez questão de amarrar meus braços na cama para que não a tocasse durante todo o processo e me dominou durante todo o processo. E como era boa a desgraçada. Mesmo sendo virgem, como logo confirmei, ela sabia como se mexer e aquilo para alguém de treze anos era de um prazer inimaginável. Na verdade ainda hoje deve ser. Como disse não lembro de nenhuma melhor.
–Pegue por uma chave de pernas, Exorcista? – o bardo se permitiu rir ainda mais e recebeu apenas um riso como resposta
–A melhor que já tomei até hoje. Ela arranhava minha pele enquanto rebolava no meu membro e como aquilo era bom para um jovem que só conhecia o toque de sua própria mão. Eu fui ao delírio naquele momento. E quando ela finalmente viu que tinha alcançado meu limite de ejaculações riu da minha cara. Aos poucos então ela me libertou e ficou rindo de mim enquanto me seduzia andando pelo quarto. Estava exausto e coberto de suor, mas o olhar dela aliado aquelas curvas me fez cair no seu joguete e me pus a segui-la por todo o local. Devia ter dado ouvido aos boatos. De como ela manipulava as pessoas e já havia levado diversos guardas a prisão com argumentos que seu pai não contestou, mas todos sabiam serem mentirosos. De como até mesmo havia matado animais menores por pura diversão. Mas não. Pensando com a cabeça de baixo obviamente nunca daria ouvidos ao que diziam sobre ela. Então quando percebi ela que estava indo até a cama se deitando e se insinuando para que eu me aproximasse. Ergueu a fita que usou para me amarrar e logo notei que deveria fazer o mesmo. Por que temos que ser tão idiotas quando somos novos?
–Ela te enganou fácil assim?
–Obvio. Enquanto fazíamos tudo aquilo esqueci de algo importante. A guarda do local. Não tinha me tocado, mas provavelmente a ronda deles já devia ter chegado aquela parte do palácio e então quando finalmente havia prendido suas duas mãos e já brincava com seu corpo ela começou a gritar e não era de prazer. Estava gritando como uma maluca e por um momento a aleatoriedade do ato havia me deixado atônito até que meu cérebro processou que ela gritava pelos guardas. Logo quatro deles arrombaram a porta e entraram com cimitarras afiadas em mãos. Pânico me dominou e quando percebi estava no chão sendo chutado e via ela chorando no ombro de um dos guardas alegando que eu havia invadido seu quarto pela janela e agora a amarrava para abusar dela. Eles viram o sangue na cama então podiam provar que o ato havia sido executado. Estava acabado.
–Só pode estar brincando comigo que você dormiu com uma maníaca assim?
–Como eu queria. Todo aquele tempo ela estava apenas brincando comigo provavelmente me testando para ver se era bom o suficiente para roubar a lâmpada. Agora que tinha feito o serviço eu era descartável e sendo a lâmpada tão comum quanto qualquer outra a não ser por certas runas escritas nela ela poderia facilmente a esconder no seu quarto. Iria ser executado em praça publica por estuprar a filha do nosso líder e não havia nada que pudesse fazer.
–Por todos os deuses, que loucura.
–É, acho que loucura descreve o que acontecia. Quando percebi estava sendo carregado pelos braços para fora, não sem antes a própria garota furar meu olho direito com um punhal de um dos guardas fundo o suficiente para me cegar, mas não para atingir a parte interna de meu crânio. Ela gritava em falso choro e o guarda que a consolava teve que afastá-la para impedir que ela mesma me matasse. Podia ver um sorriso no meio dos seus lábios quando me ouviu gritar de dor e notou que realmente havia me cegado. Enquanto era levado, agora além de cheio de hematomas e sangrando também sem um olho, uma voz queimava dentro da minha cabeça. Liberte-me, ele dizia. Liberte-me e eliminarei a todos com exceção de você. E novamente dei ouvidos a alguém sem pensar direito. Sabia que a voz era do djinn e pensando em seus grandes poderes cheguei a conclusão de que apenas ele poderia me salvar daquilo. Com um simples pensamento o libertei de sua prisão e logo o verdadeiro inferno começou. Um mar de fogo surgiu nos céus e a figura imponente da criatura dominou o quarto. Tinha a aparência de um homem muito forte, mas careca e com uma singela barba que cobria todo seu rosto. Sua pele era vermelha como sangue e seus olhos por mais que tivesse anatomia humana eram claramente diferentes. Sua esclera era negra diferente da nossa que é branca, sua pupila era fina como a de felinos e repteis e sua íris era de um vermelho não natural.
–Assim como seu olho no combate contra a bruxa – comentou o bardo e recebeu como resposta apenas um aceno com a cabeça
–O djinn então soltou todo seu poder e fúria. Chamas explodiram por tudo, mas mesmo me tocando elas não me feriram. Ele realmente era fiel a sua palavra. E quando tanto os guardas quanto minha antiga amante residiam agora como amontoados de cinzas eu resolvi prender novamente o djinn. Mas pelo sorriso que a criatura exibia aquilo não era mais possível. Fugindo atravessando as paredes com seu corpo etéreo o monstro começou a espalhar o caos. Suas chamas e sua onda de destruição se espalharam por toda a cidade e em pouco tempo corpos queimados cobriam até onde a vista alcançava. Consegui com uma agilidade absurda para um corpo tão ferido escapar do castelo a tempo. Já conhecia todos os seus corredores e segredos então logo me vi do lado de fora vendo pessoas queimarem. Alguém tinha que parar aquela coisa antes que ela destruísse tudo.
–E foi você a fazer isso?
–Não sozinho. Meu Mestre estava na cidade. Ele não sabia explicar o porquê, mas tinha tido a vontade de ir até Gamuria e como nossa cidade era portuária era a melhor a se chegar com exceção das cidades da fronteira. A Ordem dos Exorcistas raramente trabalha longe desta parte do mundo e destes reinos, mas lá estava ele em Kith no meio de sua maior crise. Sabia que ele era diferente dos outros no momento que o vi em ação no meio daquele caos. Todos fugiam desesperados enquanto ele pulava com calma em meio as chamas e como senti inveja de sua coragem. Inveja tão grande que resolvi segui-lo. Por todos os deuses de todas as religiões como os jovens são idiotas. E olhe que ainda sou jovem.
–E eu não? – ambos riram por um curto momento e o pardo se permitiu beber um gole da cerveja que havia no quarto
–Então em meio ao caos eu acompanhei meu Mestre lado a lado. Ele se surpreendeu ao ver que era seguido sem problemas por um garoto, mas se isso o incomodava ele não demonstrou. Ele avançava desenhando runas pelo ar que pareciam protegê-lo das chamas e tomava o conteúdo de suas duas poções enquanto eu ia sem medo protegido pelas palavras do próprio djinn. Então quando percebi estávamos as portas do palácio e um imponente djinn se erguia do solo soberano e orgulhoso como um rei e tendo o líder de nossa cidade parado flutuando ao seu lado. Lembro então de pela primeira vez vislumbrar a lâmina da espada de um Exorcista e como amei seu formato, em como as curvas do metal pareciam me hipnotizar. Veja bem, se não fosse tão imprudente hoje seria um ferreiro como meu pai então as forjas sempre foram minha paixão depois das mulheres. Naquele momento soube que queria uma arma daquelas e ao vê-la em ação confirmei isso. Diferente do resto dos materiais que o djinn parecia atravessar como se não oferecessem resistência a espada o acertou em cheio e sei disso pela gosma magmática que escorreu e pelo grunhido de dor que a criatura soltou. Meu Mestre era forte naquela época e não tinha tantos cabelos brancos como no dia em que morreu. Mesmo sem o poder das poções em ação ele era visivelmente superior a qualquer guarda que já vi lutar. E quando pensei que o djinn viraria o combate as poções começaram a agir e se antes a criatura não tinha chance agora era uma certeza. Avançando pelas chamas desenhando runas e cortando tudo no caminho meu Mestre acertou bem no centro do djinn. Seu ponto fraco como descobri futuramente e então o monstro explodiu em chamas. A explosão havia sido intensa e jogou meu futuro Mestre para um canto enquanto sua espada foi para outro. O corpo do nosso líder havia sido reduzido a cinzas no meio daquele confronto e quando pensei que havia acabo a figura flamejante começou a se recriar sorrindo. Ele havia fingido sua morte e gritava a todos os ventos como ele havia errado seu núcleo por meio centímetro, só precisava ter cravado um pouco mais fundo. Então ouvindo aquilo e aproveitando que ele não me dava atenção peguei a espada do chão e avancei. Não era forte o suficiente para pular e acertá-lo onde deveria, mas foi o suficiente para afastá-lo de meu Mestre e trazê-lo até mim. Como diabos consegui sobreviver tantos anos sendo o suicida que era?
–Realmente uma grande questão. Sem mim pra cuidar de você e derrubar bruxas mutantes deve ter sido difícil
–Calado, Bonham – ambos riram um pouco – Depois daquilo o djinn se virou até mim. Ele não podia me ferir por ter dado sua palavra, mas ainda assim parecia pensar em como fazer isso. Minhas mãos tremiam e meus ferimentos doíam, mas me mantinha firme ali. Não podia fraquejar naquele momento. Sabia que de alguma forma o ser me testava, queria saber até onde aquele que o libertou iria para prendê-lo novamente. E fui até onde minhas forças suportaram. Avancei, mas diferente do que ele pensou não foi para feri-lo. Assim que notei a silhueta de meu Mestre do outro lado arremessei sem jeito a espada, não tinha forças pelos ferimentos e nem noção de distancia pela ausência de um olho, mas com maestria ele a apanhou e cortou o djinn pelas costas fazendo-o gritar de dor. Enquanto isso eu corri em busca de um local mais alto. Sem forças como estava precisava acertá-lo na cabeça para fazer algo de relevante. Algo me dizia que eu poderia feri-lo mesmo sem a espada. Talvez pelo fato de ter sido eu a libertá-lo, ou apenas era uma intuição juvenil. Não importa. O importante era que estava certo. Mas ainda assim precisava achar o local e vendo as paredes destruídas como estavam não seria difícil achar altura o suficiente para acertar aquela cabeça que pendia a mais de três metros do chão. Subi por entre pedras e buracos na parede até altura suficiente e quando notei que toda sua atenção pertencia ao meu mestre eu pulei em direção a sua cabeça. Estava a direita de seu corpo e cai com tudo naquele lado da sua cara com minhas mãos indo em direção ao seu olho. Cravei meus dedos da mão direita em seu orbe ocular e puxei para fora com tudo aquele olho sinistro enquanto me impulsionava para trás pisando em seu nariz. Não sei como diabos fiz aquilo, mas tanto arranquei o olho quanto quebrei o nariz do djinn extraindo dele gritos de dor.
–Você derrotou um monstro com poderes mágicos e capaz de queimar cidades em instantes com um pulo?
–Não acredito nisso até hoje também. Já disse que pode ter sido influencia do fato deu ter sido o escolhido por ele para usar seu poder e também o fato deu tê-lo libertado. Mas pra mim é tudo irrelevante, é fato que consegui tocar seu corpo etéreo mesmo sem a espada. Importante mesmo é que meu Mestre aproveitou aquilo e cravou sua espada no peito dele e daquela vez a criatura realmente morreu. No mesmo instante desmaiei rumo ao chão, estava ferido demais para me manter consciente por mais tempo e quando finalmente acordei dois dias haviam se passado. De acordo com Meu mestre mais da metade da cidade estava destruída e menos de um terço dos moradores haviam sobrevivido. Em meio aquela destruição ele não teve coragem de pedir recompensa nenhuma. Apenas pediu um local para ficar por um tempo e cuidou de meu corpo com suas poções e magia. Ele disse que nunca tinha visto alguém fazer o que eu fiz e só naquele momento reparei que meu olho direito estava enfaixado. Foi ali que descobri que tinha virado algum tipo de um experimento do meu próprio Mestre.
–Quer dizer que foi ele que pôs o olho ai? Sem o seu consentimento? – naquele momento Bonham realmente estava assustado, nunca teria pensado naquilo
–Isso mesmo. No começo pensei em ficar irado com ele, mas quando retirei as bandagens e vi que ele havia curado meus ferimentos não consegui odiá-lo. Ele havia salvado minha vida e viu no olho e na magia uma forma de tentar recuperar minha visão. Usar magia de cura para trazer meu olho de volta era uma possibilidade, mas no estado que meu corpo estava e levando em conta que ele também precisaria de magia para se curar ele tinha que fazer o mínimo de esforço possível. É muito mais fácil usar magia de cura para unir dois pedaços do que criar um novo. Caso perca um braço posso uni-los sem nem usar tanta magia assim, mas para fazê-lo crescer de novo vamos apenas dizer que é melhor se acostumar a ser aleijado.
–Minha nossa. Mas não havia risco de tal processo dar errado?
–Claro que sim. Transplantes mesmo executados entre humanos são suscetíveis a falha e a recusa do corpo caso as partes usadas não sejam do próprio corpo. Imagine entre espécies diferentes. Mas por sorte tudo deu certo. Eu só tive um certo efeito colateral que não era pensado por nenhum de nós.
–O olho continuou com parte da sua natureza original
–Sim, sim. Por mais que na maior parte do tempo ele pareça ser meu é normal ele assumir sua forma original constantemente além de ser bem sensível a magia como deve ser sendo o olho de um djinn. As vezes ele me dá problemas gerando uma dor absurda, mas ele também é útil já que tal dor só funciona quando ele reconhece magia. Além disso, quando ativo intensifica meus poderes mágicos e fortalece meu corpo. É muito útil no meu serviço de Exorcista.
–Já averigüei isso eu mesmo. Então quer dizer que está é a história de Daan, o matador de lobos?
–Toda ela. Não omiti nada. Vai usá-la para mais uma canção?
–Com certeza – disse o bardo rindo e pegando seu alaúde – Depois disso então o seu mestre o tomou como pupilo?
–Por ai. Ele disse que não podia deixar alguém com um olho como aquele andando por ai sozinho já que descobrimos logo que meus pais haviam morrido no incêndio que tomou conta da cidade. Tudo culpa minha obviamente. Não tinha um dia que não pensasse que perdi minha família e destruí tantas outras por culpa daquela mulher. Mas logo o Mestre me ensinou a pensar diferente. No meio de nossas jornadas ele me ensinava e quando notou que eu era bom o suficiente passou a realmente me treinar para ser um Exorcista, mas também me ensinou a ver diferente a situação. Como era tudo culpa dela e não minha. Que havia sido o desejo dela por poder e não o meu por carne que havia causado tudo aquilo. Que o crime era inevitável, mas por sorte eu o impedi de ser pior. Claro que até hoje não concordo com as palavras dele, mas ao menos consigo apaziguar a dor no meu peito usando a meditação que aprendemos com o Código, nos torna mais frios, mas também mais eficientes.
–Ai você nasceu então
–Não, Bonham. Ai eu renasci. Continuei com meu nome que foi dado pelos meus pais como uma forma de nunca esquecer meu crime e assim tenho vivido desde então.
–Depois de uma experiência como a sua eu teria ficado bem longe das mulheres
–Não sou alguém facilmente traumatizavel, algo útil no meu estilo de vida. E não vivo apenas de mulheres se é isso que pensa – os dois então trocaram uma longa troca de olhares e o ruivo não escondeu a surpresa – Sim, diferente da maior parte da população que se limita a uma opção de parceiro eu escolhi ambas, bardo idiota
–Não acreditaria se não fosse você a me falar
–Por que é tão difícil de acreditar nisso? Se tivesse se focado em mim e não nos outros nobres teria dormido com você aquela noite e não com a jovem que tanto me seduzia. Minhas palavras bastam ou precisa de outra prova?
Bonham apenas riu com o comentário e então trocaram mais um olhar e naquele momento o ruivo abriu um largo sorriso. É, talvez precisasse de uma prova mais concreta daquilo.
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