O Exorcista
11 Capitulo 11
Notas iniciais
Daan não deixava de sorrir observando todo aquele conteúdo. Pergaminhos, frascos e diversos utensílios. Tudo ali dentro daquele baú. A bruxa provavelmente nunca temeu ser descoberta sendo tão boa ilusionista então nunca precisou esconder tão bem assim seus equipamentos. Seu erro estando morta agora.
Tudo estava escrito na língua das bruxas utilizada em seus feitiços e em suas reuniões, mas como um Exorcista o gamuriano conhecia o idioma tão bem quanto qualquer bruxa:
–Esta dizendo que tudo isso me pertence? – perguntou o moreno recebendo apenas uma confirmação com a cabeça do novo conde
–Sei que não quer uma recompensa pelo seu serviço, mas ainda assim tanto o barão que teve a filha salva quanto minha esposa querem lhe recompensar e espero que aceite pelo menos tudo contido neste baú e as moedas que lhe serão entregues – disse com calma o nobre pegando uma sacola cheia de moedas de ouro, algo em torno de cem – São poucas comparado ao serviço que prestou, mas ainda assim é o que homem oferece além do alquimista que vem cuidando de você
–Por mim apenas aquele alquimista valia todo o esforço, mas se ele faz questão de mais não serei eu a reclamar. E agradeço muitíssimo pelo material, conde. Será muito útil em meu serviço e a minha Ordem
–Por favor, Exorcista, não me chame de duque. É o salvador de minha esposa e de meu condado, não só pode como deve me chamar pelo nome
–Então assim também faça, Brenno
–Assim farei Daan, o matador de lobos
–Por favor, nada de títulos. Ainda mais esse em particular.
–Sem problemas – falou o nobre rindo – Mas é assim que todos o conhecem, além dos outros títulos
–Maldito seja Bonham e suas canções
–Muito boas por sinal. Ele realmente é alguém talentoso que adoraria ter na minha corte, mas ele faz questão de continuar ao seu lado e recusou todas as minhas propostas e de outros nobres. Um companheiro assim não se acha em qualquer estalagem
–Tem razão – por dentro o rapaz media cada uma daquelas palavras, realmente tinha um bom companheiro
–Saiba também que é bem vindo em minhas terras por toda sua vida. Enquanto estiver aqui será tratado como o nobre que acho que merecia ser e não com o desprezo que sei com que foi tratado anteriormente
–Não preciso de tais júbilos
–Mas ainda assim são seus
Ambos então se abraçaram por um curto momento e se despediram. O Exorcista ia aproveitar que já se sentia bem e iria partir, a magia de cura mesmo por curto tempo havia sido efetiva e agora seu ombro não mais incomodava.
Com o auxilio de alguns guardas logo Daan estava pronto para viajar. Estava com roupas limpas e seu cavalo estava selada e pronto com o baú da bruxa e o ouro que receberá:
–Vai ser sempre assim, não é? – indagou Bonham – Saindo de uma cidade para outra sem nunca pararmos mais que alguns dias em um local? Fazendo serviços mortais sem fim?
–Exato, exato – respondeu o moreno montando em seu cavalo assim como o ruivo fez no seu – Algum problema?
–Pelo contrario, já estava era ficando enjoado de estar naquele castelo. Acho que posso me acostumar com isso
Então a dupla voltou a viajar. Seu destino era a estalagem Fim da Jornada. Iriam passar uns dias lá enquanto o Exorcista estudava os manuscritos obtidos por ele e logo depois partiriam novamente. Tinham chegado ao local com a noite já caída e apenas pagaram o valor já conhecido e foram para seu quarto. Não houve muita conversa. Apenas se alimentaram e foram dormir. O gamuriano precisava se alimentar e dormir direito antes da sua ultima sessão de magia de cura.
No outro dia, logo após o desjejum que era tão delicioso quanto se lembrava, ele voltou ao seu quarto e de barriga cheia executou a magia. Tinha sido doloroso e demorado e já estava com fome novamente, mas pelo menos seu ombro não era mais um problema e nenhuma queimadura permanecia no seu corpo. Tinha agora uma marca no ombro lembrando uma estrela de sete pontos, exatamente onde uma das garras havia se cravado, mas não era nada grande o suficiente para incomodá-lo.
Pouco tempo depois Bonham voltou do seu desjejum e sentou na cama em frente a dele encarando-o:
–O olho – disse o moreno suspirando e recebeu um aceno com a cabeça como resposta – Conte o seu e prometo contar o meu, dou minha palavra de Exorcista
–Não preciso da sua palavra de Exorcista, apenas da sua palavra como meu amigo – falou o bardo rindo – Como deve ter notado não sou tão normal assim
–Já tinha minha suspeitas, mas pensava que se limitavam a suas faculdades mentais – o ruivo não deixou de rir mesmo naquele momento
–Sou um enlinar, Daan
O gamuriano não era capaz de acreditar naquelas palavras. Conhecia histórias sobre os enlinares e nenhuma falava sobre bardos ruivos. O povo conhecido como enlinar era um grupo indígena localizado do outro lado do mundo, tão distante dos reinos quanto Gamuria. Eram conhecidos por serem exímios músicos e serem capazes de literalmente manipular os fenômenos da natureza com suas canções e seus instrumentos. Um povo muito pouco conhecido, mas com habilidades mais que buscadas. Muitos falavam que aquilo não passava de boatos, mas muitos estudiosos diziam se tratar de uma verdade. Não era nada parecido com qualquer magia, era algo ainda mais natural:
–Pensei que fosse contestar – comentou o ruivo rindo
–E ia porque não é possível alguém da sua fisionomia pertencer a uma tribo indígena característica por uma pele avermelhada e cabelos negros bem lisos. Até que lembrei do que fez no salão naquele dia. Aquilo obviamente é uma habilidade digna das histórias sobre os enlinares. Então como conseguiu habilidades como aquelas?
–Já falei, sou um enlinar. Por mais que não tenha nascido lá
–Explique-se
–Ninguém da tribo sabia explicar, mas aparentemente a filha do líder da tribo me achou na floresta. A filha dele não conseguia ter filhos então todos consideraram aquilo um presente dos espíritos. Os enlinares não veneram deuses, mas sim os espíritos ancestrais da mãe-natureza
–Sei disso, sei disso. Continue
–Então, bem, fui criado por eles e logo sou um deles. Era visto como especial por entre eles, com o poder do fogo dentro de mim. Como o fogo que brotava dos céus pelos raios e trovões eu também havia sido achado durante uma tempestade então para eles eu era o filho do raio. Um trovão em forma de gente e com o poder do fogo em meu espírito. E eles podiam não estar certos, mas eu realmente tinha um dom para a música. Meu som era superior a tudo como um trovão que repercute mais alto que qualquer instrumento. Logo não era especial apenas em aparência, mas também em habilidades.
–Um excelente músico
–Mesmo entre aquele povo que vivia para a música – disse com absurda franqueza Bonham – Mas não era tão bom quanto eles no uso dos poderes. O poder deles era proveniente de algo no próprio sangue deles, não saberia explicar, mas para eles é muito mais fácil.
–Mas ainda assim você era o melhor
–Exato. Com muito treino e habilidade eu comecei a recriar as habilidades deles assim como algumas pessoas conseguem inconscientemente. Conseguia manipular o corpo com música. Posso acelerar a recuperação de alguém como fiz com você mesmo que não saiba e por sinal tenha sido o real motivo de estar tão bem. Posso também afastar a dor, entre outras coisas. E até fazer aquilo daquela vez.
–Aquela onda sonora?
–Sim, mesmo que ela normalmente danifique o instrumento que use para executá-la então prefiro jamais usar. Diferente do que eles diziam eu não era capaz de usar chama nenhuma ou sequer gerar uma pequena nuvem de chuva, habilidade mais que bem dominada por eles.
–Mas é capaz de causar um belo estrago com aquela técnica
–Se você diz. Não é algo que eu controle bem e sempre sinto um desgaste absurdo ao usar. E por mais que minha música ajude, ela não chega aos pés da sua magia branca
–Não esperava que chegasse, mas ainda assim é inacreditável. Você tem idéia do quão fantástico é?
–Isso, me bajule. Adoro ser bajulado – comentou rindo o ruivo e Daan não conseguiu controlar um riso – Não estou brincando, adoro. E tenho total noção do quão exótica pode ser minha habilidade desse lado do mundo, por isso a mantenho muito bem escondida de todos. Mas achei que precisava de mim ali e confio em você para guardá-la. O conde por sinal nem deve lembrar, toda a tensão da situação, a morte do pai e daquela que ele achava ser sua mãe além do casamento apagaram qualquer informação inútil ou que fosse além do seu usual para focá-lo no essencial
–Não duvido. Mas como veio parar aqui deste lado do mundo?
–Fui expulso da tribo. Cometi um crime contra os espíritos e a natureza.
–O que quer dizer?
–Fui contra a ordem natural da criação, de acordo com eles. Agi como nenhum animal deveria, tirando a santidade do ato mais sagrado que pode ser praticado
–Dormiu com outro homem – o espanto no olhar de Bonham deixava claro que não esperava por aquilo – Por favor, já ando com você a tempo demais para notar que seus elogios são mais do que verdadeiros. Além do fato de poder notar como encarava certos rapazes na festa do marquês. E que ato é mais sagrado que a pratica do sexo? Muitas culturas antigas tinham isso, mas por algum motivo as religiões atuais tendem a repudiar o ato.
–É alguém bem atencioso e inteligente, Daan. E o único a dizer isso sem nojo escondido por entre o silêncio das palavras. Sei quando alguém mente ou esconde algo ao falar, sou bom com o som num geral. Não apenas música. Como disse sou bom em julgar alguém.
–Então foi expulso por ser um homossexual?
–Expulso não é bem o termo. Teria sido executado para falar a verdade, mas antes disso eles me expulsaram. Só que para eles ser expulso é apenas um termo para dizer que não sou mais um enlinar então não preciso ser tratado como um. Um povo que pratica poligamia e poliandria com tanta facilidade não deveria julgar alguém daquela forma só por escolher UM parceiro com o mesmo membro sexual. Mas de acordo com eles era mais do que justo. Nós alimentamos os nossos abaités com a semente de outro homem.
–O seu abaités?
–Ah sim você não conhece nossos mitos. Para um enlinar todos os humanos nascem com dois animais dentro de si. Representações do que eles chamam de familiar, um guia espiritual na forma do animal mais próximo da sua personalidade. Esse familiar dentro de nós está dividido em dois, um chamado Abaetê, que simboliza o caminho do bem e das virtudes, e Abaité, que simboliza o caminho do mal e dos pecados. Eles estão em eterno conflito para ver quem se tornara o nosso familiar e a única coisa que definirá isso é qual deles alimentamos melhor. Abaetê com atos e pensamentos bons, Abaité com atos e pensamentos ruins. Em minha defesa queria ter dito que apenas eu alimentei meu familiar com a semente de outro homem e não ele já que ele adorava ser o dominador. Mas não acho que fosse fazer diferença
–Seu idiota! Consegue levar algo a serio? – Daan não conseguiu deixar de rir um pouco e bater de leve no colega recebendo risos como resposta, mas logo o rosto dele ficou serio
–Garanto que sim, tanto que vou continuar a história. Depois de ser pegue fui preso e levado para uma prisão improvisada até ser executado no dia seguinte. Xingado pela mulher que um dia chamei de mãe. Aqueles que um dia me chamaram de enviado dos espíritos agora cuspiam no chão ao me chamarem de demônio. Engraçado como as pessoas te tratam diferente só por saberem algo novo acerca de você e algo novo que vai contra o que elas acreditam.
–Não consigo imaginar todo um grupo mudar o tratamento com uma pessoa só por descobrirem algo novo sobre ela. Sei que é real, mas prefiro não acreditar. Deve ser cruel demais.
–E é – por um momento Daan jurou ver uma lágrima escorrer, mas logo as palavras dele tiraram seu foco dali – Antes que qualquer mal me acometesse meu parceiro veio e me resgatou. Fugimos as pressas, mas nos alcançaram quando já fugíamos a dois dias e nos interceptaram no meio da floresta. Ele foi pego enquanto eu caí por acidente num rio. Não sei até hoje o que aconteceu com ele por mais que sinta que ele está morto.
–Uma pena. Pra mim é sempre triste ouvir uma história de alguém sendo julgado criminoso por alguém de sua mesma espécie só por ser diferente. Seja em cor ou qualquer outra coisa
–Mas por mais que tenha sido horrível teve seu lado bom – mesmo falando aquilo o gamuriano podia sentir a dor na voz dele e como seus olhos quase não controlavam as lágrimas, o ruivo era bem mais forte sentimentalmente do que deixava claro – Depois de cair no rio fui acordado por um grupo de aventureiros. Eles cuidaram de mim e me levaram até a civilização. Lá me reinventei. Dei a mim mesmo um novo nome, em homenagem ao dono da loja de música onde comprei meu alaúde que por sinal era um grande percussionista, e usei meu dom para a música como forma de ganhar a vida. Faz três anos desde aquilo.
–Tinha apenas quinze anos na época?
–Exato.
–Tantos anos vivendo numa outra sociedade deve ter sido um choque cultura muito grande vir para cá
–E como foi. Mas sempre fui bom em me adaptar. Aprendi rápido o idioma comum desta parte do mundo e achei meu papel nas cortes. Logo aprendi que neste lado do mundo também nutrem o mesmo preconceito, mas é somente a frente dos outros. Nas sombras muitos destes nobres casados e em noivados gostam é de outra coisa e frequentemente achei nos braços deles conforto. Sei que meu amado não se incomoda, como já disse éramos uma tribo poligâmica, o sexo nunca foi nosso critério para demonstrar nosso amor por mais que saiba que no resto do mundo seja assim e quanto mais paro para pensar mais concordo com isso. Também logo aprendi que diversos casamentos não passavam de formas de manter a imagem e que muitas das esposas sabem da verdade sobre os seus maridos. Algo que facilita muito minha vida. Duas até já assistiram o ato, uma por puro prazer em ver a cena e a outra porque o marido precisava gerar um herdeiro e simplesmente não conseguia copular com ela então aproveitou que iria ter seu orgasmo comigo e foi até ela para engravidá-la. Pelo menos desse lado do mundo pode se ser como se é contanto que se tenha dinheiro já que já tive o desprezar de ver um pobre ser apedrejado por dormir com outro homem numa vila. E assim vivi até encontrar você na marca de Denna, Exorcista. Agora vai me contar sua história?
–Prometi que o faria não é mesmo?
–Sim
–Então assim o farei. É bom que esteja pronto. Ela pode ser um pouco longa.
–Tenho todo o tempo do mundo.
Fale com o autor