O Exorcista
10 Capitulo 10
Notas iniciais
Daan tentou levantar, mas seu corpo pesava demais e uma mão empurrou seu peito para baixo com calma:
–Calminha ai, você ainda está em recuperação – disse uma voz já por ele conhecida
–Quanto tempo passei desacordado? – o pardo perguntou observando o ruivo que sorria de orelha a orelha
–Faz uma semana hoje. Já tinha dúvidas se ia levantar
–Não me subestime
–Jamais
Bonham riu baixinho e ajeitou seu amigo na cama pondo-o sentado. O Exorcista observou seu corpo. Todo enfaixado da cintura para cima e com a mão esquerda enfaixada e imobilizada:
–Diagnóstico, por favor – o ferido pediu suspirando pesadamente
–Dedos indicador, médio e anelar esquerdos quebrados. Ombro dilacerado e com dano a omoplata. Pequenas queimaduras por todo o corpo. O básico.
–Nossa – o moreno se esforçou para rir um pouco, quase não tinha forças
–Mantenha-se em repouso o máximo possível. Vieram médicos de fora cuidar de você
–As garotas – era só aquilo que importava para ele e o bardo não deixou de sorrir, mesmo ali sua preocupação era para com os outros
–Livres – Daan se permitiu sorrir mesmo que doesse – Assim que averiguamos ambas estavam libertas das maldições sem nenhuma seqüela aparente.
–Ótimo, ótimo
–Por sinal está quatro dias atrasado para o casamento – comentou rindo e oferecendo um copo de leite para o rapaz beber, algo que fez com auxilio – Nosso jovem apaixonado agora é o conde deste lugar
–Deve ter sido difícil para ele
–Mesmo quando se tem a história que ele sobreviveu a um combate com duas bruxas? – o ruivo mando uma piscadela e o moreno apenas riu – Deu trabalho, mas consegui terminar a balada sobre o ocorrido a tempo do casamento. Onde obviamente aumentei um pouco a participação dele
–E diminuiu a sua – pelo olhar mandado Bonham entendeu que não conseguiria fugir daquela conversa – Sei que tem seus segredos e não vou forçar você a me contar
–Quando falar o que é um olho de Djinn eu talvez lhe conte
–Isso é uma história para quando eu estiver melhor
–Assim como a minha
–Então antes que me irrite fale logo, aquela desgraçada está bem morta?
–Sim. Você cremou o corpo dela com aquele seu ataque. O mesmo ataque que resultou nas suas queimaduras, por sorte nenhuma delas estragou o seu rosto. Uma cicatriz pode ser algo charmoso, uma serie de queimaduras não.
–Não importo com aparências
–Mas eu e as moças que ouvem minhas canções sim, então é bom que sempre se mantenha belo.
–Se você diz. Quanto tempo ainda mais ficarei de cama?
–De acordo com os médicos não muito mais, só alguns dias. Sua recuperação foi rápida levando em conta o sangue que perdeu.
–A poção vermelha?
–Sim, por sorte nossa colega condessa não havia bebido todo o liquido e sobrou o suficiente para você. Mas acabei por diluir ele para render mais
–Não faz muito diferença. Só o enfraquece na verdade
–O importante é que não perdeu sua preciosa massa muscular. E não sei se vai gostar de saber, mas também o dei parte da que havia no baú
–Esperto. Devia estar longe de estar pronta ainda, mas era melhor do que nada. Preciso agora de comida, vou precisar de muita energia para usar minha magia de cura
–Vai usar magia agora, não é?
–Os métodos de cura usuais normalmente demoram muito e deixam diversas seqüelas nem um pouco bem vindas no meu serviço. Preciso da magia para que não sofra nenhuma seqüela e possa sair daqui logo. Pode providenciar MUITA comida?
–Posso. Mas vá com calma, não quero que desmaie de comer
–Não sou imprudente
–Imagine onde estaria se fosse
Daan apenas soltou um tsc em resposta o Bonham riu saindo aos poucos dali. O colega tinha que descansar ainda bastante antes de saírem dali.
O rapaz gostaria de ter passado mais tempo sozinho, mas logo chegaram criados carregando comida. Um amontoado de pães, leite quente e frutas lhe eram servidos junto de algumas coxas de frango e grãos cozidos. O moreno sentiu sua barriga tremer só ao sentir o cheiro do desjejum e logo, com calma, partiu para devorar tudo a sua frente.
Terminou sua refeição mais rápido do que imaginava, mas satisfeito. Bebeu um pouco da água que havia numa ânfora e sentou-se na cama com as costas apoiadas na parede. Começou aos poucos a desenhar os símbolos de cura, mas controlando bem a magia, tinha que ir aos poucos já que não sabia se os médicos que cuidaram dele tinham feito um trabalho decente e caso não tivessem feito ele poderia acabar ficando com alguma deformação nem um pouco bem vinda.
Grunhiu de dor enquanto sentia seu corpo se regenerar de maneira acelerada, mas precisava se manter firme ali. Iria usar a magia aos poucos já que confiava nas bandagens utilizadas, mas ainda assim isso não diminuía sua dor. já podia sentir sua mão esquerda funcionar aos poucos quando ouviu uma batida na porta e interrompeu o processo. Sua barriga tremeu de fome pedindo por comida mesmo tendo se alimentado a pouco tempo e pela porta entrou uma figura que o gamuriano demorou alguns instante para lembrar:
–Ao que devo a visita do barão? – indagou o Exorcista se ajeitando um pouco mais e encarando o homem que não lembrava em nada a figura furioso de antes
–Minha filha sofreu? – o olhar do homem mais velho era pesado e não tinha traço algum de fúria, apenas insegurança e medo
–Muito, como já deve ter sabido pelo meu colega
–Queria ouvir dos seus lábios. Ele disse que ela não teve uma morte calma, mas se limitou a isso. Não precisava que ninguém me falasse mais nada, alguém que foi deixada no estado em que ela foi só podia ter sofrido
–Veio aqui ter uma prosa tão dolorosa quanto essa com que propósito?
–Vim pedir perdão, Exorcista. O ofendi de uma maneira que deveria ser impensada para qualquer um independente da posição dessa pessoa. Nós nobres somos por diversas facilmente ofendidos e com não muito paciência, mas garanto que não eram minhas intenções e me odeio por isso.
–Ao menos se arrepende, barão. A questão importante é se seu preconceito nojento foi levado junto de sua filha – pela troca de olhares o rapaz sabia que a resposta era um não – Pode ir em paz se era apenas isso.
O homem então deu as costas e saiu do local enquanto Bonham entrava logo em seguida entregando ao colega algumas frutas que ele logo devorou:
–Estava vigiando? – perguntou o pardo e o seu colega apenas assentiu
–Mais pelo conteúdo da conversa do que para protegê-lo, os médicos que cuidaram de você foram enviados pelo próprio barão.
–Entendo, entendo. Ele deve ter se sentido um pouco culpado pelo ocorrido, mas no final continua o mesmo. O peso que sente no coração nunca vai acabar enquanto não for capaz de superar seus preconceitos de verdade
–Assim como todos os outros nobres. Por sorte nosso mais novo conde não é assim.
–Sim, Brenno é uma boa pessoa. Como foi o casamento dele por sinal?
–Tumultuado. Os nobres não aceitarem bem alguém como um conde casar com uma plebéia de origem tão humilde. Assim como o pai dele.
–Exato. Não duvido que a bruxa tenha descoberto a relação dos dois e a amaldiçoado para separá-los
–Mas por que fazer isso se ela já era uma condessa?
–Tenho minhas suspeitas. Ela provavelmente precisava de alguém mais manipulável ao lado do futuro conde então tirou a garota do jogo e o forçou a realizar a escolha da futura esposa.
–E por que amaldiçoar a outra?
–Tudo um plano. Como disse queriam que matássemos a bruxa errada para então a pupila dela assumir seu lugar. Ai provavelmente utilizando-se de hipnoses e ilusões elas passariam os próximos séculos vivendo enganando os condes daqui. Quando muito velhas fingiriam suas mortes e voltariam como jovens nobres em busca de se casar com o herdeiro e assim sucessivamente. Um plano audacioso e que poderia ter dado certo.
–Elas só não contavam com a aparição de Daan, o cremador de males
–Mais um título?
–Com certeza. Acostume-se, vai ter muitos outros ainda.
–Claro que vou – o gamuriano apenas se deitou em sua cama como resposta e o ruivo riu
–Já tem duas baladas completas. É um bom começo
–Como as chamou?
–Ainda sem nomes. Mas garanto que irei pensar em algo no futuro. Não sou bom com os títulos. Por sinal alguns médicos estão vindo lhe ver.
–Ficaram surpresos com minha rápida recuperação
–Já usou magia, não é?
–Se não suspeitasse disso não teria trazido as frutas – o bardo apenas deu de ombros imitando seu amigo e ambos riram – Por sinal são apenas médicos?
–Não. Soube que o visconde pai da moça enfeitiçada trouxe um alquimista também.
–Entendo. Isso explica muita coisa
–O que quer dizer?
–Não sinto tanta dor quanto deveria ao mover o ombro e meus dedos estavam em posições boas até demais. Médicos comuns não teriam feito isso de maneira tão boa ou tão rápida. Ele ministrou alguma mistura em mim?
–Uma pasta tanto nos ferimentos quanto nas ataduras usadas e lhe deu um certo liquido para beber todos os dias enquanto estava apagado. Fazia questão de todo dia beber um pouco para garantir que não era veneno
–Seu tolo. Poderia ter morrido
–Mas não morri. Apenas fiquei com o rosto dormente – o ruivo sorriu e soltou um grande riso – Não tem idéia do quão engraçado é ficar com o rosto dormente
–Maluco, maluco
–Mas feliz
Bonham saiu novamente depois de um tempo trazendo logo mais comida, apenas coisas leves como frutas, grãos cozidos e alternando entre leite e água. Se continuasse a se alimentar bem assim no final do dia Daan poderia usar sua magia novamente.
Pelo que o moreno pode notar nem sua espada e nem suas coisas estavam por perto. Apenas o colar continuava com ele pendendo ali no seu pescoço porque provavelmente ninguém teria a audácia de tirar a marca de um Exorcista dele. Mas sabia que tudo devia estar com seu colega então estava em boas mãos. Não sabia quando, mas agora confiava nele. Talvez por ter salvo sua vida daquela maneira tão inesperado. Ou por já ter o auxiliado tanto durante sua viagem e realmente não ser um estorvo.
Não demorou para um grupo de médicos entrar no loca. Eram em três, dois deles carregando a conhecida marca da Ordem Medica, a mascara com o nariz pontudo, e o terceiro com um cinto cheio de frascos e o gamuriano deduziu que aquele deveria ser o alquimista.
Nenhum deles reclamou dele estar consciente e sentado, apenas fizeram algumas observações, aproximaram gelados instrumentos metálicos do seu corpo e então começaram a sair surpresos ao ver o movimento perfeito de sua mão esquerda. O alquimista também refez suas bandagens do seu ombro já que a mão estava curada e quase não havia mais nenhuma queimadura no seu torso, as que restavam estavam bem menores e menos mortais.
Após saírem mais comida lhe foi entregue, aparentemente Bonham tinha deixado claro que ele estava acordado e precisa se alimentar com freqüência. Mesmo uma freqüência estranha a alguém que acabou de acordar depois de uma semana. Dessa vez um pernil untado com ervas veio acompanhado de grãos cozidos e finalmente bebia algo que não era leite ou água. A cerveja estava quente e ele agradeceu por finalmente tomar um gole de álcool, principalmente por ser uma cerveja daquela qualidade. Era uma cerveja escura e absurdamente calórica, algo que ele agradecia já que logo já estava pensando em usar sua magia novamente.
Após ficar cheio Daan resolveu se deitar e dormir um pouco, dormir auxiliava na recuperação e era bom dar uma distancia razoável entre o uso de uma magia a outra independente de qual fosse.
Por quanto dormia ele não sabia, mas podia notar pela luz que entrava pela janela e pela temperatura do local que já era começo da manhã então havia dormido pelo menos até o dia seguinte. Havia comida numa mesa próxima, um prato com pães e aveia além de um recipiente com água ainda gelada então não devia ter sido posto a tanto tempo assim.
Comeu com calma tudo aquilo e então escreveu as runas no seu peito sentindo a magia começar a agir. Teria ficado um bom tempo naquilo se Bonham não tivesse entrado no quarto suando frio, algo que assustou Daan:
–O que aconteceu? – perguntou o Exorcista desfazendo a magia e se levantando sentindo seu corpo forte o suficiente para isso
–Você não sabe, mas descobrimos um baú que suspeitávamos conter materiais pertencentes a bruxa
–O que?! – a revelação daquilo era grande e por um momento o moreno sentiu uma tontura, mas se manteve firme – O material dela?
–Sim e finalmente conseguimos abri-lo. O conde exige a sua presença urgente no seu quarto para averiguar tudo
–Diga a ele que eu já estarei lá
Ele não podia perder aquela chance. Poder estudar os materiais de uma bruxa podiam ser uma chance única de aprender como reverter maldições e até combater feitiços além do que poderia entender melhor os planos daquela figura tão poderosa. A sorte agora sorria para ele. Ou era isso que pensava.
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