O Estranho que Apareceu na Minha Vida
8 Festa, bebida e depressão
Notas iniciais
POV. Will
Digam-me vocês: o que se espera de uma festa de adolescentes de 15 anos? Eu respondo: Bebida, música alta, agarração, drogas e... acho que Nathaniel trouxe cogumelos e rojões também, mas isso é uma caso à parte.
Ok, quem olha pode até pensar: Essa trupe aí só tem 15 anos! Quem diabos eles pensam que são? E eu concordo, mas a maioria ali já era de maior e o resultado disso era só bebida liberada (isso até a polícia arrombar a porta com um chute e prender todo mundo, como aconteceu na festa do Kevin semana passada).
Enfim, era assim que se pareciam os lugares que costumávamos frequentar. No dia eu estava de mau humor, de muito mau humor mesmo. A lateral do meu rosto estava vermelha de um soco do meu padrasto. Meu erro foi tentar interferir em uma das brigas antes que minha madrasta fosse espancada, de novo, aliás. Acabei levando um murro na cara.
Saí batendo a porta, pisando duro o asfalto das ruas e pegando uma garrafa de uísque do bolso. O gosto amargo, familiar, fez meus músculos relaxarem um pouco, mas isso só depois do quinto ou sexto gole.
Sei que não devia, mas estava irritado. Se não me acalmasse ia arrumar alguma briga, apanhar ou bater, e acordar no dia todo dolorido em alguma rua de lajota por aí. Acho que é melhor beber e ficar na minha, não é?
Bah, tanto faz. Não acho que alguém se importe com meus problemas que não seja eu. Quando cheguei à festa as coisas já estavam animadas. Música eletrônica fazia o chão tremular e nosso peito vibrar, copos eram passados de mão em mão, jovens dançavam de jeito quase lascivo na pista e vários grupinhos estavam espalhados pelos cantos, alguns de casais se agarrando, outros pra venda de drogas.
–E aí, Will! -berrou uma voz alterada do outro lado do salão.
–Nate. -reconheci-o pela voz e pela aparência punk.
Nate era parte de um outro círculo de amigos que eu fazia parte, os mais barra pesada. Só pela cara já deu pra perceber que ele estava chapado.
O rapaz tinha dezessete pra dezoito anos e era um completo largado. Órfão de mãe e filho de um pai que abdicou de sua posição. O pai de sangue simplesmente desistiu dele, desistiu de tentar ser pai e caiu numa vida de dissipação. E Nate caiu na bebida e nas drogas com mais ou menos doze anos.
–E-Ei... Will, acho qu-que o mundo vai acaba', véio... tá tudo caindo, mano... -ele agarrou-me pelo ombro, suas orbes vermelhas arregaladas- Tem uns mano chapadão matando adoidado... A-Acho que eu acabei de v-ver o Osama Bin Landen de sunga!
–Acho que você é único que já viu essa cena — empurrei-o para longe, rindo- Não amola, Nate.
–É sério, mano! Eles tão fazendo um plano e...
–Sei, sei... -cortei-o- Manera na maconha, mano, você está drogado mesmo.
Deixei-o para trás, passando pelas pessoas com um ar de pressa. Até que encontrei meus amigos no meio daquele bando de drogados.
–WILL! –Marcos quase se jogou em cima de mim (de novo), passando o braço ao redor do meu pescoço, tentando me sufocar- Você demorou! Pensamos que nem vinha! –ele fez biquinho, parecendo um... esquece, prefiro nem dizer- Ia me deixar sozinho, gatinho? Olha que posso te trair com um dos bofes daqui mesmo.
Escutei alguém de trás de nós falar:
–Ai, saí logo do armário, Marcos!
Fiz uma careta, empurrando ele para longe e me virando para encarar... Amber (tirando a parte que tive de olhar pra baixo pra vê-la, é claro). Não era uma daquelas festas que as pessoas que vestiam ‘direito’ pra ir. Era do tipo que você ia com qualquer roupa, nada muito chique porque, convenhamos, é uma festa de malucos.
–O pessoal tá ali. –Marcos apontou para uma mesa.
Ali pude reconhecer Artie, Gabe, Yury, Isa, Bianca e mais uma garota que eu não conhecia. Sentei do lado de Isa, que só então percebeu minha presença.
–Ah, então decidiu vir? –ela sorriu, Artie, que estava enlaçando sua cintura, também- Essa é a Katie, amiga da Bianca -ela apontou para a garota sentada ao lado de Bianca- É solteira, viu?
A morena corou e eu revirei os olhos.
Por que os meus amigos sempre acham que eu preciso de namorada?
Fala sério. Não é que eu fosse um encalhado ou algo do gênero (eu acho), mas já lhes tinha dito que não estava querendo namorar naquele momento.
E é exatamente por isso que o Marcos fica dando em cima de mim; Pensei, revirando os olhos.
Katie parecia ser bem simpática. E era bonita também na verdade. Era magra e morena dos cabelos cacheados, seus olhos eram castanhos escuros e ela não parecia ser muito... Como posso dizer? Atirada. Na verdade parecia até meio conservadora.
Pelas conversas descobri que era amiga de Bianca do outro colégio e que pareciam, como é que as garotas dizem? BFF’s.
Não, acho que só o Marcos diz isso. Pensei de novo, quase falando em voz alta.
Não que fosse fazer muita diferença já que a música estava tão alta que eu mal ouvia meus próprios pensamentos.
Acho que, com a conversa e o vaivém dos copos, acabei ficando mais bêbado do que deveria. Sentia a garganta queimar do gosto de vodka e as luzes coloridas do salão girarem mais do que o normal.
Levantei cambaleante, sentindo vertigens só por estar de pé. Agarrei-me à beira da mesa.
–Will? –a voz de Bianca, preocupada, soou vaga aos meus ouvidos.
Achei que já estava na hora de ir pra casa, mas... onde eu morava mesmo? Nem sabia direito onde estava. Isso acontecia de vez em quando, eu acho, mas estava tão fora do ar que mal lembrava meu nome.
–Will! -senti alguém agarrar meu braço, ergui o olhar para encarar os olhos azuis cintilantes de Bianca, uma chama raivosa tarjava sua expressão- Onde está indo? Você... está bêbado! Não tem condições de ir a lugar algum!
–E-Eu estou bem...-dei-lhe um sorriso embriagado- V-Vou... pr-pra casa...
–Como? Mal se aguenta em pé!
Dei-lhe as costas, ignorando-a completamente. Dei mais um gole da garrafa que sempre levava no bolso, empurrando as pessoas a minha frente e tropeçando nos meus próprios pés. A voz de Bianca me dava sermões, o que estava realmente me irritando. Saí dali com a cabeça pesada, mal me aguentando em pé.
As ruas estavam praticamente vazias, mal iluminadas. Os postes jogavam raios tênues sobre o concreto escuro, trazendo à tona a apatia e frieza de mais uma madrugada na cidade.
–Droga, Will! -gritou Bianca atrás de mim, irritada- Quer se matar ou o quê?
–Por que se importa? -devolvi, ficando bravo- Achei que me odiasse!
–Não precisa levar tudo o que eu digo ao pé da letra! -ela cruzou os braços, sua pele pálida fazia sombras debaixo da luz fraca- Você tem problemas, Will.
Dei uma risada trôpega, soltando a garrafa na rua e cambaleando em sua direção.
–Você é quem me diz isso? Eu sei, merda! Sei de tudo isso! Quer que eu faça o quê? Pare de beber? Mande meus pais adotivos pararem de brigar? Volte para o orfanato? Dá um tempo!
Ela pareceu chocada por momento, depois de recompôs.
–Todo mundo tem problemas, não vai resolver os seus assim!
Ri de novo, aproximando meu rosto do seu.
–Está tentando me jogar na cara que sou um alcoólatra fracassado? Boa jogada, é verdade. Eu TAMBÉM já sabia disso! Você não tem o direito de mandar em mim. Vai cuidar da sua vida!
Ela se empertigou, o rosto vermelho de ódio.
–Está bem! Vou parar de tentar te ajudar!
Antes que ela virasse para ir embora agarrei seu braço, surpreendendo-a. Nossos rostos estavam muito próximos, eu sentia seu cheiro doce e seu pulso acelerado. Os lábios entreabertos de susto e os cintilantes olhos azuis fitando-me com choque.
–Você diz que me odeia... mas agora está aqui, preocupada comigo. Decida-se, Bianca do 502, o que você sente por mim?
Não sei o que estava pensando na hora, estava simplesmente embriagado. O rosto dela ficou completamente vermelho e ela desviou o olhar para o chão. Dois segundos se passaram sem que Bianca respondesse, então ela se livrou do meu braço usando sua força.
–Não fale besteiras. -cortou-me, cerrando os punhos.
*****
Quando cheguei em casa tudo estava de ponta cabeça. Havia roupas espalhadas pelo chão e uma mala vazia, coisas quebradas se espalhavam por todos os lados, abajures, cadeiras, porta-retratos.
Suspirei. Charles, meu 'pai', estava sentado à mesa da cozinha, o único cômodo iluminado da casa. Em sua boca pendia um cigarro, em cima da mesa havia um isqueiro, um cinzeiro, um maço de cigarros pela metade e muitas bitucas já fumadas. Ele me olhou apaticamente, sua aparçencia era deplorável. Os olhos estavam vermelhos, veias se sobressaíam no rosto tenso, barba mal feita e despontada se espalhava pelo queixo, manchas vermelhas se espalhavam por suas roupas.
Mal me dirigiu o olhar, somente soltou um baforada de fumo e assentiu levemente. Passei pela sala arrastando os pés. Uma réstia de luz passava por baixo da porta, de onde ecoava um choro convulsivo.
Natalie deve ter apanhado de novo. Pensei, então olhei as roupas e a mala no chão Mais uma vez tentando fugir daqui. Desse inferno...
Observei a porta com mais atenção, percebendo as manchas escuras na madeira. Sangue. O mesmo das roupas de Charlie. Com um suspiro impotente me obriguei a continuar andando para o meu quarto.
Quando entrei fechei a porta de imediato, passando a chave. Joguei-me na cama, pegando outra garrafa cheia que guardava na gaveta e abrindo-a. Depois de mais um longo e amargo gole mirei o teto, que projetava sombras tremulantes pelo aposento. Dei mais uma virada na bebida, deprimido. Nunca conseguia afastar essa sensação depressiva por muito tempo.
–Por que não entro em um coma alcoólico logo? Seria... bem mais fácil-resmunguei para mim mesmo, sozinho naquele mundo de bebida e violência- Seria menos doloroso.
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