O Estranho que Apareceu na Minha Vida
9 Segredos e viagem escolar?!
Notas iniciais
POV. Bianca
Acordei com meu velho amigo despertador acabando com meu sossego. Ah, um dia eu ainda vou jogar essa coisa na parede! Completamente sonolenta consegui a proeza de cair de cabeça da cama tentando desligar aquela porcaria, o que conseguiu me acordar rapidinho. Que ódio! É foi assim que começou minha maravilhosa terça-feira.
Levantei do chão praguejando baixo. Minha cama já não parecia tão tentadora, e eu sabia que se deitasse lá de novo não ia levantar tão cedo. Com um suspiro resignado fui ao banheiro, despindo-me e entrando direto debaixo do chuveiro quente.
A banho foi ótimo. Acho que saí de lá parecendo mais viva do que estava quando acordei. Saí bem mais relaxada, renovada se assim posso dizer. Em compensação estava atrasada. Que legal. E lá se vai meu bom humor temporário. Enfiei-em dentro das primeiras roupas que vi, que eram uma calça jeans azul clara, uma regata carmesim, um casaco preto leve e sneakers pretos.
Não tinha tempo sequer para comer, na pressa joguei a mochila por cima do ombro e peguei um pirulito de morango do bolso, tentando afastar a fome. Saí o mais rápido que pude em direção ao ponto de ônibus, pensando que se perdesse o meu chegaria atrasada com certeza.
Por sorte (ou mero acaso) cheguei bem a tempo, sendo a última a embarcar. Suspirei aliviada quando as portas se fecharam, minha respiração estava ofegante e meu corpo, dormente. Tanto que fui pega completamente desprevenida quando alguém agarrou meu braço, puxando-me para um dos bancos.
–Mas o que...? -levantei os olhos, pronta pra amaldiçoar quem quer que fosse quando reconheci o sorriso acima de mim.
Como poderia confundir aqueles cabelos loiros bagunçados e os olhos escuros que viviam tirando uma da minha cara? Era ninguém mais ninguém menos que um dos delinquentes mais irritantes da minha nova escola. Gabe.
–Gabe, se estava querendo me matar do coração lamento dizer que não conseguiu. -resmunguei, fazendo seu sorriso se alargar ainda mais.
–Ah, que pena. Na próxima eu consigo.
Dei-lhe uma cotovelada, bufando.
–Bem que eu disse que pegava o mesmo ônibus que você. -relembrou ele- Cara, eu detesto isso. Como as pessoas passam tanto tempo dentro desses trecos?
Dei de ombros.
–Se não gosta de ônibus por que não pega um táxi?
–É... temporário. -ele recostou-se no banco, pondo as mãos atrás da cabeça- Estou de castigo.
Encarei-o incrédula.
–Você?! Por quê?
Seu olhar ficou frio e quase me arrependi de perguntar.
–Ah, você não vai querer saber. Digamos que eu acabei sendo preso e arrumei uma bela confusão.
Fiz uma careta, afastando-me automaticamente dele.
–O que fez de tão grave pra ser preso? E como assim dirigir? Você sequer tem carteira?
Ele riu baixo da minha expressão assustada.
–Eu tenho carteira. Acredite ou não loirinha, mas já tenho dezessete anos. E uma ficha criminal bem curta se quer saber.
–Ainda não entendo por que você foi parar na cadeia.
O olhar escuro de Gabe nublou-se um pouco, como se lembrasse de algo que queria esquecer. Suas mãos cerraram-se em punhos sobre os joelhos e eu podia jurar que ele estava tremendo de ódio. Então um suspiro trespassou seus lábios e ele forçou um sorriso vacilante.
–Não se preocupe com isso.
Franzi o cenho desconfiada, mas decidi não perguntar nada. Gabe conseguia ser bem assustador quando queria, e isso não era nem a metade. Parece que ainda remoesse o motivo de ter sido preso, e eu confesso que estava muito curiosa para saber qual foi.
Antes que percebesse já era o nosso ponto. O loiro não proferiu palavra alguma durante o resto do trajeto, sua expressão estava fechada, nebulosa como céu de tempestade.
Descemos ainda num clima meio tenso, meio forçado. Ele pegou a mochila e a pôs sobre um dos ombros, andando devagar através do portão de ferro. Fui atrás dele enquanto nos encaminhávamos para a sala.
–Ei, vocês fizeram amizade assim tão fácil? -perguntou uma voz conhecida atrás de mim.
–Ah, oi, Amber! -cumprimentei a menor com um sorriso, já Gabe nem se virou para ela, ignorando-a.
Ela veio em minha direção fechando a cara para o loiro.
–Vieram juntos? -indagou, falando mais comigo do que com ele.
–Nós pegamos o mesmo ônibus para vir pra escola. Moramos perto. -expliquei, vendo Gabe continuar andando para a sala sem olhar pra trás- O que deu nele?
Amber estalou os lábios e revirou os olhos.
–Nem se incomode, ele é assim mesmo.
Mas seu olhar se voltou para o mesmo irremediavelmente, de algum jeito pude ver, de um modo bem singelo, tom ínfimo e inegável de preocupação em seus olhos.
Esses dois... O que drogas andam fazendo pelos cantos? Pensei, franzindo o cenho.
–Mas e aí, o que deu em você ontem? -indagou Amber, interrompendo minha linha de raciocínio.
–Hum, como assim?
–Ué, você sumiu. Foi atrás do Will e depois simplesmente desapareceu. A ainda chega na escola com o Gabe. -ela me deu um sorriso malicioso- Que isso, garota!
Corei levemente só de imaginar o que ela estava insinuando.
–Não é nada disso! Will é um idiota mesmo e Gabe...
–E Gabe...? -atiçou ela, ainda com a voz cheia de segundas intenções.
–E Gabe é um problemático. -completei, ajeitando a mochila sobre os ombros- Nenhum dos dois faz o meu tipo.
Ela riu alto da minha expressão irritada, voltando a caminhar em direção a sala.
–Ele com certeza é problemático! Mas se eu fosse você não teria esperanças de encontrar alguém menos encrenqueiro por aqui. Esqueceu? Somos um grupo de delinquentes juvenis!
Bufei, seguindo-a até as mesas.
–Uma delinquente juvenil que se auto proclama problemática. O que é você, uma rebelde sem causa?
–Isso não importa! -Amber se jogou na cadeira, sorrindo- Mais importante: se nenhum dos dois é seu tipo então... como seria?
Mordi o lábios inferior, sentando ao lado dela meio hesitante.
–Eu não sei... Acho que alguém legal, que me tratasse bem e que tivesse algo em comum comigo.
Amber desatou a rir ainda mais alto, como se eu tivesse contado a melhor piada do século. Quando parou de rir tinha até lágrimas no canto dos olhos.
–Meu deus... quantos anos você tem? -ela balbuciou, cobrindo a boca com a mão- Achei que diria algo mais específico, não pensei que você fosse assim.
–E o que seria algo específico? -indaguei, arqueando a sobrancelha.
Ela fez muxoxo e se inclinou por cima da mesa.
–Ah, sei lá... Tipo... 'Ah, eu quero um que seja gato' ou 'Alguém que tenha pegada!' –ela riu ainda mais e eu joguei a cabeça para trás, incrédula.
–Acho que você está me confundindo com o Marcos. -reclamei com um sorriso.
–Ah, mas a nossa Mar divosa é um caso em especial. -relembrou ela, fazendo rir junto.
–Como assim?! Estão blasfemando no meu santo nome pelas minhas costas! -ouvimos a voz do garoto na porta.
E de fato ele parecia ter acabado de chegar. O vulto de uma mochila voadora passou pela minha cabeça em direção a Amber, que desviou mostrando a língua para o moreno, que lhe respondeu com um biquinho emburrado.
–É treta! Vocês duas são umas traíras, sabiam? -ele sentou em cima da minha mesa descaradamente, cruzando as pernas- E olha que essa aqui só me conheceu ontem! Estou até vendo como isso vai acabar!
–Como? Com nós duas apoiando a campanha 'Mar Divosa sai do armário'? -provocou Amber, recebendo um chute de volta.
–Eu saio quando quiser, ok? Insensíveis. -resmungou ele(a) (vai saber?)- Mas vocês já souberam?
–Do quê? -questionei, entrando na conversa.
Ele deu um largo sorriso, parecendo satisfeito.
–A nossa viagem de campo foi antecipada para depois de amanhã! Não é o máximo?!
–Caramba, sério?! -Amber levantou da mesa com os olhos brilhando de ansiedade- Que demais! Essa vai ser a segunda melhor viagem do ano!
–Viagem? Que viagem? -perguntei, confusa.
Os dois olharam para como se eu fosse uma alienígena (?).
–Você ainda não sabia?! -engasgou Marcos, estupefato- Todos os anos temos uma viagem no começo do semestre. Um retiro, uma saída de campo, qualquer coisa que promova a 'interação social e companheiros entre os alunos'. -ele fez as aspas no ar com os dedos- E essa é uma das melhores viagens do ano!
–Mas depende do lugar onde a gente vai, né? Não podemos esquecer disso. -Amber virou para mim com uma expressão séria- Os primeiros anos das unidades do colégio tem um sorteio sempre um dia antes da viagem para determinar o local aonde vamos. Pode ser tanto uma praia na Califórnia como uma expedição numa caverna, quem sabe? E essa é a parte legal! Os sorteios! Nunca sabemos onde vamos parar.
–Ano passado fomos no lago, né? -comentou Marcos, sorrindo- Cara, espalharam uns rumores sobre aquele lugar, os veteranos diziam que todos que entravam lá se afogava e quase ninguém quis nem pôr o pé na água. Foi hilário!
–Ah, é verdade! -Amber riu- Jogamos a July no meio do lago, lembra? 'Me ajudem, me ajudem, eu sou bonita demais pra me afogar'! -ela imitou a voz da líder de torcida lamentando-se- Eu deveria ter filmado aquilo!
–Parece que vocês se divertem mesmo nessas viagens. -murmurei, sorrindo de canto.
–Pra caramba! Ei, você vai também, não é? Quero uma cúmplice nas pegadinhas desse ano!
–Eu? -surpreendi-me- Não sei se é uma boa ideia.
A verdade é que eu nunca antes participei desse tipo de atividade escolar. Não por falta de oportunidade, mas por não ser autorizada a esse tipo de coisa. Minha mãe costumava ser muito super protetora, isso ainda antes da doença, e tinha medo que qualquer um sequer chegasse perto de mim, o que impediu que eu fizesse muitas coisas enquanto crescia. Já quando ficou doente vi-me incapaz de deixá-la sozinha em casa por muito mais do que algumas horas. Acho que nesse tempo os papéis de mãe e filha se inverteram, porque era eu quem me preocupava com ela. Acabei estando sempre alerta sobre suas mudanças de humor, dando-lhe remédios quando ela esquecia de tomá-los, tirando-a da cama quando não conseguia levantar. Assumi o papel de mãe e como consequência de tal fui obrigada a amadurecer muito cedo. Acho que a preocupação com ela nunca foi injustificada, afinal olhe como tudo acabou. Por isso, de certo modo, ainda me culpo pela morte dela. Acho que... se eu fosse uma filha melhor, não teria deixado acontecer.
–Bianca? Oi, oi, acorda aí. -chamou Amber, acordando-me dos devaneios- Você 'tá ficando cada vez mais parecida com o Will.
–Mais idiota? -perguntei, sentindo-me ofendida.
Amber riu.
–Não foi o que eu quis dizer. Acho que o certo seria dizer que parece mais distante.
–Foi mal. -desculpei-me desleixadamente, esfregando o rosto com a mão- Mas enfim, essa viagem é depois de amanhã?
–É. Você vem ou não? Acho que o Will adoraria te ver lá. -insinuou ela, com o mesmo tom de malícia na voz.
–Provavelmente ele gostaria mais que eu sumisse daqui. -segredei-lhes, suspirando.
–Então é ainda melhor! Conto com você nas pegadinhas desse ano?
Pensei por um segundo e não vi razões para recusar. Fazia muito tempo desde de minha última viagem e atormentar Will certamente seria um bônus (isso se não tivesse o efeito oposto). Dei um sorriso confiante para Amber e assenti.
–Conte comigo.
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