O Espaço Entre Nós
2 A relatividade da loucura

Eu ainda não acreditava que estava realmente fazendo aquilo. Minha mãe só podia ser louca e eu estava ajudando essa loucura dela. Isso era ridículo.
— Pegou tudo? – Perguntou ela pela vigésima vez.
— Peguei... Eu preciso mesmo ir? – Fiz corpo mole. – Isso é loucura!
— Precisa sim! – Gritou. – Muita coisa depende disso! Eu vou explicar mais uma vez: você espera até as dez e cinquenta para entrar no avião. Você vai saber quem são e o que fazer quando os vir.
— E se não aparecer ninguém? – Não ia aparecer.
— Vai aparecer!
Ela me empurrou pela porta e a trancou com força. Então era isso. Minha mãe me expulsou para ir atrás de alguém que pode nem existir, porque o cosmo a avisou. É melhor ela me recompensar quando eu voltar porque minha faculdade começa semana que vem.
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O aeroporto estava exatamente como deveria estar. Daqui a pouco o avião vai chamar e vou perceber o quanto isso tudo é ridículo; que minha mãe só está ficando louca. Tenho que começar a faculdade e deixar ela sozinha com pensamentos assim não era uma opção.
Olhei o relógio mais uma vez. Dez e quarenta e cinco. Nada de coisas inacreditáveis ou que me fizessem saber o que fazer.
Várias pessoas corriam apressadas para pegarem seus voos e eu ali parado me sentindo um trouxa. Não da para acreditar que estou fazendo isso. Olhei mais uma vez para o relógio só para ter certeza de que eu era um trouxa. Dez e cinquenta. Suspirei o mais fundo que pude e me levantei para ir embora. E no momento mais clichê (e eu odeio coisas clichês) eu vi aquela coisa loira. Mais bonita que todas as ricas bem arrumadas ali, ela se destacava.
Ela brigava com a mulher do check-in com uma cara feroz e rugas na testa. Duas mulheres e um homem estavam com ela. De onde eu estava não dava para ouvir o que falavam, mas dava para ver o quanto ela estava empenhada em conseguir o que queria. E avisaram que era a última chamada para o voo 2036 para o México.
Entrei naquela merda de avião rezando para ela estar sentada ao meu lado. Ao encontrar a poltrona sentei agarrando-me aos meus documentos olhando fixamente para o teto tentando fazer contato mental para que ela sentasse ao meu lado enquanto ela se aproximava. E eu consegui seja lá o que isso queira dizer.
—Bom dia. – Disse ela educada.
Eu estava ocupado demais a olhando para me concentrar em responder. Ela demorou a guardar a bagagem de mão e sentar. Estava com um vestido florido que marcava sua cintura e peitos. Não que eu estivesse olhando.
Ela olhou para mim e percebi que seus olhos eram de um castanho dourado lindo. Se o objetivo da minha mãe era me arrumar uma namorada ela acaba de conseguir.
— Oi. – Sorriu. Mas seus olhos pararam em algo no meu peito e sua expressão fechou. Enquanto ela encarava meu colar, percebi o quanto eu estava errado em achar que minha mãe é louca.
— Quem é você?
— Meu nome é... Kaya.
— Quem te deu isso? – Perguntou apontando para o colar.
— Minha mãe?
Eu gostava daquele colar. Era uma pedra redonda, com azul e roxo, que imitava uma nebulosa. Minha mãe dizia que eu precisava usar porque um dia ele ia mudar tudo.
Apertamos os cintos e esperamos a aeromoça dar as instruções para podermos decolar. A loira estava olhando fixamente para frente como se estivesse perdida em pensamentos. Depois de o avião estabilizar ela foi falar com as pessoas que estavam com ela no check-in. Mais uma vez não pude ouvir a conversa, mas ela parecia preocupada. Minutos depois ela voltou e parecia mais calma.
Sentou e virou-se para mim.
—Meu nome é Pandora... Por que você está indo para o México?
Demorei um pouco para pensar algo para responder.
—Passeio mesmo. Eu... Estou escrevendo sobre a cidade. Hehe.
Ela semicerrou os olhos.
—Mentira. Fale a verdade ou te mato quando pousarmos. – Avisou.
Porque estávamos tendo essa conversa?
—Não vou rir nem nada do tipo. Eu sei mais do que você imagina, acredite.
—Está bem. – Me rendi. – Minha mãe não me contou muito, ela é louca sabe... – Não havia maneira muito inteligente de contar isso havia? -Ela acredita que eu tenho que estar nesse avião hoje, que o mundo depende disso ou algo assim. Ela acredita em seres de outro mundo, não ET's, mas seres mais inteligentes, superiores sabe... Que algo muito importante está para acontecer e que eu tenho participação nisso. Ela devia me guiar hoje.
Por um momento ficou um daqueles silêncios constrangedores e eu queria pular da janela do avião. Ela fez aquele olhar imóvel em que parava para pensar de novo.
—Você gostaria de respostas? – Perguntou.
—Como assim?
—Sua mãe não é louca. Ela apenas... Tem um QI espiritual acima da media, vamos dizer assim. – Me olhou sorrindo. – Ela não é louca.
Ok... E eu sou o burro por não ter acreditado.
—Talvez você tenha grande participação no futuro. – Me olhou assustada. – Mas eu não sei.
—Não saber te assusta?
Ela franziu a testa pensando no assunto.
—Mais ou menos.
—Por quê? – Quis saber.
—Ter receio não é uma coisa com a qual eu esteja acostumada.
Certo. Então a garota perfeita que eu havia seguido em uma viagem para fora do país é mais estranha que minha mãe que me obrigou em ir a uma viagem para fora do país. Depois de tantos anos das maluquices da minha mãe eu havia aprendido a ser um pouco “mente aberta”, mas certas coisas fazem com que os aprendizados que a sociedade de senso comum impõe sejam mais fortes do que simplesmente acreditar em tudo. Mesmo que muitas vezes eu tenha presenciado minha mãe fazer coisas que eu não possa explicar.
—E o que você está acostumada a sentir? – Ignorei meus devaneios.
—Paz? – Tive a impressão que nem ela sabia direito. – Olha só, quando pousarmos eu explico tudo para você. Porque não é uma coisa fácil de conversar.
Ela virou-se para dormir, parecia incomodada com a situação. Não fiz nenhuma pergunta para não aborrecê-la.
Acordei quando pousamos na Cidade do México. Acompanhei-a na descida até a área de espera do aeroporto, as duas meninas e o cara estavam juntos.
—Estes são Levi, Lya e Ann. – Ela apresentou antes de ir fazer algo nos deixando sozinhos, mas Levi foi atrás dela.
Ann me abraçou e eu fiquei paralisado estranhando aquilo. Provavelmente com cara de bunda. Ela riu.
—Olha só – Disse ela. – Quando chegarmos, vamos te explicar tudo. Não leve a mal as caras que o Levi faz, ele apenas está com o relacionamento em risco. – Ann e Lya deram um risinho me escondendo algo. – A Pan parece um pouco intimidadora às vezes, mas vocês vão se entender. Pode acreditar. – Deu outro risinho.
A “Pan” alugou um carro e saímos de lá. A viagem durou um pouco mais de uma hora e meia. Um tempo extremamente tedioso porque fomos para fora da cidade e eu só via mato. Eu estava em um carro com estranhos, indo para um lugar isolado! Todos estavam bem sérios e ninguém puxava assunto o que me deixava um pouco assustado. O clima não estava dos melhores naquele carro. E só paramos quando chegamos a um tipo de pousada bem rustica, com detalhes em madeira e flores.
Eu ajudei com as bagagens que eram poucas e mais uma vez Pan estava fazendo o check-in. Fui direto para o meu quarto, simples, mas aconchegante. Tomei um banho demorado e bem quente antes de descer para o restaurante me encontrar com eles, que já estavam lá.
—Então... – Comecei – o que vocês me dizem sobre terem me trazido aqui?
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