O Escritor

1 Capítulo 1


Um escritor e sua estória.

Eu sempre fui muito curiosa sobre meu tio, cresci ouvindo estórias a seu respeito, de como ele foi do zero a cem em apenas um ano, de como se tornou o incrível escritor que foi, e principalmente de como conheceu quem veio a ser minha tia, Olivia. Eu tinha treze anos quando tudo aconteceu, não tenho certeza se foi por puro desinteresse ou minha rebeldia da época, mas minhas memórias do ocorrido são quase nulas. É como se todo o tempo que tinha passado com meu tio e sua mulher, tivessem simplesmente desaparecidos da minha cabeça, mas lembro bem dos gritos, das noites em claro por causa do seu choro, e de vê-lo enlouquecer pouco a pouco, dia após dia, até que não sobrasse nem sombra do homem que ele foi um dia. Não sei explicar o porque do meu interesse repentino nele e em suas estórias, mas ali estava ele, três anos após o ocorrido, na minha cozinha, como se o rotulo de doido que carregava na testa, nunca tivesse existido.

– Me encarar em silencio não vai nos ajudar a terminar tudo antes da hora Sophi – Ele disse em um tom amistoso, me arrancando do transe que me encontrava, e fazendo com que o meu rosto corasse. – Vai deixar um velho como seu tio com todo o trabalho pesado?

Por um minuto inteiro fiquei em silencio, gerando um desconforto notável. Havia sido pega desprevenida, como uma criança que observa um animal selvagem. Ainda sem graça, tirei os cotovelos da mesa e levantei-me.

– O senhor não é tão velho assim!

Respondi no mesmo tom, erguendo as mangas da blusa, e apanhando alguns vegetais que ainda precisavam ser lavados.

– Quantos anos tem mesmo?

– Dezesseis.

– Nossa como o tempo passa! Parece que foi ontem que eu e sua tia passamos por aquela porta, e vimos você no colo da sua mãe! – Ele fez uma pausa e abaixou a cabeça discretamente, mesmo que por pouco tempo vi seu olhar tornar-se triste, vago. – Acho que já devo ter falado isso algumas vezes... vezes demais até... mas hoje eu e sua tia estamos fazendo sete anos de casados.

Engoli seco, e respondi no tom mais natural possível.

– Eu fico feliz por vocês.

– Sete anos. – Ele pendeu a cabeça pra trás, fechou os olhos e com um grande sorriso no rosto continuou. – Eu tinha vinte quando nos casamos, acho que tínhamos pressa, foi tudo muito rápido sabe... mas em nenhum momento questionamos isso, deve ser aquela coisa de alma gêmea, acredita nisso Sophi?

– Talvez...

Ele deu risada.

– Talvez? você parece seu pai falando!

Me peguei rindo também, graças aquele comentário. Uma risada rápida, mas que durou tempo o suficiente para atrair os olhos dele. A frase que veio a seguir me desconcertou, não consegui evitar de corar sobre aquele olhar.

– Você está se tornando uma garota linda, devia sorrir mais.

Sophia Rice, dezesseis anos, seu cabelo loiro mesclado a um azul mal pintado era símbolo da sua rebeldia, olhos verdes como o do pai, um corpo já cobiçado pelos jovens da sua idade. Adora musica, poesia e fotografar. Odeia o capitalismo e aspargo. É vegetariana.

– Obri... obrigada.

– Não por isso. Agora... deixe esses vegetais comigo, e vá colocar a mesa, tenho que preparar tudo antes que sua tia chegue!

Ele tomou o alface de minhas mãos, ainda com aquele sorriso. Meu tio parecia feliz, feliz de verdade, tenho certeza que até o ultimo segundo, ele a tinha feito feliz.

Três de novembro, onze e meia. Meu tio é o único sentado a mesa, meus pais já tinham terminado de comer, e enquanto ajudava minha mãe com os pratos, parei perto das escadas podendo ver e ouvir com clareza o dialogo entre os irmãos.

– Ela está atrasada. – O desespero nos olhos dele era notável, não desviavam do relógio de bolso. – Será que aconteceu alguma coisa?!

– Petter... temos que conversar.

– Você sabe de alguma coisa?!

– Não Petter, eu não sei de nada...

– Ela não atende o celular!

O tom de voz do meu pai era o mais calmo possível, apesar de ser notável o tamanho do esforço que ele fazia para mantê-la.

– Pett, me escuta...

Ele não escutou, bateu as mãos com força na mesa e se levantou.

– Não tem nada pra escutar! Ela está atrasada! É bom que tenha uma boa desculpa quando chegar, estamos perdendo o nosso jantar de aniversario, ela sabe como essas coisas são importantes para mim!

– Ela está morta Pett!

O clima pesou. Meu tio encarou o nada, seus olhos denunciavam o que a muito ele já sabia. A três anos, Olivia estava morta, e seu corpo agora lutava contra aquela triste realidade.

– Isso... isso... não tem graça Jhow.

– Não é uma piada meu irmão, Olivia está morta.

– Não... não faz sentido... hoje de manha, ela me beijou, disse que me amava e foi trabalhar.

– Isso foi a três anos...

– Isso não tem graça!

A voz furiosa do meu tio, veio junto com o som dos pratos que foram ao chão. Com um forte puxão, ele havia arrastado a toalha de mesa, derrubando tudo o que ainda estava ali em cima, não demorou, vi minha mãe chegar assustada. Enquanto meu pai o segurava com força, tentando conter aquele ataque de fúria.

– Isso não tem graça! Isso não tem graça! – Repetia ele desesperadamente. Empurrou meu pai com força e então deu de costas contra a parede, em um choro silencio quase sufocante o vi deslizar até o chão. Seus olhos estavam arregalados, sua boca e suas mãos tremiam, até que ele as usou para esconder o rosto. Soluçava, ainda repetindo vez ou outra. – Não tem graça...

Por mais que aquela cena fosse cada vez mais familiar, por mais que eu não entendesse boa parte de tudo o que ocorreu, lagrimas involuntárias corriam pelo meu rosto. A três anos, no dia três de novembro, meu tio havia perdido a esposa. A três anos, dentro do meu tio, não havia mais nenhuma vontade de continuar sem ela.

Notas finais
Não sei até que capitulo postarei. Maaas eu ja tenho todos prontos. =*