O Escritor
2 Capítulo 2
Um escritor e a piloto.
Petter Rice, tinha dezenove anos, seu cabelo era preto, e só havia sido penteado duas vezes em toda a sua vida. E em seis gerações, era o único da sua família que tinha os olhos escuros. Um cachecol o protegia do frio, apesar de sempre achar que aquela peça o deixava um tanto estranho. Adora escrever, ler e conhaque. Odeia frutas, legumes e qualquer outra coisa que faça bem a saúde. É um aspirante a escritor.
Olivia Jayam, tinha vinte e um anos. Cabelos compridos e negros, pele branca, olhos castanhos claros. Graças ao tamanho, e as proporções do corpo, aparenta ser bem mais jovem do que realmente é. Adora ler, pilotar e suco de laranja natural. Odeia pudim, água de coco e sorvete de limão. É uma piloto de avião.
Tinha acabado de sair de uma reunião com a editora, graças a forte nevasca todos os vôos haviam sido cancelados aquele dia, e agora me encontrava sozinho dentro daquela cafeteria, com uma garçonete mal encarada me olhando. Talvez achasse que eu fosse roubar algo, não me importei, coloquei a mochila sobre a mesa, e abrindo o notebook passei a escrever, me trancando em meu mundo de diálogos intermináveis e estórias de terror, não sei por quanto tempo fiquei preso ali, mas quando finalmente resolvi descansar, aquela cafeteria esquecida por Deus, tinha mais um cliente. Uma garota, parecia ter por volta dezessete anos, era linda, inexplicavelmente linda. Senti uma coceira no céu da boca, a vontade de me aproximar surgia junto com a ansiedade, que besteira Petter! Ela é mais nova! Ela quem deveria estar nervosa com a sua presença, não o contrario! Repetia isso mentalmente de uma maneira tão convicta, que não percebi ela se aproximar, quando dei por mim, a garota já estava ali, sentada em minha frente. Com as pernas cruzadas, apoiou os cotovelos na mesa e se aproximou.
– Essa garçonete é assustadora não é?
Ela sussurrou. Consegui sentir seu perfume, era doce, gostoso, tive que me concentrar pra não esquecer a pergunta. Meio sem jeito, afrouxei o cachecol, concordando.
– Ela ta me olhando assim desde que cheguei.
– Vai ver ela não gosta de clientes.
– Quem não gosta de clientes?
– Pessoas que não gostam de trabalhar.
– Acha que ela não gosta de trabalhar?
– Com toda certeza, aquela não é a expressão de alguém que se sente realizado com a vida profissional.
Rimos. Em menos de um minuto, ela havia feito eu me sentir mais solto, confortável perto dela.
– E você? Gosta do seu trabalho?
– Opa, calma ai. Não é porque me aproximei de você, um estranho, em uma cafeteria vazia, que por sinal tem uma serial killer disfarçada de garçonete... que estou pronta pra me abrir garotão.
Dei risada, mas dessa vez ela não me acompanhou, senti um certo desconforto crescer no peito. Aqueles belos olhos me encaravam, era como se ela tivesse falado serio em cada palavra.
– Quantos anos acha que eu tenho? Não acha que eu posso usar isso contra você? Assediar menores de idade é crime!
– Eu... não... eu...
Gaguejei vacilante. Estava em choque, por um segundo esqueci que já era maior de idade, e que as coisas que tinha pensado em fazer com aquela garota poderiam ser consideradas um crime. Em meio a todo aquele meu atropelo de palavras, ela começou a rir. Seus olhos por nenhum segundo se desviaram dos meus.
– Me chamo Olivia Jayam, tenho vinte e um anos e estou muito, muito feliz com a minha vida profissional.
– Vinte e um?!
Senti como se tivesse tirado um avião das minhas costas, afinal de contas as coisas que queria fazer com ela não eram crimes... bem, pelo menos a maioria delas.
– Pois é, velha né? Não espalha pra ninguém, odeio a minha idade.
– Vinte e um é uma idade sexy.
– Como assim?
– Não sei explicar, o numero vinte e um por si só, é bem sexy.
Olivia balançou o copo de café, como quem faz o restinho do açúcar misturar-se com o liquido.
– Isso não faz sentido.
– E a sua teoria da garçonete suicida faz?
– Garçonete suicida?
– É, o fato dela não gostar do emprego, de clientes, a expressão dela... não acha que tornaria ela uma ótima suicida?
– Ok, agora você ta me assustando.
Graças a Deus ela deu risada.
– Desculpe, deixa eu ver se consigo explicar... – Fiz uma pausa, dando um belo gole no café, reunindo coragem para continuar com aquela conversa. – Me chamo Petter Rice, tenho dezenove anos, e sou um escritor de mistério e terror.
– Uau um escritor?!
Seus olhos se arregalaram enquanto ela gritou, me assustando pra valer. Nesse momento fomos repreendidos pela garçonete, e sua voz irritante.
– Por favor, olha a gritaria, vai incomodar os outros clientes.
Olhamos em volta, não havia mais ninguém ali e dando de ombros mergulhamos em uma gostosa gargalhada.
– Mas então, fala serio. Você é mesmo um escritor? Será que já li algo seu?
– Eu duvido, apesar de ter talento sou novo nisso.
– Vai me da seu titulo, já li varias coisas!
– “Detetive Fran”.
Olivia ergueu uma das mãos a levando ao queixo, parecia pensativa, até que por fim me confessou.
– Esse eu realmente não li.
– É novo, está a pouco tempo no mercado.
– Você tem ele ai?
– Infelizmente não.
– Um escritor que não carrega o próprio livro?!
– É meu livro, pra que preciso carregar?
– Ora! Vai que você encontra uma fã de livros linda, louca pra tornar você o escritor favorito dela?
– Isso é impossível.
– Por que?!
– Estou na cidade a três dias e ninguém, me reconheceu. Eu sou um anônimo, o que uma garota linda fã de livros veria em mim?
– O que?! Então quer dizer que mesmo você sendo um escritor, nenhuma garota daqui deu em cima de você?!
Ela parecia mesmo indignada com aquilo.
– Bem... eu acho que a garçonete piscou pra mim quando eu entrei, ou pode ser só a irritação que a cocaína causou.
Mais uma vez rimos as custas da garçonete, que volta e meia nos fuzilava com o olhar.
– Isso não pode ficar assim!
– O que?
Ela se levantou, e apanhando a minha bolsa, estendeu-me a mão.
– Em nome de todas as boas garotas dessa cidade, eu... vou tratá-lo como a celebridade que você é.
– Deveria ser.
Corrigi sem graça, e antes que pudesse pegar meu notebook, fui puxado pelo cachecol. Levantei de maneira atrapalhada, e logo, a distancia entre nós dois era inexistente, meus lábios colados nos dela saboreavam algo indescritível.
– Estou em um hotel aqui perto... os vôos foram cancelados...
– Talvez eu... não tenha pra onde ir...
– Talvez eu... queira que você me faça companhia
Olivia repetiu com o mesmo tom de voz que eu usei.
– Talvez eu aceite...
Com aquela sentença ela puxou meu braço, deixando uma nota de dinheiro alto sobre a mesa e me arrastando para fora da cafeteria. Eu estava confuso, feliz, tão envolvido que o prejuízo de esquecer o notebook, quase não significou nada.
Fale com o autor