O Escorpião Escarlate

13 Bônus Especial/ Afodite


Notas iniciais
olha quem voltou depois de meses desaparecida? Sim, eu mesma dando o ar da minha graça. Mas infelizmente a vida é assim mesmo, minha vida anda muito corrida nesse semestre, é de casa para a faculdade, da faculdade para o estágio, do estágio para os cursos de Alemão, Mandarim e Espanhol. Sem mencionar as baterias de trabalhos que só quem cursa faculdade tem noção da chatice que é. Não se preocupem porque como já havia mencionado antes essa fic nunca será abandonada, até porque eu detesto deixar as coisas pela metade, mas isso não significa que atrasos como este não possam ocorrer outra vez. A boa notícia é que eu estarei mais folgada nesse mês, o que significa que capítulos mais rápidos vão sair. Agora explicações a parte, gostaria de agradecer a Marcela Costa por ter me enviado um MP me estimulando e questionando sobre o andamento da fic e a Jurietto Moonlit pelo seu comentário, assim como a Hope Good e a NekoChan pelo favoritismo. Como prometido esse capítulo é totalmente voltado para o Dite e minha nossa, ele ficou realmente enorme, até pensei em dividi-lo em duas partes, mais logo mudei de ideia, até porque essa história é do Camus e Milo e está fora de cogitação mudar o foco disso mesmo sendo o Dite um personagem de vital importância para o desenrolar de trama. Outra coisa que eu gostaria de pontuar antes de parar de torrar a paciência de vocês com todo esse meu lenga lenga é que quem se deu ao trabalho de verificar o gênero dessa história vai notar que ela é Dakfic. Porque estou ressaltando isso? Simples porque haverá cenas pesadas de verdade e um estupro em dado momento. Então para ninguém ficar chocado quando isso acontecer já estão todos devidamente avisados com antecedência. O capítulo foi betado por mim mesma, mas como ele ficou imenso erros podem ter me passado despercebido, então relevem, irei corrigindo-os na medida que eu os identificar.

_ Aqui está. Uma Vodka Stolli Ellit com suco de Cranberry, como pediu. Deseja mais alguma coisa? _ Disse o bartender postando o meu pedido sobre o balcão.

Vodka Cranberry era o que eu costumava beber quando saía pra balada, e para não romper com a tradição era exatamente o que estivera bebendo desde que pisara naquela boate, jogando dinheiro fora nas extorsivas taxas de consumo daquele bar. Dificilmente aquele Drink poderia ser considerado algo que fosse do agrado de pessoas de paladar ignorante.

_ Por agora não. Obrigado. _ Respondi, dispensando-o com um gesto de mão.

Debrucei-me sobre o balcão, usando sua planície lisa como suporte para firmar os cotovelos e permiti que a insinuação de um meio sorriso malicioso despontasse no canto dos lábios ao baixar os olhos sobre a figura corada de Mu na ponta superior do outro lado da bancada entretido no que aparentava ser um caloroso diálogo com um loiro de feições sérias, fechada, austeras, inclusive, que por conseguinte em nada se encaixava na informalidade daquele lugar.

Melhor assim. Eu frequentava a tempo demais esse tipo de ambiente para saber por conhecimento de causa o quão descontroladas as pessoas começariam a ficar no decorrer da madrugada, induzidas pelo álcool e outros entorpecentes ilegais adquiridas facilmente nesse tipo de lugar. Tornariam-se predadores guiados pelos seus próprios instintos, luxúria, devassidão. Homens e mulheres sexualmente agressivos, em busca de extravasarem aos mais sórdidos e obscuras formas existentes de Voyuverismo, sadomasoquismo e orgias. E um doncel de compleições tão cândidas, inocente e virginal quanto Mu seria devorado vivo caso ainda estivesse desacompanhado, sozinho, quando isso começasse a acontecer.

Seria como balançar um cordeiro na boca de uma populosa alcateia de lobos que não se alimentavam há dias.

_ Não acha que Vodka seja uma bebida forte demais para alguém como você? _ Indagou uma voz rouca e nasalada pertubadoramente próximo dos meus ouvidos.

Redirecionei a cabeça em direção a voz, surpreendendo-me ao visualizar um homem sentado na cadeira do Scotbar, bebericando de um transparente copo de Rum com gelo bem ao lado. Meus olhos percorreram-no rapidamente de cima abaixo num perfeito Raio X, inquisitivos, ávidos. Suas pernas longas e descruzadas estavam cobertos em um jeans desgastado escuro, puído, com alguns providenciais cortes e rasgos evidenciando não só os joelhos e tornozelos como também suas coxas fartas e musculosas, seu torso forte, rígido, era marcado pela malha fina de uma camisa social vinho sem mangas, algumas abotuaduras estavam abertas, deixando antever pelos escuros e crespos por debaixo do colarinho semiaberto, e eu imaginei até onde aquela pelagem ia...

os braços eram duros, inflexíveis, como se estivessem num contínuo estado de tensão, se contendo, retraindo seus impulsos, com um relógio Platinum Chopard revestindo seu pulso direito. As mãos eram grandes e vigorosas e naquele momento eu conseguiria listar pelo menos umas boas dúzias de utilidades diferentes para elas.

Ah, essas mãos em mim.

Continuei a análise, contudo agora detendo-me no seu rosto. E, minha nossa, ele podia ser uma entidade do sexo evocada pela minha mente. Os olhos eram de um negro carvão pertubadoramente intenso, vívido, que naquele exato instante perfuravam-me, cravadas no meu rosto com uma sobrancelha enlevada imperceptivelmente para cima. O maxilar era simétrico, anguloso, contrastando com a curvatura acentuada da clavícula e de uma barba rala por fazer. Tudo isso emoldurado por cabelos negros já com com alguns fios brancos precoces despontando pela raiz, despenteados no estilo “tô nem ai”.

Pena que tudo nele gritasse 'Hétero', e eu até podia visualizar sua reação caso eu o abordasse, algo do tipo, “não rola, eu não gosto de rola, menos ainda delas se batendo”, ri pelo nariz do trocadilho de minha própria piada ainda olhando-o por sob as pestanas.

Tudo bem, eu admito que apesar disso olhar para ele só me fazia pensar numa única coisa.

Numa trepada de rasgar os lençóis.

Recolhi os braços da bancada e descruzei as pernas. O que foi mesmo que ele tinha dito?

_ O que quer dizer... _ Pausei franzindo o cenho em dúvida, confuso, enquanto minha mente recapitulava o que ele dissera. _ com, “alguém assim como eu” _ Conclui, por fim, fazendo aspas com os dedos, inquisidor.

Os lábios finos dele repuxaram-se num sorriso de troça, ditério, o copo girando entre seus dedos retinia com o impacto das pedras de gelo debatendo-se de encontro ao vidro. A música Red Right Hand de Nick Cave irrompeu explosiva pelas grades de som, alucinando e instigando as massas no circuito da pista influenciadas pelo ritmo do Death Metal. Arrepiei-me, eu conhecia bem até demais as letras daquela música que falava sobre um encontro de um herege com o diabo em pessoa para conseguir suprimir com sucesso a súbita compulsão de batucar os dedos sobre o vão escorregadio do balcão.

Eu estava ficando nervoso por algo que nem mesmo eu sabia o que era.

_ Um fedelho que ainda fede a fraldas e leite. Não sei se lhe disseram isto e, tampouco me interessa, mas o jardim de infância é mais para o sul da quadra, aqui não é um lugar para crianças brincarem de serem adultos. _ Falou ele, virando todo o conteúdo do copo de bebida num único gole sobre a garganta como se só estivesse engolindo água, antes de pousar a chanerca agora vazia em cima da bancada.

What? Como é que é? Eu tinha ouvido isso direito ou os efeitos sonoros da música tavam me pregando uma estranha peça auditiva de Halloween? Contudo, mais rápido do que um foguete em ascensão, vi, literalmente, minhas dúvidas, vulgo esperança, de estar imaginando ter ouvido o que eu acho que ouvi cair por terra quando um sorriso pilhérico, sarrista, que eu classifiquei como sendo tremendamente insultante tocou o canto inferior de seus lábios.

Certo! Deletem tudo o que eu havia dito. Ele não era nenhuma evocação do sexo e quanto a trepada de rasgar os lençóis... humm.. risquem isso também.

Ele não era nada além de mais um babaca hedonista.

_ Sabe, não que eu veja como de alguma forma isso possa ser da sua conta, mas só para constar, fique sabendo que eu estou exatamente onde eu gostaria de estar. _ Digo- lhe, deglutindo do meu coquetel Cranberry e endereçando-lhe um sorriso falso a tiracolo. _ Já você por outro lado... _ Acresci, deixando a frase propositadamente vaga, no ar. Ele não achava realmente que aquilo sairia por menos, achava?

Gargalhei internamente esperando que sim, porque se não, bom, pior pra ele, porque de um jeito ou de outro eu teria minha desforra, meu momento Bridget Jones. Quem diz que a vingança é amarga claramente não tem paladar. Ela é tão ou mais doce e saborosa do que ambrosia que alimentava os Deuses.

_ Eu por outro lado? _ Incitou-me ele com pouco caso, desinteresse, desdém até, como se só tivesse se dado ao trabalho de perguntar aquilo porque não tinha mesmo nada melhor pra fazer, enquanto sinalizava para o seu copo vazio em direção ao bartender que atendeu prontamente o recado não vocalizado e mais do que depressa compareceu com uma garrafa de Tequila nova ainda lacrada por uma rolha, deixando para trás um rastro de clientes contrafeitos e irritados ao priorizar ás vontades do homem sentado ao meu lado.

Estranhei aquilo, assim como estranhei a urgência quase temerária com o qual o atendente se prontificou a acatar seu chamado.

_ Bem, não me leve a mal. _ Na verdade, leve. _ Mas não acha um tanto quanto … inadequado... que um senhor de sua idade, sabe, idoso, esteja bebendo Rum no Scotbar de uma casa noturna GLS ao invés de de está enrolado num casaco de lã bebendo Xerez ou um Cabernet Sauvignon numa cadeira de balanço frente a uma lareira, você sabe, um entretenimento mais condizente para alguém de sua idade._ Revidei maldoso, ao passo que o bartender se ocupava em despejar uma generosa dose daquela aguardente acre em sua Shot.

Ele estreitou os olhos e quase sorrio vitorioso, esfuziante, ao dar nota que consegui atingi-lo, abalá-lo, desfazer aquela odiosa expressão prepotente da cara cínica dele.

Placar: Eu; 1 X Desconhecido idiota; 0.

_ Não gosto de brincadeiras, garoto, e você faria em se lembrar disso. _ O filho da mãe disse, olhando-me como se quisesse me degolar ali mesmo.

_ Normalmente coroas não gostam mesmo.

_ Existe um jeito infalível de te mostrar na prática o quão velho eu sou. _ Silvo ele, avaliando-me de cabo a rabo como se estivesse avaliando um prostituto antes de o chamar para uma foda em algum Motel barato de beira de estrada, de esquina. Afastei-me para a beirada da cadeira quando ele se inclinou, trazendo seu rosto de expressão pífia para próximo, muito próximo, da curva do meu pescoço. Admito que fiquei sem reação quando o insolente raspou sua barba áspera na minha pele até juntar sua boca carnosa no lóbulo da minha orelha. _ Mas você definitivamente não faz o meu tipo. _ Adicionou num traquejo debochado, fortuito, como se tivesse acabado de me segredar algo de alta periculosidade antes de se distanciar e retomar sua atenção para o conteúdo aquoso do recipiente de vidro suspendido até o nível de seus lábios por sua mão canhota.

Como assim eu não fazia o tipo dele? Oras! Modéstia a parte eu sabia muito bem que fazia o tipo de qualquer um.

_ Como se eu quisesse alguma coisa com você. _ Cantarolei.

_ Não? _ Volveu ele, displicente, retórico, com um sorriso de esculacho tão ordinário que por um momento apreciei a imagem mental de minha mão esfregando sua cara no asfalto até lustrá-lo. _ Porque não foi o que pareceu à pouco enquanto você estava me secando, ou és tão ingênuo a ponto de achar que eu não notei? _ Eu não negaria, é claro, eu não era tão dissimulado a este ponto, embora isso não quisesse dizer que eu não estivesse prestes a encarnar Beoflow, O Guerreiro, e indo para arrancar a cabeça daquele Grendell. Como não desmenti-o ele sorriu maldoso tomando meu silêncio como um atestado assinado e lavrado de culpa. Quis arrancar um por um todos os seus dentes com o meu alicate de unha.

Cretino.

_ Confessa garoto, você gostou do que viu. _ Maliciou ele, molestador, numa voz de soprano que quase me fez cantar figaro.

_ Já vi melhores. _ Contestei, olhando diretamente para o seus misteriosos olhos ônix semicerrados com um 'quê' indefinível de perigo sorrateado neles. _ Você é o receptáculo vivo de que beleza é apenas superficial. _ Não resistir em emendar, alfinetando-o.

_ Assim como você_ Cuspiu de volta.

De certa forma eu já havia me habituado com o fato de que era esse o conceito ou a primeira impressão que os outros formavam a meu respeito, superficial e fútil. Eram poucas as pessoas as quais de fato eu realmente me dava a conhecer sem restrições e sorrisos ensaiados , e um número menor ainda as que faziam parte do meu convívio diário. A grande maioria apenas fiavam suas opiniões baseadas na minha aparência e em minhas atitudes por vezes tresloucadas, doidivanas. Eu era uma pessoa vaidosa, é claro, em certo grau até mesmo narcisista, havia aprendido cedo de que a beleza podia ser sim superficial, mas que a feiura se estendia até os ossos. Porém eu também era uma pessoa de dentro para fora crendo que a minha beleza maior fosse a minha essência e nos valores de meu próprio código de conduta que eu tão obstinadamente cultivava como se fossem as rosas de um jardim sagrado repassados a mim pelos meus falecidos pais, eu era aquilo que internamente chamava de uma herança póstuma continuada deles. Acredito em sonhos, não em utopias. Contudo, se era para sonhar eu não me fazia de rogado, sonhava alto. Estou aqui é para viver, cair, aprender, levantar e seguir sempre adiante. Sou isso hoje... amanhã, bom, amanhã provavelmente já terei de me reinventar. E assim vou, reinventando-me sempre que as exigências da vida pede um pouco mais de mim.

Não sou uma pessoa fácil de lidar, tinha ciência disto, ao contrário, sou complexo, inconstante, instável, dramático, de choro fácil, sou mistura, sou homem com cara de menino... e vice versa. Me perco, me procuro, me acho. E quando necessário, enlouqueço, escandalizo, ponho mundo abaixo e sigo o fluxo do rio...

Não sou alguém que se doa pela metade, nunca serei um meio amigo ou um quase amor. Ou sou tudo ou sou nada. Não suporto meio termos, dois pesos e duas medidas. Atitudes intempestivas e impulsividade definiam-me bem e comedimento e temperança não são virtudes que me constam.

Para os inteligentes e burocratas além de casca vazia eu também era burro e desinteressado, para mim não. Minha mente sempre foi focada no que me fazia bem.

Egoísmo? Pode ser, não me importo. Ma eu faço jus por ter vivido os melhores anos da minha vida sem ter que perder minha juventude. Ser arteiro e travesso era comigo mesmo. Em outras palavras eu poderia morrer amanha sem pestanejar ou amargurar por não ter vivido bem.

Eu não recrutei meu tempo, guardando-o ou esperando não ter mais disposição ou corpo para fazer as coisas.certamente eu não nasci querendo mudar ou controlar o mundo. Eu queria ser astronauta e depois de completar dez anos eu me perguntava o porque disso. Tirei a conclusão de que eu apenas queria me aventurar em terras novas, ter, obter, explorar e ser coisas que ninguém nunca viu ou ouviu falar. Essa era a graça, o charme, de ser um astronauta para mim. Até que eu descobri a física.

Só os gênios vão para a lua Dite.

Minha vida nunca mais foi a mesma.

_ Pra quem não faz seu tipo você parece ter reparado demais em minha beleza _ Repliquei, zombador. _ Que controverso você , não acha? O que mais andou reparando sem que eu tivesse notado?

_ Em sua bunda. _ Fiquei surpreso com sua resposta, assim como com o seu sotaque inconfundivelmente Italiano impregnado em sua voz aguda, fluente. _ O cirurgião que a fez é um artista. _ Emendou.

Pisquei confuso na medida que minha mente absorvia, processando o significado de suas palavras com a velocidade de um computador sobrecarregado e infectado de vírus …

...Carregando... Carregando... Carregando... até cair a ficha.

_ Eu não tenho silicone.

_ Tudo bem, garoto, não precisa se envergonhar disso. _ Estalou a língua num menear de sobrancelha que eu não saberia distinguir se significava alguma coisa ou se era apenas um tique facial sem importância.

Ergui o dedo do meio.

_ Leia entre as linhas, idiota.

Ele crispou os lábios num gesto de desdém, deslocando sua língua para lamber um filete de Whiski com Rum que deslizara pelo canto de sua boca.

_ Tsc, tsc, tsc... não desdenhe o que nós dois sabemos que quer comprar, garoto. _ Provocou o pulha, sacana.

O copo de Vodka tremelicou em minha mão quando meus dedos circundaram- o com mais força do que seria necessário enquanto sentia cada fibra do meu corpo vibrar de ódio com aquele seu escárnio ácido, gratuito. Senti o sangue chamuscar as maçãs do rosto em tons rubros e quis estilhaçar aquele pedaço de vidro na minha mão em seu crânio, talvez se não houvesse tanta testemunha ocular para depor contra mim tivesse sido exatamente isto que eu acabaria por ter feito.

_ Ora! Seu... seu... _ Eu não conseguia encontrar uma palavra forte o bastante que pudesse enquadrá-lo, um insulto que equivalesse ao tamanho daquela afronta, por via das dúvidas resolvi recorrer ao meu repertório amador de Italiano. _ … Stronzo. _ Bradei, lançando-lhe ojivas nucleares pelos olhos mais devastadoras do que aquelas que exterminaram Hiroshima e Nagasaki para sempre do mapa na segunda guerra mundial e amaldiçoando-o a ter a mesma sina.

A principio ele pareceu ficar furioso como um animal raivoso, o que sedimentou o meu palpite interno de que, ou ele era Italiano nato ou tinha um amplo conhecimento linguístico do idioma, para logo em seguida explodir numa estrondosa gargalhada, daquelas de dobrar a barriga e vazar lágrimas pelos dutos dos olhos.

Fiquei ainda mais fulo por saber que eu estava sendo o motivo do riso, de sua chacota, embora não soubesse o motivo, o porquê.

Ainda rindo-se o infeliz finalizou sua bebida e sem mais nada a pronunciar girou nos calcanhares, rumando de forma um tanto quanto ociosa e desleixada, como se dispusesse de todo tempo até os pés da escada que acessava uma área privativa no térreo onde não logrou a iniciar o que aparentava ser uma curta e intensa conversação com dois gêmeos idênticos escorados no corrimão de passagem.

Choraminguei mentalmente encostando minha nuca no meio fio do balcão. O que Diabos acabou de acontecer aqui?

Os pelos das minhas costas pinicaram com a conhecida sensação de estar de estar sendo observado, levantei a cabeça do batente trombando com o olhar verde- grama de Mu fincados em mim do outro lado com uma ruga interrogativa suplantada no seu semblante harmonioso, pacífico. Forcei-lhe um sorriso apaziguador que apesar de falso eu tinha absoluta certeza que soara convincente. Oras! Eu era um camaleão social especializado em camuflar minhas emoções por debaixo de fachadas dissimuladas, atuativas, e como um prodigioso estudante prestes a se graduar com honras e méritos no curso de teatro representar era por conseguinte o que eu fazia de melhor. Vi-o anuir tímido e retomar a conversa com o sujeito loiro de ares antipático, entojado, a qual muito embora portasse no rosto uma expressão neutra, opaca, vazia, cáustica inclusive, eu ousaria dizer até mesmo capaz de rivalizar com o estoicismo gélido tão presente no refinamento culto e erudito de Camus, não me passou batido a rápida alternância de olhares trocados dele com um dos gêmeos no patamar restrito da escadaria.

Camus...

Pensar nele fez com que eu automaticamente sacasse do bolso o celular pelo que eu supus ser a enésima vez só naquela noite em falhas tentativas de contactá-lo desde que ele simplesmente havia desaparecido daquela boate sem se despedir, avisar ou deixar rastros e vestígios de que um dia realmente estivera ali. Aquilo estava longe de ser considerado algo que pudesse ser do feitio dele, Camus era a seriedade em pessoa. Escuracei da mente a sensação de que eu estava deixando algo vital me passar em branco, um formigamento de Déjà Vu, como se algo ali naquele cenário que mais se assemelhava a uma réplica modernizada de Sodoma e Gomorra não se encaixasse, estivesse errado, e de alguma forma que eu não conseguia captar, porém de suma e vital importância estivesse me passando desapercebido, sem ser notado, tão perceptível quanto o rápido bater de asas de um colibri.

Estapeei minha testa contendo o impulso de estraçalhar aquele aparelho na quina do balcão. Que Deus me ajude, mas se eu fosse obrigado a ter que escutar mais uma vez a voz monótona e maçante da secretária eletrônica do outro lado da linha eu juro que acabaria gritando feito um banshe, amaldiçoaria até a quinta geração daquela desgraçada instruindo-me enfadonhamente para que eu deixasse minha mensagem após o sinal. Se existia algo que me deixava possesso, fora de mim, esse algo era ser deixado no escuro, na ignorância, eu sabia que Camus estava me escondendo alguma coisa, e grave, se eu fosse julgar pelo seu comportamento introspectivo, defensivo, distanciado desses últimos dias. Aquilo estava longe de ser considerado como sendo de praxe para os seus padrões tão... como posso descrever? … metódicos?

Engraçado como ainda hoje o painel de minhas memórias em nada havia se desbotado com o passar do tempo. Lembro-me dos meus primeiros anos de desembarque aqui no Japão após ter ficado órfão de pais na Suécia, tempos difíceis foram aqueles. Lembro-me da amizade sucinta que surgiu espontânea com aquele garoto arredio sempre isolado do restante do mundo em meio as instantes de livros da biblioteca do colegial, sempre distante, arrisco, auto- suficiente, altivo, tão inatingível. De como eu me senti instantaneamente atraído pelo colega ruivo de olhos de gelo, talvez porque assim como eu ele também fosse estrangeiro naquela terra estranha, tão deslocado e sem rebanho quanto eu, da mesma forma que a Wendy deveria ter se sentido quando pisara pela primeira vez na terra do nunca. Embora eu soubesse que para o Francês aquilo deveria ter sido múltiplas infinitas vezes pior com o agravante de sua condição de doncel. Ou talvez ainda, vai saber, por ter sentido-me menosprezado pela sua total indiferença, eu não estava e nem estou acostumado a ser preterido, ignorado, não ser cobiçado, desejado ou notado, e confesso que a principio fora o seu completo desinteresse, descaso, que se tornara o fator predominante, o afrodisíaco que me instigou a tentar chamar a atenção do Garoto de Ouro dos professores para mim.

Sempre fomos muito diferentes, Camus e eu, pouco ou nada tínhamos em comum além do fato de sermos dois gaijins em terras Asiáticas. Pela minha própria natureza impulsiva eu sempre fui mais expansivo, mais estourado e explosivo até. Camus, ao contrário, era de poucas palavras, recluso, um tanto ascético, era a discrição em pessoa, um homem preso em si mesmo e em seu próprio mundo, alguém que voa sem tirar os pés do chão, que chora, mas não verte lágrimas. Estranho, quando menino Camus já era preso em si mesmo. Ele não gostava de falar nada além do indispensável, não gostava de brincar ou de interagir com as outras crianças de sua idade. Quis descobrir aquele garoto tão diferente, tão inalcançável, decifrá-lo, entende-lo. O mistério em torno do meu colega ruivo de classe me instigava, atraia, me enveredou ao ponto de eu chegar a nutrir uma paixão platônica e completamente unilateral por ele do qual ele obviamente nunca tivera conhecimento.

Comecei a observá-lo, mas o que eu queria mesmo era me aproximar, no entanto para isso precisava de uma desculpa cabível, um pretexto, uma brecha, uma pequena rachadura na muralha de gelo que ele havia construido em torno de si. A ironia se provou verídica quando em prol de um trabalho em dupla o próprio Camus encontrou essa intersecção entre nós, tornando uma parceria que havia começado provisória num vínculo impermeável que se estende até os dias de hoje.

Não desminto que no início fiz uso de todos os meios, todos os artifícios e estratagemas para atingir Camus Versalhes, para tentar conquistá-lo, seduzi-lo. Fracassei em meu propósito e assim aos poucos tal como na natureza onde nada se perde, mas sim se transforma, vi as chamas da minha primeira paixão transformarem-se naqueles dias felizes, muito felizes, em que compartilhávamos histórias, letras de músicas, livros, nossas incertezas frente ao crepitar da lareira, sua falhas e pacientes tentativas de me ensinar a tocar sonatas no piano, safras de vinho que ele me ensinou a apreciar, momentos regados a incertezas em que ele tentava amenizar do seu jeito, levando-me não poucas vezes para me distrair com a Aurora Boreal despontada nas noites de neve do Monte Fuji ou nos dias em que andávamos furtivos no festival de luzes de inverno após ter passado horas intermináveis azucrinando-o os ouvidos até convencê-lo a me acompanhar naquelas festividades tão únicas daquela estação, em tão somente num laço puro e indestrutível de amizade, num elo inquebrantável apenas solidificado com o passar daqueles anos.

Claro que no decorrer desta amizade começamos a notar não somente as congruências do que partilhávamos em comum, mas também as diligências de nossas diferenças. Quantas vezes em decorrência dessas mesmas diferenças não fora o estopim para discussões sem sentido? E de súbito, do nada, em meio à um dos nossos debates mais acalorados em que cada um recusava-se a arredar pé, defendendo suas opiniões, crenças e pontos de vista com unhas e dentes, Camus de repente se calava, abria um livro qualquer e se sentava na chaise-longue escarpãm de sua sala como se nada estivesse acontecendo. Lógico que aquilo no início me deixava possesso, fora de mim, com vontade de lhe enfiar as unha nas fuças para ver se ele aprendia a não me ignorar. Entretanto com o tempo compreendi que aquela era sua forma de dizer sem palavras que não adiantava em nada brigarmos, discutir, que éramos diferentes, e que se gostássemos de fato de desfrutar da companhia um do outro, da nossa reciprocidade, o melhor a fazer era encerrarmos o assunto por ali e tocarmos o barco adiante.

E assim fizemos, tocamos nossos barcos para frente, e como tocamos. Ainda lembro do aniversário de sete anos de falecimento dos meus pais. Havia amanhecido um dia frio, nublado, e na ocasião não pude deixar de refletir que a natureza parecia espelhar o meu próprio ânimo, luto, talvez sabendo do significado daquela data em especifico para mim, surpreendi-me por Camus ter tomado a iniciativa de deixar sua reclusão naquele dia e me chamado para uma caminhada à beira mar.

E assim fomos.

O frio cortante vindo do oceano Pacífico havia tornado incogitável a ideia de até mesmo pisar na água e a maré subida na noite anterior havia apinhado toda extensão da costa litorânea de conchas, escaravelhos e estrelas do mar. A areia úmida resfolegava-se no meus pés despidos e ondas agitadas pela ventania alquebravam-se sobre os rochedos nas pedras. Lembrava-me da presença de Camus, sempre calma, impertubável, centrada, coletando algumas estrelas nas margens do oceano para em seguida jogá-las novamente para as profundezas do mar. Sem entender aquela ação tão sem lógica da sua parte, recordo de ter lhe questionado o porque daquilo sendo que nada mudaria o fato de que aquelas estrelas estavam fadadas a morrerem quando o sol insurgisse entre as nuvens e elas secassem, no fim das contas aquilo não faria a mínima diferença.

Sorri nostálgico com a resposta que recebi dele, um longo e penetrante olhar daquelas íris mais rubras que o mais flamejante dos Rubis, e eu quase podia ouvir as engrenagens de sua cabeça girando ante a repentinidade daquela minha pergunta, colocação, quando após alguns segundos ele desviou seu olhar para a estrela jazida numa de suas mãos e assim como as outras lançou-a mar adentro antes de proferir.

_ Talvez, mas para esta fez toda a diferença.

E foi assim que após entender a amplitude do que ele quis dizer, eu me vi juntando-me consigo na tarefa de devolver para ao mar tantas estrelas quanto fosse possível até o entardecer, esquecendo-me por completo do pesar que aquele dia representava para mim.

O fato dele não demonstrar confiar em mim o bastante para partilhar o que quer que fosse que o estivesse afligindo-o, acuando-o, magoava-me por parecer que eu não era digno o bastante de sua confiança quando na verdade eu o seguiria para onde quer que fosse tal como Sam seguiu Frodo até o vale da perdição.

Percorri frustrado os cabelos com os nós dos dedos enfiando o celular quase descarregado no bolso da calça quase simultaneamente a uma voz irritante e afetada que eu infelizmente conhecia muito bem adentrava meus ouvidos.

_ Eu não creio no que os meus olhos veem. Afrodite tomlinson bebendo sozinho e desacompanhado num bar como se fosse um 'bom vivant' declamando suas poesias de corno numa taberna Viking de putas. _ Transcorreu caçoista aquela Barbie edição especial do Misty ladrão de namorados Espanhóis, largando-se numa cadeira vaga colada a minha.

Rolei os olhos enquanto acompanhava aquele Filho perdido de Voldemort pedir uma garrafa de Brandy fechada ao Barman.

_ Claro, até porque meu coração está sangrando por isso._ Concordei solenemente, fungando e secando uma lágrima de dor imaginária no canto dos olhos.

_ Ora, seu filho da p-

_ Tem certeza que a puta é a minha mãe? Que eu saiba ela não pariu você. Dizem que filho de peixe peixinho é. Então acho que você está insultando a mãe errada, querido. _ O interrompi, sabendo o quanto ele odiava que fizessem isso.

_ A minha mãe não é puta, ela é coisa muito pior. Você sabe disso. _ Sorriu atravessado estendendo-me um pirulito. Incrível como ele ainda não tinha parado com essa mania, e mesmo a contragosto peguei o doce de sua mão e o coloquei na boca me espreguiçando emburrado de encontro a cadeira.

Isso é foda. Não me entendam mal, eu gosto do Misty, mas também tenho uma raiva tremenda dele. De uma forma distorcida, cheia de farpas trocadas, e com uma dose relativamente saudável de rivalidade, ou nem tanto, inaugurada quando ainda estávamos no último ano do ensino médio em que havíamos disputado de uma forma que teria feito as protagonistas do filme “Meninas Malvadas” parecerem meras amadoras na disputa para ver qual de nós dois era o mais popular do colegial.

Uma verdadeira fogueira das vaidades, se quer saber.

E não. Eu não tinha nenhum problema com o seu status atual de ficante do meu ex. Fazer o quê? Relacionamentos modernos...

Além disto Shura e eu havia sido apenas sexo.

Quem pode me culpar? Convenhamos, qualquer ser humano na face da terra gosta de sexo. É algo natural em pessoas com o mínimo de hormônios, é algo sujo, mas também bom e satisfatório. E eu obviamente não era uma exceção a esse apelo natural do corpo a suas necessidades mais primitivas. Eu gostava do sexo porque me sentia satisfeito. Ponto. Eram apenas transas casuais sem sentimentos envolvidos, e esse 'sempre' era o trato com os meus eventuais parceiros de cama. Nós foderiamos para saciar nossos desejos carnais e no dia seguinte caso encontrasse algum deles nos arredores do Campus da Faculdade agiríamos como se nada houvesse acontecido. Ponto. Não tinha romances, flores, juras de amor eterno, apegos, choração e fotos queimadas quando acabasse. Apenas acasalamento. Bruto e forte.

Só sexo.

Puro e sujo.

E satisfatório. Claro.

Conquanto não me apaixonasse de verdade pensar com a cabeça de baixo era um bom passatempo. Era fácil e sem traumas desse jeito. Bastava escolher um e depois foder, ou no meu caso, ser fodido.

Simples não?

_ Você viu o Shun por ai? _ Perguntou em baixo tom o oxigenado sentado ao meu lado pagando sua bebida ao atendente. Fiquei surpreso com isso. O que alguém como Shun estaria fazendo ali e porque caralhos o súbito interesse de Misty nele? Será que ele estava considerando traça-lo também?

Aquele garoto era praticamente uma criança. Pelo amor de Deus! De todos os fetiches de Misty nunca me passou pela cabeça que Daddy Kink pudesse ser um deles. Aquele desgraçado estava pensando em bancar o pedófilo, é isso?

Merda, caralho, porra, cacete!

_ Não, mas porque desse seu súbito interesse nele? _ Retorqui, cauteloso.

Ele bufou cruzando os braços atrás da cabeça.

_ Sério, Shun provavelmente é o único quartanista de nossa sala que insiste em permanecer como um solteiro invicto desde que Hyoga pôs fim no relacionamento deles para assumir o Mime. Estive pensando em aproveitar que ele está aqui para lhe apresentar alguns veteranos e formandos de outros cursos como quem não quer nada. O que acha?_ Esclareceu ele, pontuando sua dúvida.

Meu pirulito congelou enroscado na língua enquanto digeria aquela informação. Eu entendi bem? Aquela gazela estava querendo arranjar um namorado para o Shun? O Shun que tem um irmão mais velho mau encarado que mais parecia um lutador de vale tudo da liga da UFC? Pensei em todos os possíveis candidatos e tive que descartá-los quase que de imediato.

Chad: baixinho demais.

Zack: velho demais.

Nick: trepa com qualquer coisa que se move.

Iago: pedófilo.

Seya: calouro burro e melhor saco de pancadas dos veteranos.

_ Eu acho que precisará se tornar Misty Cruise e fazer uma missão impossível. _ Decretei, simplista, e ele balançou a mão no ar como se estivesse enxotando uma mosca inconveniente, desagradável.

_ Ou seja, nada que eu não possa resolver. _ Pirraçou. _ Agora, numa escala de 0 a 10 qual sua disposição de ir se juntar a mim e a galera da faculdade nos puffs da outra ala?

_ 8 e meio, mas se o Mime também tiver lá ai precisaremos de uma escala maior. _ Não era exatamente um segredo ou sigilo de Estado o quanto eu odiava aquela criatura que eu fazia questão de comparar a Jano, o Deus mitológico de duas caras. Misty sorriu, um torcer de lábios condescendente, indulgente, eu sabia que assim como eu ele também não engolia a presença daquele babaca.

A antipatia era mutua.

_ Ele também nos agraciou com a sua... ilustrissima presença... _ Balançou a garrafa fechada entre os dedos, jogando-a de uma mão a outra com um luzir desdenhoso impregnadas em suas esferas azuis Caribenhas. _ … e de quebra ainda trouxe o seu namorado Russo para esfregar sua conquista na cara do Shun mesmo sabendo que ele ainda tem uma queda pelo Hyoga. Quer dizer! queda não, o Grand Canyon é uma queda, o que ele tem por aquele homem é um verdadeiro precipício sem fundo.

Tive pena do Shun, era notório a quem quisesse ver e a olho nu o quanto ele acalentava esperanças de reatar seu antigo relacionamento com aquele Russo, o que eu particularmente achava difícil.

_ Por isso pensei que está mais do que na hora do nosso pequeno Shun virar essa página, dar a volta por cima e descolar um novo namorado em potencial. _ Emendou.

_ Boa sorte na sua operação cupido, só não conte comigo. _ Avisei-o, pulando para fora do banco com o minha Vodka Cranberry pela metade na mão, fazendo menção de o seguir.

Ele balançou os ombros pro nada num gesto de “tanto faz” e embrenhou-se na multidão eufórica seguido de perto por mim. Minhas pernas ficaram doloridas enquanto eu atravessava aquela horda ensandecida tentando ao máximo não tropeçar ou esbarrar em ninguém no percurso. Definitivamente minhas recém descobertas habilidades acrobáticas não deu muito certo, porém, depois de várias trombadas, colisões, insultos, xingamentos, mãos e investidas alheias tentando me molestar, o oxigenado e eu alcançamos a outra repartição da boate, uma área mais arejada e de pouca, quase nula, movimentação, próximo ao corredor de saída.

Reconheci quase instantaneamente a maioria do pessoal da faculdade agrupados numa rodinha de pequenas poltronas estofadas sem encosto. Acenei cumprimentando a maioria dos colegas ali conhecidos, forçando um sorriso amarelo para Mime sentado no vão entre as pernas de Hyoga com as costas coladas em seu abdômen e a cabeça deitada no seu tórax como se tivesse marcando território antes de me esparramar no único assento disponível ao lado de Shun que parecia desconfortável com aquela situação.

Eu podia não suportar Mime, mas eu precisava dar os devidos créditos, tirar o chapéu para o refinamento apurado de seu bom gosto, da sua indumentária de alta costura que valorizavam os atributos de seu corpo, principalmente sua cintura curvilínea, delgada. Embora não houvesse dúvidas que o fato delas serem em sua maioria da procedência Calvin Klein contribuísse bastante para tal efeito. A única peça dessa marca que eu usava eram as cuecas boxes encomendadas diretamente de uma das filiais da Dolce & Gabbana. Como o Misty era um dos vendedores credenciados da loja já com toda uma lista de clientela já formada entre o corpo estudantil da faculdade eu conseguia um bom desconto em suas mãos, o que era um alivio para o meu orçamento apertado. Eu não fazia questão de me enfiar em fraques e ternos engomados dessa marca, menos ainda de cometer o desatino de adquirir um, não sem querer cometer suicídio quando via o valor estampado na fatura. Mas as cuecas não, eu me sentia poderoso sabendo que eu estava usando algo intimo de luxo por debaixo das roupas, deixava-me mais confiante, com mais auto- estima.

Cueca do poder.

_ Soube que teve um encontro no clube de Kyoto com o Garuda do curso de direito. O que achou dele? Ele é bonito? _ Verbalizei minha curiosidade indiscreta virando-me para Shun.

Ele corou em pelo menos umas dez tonalidades diferentes de vermelho, evitando olhar na direção de Hyoga que pareceu subitamente interessado na conversa, monitorando-nos pelo canto dos olhos. Yukida, yukida, yukida... eu vi isso. Então quer dizer que aquele aprendiz a esquife de gelo não era tão imune a vida amorosa de Shun quanto fazia parecer?

Que descoberta mais interessante...

_ Eu não sei se posso chamar um jogador de Bridget de bonitinho, mas ele foi gentil e atencioso à sua maneira. _ Respondeu ele, acanhado.

_ Ele te levou para um encontro no clube dos magistrados elitistas de Kyoto? _ Assoviou impressionada Tétis, uma aluna de biologia marinha e uma das poucas mulheres presentes ali naquele grupo. _ Uau!!! isto sim que eu chamo de encontro de categoria. _ Finalizou ela com um sorrisinho espoleta dançando no rosto, virando a garrafa de Brandy trazida por Misty no copo cristalino estirado em cima de uma compactada mesinha de centro.

_ Não é bem assim, somos só amigos... _ Defendeu-se Shun assustado do meu lado por estar sendo o foco das atenções.

_ Vai na fé Amamya... _ Cortou-lhe Misty esboçando um sorriso escroto e altamente malicioso. _ ela move montanhas mesmo... _ Burlou ele num tom de mofa, simulando uma oral com a cabeça do pirulito enfiado na boca.

Tive de rir com essa enquanto Shun parecia prestes a se desfazer numa poça de tanta vergonha ou sair pra procurar uma pá e cavar um buraco ali mesmo até bem abaixo das placas tectônicas.

_ Eu estive lá uma vez. Estou surpreso que para os seletivos padrões e normas rígidas daquele club tenham deixado alguém assim... como você... entrar naquele lugar. _ Escarneceu Mime, maldosamente.

_ E porque não? _ Inquiriu Misty, stressado, descartando o palito vazio de dentro da boca na lixeira pendurada na parede próxima ao seu puff.

_ Não é óbvio? _ Retorquiu ele, retórico, olhando Shun de cabo a rabo com uma evidente expressão de desdém, nojo.

Eu sabia o que ele estava fazendo olhando Shun daquela forma, era o mesmo olhar que eu mesmo costumava não raras vezes fazer quando queria rebaixar, diminuir, inferiorizar alguém. Como se estivesse contemplando um pônei velho, senil, manco, vesgo e zarroio de um olho só que ninguém mais queria ver na última jaula de um jardim zoológico. Pude sentir Shun estremecer e encolher os ombros do meu lado, deixando-se atingir pelo dardo venenoso daquela cascavel com rosto de anjo e alma de Harpia.

Havia algo em Shun, não sei bem, talvez fosse aquele jeito dele de perdido no mundo ou a candura pura sempre serena na Oliveira Esmeralda de seus olhos cálidos que trazia à tona, aflorava o lado protetor das pessoas. Ele me lembrava um anjo no globo de neve de uma criança com toda aquela brancura alva e imaculada de sua alma Hipersensível, sempre disposto a sacrificar a si mesmo em prol e beneficio de terceiros, tal como a figura de Andrômeda ofereceu-se a si mesmo como vítima expiatória para poupar seu povo da ira de Ceto.

Puxei o meu próprio palito vazio da boca, arremessando-o direto na cesta ao lado de Misty, passando raspado pela sua cabeça oxigenada e recebendo deste um olhar fulminante em troca.

Dei-lhe a língua.

_ Você já esteve lá, Mime? _ Replique, coçando o queixo numa falsa expressão de surpresa, não esperei por sua resposta. _ Eu não sabia que eles estavam aceitando agora acompanhantes...“profissionais”, naquele lugar. _ Adicionei, mordaz, cheio de veneno, escutando o chiar das risadas dos presentes serem abafadas pela nariz.

Sorri perverso me deliciando em ver o rosto dele se cobrir de um escarlate raivoso e suas mãos se fecharem em punhos sobre o corpo, alarguei o sorriso só para provocá-lo um pouco mais. Francamente aonde o Hyoga tava com a cabeça quando trocou o doce Shun por aquele filho da puta fascista? Aé! Provavelmente entre suas pernas.

Os músculos de sua mandíbula remexiam-se nos cantos de sua boca, mas ele não parecia conseguir articular nenhum som pela suas cordas vocais, como se estivesse sofrendo de algum tipo de paralisia facial permanente. E quando enfim seus lábios se descolaram para provavelmente me revidar com alguma resposta épica as mãos de Hyoga pousaram em claro sinal de aviso em um do seus ombros o que aparentemente o fez rever a ideia, desviando a face para uma conversa sussurrada com o Russo abraçado à suas costa.

_ Obrigado por ter me defendido. Mas não era necessário. _ Murmurou Shun do meu lado.

_ Como não, Shun? Eu vi como as palavras daquele infeliz o afetaram, Shun, você se encolheu. _ Censurei-o, indignado com aquela sua reação tão permissiva, passível. As pessoas só podem fazer a você aquilo que você permite que elas lhe façam, sabedoria do meu falecido pai quando ainda vivíamos na Suécia.

_ Eu sei, sabe, não é que eu queira bancar o São Francisco de Assis, mas será que às vezes, só às vezes, as pessoas não possam ouvir o quanto são odiosas com seus próprios ouvidos? _ Perguntou ele, incerto. _ Isto não está fazendo muito sentido, não é? _ Complementou cabisbaixo, inseguro, sua voz soando trêmula, frágil, quebrada aos meus ouvidos.

Afaguei-lhe os cabelos acastanhados, sorrindo-lhe terno, brando. Aquele garoto era um ser humano raro, maravilhoso, um diamante em meio a tanto cascalho, e também de uma ingenuidade ímpar, sem igual. Não daquelas ingenuidades ignorantes, desinformada, burra, incapaz de aperceber ou não notar a malícia onde ela imperava absoluta, típicas dos romances puritanos ambientados no século passado de Barbara Cartland e Jane Austen. Mas sim a ingenuidade crente, vendo sempre o melhor das pessoas mesmo quando só havia o pior nelas, o que invariavelmente o punha numa posição vulnerável, frágil, deixando-o sem defesas reais e a mercê da maldade apodrecida do mundo, ou mesmo de pessoas imbecis como Mime.

Ele era bom e compassivo demais para o seu próprio bem.

_ Não é sem sentido, algumas vezes a maldade pode ser sim a sua própria punição. Mas não se engane, pessoas como Mime são tão iludidas que nem todos os gritos do mundo fariam-nas perceber o quão detestáveis elas são por si mesmas. _ Fui taxativo, vendo-o aquiescer numa concordância tímida, fraca.

Senti os pelos do corpo se eriçarem com a conhecida sensação de estar sendo observado, não pela primeira vez naquela noite, desviando o foco de minha atenção para as proximidades suspeitas, somente para engolir em seco e suar frio ao colidir com escuridão sombria do olhar vítreo do estranho do bar pregados em mim. Um principio de um sorriso cínico destoando nos contornos quadrados de seu maxilar, com o corpo másculo, porém esguio, escorado preguiçosamente numa das pilastras que demarcavam uma das rotas da saída principal, com uma mão enfiada dentro de um dos bolsos da calça e a outra segurando a bituca em brasas de um cigarro entre os lábios crispados num torcer zombeteiro.

Eu não podia negar que o filho da mãe tinha uma presença esmagadora.

Tratante.

Olhei-o por cima, com empáfia, antes de empinar o nariz e virar o pescoço para o outro lado, ainda furioso pelo canalha ter me chamado de fedelho. Pelo amor de Deus! Eu estava completando vinte e três anos justamente naquela noite e eu podia muito bem ter passado sem essa. Será que era por causa da minha altura? Tudo bem, eu tinha plena noção que eu não era exatamente o ícone de uma das pessoas mais desenvolvidas para minha idade, mas aquilo também já estava sendo Bullyng. Cerrei os dentes, a quem eu estava tentando enganar? Até um anão de jardim deveria ter mais metros cúbicos do que eu, o que já me rendeu apelidos e nomenclaturas humilhantes ainda no primário. Tais como: Pintor de rodapé, dude, nanico, baixinho, chibi (pequeno) e era melhor parar por aqui e nem mencionar os outros se não eu acabaria por desenvolver algum sério complexo de Napoleão.

_ Acho que para mim já deu o que tinha que dar nesta noite _ Pigarreou Mime, erguendo-se do estofado com as mãos entrelaçadas com a de Hyoga. _ Eu e o Hyoga já vamos tirar o nosso time de campo. _ Sorriu fingido, falso, como se estivesse de fato consternado por ter de ir embora, por se despedir, seguido por um assentimento educado, entretanto formal e polido do Russo para com o pessoal.

_ Claro, a gente se esbarra por ai num dia desses. _ Anuiu Misty solenemente, mas parecendo está desejando justamente o contrário.

Mordi o lábio inferior segurando o riso. Aquela gazela era realmente um Drama Quen de péssima qualidade, com aquela encenação pavorosa ele não ganharia nem o troféu framboesa do ano. E pensar que em breve ele estaria diplomado em artes cênica...

_ Tomlinson... _ Fiz uma careta com o meu sobrenome sendo cuspido com escarro por Mime ao se dirigir a mim. _ é sempre um prazer memorável rever uma pessoa assim como você. _ Sua voz desaguou enjoativa, parecendo açúcar derretendo na falange, na língua, num timbre demoniacamente pastoso, mordaz.

_ Assim como? Lindo e loiro? _ Sorri-lhe angelicamente.

_ Bem, não era exatamente isso que eu tinha em mente... _ Suspirou sugestivo enquanto corria os olhos maldosamente pelo meu corpo como se estivesse tentando me enviar a mensagem telepática “seu prostituto que vive de joelhos”. _ … mas tudo bem.

Se ele queria tanto aparecer porque ele não enfia logo um peixe no cu e diga que virou sereia?

_ Vai logo que o mestre dos magos te aguarda. _ Tive que provocar. Ele enrugou a testa desentendido.

_ Caverna dos dragões. _ Esclareci, debochado.

_ Você é tão infantil. _ Constatou ele em menosprezo antes de girar no pé rumando para a saída.

_ Vai logo que o seus amigos dragões te esperam. _ Bradei alto o suficiente para ainda conseguir ser ouvido por ele. _ ...cosplay do demônio. _ Balbuciei essa baixinho, só pra mim mesmo, mas acho que fui ouvido por Shun já que ele soltou uma risada de divertimento.

_ Bom, eu não sei vocês, mas eu vou fazer uma expedição até o bar para reabastecer nosso estoque falido de bebidas. _ Anunciou Hilda, uma ex aluna recém mestrada em estilísmo, balançando na mão uma garrafa de Tequila vazia.

Desliguei-me daquela conversa que não me interessava, não resistindo a tentação de inspecionar pela minha visão periférica, assim como Eva não resistiu a tentação de abocanhar o fruto proibido do conhecimento, o que aquele homem grosso do bar estava fazendo. Senti minhas pernas bambearem como se fossem feitas de gelatina ao pegar um vislumbre dele ainda recostado no mesmo lugar assoprando uma nuvem afunilada de fumaça do cigarro quase finalizado no canto de sua boca contendo a mesma expressão irônica em seu semblante com os olhos ainda deitados em mim.

Aquilo tava começando a me assustar.

_ Vou com vocês. _ Falei de repente, dirigindo-me a Tétis que havia se prontificado a ir com Hilda até o bar atrás de garrafas de Whiski e Tequila. _ Preciso de outra dose de Vodka Cranberry, já que essa aqui esquentou.. _ Me justifiquei apontando para o meu próprio copo de bebida que jazia esquecida no antebraço do sofá.

Entretanto aquilo havia sido apenas um subterfúgio, uma desculpa para escapar dali. Eu não era uma pessoa superticiosa, mas algo estava começando a apitar na minha cabeça, avisando-me que algo ali estava muito, muito errado, fora dos eixos, e aquele homem estranho postado naquela pilastra encarando-me de um jeito um tanto psicótica só reforçava essa sensação, fazendo assim com que eu apertasse o passo para fora de suas vistas. Não havia uma explicação plausível para aquela incômoda sensação, talvez fosse coisa da minha cabeça e tudo pudesse ser explicado através da teoria que eu estava começando a ficar insuportavelmente nervoso com algo que nem eu mesmo atinava o que era.

_ Vocês viram aquele gato parado na pilastra da parede, próximo a roleta de saída? _ Diz Hilda, após driblarmos os obstáculos humanos no percurso da pista e alcançarmos não sem uma boa cota de dificuldade as instalações do bar.

Claro que sabia muito bem a quem ela se referia, mas preferi fingir que não.

_ E como não? Difícil seria não ter reparado naquele pedaço de perdição. _ Concordou Tétis.

_ Tirem o cavalinho da chuva meninas. _ eu disse, interrompendo-as. _ Eu acho que ele é gay.

Elas se calaram, de surpresa, eu imagino. Também com aquela cara de cafajeste hetero isso devia ser realmente chocante, bombástico.

_ Dite...

_ Além do mais ele deve ter o pau pequeno _ Sorri _ Afinal vocês sabem o que dizem sobre quem toma anabolizante, não sabem? _ Disse, vingando-me por aquele grosso ter dito que eu usava silicone.

_ Dite... _ Tétis começou, mas eu a cortei.

_ É minha opinião ué. Porque aqueles músculos só podem ser causados por esteróides.

_ De quem estão falando? _ Uma voz rouca e irritada nas minhas costas me fez pular assustado e soltar um gritinho estridente.

Girei aterrorizado nos calcanhares já sabendo de antemão quem eu ia encontrar bem atrás de mim. Estupidifiquei ao encontrar aquele homem numa expressão intimidadora que só sociopatas, maníacos, ou ex presidiários de uma penitenciária de segurança máxima conseguiriam ter.

Oh me Deus! Foi tão bom viver até aqui.

_ Obrigado. _ Sussurrei para Tétis empertigada à poucos passos de distância.

_ Eu tentei te avisar. _ Sussurrou de volta.

_ O Dite estava falando de um amigo nosso em comum. _ Apressou-se Hilda em justificar.

_ Sim, um amigo. _ Confirmou Tétis.

E pela primeira vez na vida eu me permiti gostar um pouco daquelas meninas mais fúteis do que eu.

Não sei se ele caiu nessa, mas por via das dúvidas me apressei em apanhar meu Drink no balcão e juntar-me as meninas para fora dali. Todavia, sem opção, ao passar quase comprimido do seu lado, uma vez que ele havia fechado meu caminho, interceptando-o com o seu corpo, senti seu punho se fechar no pulso do meu braço, impedindo-me de escafeder daquele cubículo apertado como obviamente era a minha pretensão.

_ Você fica, garotinho. _ Congelei no lugar, tentando puxar minha mão do agarre firme da sua, o que só fez com que ele aplicasse mais pressão na artéria do meu pulso com o seu dedo polegar, gemi choroso pela dor aguda.

_ É... eu não posso,... as meninas estão me aguardand... _ Minha voz se tornou um fiapo até morrer na garganta quando me toquei que aquelas duas salafrárias tinham evaporado, deixando-me ali sozinho e a própria sorte com aquele malfeitor para lidar.

_ Não me lembro de ter lhe perguntado o que você quer ou deixou de querer, a sua opinião é irrelevante aqui. Mas só para encurtar a historinha, você deveria cuidar do que fala, você, garoto, não faz ideia de com quem está lidando.

Por alguma razão seu tom obscuro me fez tremer.

_ Aonde você está me levando? _ Perguntei, começando a entrar em pânico, pavor, quando sua mão, deixou o meu pulso para subir para o cotovelo, travando-se ali, antes de me arrastar brutalmente, rebocando-me para uma câmara no corredor adjacente ao vestiário masculino.

_ Loirinho, loirinho. Você parece ser intuitivo, deveria ter dado mais atenção ao sinais, lido nas entrelinhas. Eu sou o que se pode chamar de emissário do caos, um agente da morte, eu sou o Diabo e não tenho salvação. _ Disse, soltando uma risada baixa e um tanto fria, sem humor. Encolhi os ombros perplexo com o andamento daquela situação, atônito, enquanto ele se ocupava em cerrar a porta daquela câmara que parecia ser o depósito de bebidas que abastecia aquela boate. _ E eu vou te trazer para o meu inferno. _ Concluiu, cruzando os braços no batente da porta após ter corrido a chave na fechadura.

_ Olha, se está chateado pela conversa, as meninas já disseram que estávamos falando de um conhecido. _ Desandei a me explicar, embatendo minha coluna de encontro a uma prateleira de safras de vinho, buscando impor alguma distância de onde ele estava.

Ele sorriu balançando a cabeça negativamente.

_ Quer mesmo que eu acredite nisso?

_ Eu acho melhor acreditar, porque é tudo o que eu tenho para lhe dizer. _ Revidei.

_ Para um vadio você é um péssimo mentiroso.

Revoltei-me. Ah, então seria assim?

_ Quer saber? Você tem razão, era exatamente de você que estávamos falando, e quer saber do que mais? Eu vou relevar essa sua grosseria porque eu acho que você está chateado por ter o pau pequeno.

_ E sabe o que eu acho? _ Sua voz furiosa me atemorizou, mas não mais do que seu corpo vencendo a distância que separávamos e prensando o meu ainda mais contra a instante atrás de mim. _ Que você está louco para saber o quão pequeno eu sou. _ Vociferou ele em meus ouvidos.

_ Nem em sonho, babaca, quer dizer, pesadelo. Além disso pensei ter ouvido você dizer que eu não fazia o seu tipo. Pois bem, fique você sabendo que coroas também não fazem o meu gênero, seu estúpido. _ Zombei, sentindo o sangue bombear furiosamente nas veias.

_ Tem certeza disso? Porque eu aposto que você quer descobrir isso por sua própria conta e risco. _ Afamou ele com o escracho manchando sua fala, introduzindo sua perna esquerda entre as minhas, atritando propositalmente seu joelho na minha virilha.

PUTA QUE PARIU!!!

_ Eu realmente devo ter ferido muito seu ego masculino com isso, mas deixe-lhe esclarecer uma coisa, querido, quando isso não dá conta do recado. _ Ironizei, apontando para a suas bolas. _ Divirta-se usando as mãos. _ Emendei, encarando raivoso meu arque inimigo desconhecido.

Ele nada respondeu ao invés disso puxou bruscamente meus cabelos para trás, trazendo-me para mais perto e afundando a ponta do seu nariz na minha jugular. Suas mãos viajaram até a minha bunda, apertando-a brutalmente. Cada músculo do meu sistema retesou, ficando tenso, e senti como se as minhas vísceras estivessem virando água, derretendo. Todavia logo me recuperei daquele súbito assalto e revidei a sua agressividade cravando as unhas em seus ombros, riscando-as na sua carne até a base inferior de sua coluna e fincando-as na sua silhueta.

O som estrepitante de garrafas estilhaçando-se em baques surdos ao impactar-se contra o granito calcinado do chão perpetuou-se por todos os recônditos do cômodo quando tive meu corpo suspenso do piso pela suas mãos, entrelaçando minhas pernas em volta de seus quadris, arrancando um gemido duplo de dor e prazer ao chocar minhas costas na prateleira de vinhos com o volume desperto e rígido no centro de sua calça roçando endurecido nas minhas coxas.

_ Vê? És uma putinha que geme fácil com o menor dos toques. Você precisa é de um pau para lhe foder, você não ficaria provocando tanto se estivesse sendo fodido como se deve. _ Rosnou no pé da minha orelha, enviando ondas de brasas por todo o meu copo e fazendo um desejo angustiado ganhar vida própria e se concentrar nos países baixos dentro da cueca. Uma parte minha queria lhe estapear, aniquilar aquele sorriso prepotente e debochado dele e depois puxá-lo pela gola da camisa e lamber o seu pescoço.

_ Cale a maldita boca, não percebe que está estragando o clima? _ Retruco, embora ele não estivesse, nem um pouco. As palavras sujas ditas por ele com aquela timbre gutural, agudo, pesado, com seu hálito quente ricocheteando na tez e curva do meu pescoço parecia querosene queimando todas as camadas da minha pele naquela combustão carnal de desejo, devassidão.

_ Não é o que seu corpo me diz, garoto. _ Disse numa entonação turva, desfocada, e eu podia ver sua respiração cada vez mais profunda e descompassada do que a anterior. Seus músculos tensionaram-se flexionando-se sobre as minhas mãos espalmadas em sua omoplatas quando numa agilidade embasbacante seus dedos deslizaram até a barra da minha calça, deslizando o zíper da bainha para baixo do cós.

Traguei uma grande golfada de oxigênio quando seus braços se firmaram em meus quadris, impulsionando todo o meu peso para cima ao puxar a malha justa e apertada da Skinny para fora do corpo. Seus olhos grafites enegreceram e gotas de suor reluziam no arco de suas sobrancelhas unidas. Desci os olhos para baixo sentindo uma fisgada latejante se alojar dentro da cueca com a visão de sua calça jeans escurecida, manchada pela umidade viscosa e pegajosa de pré-gozo no relevo entumescido entre suas pernas. Com um brio enfurecido refletido na suas esferas mais obscuras que o mais enegrecido piche suas mãos voláteis e um tanto ásperas descerram até o elástico da minha cueca box, rasgando-a num rápido movimento pela costura. O som do tecido sendo partido repercutiu alto naquele depósito assim como as garrafas espatifadas em cacos no chão.

_ Caralho. _ Ele gemeu rouco circundando os dedos pela minha entrada, enterrei as mãos em seus cabelos negros, desgrenhando-os, inalando a fragrância de colônia de sua barba áspera raspando contra minha pele.

Sua mãos migraram até a parte interna das minhas coxas, erguendo-me, maculando a pele nívea com o agarre bruto e impiedoso de seus dedos, sentando-me numa envelhecida mesa de carvalho adquirida em algum antiquário. Ele se afastou um passo com os olhos ainda vidrados no meu rosto que eu tinha plena certeza que deveriam estar pigmentados em um afogueado carmesin, o cheiro inebriante vindo do ícor esparramado no solo pelas garrafas quebradas intoxicavam meus sentidos, embriagando-me, e eu me vi ronronando em expectativa como um filhotinho de gato quando ele desafivelou o cinto de sua calça, baixando-a até os joelhos e liberando seu membro grosso e grande e com algumas veias saltadas sobressaindo-se por sua espessura. E pensar que eu ainda tive a ousadia de difamá-lo dizendo que ele tinha o pau pequeno.

Oh Shit!

Um se seus braços apossaram-se de minha cintura, envolvendo-a, prendendo-me imobilizado sobre a mobília às minhas costas enquanto sua outra mão direcionava seu falo duro feito granito pela base até a minha cavidade, passando-o pulsante e escorrendo pré-gozo pela fissura de sua glande inchada e tesa na minha entrada sem realmente chegar a me penetrar. Grunhi frustrado enlaçando seus quadris com as pernas para entre as minhas e o canalha riu da minha afobação. Eu estava me sentindo a merda de um adolescente que acabara de descobrir o sexo e que tivera seu último orgasmo à semanas e não na noite anterior.

_ Diga-me o que você quer. _ Demandou, tomando minha camisa entre os dedos, rasgando-a numa visível impaciência, espalhando os botões de madrepérola por toda o piso, prateleiras e sobre o vão liso da mesa. Seus dígitos deslizaram precisos através de minhas costelas e coluna, agora despidos à suas vistas, apertando o bico do meus mamilos com os polegares, enrigecendo-os, gemi sôfrego, aquele era um dos meus pontos sensíveis, erôgenos. Com seu olhar sombrio fixados em minhas expressões durante todo o ato, como se estivesse bebendo-as, aguardando a minha resposta. Sua glande inchada, rígida, lubrificada, pincelou minha entrada, torturando-me, fazendo-me contorcer sobre o jugo de suas mãos habilidosas e eu pressionei os quadris contra sua pélvis, ansiando por mais daquele contato. Suas mãos eram grandes e tão áspera em contato com minha pele que quase machucavam-me, seus toques rudes não eram nem de longe aquela coisa gentil e amorosa aos quais eu estava acostumado, eram brutos e indelicados. Ali certamente estava um homem habituado a conseguir sempre o que queria, e acontece que, naquele instante, eu vinha a ser o que ele mais queria. _ Diga-me. _ Repetiu, mas eu não disse, agarrei-me ao meu último fio de orgulho. Oras! Eu era Afrodite tomlinson e não implorava sexo a ninguém, os outros é que me imploravam.

_ Vá a merda.

Ele sorriu friamente.

_ Vou parar então. _ Avisou-me.

O quê? E me deixar assim?

_ Não se atreva!

_ Então diga.

Uma vez canalha, sempre canalha.

_ Eu quero que você ma foda. _ Esbravejei entre dentes, me negando a acreditar que eu realmente havia implorado algo pra aquele maldito que eu sequer sabia o nome.

_ É isso o que você quer? Então trate de ficar bem quietinho, ou todos que passarem rente aquela porta vão escutar eu te comendo e você provavelmente não vai querer isso.

Mordi seu ombro para abafar um auto gemido quando ele me penetrou forte e duro. Passei os baços em torno de seu pescoço e apertei minhas pernas em volta de sua cintura dando a ele mais acesso para me preencher. Sua estocadas eram brutas, primitivas, certeiras, alcançando lugares nunca antes descobertos.

Ele me tomava de forma dura, violenta, com movimentos rápidos e precisos, indo cada vez mais fundo e forte, segurando-me pelas nádegas que estalavam alto açoitadas cruelmente pelo seus testículos tesos. De todas as experiências que eu já tivera antes, essa superava de longe no quesito loucura e inconsequência, eu estava transando com um completo desconhecido no armazém de bebidas de uma casa noturna. Ri internamente, é, não se pode dizer que eu não disporia de boas histórias para contar aos meus netos e bisnetos quando atingisse a velhice, virasse o morro, contemplando o pôr do sol de cima de uma varanda embalado numa cadeira de balanço.

Senti suas mãos vaguearem pelos meus braços antes de enrolar seus dedos no comprimento dos meus cabelos e puxá-los para trás, deixando minha garganta e colo expostos as investidas de seus lábios vorazes. Sons lamuriantes de êxtases irromperam pelas minhas cordas vocais quando ele escorregou seus dedos entre o vale de minhas pernas, rodeando o membro negligenciado ali. Tombei a cabeça para o lado sentindo o corpo borbulhar com a aproximação do orgasmo e ele comprimiu seus lábios contra os meus, esmagando-os com a agressividade exigente dos seus.

_ Você que gozar, garoto? _ A maneira indecorosa com a qual ele proferira a palavra “garoto”enquanto traçava sua língua quente e molhada por todo o perímetro da minha clavícula deveria ter enviado uma onda de fúria por todos os órgãos e poros do meu corpo, porém, a única coisa que eu conseguia sentir era uma diluída excitação nadando em chamas por todos os litros de sangue do meu corpo, compelindo-me a abrir ainda mais as pernas sobre suas ancas e suas arremetidas. _ Quer gozar com o meu pau dentro de você? Fodendo-o?

_ Sim. _ Choraminguei. _ Por favor!

Seu sorriso cínico voltou aos lábios, emputecendo-me, tirando-me de mim. Sem medir as consequências ergui uma das mão desferindo-lhe um sonoro tapa em sua face, despejando minha fúria em seu belo e másculo rosto e ele reagiu no mesmo instante.

Ele agarrou brutalmente meus cabelos trazendo-me para perto de seu torso e deitou-me estirado na planície da mesa segurando minhas pernas abertas em torno de suas panturilhas enquanto suas estocadas tornavam-se impiedosas, doloridas, punitivas, como se quisesse me atravessar no meio, ele está com raiva e eu podia sentir isso formigar em todas as camadas da minha pele. Senti meu corpo estremecer com a intensidade daquilo.

_ Não vai gozar agora, garoto insolente. _ Grunhiu parando de se movimentar.

_ O-o quê? _ Consegui balbuciar entre as arfadas de ar.

_ Se quiser gozar, peça desculpas. _ Ditou, pousando sua mão pesada no meu baixo ventre impedindo-me de me mexer, enquanto sua outra mão subiu e passou a massagear meu pênis pingando pré-sêmem dolorosamente

_ Aiiiiii! _ Meu Deus! Ele pretendia me desmembrar? Me transformar num Eunuco?

_ Quer gozar?

_ Hum-hum

_ Diga!

_ Eu quero gozar, seu maldito. _ Bradei.

_ Então é melhor você se apressar com seu pedido de desculpas.

Engoli em seco tentando rebolar em seu pau pulsando inerte dentro de minha fenda, mas ele me impediu imobilizando-me ainda mais com sua mão em cima da mesa.

_ Peça. _ Repetiu.

_ É-é... me desculpa. _ Murmurei com a voz mais doce e meiga que eu consegui forjar naquele momento.

Ele sorriu maldoso e retomou à suas investidas e eu nunca fiquei tão contente antes pelo meu talento dissimulativo do que naquele instante.

Eu era um prodígio.

Meu corpo convulsionou quando ele impôs um ritmo mais potente na suas arremetidas, parecendo me empalar, me abrir ao meio, o membro grosso surrando violentamente minha prostáta com sua glande maciça e empapada de sua lubrificação natural, deslizando para dentro e para fora num vai e vem enérgico, initerupto, poderoso. Ele puxou minhas pernas para cima dos ombros estocando com mais força e eu gritei quando os espasmos explodiram por todas as minhas células vindas de todas as áreas e regiões sensíveis do corpo, desmanchando-me em jorros na palma quente e molhada de suor e esperma de sua mão. O cheiro lascivo de sexo permeava por toda a atmosfera e eu imaginei que quem quer que fosse que voltasse a utilizar aquela câmara como depósito de bebidas novamente precisaria antes detetizar aquele lugar.

Pude sentir os músculos de minhas paredes internas fecharem-se em fortes contrações em torno de seu pau, e ele rugir feroz, bestial, de forma animalesca, separando ainda mais minhas pernas em torno de seus ombros e estocar com mais vigor. Contudo antes de atingir o seu limite ele retirou-se de dentro e olhou-me numa expressão turvada, anuviada.

_ É nessa boquinha deliciosa que eu quero me derramar, enchê-la com a minha porra. _ Pronunciou.

Atirei uma mecha encaracolada de meus cabelos para ás costas e joguei-lhe um olhar malicioso antes de escorregar para o chão, prostrando-me entre seus joelhos. Sorri sacana, brejeiro, quando segurei sua ereção dura pela base achando engraçado o fato de precisar das duas mãos para tocar toda sua largura e ainda assim não conseguir fechar os dedos para circundá-lo totalmente. Eu não estava exagerando, toda a vodka consumida não havia me confundido, ele era realmente grande e grosso.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

_ Vou fazer você gozar tão forte que nem vai se lembrar que é o maio filho da puta que eu já conheci. _ Disse, colocando toda a extensão cabível de seu membro na boca, sentindo-o pulsar latejante na minha garganta, seus músculos se retraíram e um suspiro profundo foi emitido por sua boca.

Elevei os olhos para cima admirando vê-lo com a testa franzida e as mãos apertadas na beirada da mesa com as pálpebras cerradas para baixo dos cílios. Ele parecia vulnerável naquele momento, entrementes eu sabia que era apenas ilusão, a última coisa que aquele homem poderia vir a ser era algo com um predicativo desses. Ele era um cretino, um filho da mãe que só fizera me ofender, insultar e arrastar o meu ego pela lama com sua prepotência, e eu, Afrodite Tomlinson estava ali ajoelhado na sua frente numa posição de inferioridade, submissa.

Isso não poderia ficar assim.

Então ao invés de lhe dar o que ele queria eu me levantei, agarrei minha calça no pé do artefato do antiquário, enfiando-me de qualquer jeito dentro dela e o encarei, divertindo-me com sua expressão confusa, desentendida.

_ Que merda você pensa que está fazendo? _ Rugiu _ Se ajoelhe e abra a boca. _ Demandou ele, autoritário.

Olhei maliciosamente para a sua ereção túrgida e enrigecida e soprei-lhe um beijo no ar, evaporando em seguida pela porta após destranca-la com a chave pendida na fechadura. Ajeitei minha camisa rasgada no corpo na base do improviso metendo-a para dentro do lado avulso do jeans e encostei-me numa robusta pilastra implantada numa área menos movimentada do que seria o usual e um pouco sem fôlego por ter praticamente corrido até ali sentei no chão metálico de ante- derrapantes e sem mais conseguir ma segurar desatei-me a rir, rir não, gargalhar.

Cristo! O que fora tudo isso?

Eu não sei quanto tempo eu fiquei agachado naquele lugar cantarolando algumas músicas aleatórias de diferentes faixas eclodindo pelas diversas caixas eletrônicas espalhadas naquela boate enquanto enxugava eventuais lágrimas das incontroláveis crises e acessos de risos que marejavam meus olhos, sacudindo e roubando-me todo o ar do corpo e dos pulmões. Era mais forte do que eu, bastava repassar mentalmente o ocorrido que eu automaticamente me desmanchava em risadas ao ponto de sentir dores agudas perpassarem minha barriga. Até que mais recomposto me dirigi ao banheiro masculino no fim do corredor no intuito de borrifar uma água sobre o rosto.

Por sorte o lugar estava vazio, eu odiava filas e superlotações. O meu reflexo no espelho acima da pia parecia a imagem de um ator pornô que tinha acabado de transar, com os cabelos desalinhados, rosto corado, lábios inchados, camisa em retalhos e marcas e vergões de mãos e mordidas por toda a pele leitosa do pescoço, colo, braços e ombros, e era melhor nem tentar imaginar o estado das costas, ventre, cintura, bunda e pernas por debaixo das roupas.

Fiz uma carranca para mim mesmo no espelho, já estava mais do que na hora de desaparecer dali antes que aquele homem resolvesse vir atrás de mim para se vingar. Ri de novo lembrando-me em que estado eu o havia deixado. Acionei a válvula de pressão da torneira e molhei a face e a garganta espiralando um pouco daquela água fresca e revigorante à minha pele um tanto assada pelas marcas de dedos e chupões, estendendo a mão para apanhar o papel toalha no mecanismo da parede para me enxugar. Descartei o lenço embevecido na lixeira preta debaixo da pia e me virei para sair, contudo petrifiquei no meio do caminho e meus olhos aumentaram de tamanho ao me deparar justamente com aquele homem de braços cruzados e um sorriso psicopático proliferado nas linhas de seus lábios bloqueando a saída da porta.

_ Vai a algum lugar, gracinha? _ A ironia era tão palpável que poderia ser cortada por uma faca se riscassem- a ao seu redor.

Como ele bloqueava a única saída busquei rapidamente com os olhos uma outra rota alternativa de fuga e como não encontrei nenhuma corri para me trancar numa das cabines e passar a trava comigo preso no lado de dentro. Amaldiçoei a mim mesmo por não ter pegado meu carro e pisado no acelerador para ir embora dali tão logo havia me desvencilhado dele no armazém de bebidas.

OH MEU DEUS! OH MEU DEUS! OH MEU DEUS! OH MEU DEUS! OH MEU DEUS! OH MEU DEUS....

_ Você deveria saber que não se brinca com fogo se não quiser se queimar... _ Dizia ele alto, e não demorou para eu ver pela fresta do chão os coturnos de sua sombra parada atrás da boxe da minha cabine.

Aterrorizado por vê-lo forçar a maçaneta subi em cima da tampa do vaso e me espremi contra a parede sentindo meu coração retumbar auto em meus ouvidos e errar uma nota quando uma rajada de vento frio assoprou em meu pescoço, beijando-me a face em suaves lufadas. Virei de costas para a porta e voltei minha atenção para cima encontrando uma pequena janela que mais parecia um vasculante pairado a pouco centímetros da minha cabeça. Eu nunca pensei que fosse dizer isso mais eu nunca mais reclamaria dos meus 1,65 metros de altura e nem sofreria por complexos de Napoleão... eu estava imensuravelmente feliz por ser pequeno. Afinal ser pequeno não era tão ruim assim, só na maioria das vezes.

Escalei a tampa do vaso, alcançando sem grandes dificuldades a beirada estreita da janela, abrindo-a o máximo possível antes de começar a me esgueirar para o outro lado. Um estrondo violento fora escutado quando já tinha passado mais da metade do meu corpo para fora e eu não precisava olhar para trás para me certificar que a porta da cabine havia acabado de ceder, ser posta abaixo. Senti minhas pernas serem puxadas de volta para dentro e comecei a me debater e a me espernear violentamente tentando me soltar de suas garras.

_ Loirinho...loirinho... nem cogite a ideia de tentar escapar de mim... _ Sibilou ele comprazendo-se com meu desespero.

E num arranco ditado pelo mais tenebroso dos medos, terror, comecei a balançar os pés furiosamente como se a minha vida dependesse daquilo, e eu estava começando a considerar que talvez realmente dependesse, conseguindo acertar acidentalmente um chute certeiro no seu rosto, conquistando por curtos segundos minha liberdade que eu empreguei para terminar de escorregar para o outro lado do vitrum, caindo de bruços na relva grama drapeada no passeio do lado de fora da boate.

Aprumei-me do chão me dando conta que eu estava sem um dos meus sapatos All Star, vi um pé de urtiga debaixo da janela e fiquei grato por não ter caído em cima dele. Saltei da grama para o cinza sujo do asfalto e me apressei até a vaga onde havia estacionado meu carro, atirando os apetrechos e o meu celular completamente sem bateria do bolso da calça no banco de passageiros antes de sair cantando pneus para bem longe da jurisdição daquela viela sem lei...

…. e daquele homem.