Notas iniciais
Cheguei com o primeiro capítulo do ano, na verdade ele já estava pronto a algum tempo, mas por conta das festividades de fim de ano e meu boy magia requerendo minha atenção em período integral, somente hoje encontrei uma brecha para postar. Agradecendo a Demetria picies, Hiver, Leya Ferreira, Nininha pelas favoritações e Mari Verseu pela lindíssima recomendação.

Vinte e sete. Esse era o número de lâminas no ventilador de teto.

Cento e sessenta e oito. Esse era a soma total de pétalas de frésias pinceladas a óleo e acrilex numa texturizada moldura vintage dependurada no centro da parede da frente.

Suspirei em exasperação pela milésima vez num período comumente inferior a cinquenta minutos de acordo com às horas formatadas em neon no contemporizador da tela do celular esparramado nas colchas e lençóis daquela estreita King Size. Eu sempre tive um sono leve e havia despertado tão logo o sol renascera no poente, mais pálido e fantasmagórico que o de costume, ofuscado pelas nuvens carregadas que o enfraquecia no horizonte. E desde então eu estivera assim. Recostado na cabeceira daquela cama com os braços amparados atrás da cabeça enquanto mirava o teto ou qualquer outro ponto remotamente interessante daquele quarto com uma muito provável expressão de paisagem conquanto fazia um levantamento, um inventário, acerca dos danos e eventos discorridos na noite passada.

Inicialmente eu havia estranhado quando acordara e descobri-me deitado nos aposentos do mesmo quarto que me servira de cativeiro domiciliar da primeira vez que estive ali. Lembrava-me nitidamente de ter pego no sono, adormecido sobre as pernas de Milo no sofá de algum cômodo daquela casa.

Além disso, por mais inimaginável que aquilo pudesse soar, eu também estava inegavelmente espantado por não ter sido assombrado novamente por nenhum outro pesadelo, como eu estivera convicto que ocorreria quando meus olhos se fechassem outra vez para abraçar a inconsciência. Eu tinha receado que os acontecimentos desencadeados naquela rua repercutiriam para aquém das imagens conjuradas pelo sonho, que as cenas do meu quase estupro e o extermínio daquele homem por Milo se reconstituiriam através de meus pesadelos. Foi um alívio a constatação de quão infundadas aqueles temores se mostraram sobre a luminosidade do dia.

Talvez eu apenas tivesse supervalorizado todo o ocorrido, atribuindo-lhe uma dimensão intransponível e infinitamente maior do que devesse, ou desmerecido, dado pouca ou nenhuma credibilidade a minha rápida capacidade de superação e em reprimir acontecimentos traumáticos e indigestos. O que levando em consideração o meu histórico astronômico de infortúnios recentes equiparável a tragédia mórbida de “Os Miseráveis”, “Píramo e Tisbe”, e que, Deus me ajude, “Judas, O Obscuro”, não era de todo impensável, de qualquer jeito. Aquelas últimas vinte e quatro horas haviam feito muito bem o seu trabalho em me convencer de vez o quão propenso a desastres eminentes eu era, uma calamidade ambulante apenas esperando para acontecer.

Apesar disto, talvez Nietzsche estivesse certo. O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte.

Ri sem humor, recordando-me de um velho discurso feito pelo Prof: Shion meses antes numa confraternização com o corpo docente, mestrandos, e graduandos de sua disciplina. Ele houvera dito na ocasião que “a vida é cheia de surpresas e oportunidades, bastava que você esticasse as mãos para apanhar uma”. Eu precisava dar a mão a palmatória, naquele momento eu me sentia como se tivesse propositadamente esticado as mãos e enfiado-as com tudo num formigueiro.

Sentia falta de meus tempos de anonimato. Dos tempos em que o pior que podia me acontecer era ser trancado dentro do armário de vassouras do vestiário pelos jogadores de lacrose no ensino médio ou tolerar as ofensas estúpidas feitas por pessoas com um QI inferior ao meu.

Sacudindo a cabeça em negação e, espreguiçando, saí do meu prolongado estado vegetativo, rolando para a beirada da cama enquanto bania os pensamentos deprimentes para os fundos da mente. Aquilo era inútil. De que me adiantaria ficar ali, remoendo-me e martirizando-me por algo que não tinha mais concerto? Apenas lamentando pelo passado perdido e sofrendo em antecipação por um futuro incerto?

A minha vida havia se tornado uma tragédia grega, ironicamente causado por um grego.

Ignorando o fato da sola dos meus pés descalços pinicarem ao entrar em contato com o ladrilho frio do chão, desloquei-me molemente para o banheiro interno privativo, a sonolência deixando-me incapacitado até de conseguir andar em linha reta e não ziguezaguear na minha peregrinação. No entanto, meus passos cessaram ao passar rente as longas cortinas persianas parcialmente cerradas da varanda, desviando-me de meu trajeto original ao segui trôpego e exitante para a área externa do quarto quando meus olhos captaram sutis movimentos do lado de fora. Mesmo aquela distância meus olhos rapidamente conseguiram identificar as suntuosas formas de Milo pairando sob a orla da piscina, compenetrado, ao que aparentava, na sincronia harmônica e fluídica dos movimentos transcendentais e milenares do Tai-Chi-Chuan sendo tão magistralmente incorporados pelo seu corpo.

Eu soprei o ar para fora dos pulmões, minha respiração repentinamente se desregulando errática no meu peito como se eu tivesse corrido por uma légua, o coração batendo acelerado demais na minha garganta e a sensação firme de formigamento sobre a boca enquanto meus olhos trapaceavam-me, recaindo hipnotizados, incapazes de se desviarem por força de vontade própria, da estonteante beleza, quase primal, predatória, conferido pelo ondular sinuoso, serpenteado, rítmico e relaxado de seus movimentos. Seus passos eram leves, gráceis, parecendo bailar na ancestralidade marcial daquela arte, tranquilos, absortos, meditativos e sequenciados. Facilitados pelo uso de uma calça brim turquesa folgada em seu corpo, que lhe permitia mais liberdade de movimentos. Os cabelos pendiam presos num rabo de cavalo frouxo, embatendo nos ombros e pescoço, induzidos pelo sereno fino da manhã.

Eu não podia deixar de admirar a forma como os músculos tonificados de suas costas se expandiam e retesavam-se quando ele se locomovia no acorde contínuo daquela dança, reluzindo com o suor transpirado através dos poros de sua pele tão fustigada pelo sol quanto a de um trabalhador braçal acostumado ao serviço pesado ou a de um andarilho nômade do Saara, o que me fez concluir que ele já deveria estar se exercitando ali há algum tempo. Fato este que me surpreendeu, eu não acreditava que Milo pudesse ser um homem das matinas.

O dia estava particularmente frio, talvez um prenúncio de que estivéssemos as portas de um inverno rigoroso aquele ano, e meus lábios não tardaram a tremerem e arroxearem-se com a baixa temperatura acarretada por aquele tempo enquanto assistia moitado pela balaústre o compasso articulado e preciso de seus movimentos, que de alguma forma nele pareciam soar tão... indecorosos... lúbricos... um convite a luxúria.

Mesmo a contragosto eu não tinha como negar. Milo tinha um porte físico atrativo, esbelto, do tipo que alimentava a imaginação da maioria das garotas, e também de garotos, claro, faça-se essa importantíssima ressalva. De uma sensualidade bruta, primitiva, só vista nas obras de Botticeli e na representação de Eros no leito com Psiquê de Jacques- Louis David, mas com a predisposição sexual digna de um incúbus que se alimenta da energia vital de suas vitimas até lhes esgotar suas forças com sua eterna... insaciedade, fome.

Não que algum dia eu fosse confessar isso em voz alta. Não mesmo. E se me perguntasse eu seria capaz de mentir olhando dentro dos olhos da pessoa.

Bufando irritado retomei minha trajetória sentido ao banheiro. Seria extremamente mortificante, constrangedor, me arriscar a permanecer ali e incorrer no risco de ser flagrado por ele. Meu amor próprio não sobreviveria a mais um golpe duro e humilhante desses para engrossar ainda mais a minha lista exorbitante de desgraças, ainda mais sendo uma perfeitamente evitável.

Espalmei a mão no mármore liso da pia, suspendendo uma sobrancelha para cima com os itens de higiene pessoal encontrados na bancada. Toalha de rosto e banho, sabonete, barbeador e uma escova de dentes nova ainda dentro da embalagem. Ponderei por alguns instantes o quão profundamente ferrado eu estivera em meu sono para não ter notado quem havia entrado naquele quarto e deixado aqueles itens dispostos ali. Dei de ombros, do jeito que eu ainda me sentia exausto tanto física quanto emocionalmente, mesmo tendo acabado de acordar, o mais certo é que ao invés de dormir eu tinha mesmo era apagado, entrado em coma.

Refiz o trajeto para o quarto após concluir minha higienização e, alarmado, constatei as mais de vinte ligações perdidas do Dite notificadas pela operadora na minha caixa postal. Detestava ter de mentir novamente para Dite quando eu disquei o seu número e ele atendeu aflito logo no segundo toque. Pude ouvir os seus gritos exaltados e injuriados do outro lado da linha, o mesmo sermão que eu vinha escutando com certa frequência de sua parte naquele par de semanas, algo sobre eu estar distante e não confiar nele o bastante para me desabafar. Ele estava prestes a chamar a polícia para saber o meu paradeiro desde que havia voltado da boate e resolvera de última hora passar no meu apartamento, assustando-se quando verificou que não tinha nenhum sinal de que eu houvera retornado para lá, apenas encontrado o andar escuro e o apartamento totalmente submerso pelo breu, sem iluminação ou qualquer indicio de que eu tivesse dentro do flat. Ele parecia uma criança aterrorizada, amedrontada depois de ter passado uma noite em claro preso num porão escuro ou num sótão velho e empoeirado. Enquanto ele me fazia um turbilhão de perguntas, eu preparei a minha voz e pigarrei chamando sua atenção, culpa e remorso duplicando seu tamanho sobre mim, crucificando-me pelas minhas atitudes omissas e negligentes.

Meu lábio ardeu. Eu pus muita força ao mordê-lo, senti-o arder quando minha língua escorregou para umedecer a pele seca e os olhos lacrimejarem no momento que eu o acalmei, dizendo que estava tudo bem, e que eu passei a noite na casa de Dohko por falta de condução naquele horário e como a casa dele era a mais próxima daquela região afastada ele não viu nenhum problema em me fornecer hospedagem.

_ Sinto muito, eu não imaginava que você tivesse ido para o meu apartamento. _ Desculpei-me, consternado, pesaroso.

“Essa não é a questão, Camus, você nunca dormiu fora de casa antes, nem mesmo quando o colégio promovia acampamentos ou expedições extracurriculares, eu me apavorei pensando que algo pudesse ter acontecido. Eu me sinto relegado a um segundo plano, porque não retornou minhas ligações antes?” Exigiu saber.

_ Meu celular estava no modo silencioso, eu não o ouvi tocando. _ Justifiquei-me. _ Desculpe. _ Repeti, tendo a necessidade de acrescentar, expiar ao menos uma parte daquele amontoado de culpas que se avolumavam como bolas de neve.

Retratar-me.

“Tudo bem, Camus” Suspirou, parecendo cansado. “Só não me preocupe assim novamente.' Pediu, súplice, e eu apenas concordei, mesmo sabendo que não passavam de palavras vazias, uma inverdade, eu não tinha como, tampouco estava numa posição em que eu pudesse garantir ou fazer promessas quando nem mesmo detinha mais algum controle sobre a minha própria vida, ainda assim não desejando acabar me tornando um motivo de preocupação, um encargo... um estorvo. “ A culpa é minha por ter praticamente te forçado a ir contra a vontade pra aquela boate, mesmo sabendo o quanto você detesta lugares como aquele. Pensando bem agora, isso não parece fazer lá muito sentido, parece idiota, pra ser franco.” Emendou ele, tagarela, voltando a ser o Dite falador, hiperativo e verborrágico de sempre a qual eu já estava acostumado a lidar. Sorri minimamente, meu peito se enchendo de alivio e de algo a mais que só poderia ser descrito como completude. Preferiria esse Dite impulsivo e destemperado do que ter que lhe lidar um Dite emotivo e fragilizado, até porque eu não tinha o menor tino para lhe dar com os sentimentos alheios.

_ Isso se chama impulsividade. _ Provoquei, trazendo o travesseiro para cima do colo. _ Alias, e quanto a Mu? _ Perguntei.

“Eu falei com ele ainda a pouco, e ele está muito bem, se bombear melhor até do que nós dois.” Deu uma risadinha abafada.“ Ademais, dá última vez que eu o deixei sozinho ele estava muito bem acompanhado” Obliterou ele, deixando seu comentário recheado de significados subentendidos.

_ Você o deixou sozinho? _ Aquela foi a única parte que despertou minha atenção.

Escutei-o gani e soltar um impropério baixinho, como se ele tivesse se maldizendo por ter falado demais.

“Não me dê sermão, nem ralhe comigo.” Lamuriou-se ele, queixoso. “Não é como se eu tivesse tido escolha, eu praticamente tive que sair fugido às pressas daquele lugar pela janela.” Segredou-me, fungando.

Pesei sua confidência clinicamente por alguns segundos antes de voltar a tomar a palavra.

_ O que foi que você aprontou dessa vez? Jogou pedra nos seguranças?. _ Indaguei-o, cético, enroscando-me sobre a cama com as pernas dobradas e pousando o queixo na fronha do travesseiro forrado em meus joelhos.

“Mas esse mundo está realmente ao avesso, porque eu tenho que ter feito alguma coisa? Eu que fui perseguido por um anticristo sexualmente frustrado e eu que tenho de ser o vilão da história?” Protestou, inconformado. “ Todo um alarde só porque um grosseirão sem modos teve suas calças arriadas num armazém de bebidas. Mas quem se importa? Todo mundo já teve problemas com ereções persistentes do tamanho da muralha da China para lidar um dia...” Oh céus! Eu realmente não precisava ter tido meus ouvidos profanados com essa informação. “...Se quer saber, aquele bruto teve o que merece.” Concluiu ele, com afobação, uma nota vitoriosa, travessa, brincando em sua voz.

Meus olhos ampliaram de tamanho, a vontade de rir e ao mesmo tempo me descabelar duelando entre si num cabo de guerra, e eu não sabia por qual das vontades optar. Não era a primeira vez que a natureza precipitada de Dite o levava a agir de forma inconsequente, impensada e leviana, assim como também não era preciso ter dons adivinhatórios ou ser um oráculo para prever que também não seria a última. Sua conduta extravagante e destrambelhada era o resultado de uma educação ausente e desregrada, Dite não media as consequências de seus atos e não conhecia o significado da palavra “limites”, o limite dele era não ter nenhum, meu medo era que numa dessas ele acabasse se machucando ou terminasse se metendo numa baita encrenca.

Para o seu próprio bem, Dite precisava era de alguém de fibra que lhe pusesse rédeas.

“Só lamento ter perdido um sapato no processo, mas pelo menos compensa por ter tido o melhor sexo desses meus vinte e três anos de idade, ainda assim admito que foi uma enrascada ter de explicar para a tia Shina porque eu apareci em casa descalço, desgrenhado e amarrotado.” Prosseguiu, elétrico, como uma bola de energia ligada a trezentos por hora que nunca se esgota nem perde o pique.

Grunhi, limpando a garganta, preparando-a para uma bronca que se formava em minha língua, entretanto, desisti, joguei a toalha, seria um desgaste inútil de saliva, era um desperdício de tempo tentar enfiar alguma sensatez ou juízo no seu crânio.

_ Perdeu o sapato? _ Foi só o que me limitei a dizer, rastejando-me para o topo da cama.

“É” Confabulou. “Mas quem precisa de sapatos? Sapatos são tão estúpidos...”

Ri de sua colocação infantil, aborrecida, enterrando a cabeça na fronha do travesseiro.

_ Não sei, talvez para não pegar tétano. _ Impliquei, ainda rindo-me. E ele se guinchou do outro lado, como se eu tivesse acabado de dizer que tinha um ovini sobrevoando minha cabeça.

“Nerd”. Resmungou. “ De qualquer maneira o que importa é o momento, Camyu, e apesar do susto de ter sido encurralado como um bicho do mato e ter que escapar espremido numa janela, eu não posso negar que foi um evento memorável. Se você não tivesse evaporado da lá tão de repente teria sido uma excelente oportunidade pra você perder o seu bv.” Pisquei tonto diante do que tinha acabado de ouvir, encurvando-me sobre os tornozelos. “Sua fama de intocável o precede no Campus, talvez seja por isso que Radamanthys cerque-o tanto como um abutre ávido pela carcaça, você é praticamente um monge e francamente aquele cara me assusta. Ainda assim, mesmo sem nenhum traquejo social você já tem vinte anos, Camus, portanto por quanto tempo mais você ainda pretende ficar resguardando sua virgindade?” Concluiu ele, magnânimo, num tom traquinas, endiabrado, e eu quase entalei com meu próprio ar.

_ Mas que espécie de pergunta é essa? _ Gritei, e ele se calou, e eu imaginei que ele estava se preparando para uma birra monumental. Minha mente recriou as diferentes reações possíveis que ele poderia ter, caso, apenas hipoteticamente falando, eu lhe dissesse que não era mais virgem em nenhuma parte. Esse status não me pertencia mais. A minha condição atual era... era... qual era minha condição atual?

Abusado? Violado? Desvirginado?

Mon Dieu!

“Não seja tão radica!” Censurou, fungando. “Em todo o caso eu estarei no seu apartamento mais tarde para passarmos nosso tedioso Domingo numa maratona de filmes de terror debaixo das cobertas com uma xícara fumegante de chocolate quente.” Anunciou Dite nosso futuro programa Dominical sem me consultar, desconsiderando minha opinião sobre o assunto, decidido.

_ Quem decidiu isso? _ Apertei a nuca.

“Eu, oras! Ou isso ou uma rodada de jogo de cartas.” Ameaçou, propondo a barganha. “Mas não teria graça, já que eu sempre ganho de você no jogo”. Alegou ele, murchando.

Era verdade, ele sempre ganhava, eu deixava, ele ficava tão contente.

“Que seja”. Cedi, sabendo que não conseguiria dissuadi-lo, não quando ele se mostrava tão obstinado. Não é como se eu tivesse outra ocupação naquele dia, de qualquer forma, além de ter de revisar alguns trabalhos e adiantar minha monografia. Escutei-o comemorar efusivo dando um gritinho de contentamento antes de encerar conexão com um “Até mais tarde então”.

Sem saber o que fazer, vaguei pelo quarto, ansiando que Milo honrasse logo com sua palavra e me levasse embora. Aquela espera era angustiante. Por mais que eu quisesse me aventurar a sair do quarto, eu não me arriscaria a deixar sua segurança para ir perambular num território desconhecido, não, sozinho eu não sairia dali nem por um decreto. Empurrei alguns cabelos para trás da orelha, arregaçando as mangas da blusa até acima dos cotovelos e voltei a me sentar novamente na cama, impaciente e ansioso, sentindo-me como se fosse um animal trancafiado nas barras de uma gaiola. Desinqueto, sentindo os dedos comicharrem em nervosismo alcancei o celular deixado no criado-mudo, usando a internet para passar meu tempo checando meus e-mails. Com a exceção de um anexo despachado pela diretoria da faculdade minha caixa de entrada estava limpa. Morcegando e com tempo de sobra, cliquei na mensagem.

Prezado Sr. Versalhes:

Em decorrência a fatores externos de nossa instituição, nós da coordenadoria pedagógica viemos por meio desta convocar o seu comparecimento no gabinete do excelentíssimo Sr. Reitor tão logo retomemos a semana de aulas. Sua presença é imprescindível e será aguardada para os devidos esclarecimentos pelo Sr. Hades.

Atenciosamente.

A direção.”

Vinquei o cenho, relendo aquela mensagem pelo menos mais umas três vezes tentando encontrar o significado oculto daquilo. Não consegui evitar a tensão, em todos esses anos de faculdade eu nunca havia sido convocado antes à comparecer a reitoria, até porquê eu não tinha nada a tratar no pavilhão da cúpula administrativa. Não gostei daquilo, não me parecia ser sinal de boa coisa. Era algo tão sério assim que requeria a presença do próprio reitor em pessoa? Até onde me constava Hades não costumava perder seu tempo com alunos, ele delegava essa função a outros funcionários menos importante ou não concursados da secretária ou da recepção.

Aquilo não fazia sentido, mas não me preocuparia com isso por agora, as aulas só retornariam no dia seguinte.

Desconectei-me do e-mail e abri o aplicativos de jogos. Uma distração, era disto que eu precisava se eu não quisesse enlouquecer. Passeando os dedos pela tela a procura de algum que me interessasse, meus dentes beliscaram a parte interna de minhas bochechas, contendo um sorriso, quando um em particular baixado por Dite surgiu no meu campo de visão, “Batmam”.

Embora me esforçasse, não consegui conter o riso.

Dite nunca me deixaria esquecer enquanto vivesse a minha fase de leitor assíduo de quadrinhos na puberdade, coisa de “Geek”, dizia ele. Dentre todos os personagens o meu preferido costumava ser o Curinga, na cabeça facilmente impressionável de uma criança, eu acreditava que a genialidade do vilão era invencível, como exterminar seus inimigos com tortas recheadas com cianeto, charutos de nitroglicerina e com descargas elétricas fatais. Passando para o próxima da lista, terminei por selecionar “sudoku” para solucionar.

Eu já estava para subir de level novamente quando duas batidas ocas na porta me fizeram fechar rapidamente o programa e embolsar o celular no moletom pouco antes desta ser aberta dando passagem a um vivaz Kanon.

_ Sem dúvida, uma bela vista pra se ter logo pela manhã. _ Diz, piscando-me galanteador um dos olhos, os lábios puxados de canto num sorriso extrovertido, carismático. Minhas mãos viajaram para os bolsos laterais do agasalho de lã enquanto aguardava-o me inteirar qual a razão de sua presença. _ Você realmente deve ter alergia a falar. Vai entender! Talvez seja mesmo coisa de Doncel, ouvi dizer que alguns podem mesmo ser muito arredios e desconfiados. _ Coçou a nuca, ponderando. _ Certo! Vim te buscar para tomar café na cozinha. _ Comunicou-me ele, rendendo-se.

Não me sentia mais confortável com Kanon do que me sentia na presença de Milo, apesar disso não havia muito a se fazer sobre o isso, em todo caso. Limitando-me apenas a um breve aceno, deslizei os pés para o chão pela lateral da cama e deixei-o me conduzir para fora dos aposentos. Percorri o corredor que se interligava a outros cômodos disperso na observação dos quadros e esculturas que decoravam aquela repartição.

_ Não precisa ficar tão tenso assim, ruivo, como se eu o tivesse levando para a guilhotina._ Falou, resgatando-me de meus pensamentos, uma expressão grave, quase condoída, dominando suas características enquanto me inspecionava de soslaio _ Deixe-me lhe dizer uma coisa. Milo não é um filho da puta em período integral, intratável com certeza, e com o humor dos infernos quando as coisas não saem como o esperado ou fogem de seu controle. O que eu estou querendo dizer com essa cantilena é que, se ele quisesse de fato lhe fazer mal ou machucá-lo de alguma forma, ele já o teria feito, se ainda não o fez é porque claramente essa não vem a ser sua intenção. _ Ditou ele, suas sobrancelhas estavam franzidas, uma ruga carregada no meio delas, ainda assim sem nenhuma comoção aparente que alterasse sua postura firme e despreocupada.

Encarei-o de lado sem reduzir o passo.

_ Suas ações me contam outra história, no entanto. _ Contrapus, escolhendo cuidadosa e meticulosamente as palavras. Eu não sabia o que ele pensava ou qual sua posição a respeito das coisas que Milo fazia, contudo, era mais do que visível a quem pertencia a lealdade do homem à minha frente para que eu simplesmente me ariscasse a fazer comentários descuidados e esperar não receber represálias por isso.

Ainda assim o seu olhar veio severo e duro em minha direção.

_ Não o julgue tão duramente, Milo foi criado sobre normas rígidas e mãos de ferro na custódia de seu antecessor para que viesse a ser o líder perfeito da organização. Bom, pode-se dizer que aquele velho decrépito, que o Diabo o tenha, cumpriu com maestria sua função, criou um general perfeitamente capacitado a comandar. O que ele é hoje nada mais é do que o fruto real de seu caráter, que acredita religiosamente que “os fins justificam os meios”. _ As juntas dos meus dedos estavam suadas quando eu puxei a barra da blusa em torno do pescoço, arquivando mentalmente aquele pequeno pedaço de informação que me fora dado por Kanon do complexo quebra-cabeças que era Milo para uma análise posterior mais apurada. _ Nossa “família” é muito tradicional nesse quesito, se é que me entende. _ Pontuou morbidamente, um sorriso de diversão se espalhando em seu rosto, um sorriso macabro e gélido.

Senti um estremecimento me percorrer a raiz dos cabelos enquanto atravessávamos a soleira da sala. Oh! Com certeza eu entendia muito bem a implicação de “família muito tradicional”. A yakuza era conhecida por seu comportamento violento, implacável, sanguinário e até bárbaro, para o mundo ocidental. Uma organização tão antiga quanto aquela não teria mantido seu império até os dias de hoje tendo uma política condescendente, íntegra, e guiados por “boas ações”. Tirania e medo era uma boa base para fazer prevalecer e expandir seus domínios ao longo dos séculos, além de intimidar os inimigos. Rituais funestos como o “yubitsume”que consistia em cortar a falange de um ou mais dedos dependendo da gravidade da falta cometida ou o horripilante “seppuku”, suicídio através do desventramento feito com uma espada quando a penalidade por um de seus membros eram mais graves era uma prática cruel ainda comum em cerimonias fechadas dentro de seus círculos.

_ Quando se trata de Milo eu nunca sei ao certo o que pensar. _ Confessei, relutantemente, a boca entreaberta para facilitar a passagem do ar, súbito parecendo me sufocar na garganta por algo que não me era familiar.

_Humm... entendo. _ Ele entende? Como, se eu mesmo, que era pessoa que estava sentindo toda aquela enxurrada de sensações e emoções conflitantes na pele me achava infinitamente incapaz de compreender o que quer que seja, o que o fazia achar que ele entendia?_ Mas com o tempo você se acostuma com a rabugice do temperamento esquentado e impositivo dele. _ Adicionou, encerrando o assunto num agitar de mãos, ele torceu os lábios e eu tive a impressão de que ele pretendia dizer mais alguma coisa, mas pareceu repensar e voltar atrás. Não opinei sobre aquilo, porém, esperava não estar ainda naquela situação num futuro próximo para ter que me acostumar com nenhum dos desmandos que viesse daquele maníaco psicótico.

Minha visão foi ofuscada, tentando se ajustar a claridade que a atingiram em cheio quando entramos na cozinha, meus cílios baterram-se sucessivamente até acostumarem-se com a luminosidade monocromática do ambiente Gourmet. O espaço apesar de grande o suficiente para comportar todo o meu apartamento naquele único cômodo, era prático e simples, arquitetado muito provavelmente visando a praticidade do cotidiano, embora bem equipada e refrigerada pelo ar condicionado transversal à dispensa dos fundos. Respondi ao “bom dia” educado de Saori atarefada em colocar o bule tirado da cafeteira na mesa com um aceno de cabeça, trocando o peso de uma perna pela outra.

_ Não precisa ser tímido, fique à vontade para se servir do que quiser. _ Pigarreou Kanon, direcionando-me pelas ombros até a mesa feita. Apertei os olhos em sua direção e ele abriu um sorriso bonachão, calhorda, aplicando alguns tapinhas nas minhas costas antes dele mesmo tomar um dos lugares na ponta.

Sentindo-me deslocado, puxei uma cadeira de frente para a janela, mirando maravilhado os jardins que rodeavam um coreto branco flutuante num lago artificial fora da casa. Mangueiras irrigavam os roseirais podados nos canteiros à sombra de algumas árvores de cerejeiras, e mesmo dali, naquela distância, era possível sentir o cheiro de terra molhada exalado dos arbustos empoleirados de rouxinois e de libélulas, da grama verde relva salpicada em sulcos de água revestindo os trilhos de concreto dos hectares da casa.

O lugar era lindo.

Talvez porque a paisagem acalentasse em mim lembranças tão caras, nostálgicas, como o primeiro presente de Natal ganho num embrulho colorido e enrolado numa fita azul, que ironicamente vinha a ser um exemplar de “O Jardim Secreto”, noites viradas em claro embaixo de um lençol com uma lamparina ligada enquanto meus olhos desbravavam as páginas do livro na descoberta de novos mundos. Uma época remota, distante, em que na inocência de uma criança pueril eu acreditava que nenhum mal jamais pudesse me atingir enquanto tivesse o colo de meu pai para me proteger, me acolher nas noites de pesadelo. Ele era meu herói. Não havia porto mais seguro que a firmeza de seus braços amorosos e aconchegantes, olhando para trás, no entanto, tudo isso hoje pareciam memórias longínguas de uma outra vida, não desta.

_ Como isso é possível?! _ Exclamou Kanon, do nada, estarrecido, abismado, olhando com uma expressão incrédula para o conteúdo dentro de sua média à meio caminho de sua boca, assustando Saori.

_ O que houve, Kanon? _ Perguntou ela, aflita. _ Tem algum problema com o café, está ruim?

_ Claro que é com o café! _ Falou, sério. _ Como é possível que ele esteja cada dia melhor?_ Exigiu saber, trocando sua expressão outrora carregada por um sorriso vigarista, molestador, pilantra, típico de um falsário agiota.

Um grunhido esganiçado deixou os lábios rosados de Saori, o vermelho borrando os traços delicados de seu rosto no que poderia ser considerado tanto raiva quanto vergonha e recato.

_ Idiota. _ Cochichou ela, comportada, apontando-lhe uma colher pequena.

Kanon riu, levando a palma de sua mão aberta ao rosto.

_ O que é isso Saori, uma tentativa de assassinato à queima roupa feito por uma arma tão perigosa quanto uma... colher? _ Gracejou, sarrista, sem cessar o riso insolente que escapava por entre seus dedos, o azul anil de seus orbes cintilando enquanto medi-a por debaixo de suas cútis negras.

_ Se você faz tanta questão eu posso usar algo mais apropriado. _ Revidou Saori, mansamente, alisando o cabo de uma das facas do faqueiro da pia.

Ele ficou sério, ou pelo menos tentou, o riso trovejando no canto dos olhos não casava em nada com a seriedade de seu semblante.

_ Eu sempre soube que havia algo de maligno aí dentro mulher. _ Importunou-a, sacana, abocanhando uma maçã pega na fruteira sem perder o sorriso patife, deslavado. Levando as xícaras sujas para a pia, Saori parecia estar se desdobrando furiosamente para ignorar a presença de Kanon e não mandá-lo ir se catar. _ A propósito, Srta. Kido, gostei da estampa traseira da sua blusa, é inspiradora, mas você já tem a mim como candidato, então eu aconselho que não saia por ai fazendo propaganda _ Aparvalhada, ela enxugou as mãos num pano bordado, destacando no pulso fino uma delicada tatuagem de videiras feitas de Henna sobre a pele alva, e usando o reflexo da tampa do fogão ela espiou o lado avesso de sua blusa por sobre os ombros.

O rosé inundou seu rosto quando o barulho do seus sapatos a levaram até o avental pendurado no gancho da parede próxima, e eu pude visualizar o que tanto a constrangeu escrito no terno de sua jaqueta.

FUCK ME*.

Foi a minha vez de corar.

_ Isso não vai acontecer. _ Contra atacou ela, vestindo o avental por cima da jaqueta e puxando a barra da saia para baixo, como se assim pudesse fazê-la crescer de tamanho. _ Pergunto-me o que Saga diria se soubesse de seus assédios, talvez eu o deva pôr a par de suas investidas. _ Ameaçou a voz feminina num tom melódico, prendendo os cabelos num coque com um lápis tirado de uma das gavetas do armário, um sorriso singelo e vencedor de quem havia acabado de fazer um strikes duplo numa das modalidades mais difíceis de uma partida de carteado e eliminado de vez o adversário da rodada modelava os contornos femininos de seu rosto formoso.

Kanon voltou a rir, apoiando os cotovelos nas pernas, parecendo nocautear Saori que ficou desnorteada por sua “ameaça” não ter surtido o efeito esperado.

_ Dá pra parar de rir, sua hiena! Não é engraçado, você é tão pretensioso que eu tenho vontade de vomitar. _ Bradiu a moça, encrespada.

Ele mostrou os dentes brancos e brilhantes para ela como um predador na espreita e riu novamente, em uma provocação.

_ Saga não dirá nada, Saori, ou talvez até diga. _ Levou o polegar aos lábios como se estivesse considerando a questão. _ Mas não vai ser exatamente o que você espera. _ Ela o fitou desentendida. _ Digamos que nossos interesses nesse caso estão em comum acordo, são compatíveis, e uma mulher que possa dar continuidade a nossa linguagem é um bônus mais que bem vindo.

Bestificada, Saori arfou, recuando dois passos para trás, apertando convulsivamente um pingente ametista entre os dedos, o rubro sapecando sua pele láctea em tinto do busto para cima enquanto a boca abria e fechava como se ela tivesse desaprendido como se fala ou lhe custasse a acreditar em seus próprios ouvidos.

_ Eu achava que Saga fosse uma pessoa sã, mas ao que parece ele se iguala a você em loucura. _ Proferiu ela, ainda em transe pelo choque, andando pelo chão da cozinha, desinquieta, com um pequeno sorriso que zombava de si mesmo para Kanon.

_ Saga, sã? Em que universo alternativo? _ Kanon perguntou, com uma expressão inocente demais para ser verdadeira. _ Agora, será que dá para você parar de andar de um lado para o outro como uma lunática desequilibrada? Eu me sinto olhando para uma bola de pingue-pongue. Sossegue, mulher.

_ Não me venha com essa de sossegue, pra cima de mim. _ Atravessou a cozinha de novo, indo parar na sua frente. _ Você e Saga estão mancumunados e ainda esperam que eu fique calma? _ Apontou-lhe o dedo em riste. _ Vocês estão delirando se acham que eu vou consentir em algo tão... tão... _ Corou, parecendo escolher as palavras com cuidado. _ ...promíscuo e inconvencional. _ Decretou, mas não havia tanta convicção assim no seu timbre incerto. _ Isso não vai acontecer. _ Reforçou.

Despojado em uma descontração demasiadamente calculada ao meu ver, Kanon inclinou a cadeira em um ângulo perigoso e levantou a sobrancelha.

_ Certo, não vai acontecer. _ Repetiu ele.

_ Não me tome por tola, seu crápula degenerado, você não vai me enganbelar com esses seus sorrisos fáceis e sua lábia bem treinada. Qual é a jogada? _ Exasperou-se ela, enervada, batendo com as duas mãos na mesa.

_ Que jogada? Não tem jogada nenhuma. Mulheres tem uma imaginação fértil. Acho que você tem uma natureza desconfiada por causa de sua criação americana. Eu sempre disse pro velho Mitsumasa que mandá-la para concluir sua educação num colégio interno nos Estados Unidos iria te estragar, tá ai agora, Hollywood te deixou neurótica.

_ Intelecto e perspicácia, Kanon, não imaginação. _ Ela o corrigiu, reprovadora. _ Minha educação americana nada tem a ver com isso, seu verme machista em pleno século vinte e um, aliás me fez incrivelmente inteligente e, acredite eu consigo enxergar uma armação quando vejo uma.

Ele jogou as pernas sobre a beirada da mesa, parecendo se divertir com aquele embate.

_ Não sou machista, apenas entendo a natureza frágil e limitada das mulheres, especialmente as miúdas que tiveram criação americana, elas não conseguem aguentar as mesmas adversidades que nós homens aguentamos.

Eu estava tão incrédulo e embasbacado com aquela afirmação ultrapassada quanto Saori deveria estar.

_ Acho que eu teria gostado de conhecer a sua mãe e ter lhe dado os meus pêsames por ter gerado um excomungado machista de mentalidade atrasada e medievalista quanto você, me pergunto se é um mal de berço. Você está parado no tempo Kanon, a modernidade não condiz com seus preceitos retrógrados, tente o período jurássico ou era dos homens das cavernas. Talvez você tenha mais sorte.

Embora eu não estivesse entendendo quase nada do que se passava ali, internamente eu fiz coro aquelas palavras, mas pensando em outro déspota machista.

Os olhos azuis escuros de Kanon riram dela.

_ Eu não preciso de sorte. _ Sorriu, presunçoso. _ Eu basto a mim mesmo. _ Disse, convencido.

_ É, o que não deve bastar a si mesmo é o tamanho descomunal de sua presunção. Mas desça desse pedestal porque eu não farei parte desta..._ Desviou os olhos para a mureta da janela. _ … proposta indecorosa. _ Complementou.

_ Deveria aproveitar enquanto ainda é uma proposta. _ Alertou-a, um tanto rude, e um resquício de medo passou pelo rosto feminino.

Com um demorado olhar ferido depositado sobre o outro, ela virou no salto e sem perder a classe deixou o recinto pela área de serviço.

_ Não se pode dizer que ela não saiba fazer saídas dramáticas. _ Observou Kanon, com um telefone em punho.

Eu me vi deixado por conta própria, sozinho, quando ainda ostentando um sorriso poluído, maledicente, Kanon foi para fora atender uma chamada. Eu me distrai em observar pela janela algumas gaivotas debandarem para uma baía que eu sabia ter não muito longe dali. Eu invejava os pássaros. Como não os invejar? Invejava suas asas, sua capacidade de alçar voos para terras distantes, de se perder no infinito, serem livres das amaras do mundo, dos julgamentos, da intolerância, do ódio sem sentido, do desamor, do preconceito as raças e ao diferente... eles eram verdadeiramente livres... coisa que eu nunca seria.

Desanimado, esfreguei os olhos com o pulso da manga, baixando o olhar curioso para algumas sacolas de compras na outra extremidade da mesa. Puxando os joelhos para o futton da cadeira, inclinei-me sobre a bancada para pegar uma das sacolas grandes na beirada. Os pés da cadeira bambearram, derrapando para frente, assustando-me, acelerando meus batimentos e minha frequência cardíaca. Esperei o banco se estabilizar embaixo do corpo antes de ousar esticar a mão novamente para uma das sacola, pegando-a pela alça. Puxei-a, vincando a testa por ela não ter se mexido do lugar, estava muito pesada. Tentei de novo. Nada. Enfezei-me, o que diabos tinha dentro daquilo? Tijolo? Impus mais força, e o chiar da alça se arrebentando se propagou na quietude da cozinha antes da cadeira ranger e tombar bruscamente para trás, conseguindo com que eu tivesse um segundo sobressalto e perdesse o equilíbrio rumo ao chão.

Fechei os olhos aguardando pelo impacto de meus ossos se estralando de encontro ao piso, porém este nunca veio. Ao invés disso senti braços duros me apararem, entrelaçando-se em minha cintura, as costas serem colada em algo sólido e quente, respingos de água acertarem minha nuca e pescoço juntamente com o farfalhar de uma respiração pesada e controlada ventilando no alto da minha cabeça. Aos poucos senti-me sendo colocado lentamente na segurança firme do chão, porém ainda preso pelos braços cingidos em torno de minha silhueta, mantendo-me imóvel no lugar.

_ Deveria ser mais cuidadoso, Camus, afinal não queremos que se fira por descuido, não é mesmo? _ Meu corpo congelou, os pelos da nuca alvoraçando-se eriçados ao reconhecer o dono daquela voz gutural e imperiosa tão bem gravada pelo meu sistema sendo sussurrada na haste de minha orelha.

Fui girado no casulo de seus braços, confirmando as minhas suspeitas. Os olhos traiçoeiros de Milo estavam fixos no meu rosto, especulativo, a chama abrasadora infiltrada em seus olhos viscerais enquanto ele me esquadrinhava por inteiro.

Senti o rosto chamuscar.

Ele não usava mais a mesma calça que eu o havia visto trajando nas margens da piscina pela varanda. Um jeans corsário moldava-lhe justa sobre as pernas, seu tórax encontrava-se vestido numa camisa leve social e as madeixas úmidas indicavam que ele havia acabado de sair do banho. Despistei meu interesse olhando para os vans calçados nos meus pés.

_ Haamm...é-é....obrigado. _ Crucifiquei minha voz pela sua insegurança.

Ele espichou a sobrancelha para o alto, provavelmente divertido com a minha inaptidão para conseguir formular uma frase coerente, um mísero agradecimento. O seu olhar meticuloso e com um principio de malícia emergindo neles, tendo o efeito de uma placa de calor sobre o meu corpo, aquecendo e fervilhando todo o mu sangue.

_ Não farei objeção caso queira me agradecer de uma forma mais... prazerosa. _ Estalou a língua, sua mão desocupada esgueirando-se até as minhas nádegas, cravando seus dedos longos na carne, um sorriso obsceno, depravado, subvertendo seus lábios num mosaico luxurioso, libertino.

O sangue foi drenado para o meu rosto enquanto minhas próprias mãos buscavam repeli-lo espalmadas através do corte de sua camisa.

_ É... será que dá para você me soltar agora? _ Titubeei, não muito convencido que minhas pernas não me fariam passar por algum vexame quando ele retirasse os braços que me sustentavam em pé.

Ele não me respondeu, tampouco desfez a pressão na minha cintura. Desnorteei-me quando seus braços me trouxeram consigo até o banco situado na cabeceira, defronte a porta de entrada, sentando-se nele comigo entre suas pernas.

O carmesim cobriu minhas bochechas, assando-as, enquanto tentava impor alguma distância de seu corpo, escorregando-me para a beirada.

Quem entrasse ali agora pensaria tudo, menos a verdade.

_ Porquê? não está confortável o suficiente para você desse jeito? _ Ironizou o bastardo filho de uma cadela grega, já sabendo que não. O desgraçado devia mesmo estar se divertindo a bessa às minhas custas com todo o meu aturdimento.

_ Você sabe que não. _ Rebati, zangado, e desejei com ardor que um raio caísse na cabeça daquele patife e o dissipasse de vez da humanidade.

_ Oh! Mas que pena pra você. _ Trepidou ele, o cinismo corrompendo a sonoridade de seus dizeres, enganadoramente cortêz.

_ Então porquê se deu ao trabalho de perguntar se já sabia a resposta? _ Disparei, uma veia dilatando em minha testa.

_ Eu me entretenho vendo as várias etapas de raiva e rebeldia enfeitar seu rosto, vêr todo esse fogo é algo que muito me apraz... _ Respirou ruidosamente, os olhos injetados numa brasa estranha queimando sobre mim. _ … e instiga. _ Incrementou.

Tudo bem, eu não nem estava com tanta raiva assim, eu só queria jogá-lo nas profundezas do tártaro, ou do rio Tâmisa.

Nada demais.

_ Não vai comer nada? _ Questionou-me ele, desfazendo meu momento de ira.

_ Eu não tenho o hábito de me alimentar de manhã. _ Meu estômago deu voltas, enfastiado, só de passar os olhos pelo buffet posto sobre a mesa. O problema era que minha pressão tendia a ser baixa nas primeiras horas da manhã quando eu acordava, o que contribuía para que nada comestível parasse na minha barriga sem querer fazer o caminho de volta.

Ele comprimiu a tez, uma ruga inquiridora se formando no canto de suas obsidianas faiscantes.

_ Se não comer nada também não o levarei de volta para casa. _ Ameaçou-me ele, sereno, como se tivesse feito apenas uma observação casual e não uma chantagem.

_ O quê? _ Contestei, minha voz saindo umas oitavas mais alto do que o planejado enquanto me virava para confrontá-lo no assento. _ Você não pode obrigar a comer se eu estou sem apetite ou mesmo inclinado para tal. _ Ladrei, enraivecido, esperando fervorosamente que minha imagem não estivesse tão descomposta e desfigurada quanto apontava o reflexo na suas íris incandescentes.

Ele descansou sua cabeça no respaldo, sua clavícula deslocando-se numa trilha vil, escarnecedora, inflexível, seu antebraço canhoto curvando-se atrás do pescoço.

_ A escolha é sua. _ Emitiu, calmamente, seus cílios longos e curvilíneos fazendo sombras nas maçãs salientes de seu rosto.

Encarei-o colérico numa batalha muda por debaixo da franja, eu estava num impasse, não querendo me submeter ao seu autoritarismo controlador, mas também não desejando acabar ficando retido por mais tempo por ele naquele lugar.

Deixando os ombros caírem resignados, retornei minha atenção para a mesa, servindo-me, não sem uma careta de nojo, de uma meia fatia de pão integral e uma quantidade mínima de chá.

_ Bom menino. _Elogiou, num tom de galhofa.

Enviei-lhe um olhar gelado, homicida. Como alguém conseguia ser tão volátil assim? Eu sentia que com Milo o termo bipolar deveria ser elevado a um novo nível, reinventado, talvez algo como tripolar, quadripolar. E porquê ele se importava com o que eu como ou deixo de comer, se evidentemente para ele eu não era mais do que um joguete que logo seria substituído por um novo? Triste realidade, porém nem por isso menos verdadeira, no fim das contas eu não devia passar de mais um dos inúmeros prostitutos que deveriam passar continuamente pela sua cama.

Eu não era um ser humano normal, não, não tinha como ser, nem perto disso, eu deveria pesquisar possíveis registros de esquizofrenia na família, eu temia estar manifestando a doença antes dos trinta. Seria um caso raro para os anais da ciência, mas não totalmente impensável. Por que só assim sendo justificaria toda aquele dilúvio de rancor e ódio que pareceu esmagar meu peito cruelmente como a uva na prensa de uma vindima para extração do sumo em dia de solstício com o mero pensamento de Milo se satisfazendo em outros corpos.

Eu era um ser humano racional. Vestia roupas para cobrir minha nudez, vivia em meio a uma sociedade tida como civilizada, usava guardanapo de linho e talhares para me alimentar. Ainda assim enquanto o ódio me cegava a razão, percebi que eu era um animal, um primata, um Homo erectus não evoluído, e aquela constatação me deixou apavorado, corroendo-me as entranhas mais eficientemente do que pior dos tóxicos químicos.

Mastiguei roboticamente o pão, sentindo-me mais desorientado do que um escoteiro perdido sem uma bússola numa mata virgem enquanto considerava o porquê daquilo. Não era como se estivéssemos tendo algum tipo de relacionamento monogâmico para que eu me sentisse daquela forma tão descabida, desproporcional, tão despeitado... tão...

… traído.

Eu não deveria me ressentir com aquilo, não tínhamos nenhum compromisso para que a parte ilógica do meu cérebro ficasse bradando à plenos pulmões que ele não tinha o direito de me ser infiel, desonesto. A dor que aquela possibilidade me infligia era indescritível, horrenda, descomunal, e eu não fazia ideia de como agir mediante a uma situação dessas.

Corri os dedos pelos cabelos. Eu precisava ficar sozinho para colocar os pensamentos em desordem em seus devidos lugares antes que eles acabassem por rachar minha cabeça ao meio.

_ E quanto a você? _ Repliquei, no automático, usando o fato dele não ter feito menção de se servir desde que surgira na cozinha para que ele não percebesse minha dispersão tenebrosa.

_ Eu já fiz meu desjejum um pouco mais cedo. _ Pontuou, erguendo a manga de sua camisa para conferir ás horas no relógio de pulso.

Aquiesci enquanto voltava a me distrair em cortar e mastigar a fatia integral de pão com o auxilio do chá para ajudar a engoli-lo. Um arrepio correu por minha pele quando meus sentidos captaram um peso à mais acrescido sobre a minha coxa, eu baixei o olhar para descobrir a mão de Milo pousada entre minhas pernas. Tão imóvel e retraído quanto eu estava, ensaiei minha face para não deixar transparecer o quanto seu toque me afetava, ainda mais estando naquela posição comprometedora. Sem mencionar que eu não me lembrava quando havia sido a última vez que estive sentado sobre o colo de alguém. Talvez no colo de meu pai, quando eu não passava dos cinco anos de idade.

_ O que foi, Camus, algo o incomoda? _ Seu timbre belicoso denunciava muito bem que ele sabia exatamente o quê estava fazendo, e se deleitava com isso.

_ Não. _ Respondi, desaforado, recusando-me a cair ne mais uma de suas ciladas.

Seus dedos velejaram provocativos e desavergonhados próximo à região da minha virilha enquanto sua respiração mentolada transpirava nas terminações do lóbulo de minha orelha, a temperatura do corpo se elevou para um calor agonizante quando ele removeu os cabelos das minhas costas para o lado, descobrindo meu pescoço, raspando seu nariz na minha garganta e pomo de adão que eu podia sentir pulsar nervosamente através da gola da blusa. De canto, eu pude pegar o vestígio do meio sorriso malicioso modelado nas linhas de seus lábios encrispados, obviamente satisfeito com aquela reação. Eu podia facilmente me virar e pedir para que ele parasse com aquilo, mas naquela altura isso soaria como se eu fosse um covarde e não tivesse maturidade o suficiente para aguentar esse tipo de provação. Oras! Eu era uma pessoa adulta e poderia lhe dar com isso.

Pelo menos era nisto que eu me obrigava a acreditar.

_ Tem certeza? _ Insistiu, trazendo meu corpo para mais perto do seu pela barriga, eliminando a distância que eu havia imposto ao deslizar para a beirada. Uma corrente de ar frio percorreu minha vértebra quando senti as mãos de Milo se bandiarrem para dentro do agasalho, entumescendo os seixos dos meus mamilos ao esfregar seu polegar áspero naquele vale sensível .

Deus! Me teletransporta daqui.

_ Sim. Tenho. _ Não, eu não tinha.

Um sorriso garboso realçou a malícia impressa no seu rosto.

Cretino.

_ Você sabia, Camus, que a desgustação junto com o tato era tida com uma das principais primícias do erotismo para a civilização asteca? _ Câimbra subiu pelas minhas pernas quando ele passou os sobre braços os meus, roçando-os sob o moletom, até alcançar a espátula sobreposta na mesa, usando o instrumento para cortar uma moderada porção de bolo banhado numa caramelada calda de chocolate. _ Um prazer comparável ao êxtase colhido pelos amantes no leito nupcial, apenas sendo um bom apreciador das delícias proporcionadas pelo paladar. Um ritual sagrado e saboroso em honra aos Deuses. _ Prosseguiu, mordiscando a fatia lambuzada entre seus dedos, o ar sugado por suas narinas trafegando quente no meu rosto e em minha jugular.

Ruborizei, vendo-o lamber os resíduos da calda melados em suas unhas. Sua língua agindo como solvente brincando de ir e vir na cobertura doce esparrodada por entre a pele e nós de seus dígitos indicador e polegar.

Ofeguei perturbado com aquela cena despudorada e indecente, um atentado ao pudor e aos bons costumes, para logo em seguida fechar a cara e, contrariado, vira-la para o outro lado. Se ele achava que poderia me seduzir com aquela aula de pornografia gastronômica, ele estava...

… absolutamente certo.

_ Se é assim suponho que você seja um bom chefe de cozinha então. _ Desconversei, saindo pela surdina, tentando levar o assunto para um campo menos cheio de segundas e terceiras intenções.

Não demonstre suas fraquezas ao inimigo, assim ele nunca saberá onde atacá-lo.

Ele riu, apertando a têmpora.

_ Eu disse que eu era um apreciador da culinária, não que eu soubesse cozinhar. Definitivamente essa não é uma arte que eu domino, tampouco me arrisco a tentar._ Falou, seu tom entregando todo o seu divertimento, o quanto ele achava graça o simples considerar daquilo.

_ Pois eu me viro muito bem na cozinha, no mínimo eu me garanto. _ Contei vantagem, arrebitando o nariz e olhando-o de cima com superioridade.

_ Que doncelzinho mais prendado. _ Caçoou, o bastardo. _ Certamente eu estou muito interessado em conhecer suas habilidades com as mãos. _ Quase tossi engasgado com o chá quente escalpelando minha garganta quando tive a mão apreendida pela sua e levada até a rigidez desperta e apertada de sua calça.

A xícara escapou de minha mão, indo se espatifar, após rolar na cerâmica, próximo a porta da geladeira, no instante que, sem abandonar o lugar, meu corpo foi trocado de posição em seu colo, minha respiração se tornou irregular, desconexa, ao fitar o azul intenso de suas retinas tão de perto assim. Não que eu estivesse o admirando ou algo assim, lógico que não, era só o desconforto pela situação inusitada.

_ Mostre-me o que você pode fazer com as mãos. _ Pronunciou, transportando a mão apreendida para o seu sexo dentro da cueca.

Olhei-o escandalizado, a perplexidade fazendo meu queixo se escancarar bestificado em descrença e raiva, tinha ganas de esmurra-lo até desfigurar seu rosto e desmanchar aquele abominável sorriso pedante e depravado de sua cara, enquanto o terror de alguém entrar de repente na cozinha e se deparar com aquela cena levava-me furiosamente a não me atrever a arrancar os olhos da porta.

_ Por Deus, Milo! _ Exclamei. _ Vai se tratar, seu louco!

_ Ah, sim. _ Lascívia vertia pela sua boca, _ Sua mão aqui. _ Pressionou minha palma em torno de sua dureza. _ Será um milagroso tratamento.

Puxei minha mão de sua intimidade.

_ Se preferir eu posso virá-lo contra a mesa e devora-lo aqui mesmo, que é o particularmente me sinto propenso a fazer. _ Olhei-o alarmado com a sua “ameaça”, não havia deboche ou qualquer sinal de que ele estivesse brincando, e o pior é que ele falava aquilo com a mesma naturalidade que um acionista trataria das claúsulas de um contrato antes de fechar um negócio. O filho de puta falava sério, e eu vi isso através de sua respiração pesada e os olhos escuros.

Milo era convincente e um formidável jogador quando lhe convinha, e naquele momento possuía um maldito olhar de sofredor que causaria piedade a qualquer um.

Mordendo meu lábio, eu olhei para baixo, para onde os meus dedos estiveram antes. Tremulamente, o medo de ser flagrado borbulhando adrenalina através do meu sistema, eu desloquei minha mão para dentro de sua calça novamente. Ele enrijeceu quando eu o toquei com as minhas mãos geladas, e depois o vi relaxar liberando um gemido grave. Era a primeira vez que eu experimentava aquela posição, e ela quase me dava alguma autonomia e dominância. O único problema é que eu nunca tinha feito algo assim antes, e eu me sentia muito inexperiente para tomar a frente com algo desse tipo.

_ E-eu... eu não sei o que fazer. _ Admiti.

_ Apenas siga seus instintos. _ Instruiu ele, e eu não precisava de mais nada para saber que ele estava me dando carta branca para comandar e tocá-lo como e onde quisesse.

Piscando rápido, eu afastei a exitação quando me curvei para mais perto e de leve passei a unha na fenda de sua glande, seu gemido me indicou que eu estava indo pelo caminho certo, de forma estranho senti-me em júbilo por saber que eu é quem estava causando isso nele, eu queria que ele experimentasse de seu próprio veneno, queria que ele se sentisse tão afetado quanto ele me fazia sentir.

Tomando a liberdade, eu deslizei a minha boca no seu pescoço. Eu queria saber como ele reagiria se eu repetisse as mesmas ações suas. Então, sem pressa eu belisquei o lóbulo da sua orelha com os dentes. Ainda me sentia desconfortável com a situação, mas estava trabalhando em afastar-me um pouco da timidez e me permitir soltar-me por alguns instantes, eu queria descobrir o quão longe eu conseguiria ir.

Procurando coragem, eu tomei a iniciativa, e rastejei a minha única mão livre para abrir os primeiros botões de sua camisa, minhas pernas se liquidificaram em torno de seus quadris. O abdómem de Milo se arqueou, e eu senti as veias de sua ereção fluir por sob meus dedos. Eu tive pouco tempo para pensar quando meu olhar captou o movimento de sua mão pressionando a minha com mais força sobre o rígido volume que havia se formado ali.

Quente e suave. Demorou algum tempo para que eu processasse o fato de que minha mão estava parada em torno de seu membro, o que me fez lembrar -me que eu deveria exercer algum movimento. Engolindo em seco, locomovi-me para cima e em seguida para baixo, parecia fácil, mas não era de todo, ou talvez fosse apenas minha insegurança falando por mim, ainda assim eu poderia lhe dar com aquele ritmo. A ação era algo muito intima, digna de que as minhas bochechas se afogueassem enquanto eu via o quanto Milo se contorcia, se empurrando por mais daquele contato.

_ Isso, Camus, continue assim. _ Ele incentivou.

Seus olhos se fecharam, a cabeça inclinando para trás quando ele liberou sua mão da minha para que eu seguisse sozinho. Sem palavras, eu observei o homem abaixo de mim, naquele assento, mudar completamente de dominante para refém. Respirando audivelmente e com uma expressão concentrada no prazer proporcionado, ele parecia entregue, indefeso em meio ao turbilhão de tantos estímulos ganhos.

Uma secreção incolor escorreu por entre meus dedos após mais alguns movimentos em seu falo. Facilitando meus dígitos para cima até retornar de volta para os escrotos de sua virilha inchada. Suas mãos migraram até a base de minha coluna, extraviando-se sedentas até a lycra da bainha do meu moletom, acalmando-se ali por alguns segundos. Um pouco mais seguro de minha ações, desvendei seu peitoril, explorando com a mão livre o pedaço de pele exposta, suavemente, depositei uma trilha de caricias com os lábios ao longo do seu pescoço, até encontrar sua mandíbula. Ele praguejou, e eu me assustei quando suas mãos se afundaram em minha carne por cima do algodão da malha, sugando-me para mais perto até me esbarrar com seu dorso, tornando o pouco espaço que tínhamos inexistente.

_ Não me tentes! _ Precaviu-me entre os dentes, a voz rouca retumbando presa em sua garganta. Minhas pernas fraquejaram ao redor dele, parecendo padecer de falta de sensibilidade quando ergui a face e topei com as safiras escuras de sua pupilas desfocadas postas em mim. Eu nunca o tinha visto dessa forma, em completa desordem e sem domínio de si mesmo, e involuntariamente engoli em seco. O ar se esvaziou, inflamando-se através de minhas costelas quando sem hesitação Milo tomou a minha boca entre à sua. _ Vá mais rápido. _ Sussurrou, partindo o beijo, o cheiro pós barba de seu rosto e no colarinho da camisa entorpecendo minhas narinas com tão marcante perfume.

Acelerei os movimentos, a ereção quente bombeando pulsante através das veias grossas de seu prepúcio. Seu rosto contraído, o peito arfante sobre o dorso, os lábios corados e entreabertos foram o suficiente para ativar minhas próprias terminações nervosas, latejando dentro da boxe. Sua ereção pareceu ter crescido entre meus dedos quando seu corpo tremeu e arquejou para frente, sucumbindo ao ápice, o líquido branco e morno escorrendo pela minha mão, vagarosamente se alastrando.

Gradativamente, a luxuria regrediu em seus orbes, tornando a clarear os fárrois turquesas de seus olhos.

_ Isso sim é que eu chamo de um café da manhã com sustância. _ Pronunciou, oferecendo-me um lenço puxado de um de seus bolsos para limpar as mãos.

Cruzei os braços aborrecido. Sustância?

_ Não faça manha. _ Sorriu ladino. _ A prática traz o aprimoramento, mas você me surpreendeu por não precisar dela.

_ Que bom que tenha gostado. _ Rebati, debochado. _ Porquê isso não voltará a acontecer de novo. _ Eu disse, tentando imitar seu sorriso torto convencido, não tendo muito êxito contudo, mas não sendo de todo falho, já que o aperto de suas mãos se fizeram mais forte nos meus quadris.

_ Mentira tem perna curta, ruivo, além de ser um dos sete pecados capitais. _ Falou, displicente, abotoando sua camisa, e não consegui deter o riso. Milo pregando dogmas da igreja e falando de pecados?

Hilário. Sensacional.

_ Você já pensou em se comediante, Milo? Você tem talento. _ Rechacei, debochado.

_ Sim, eu sou um homem versátil de múltiplas capacidades. _ Devolveu, irônico.

Eu não tinha dúvidas quanto a isso.

Distingui sons de passos e vozes exaltadas e voltei-me para o umbral da porta quase ao mesmo passo que Kanon e um outro homem idêntico precipitarem na cozinha. Eles eram fisicamente tão semelhantes entre si que se não fosse pelo diferencial do vestuário, uma vez que Kanon utilizava as mesmas vestes de instantes atrás, eu não seria capaz de identificar quem era quem. O outro homem possuía características mais sérias, tranquilas, o brilho da sagacidade regia seu porte de envergadura ereta e os olhos eram tão misteriosos quanto o azul insondável do oceano Índico ou das Bahamas solitárias.

Era um homem de presença.

_ Veja só quem finalmente resolveu dar as caras depois de demorar duas horas a mais que o de costume no interrogatório do nosso convidado de honra. Pelo menos ele está confortável nas nossas instalações cinco estrelas? _ Quis saber Kanon, largando-se de qualquer jeito no mesmo banco que estivera minutos antes, sua atenção se desviando para a xícara partida aos pés da geladeira. _ Um tufão passou por aqui na minha ausência? _ Cruzou as pernas, seu olhar decaindo na camisa amarrotada de Milo e transitando no lenço em minhas mãos.

_ Isso foi...

_ Foi um acidente. _ Gritei, atrapalhado, passando por cima do quê sabe-se lá aquele demônio loiro pretendesse dizer. Minhas bochechas pareceram estourar fogos de artifício, de tão quente que eu as sentia com a atenção súbita do trio de homens reunidos naquele espaço, que já não parecia tão espaçoso quanto julgara à primeira vista, voltadas para mim.

Jesus!.

_ Vocês ouviram o que ele disse. Foi um acidente. _ Milo confirmou, num arrastar tão redigido e jocoso que não convenceria nem uma criança no primário.

Kanon riu, em contramão, e eu corei.

_ Eu queria ter tido tempo de cometer um acidente desses quando acordei na seca pela manhã e encontrei o espaço vago da minha cama vazio. _ Replica Kanon, enviando um olhar de indireta para o seu gêmeo escorado na soleira de entrada.

Aquilo me chocou, não era de meu costume tirar conclusões precipitadas, na maioria das vezes elas acabavam se revelando equivocadas quando você se permitia sair de sua zona de conforto e conhecer a verdade por detrás de tantas falsas primeiras impressões, mas ali sequer poderia ser dado o benefício da dúvida quanto ao grau de relacionamento daqueles irmãos. Não que eu tivesse preconceitos ou uma mentalidade moralista e arcaica quanto a isso, é só que, incesto não era algo que eu visse todo dia por ai na minha rotina com a mesma frequência que eu via os carros zanzando pelas rua.

Mentiria se dissesse que não causava estranheza.

_ Já cedo, Kanon? _ O outro gêmeo replicou, a voz maçante, como se já estivesse acostumado com os despautérios do outro e até já esperasse por isso.

_ Você me conhece. _ Kanon Disse, gominhos se formando ao redor dos olhos quando um sorriso espertalhão cobriu seu rosto.

_ Conseguiu arrancar algo que eu ainda não soubesse, Saga? _ Interrompeu Milo, impaciente.

_ Nossa! O seu humor é realmente uma grande merda pela manhã, Milo. Isso é tudo sobre aquela puta que quase jogou os peitos sobre você ontem? Hm, pensando bem, eu também não estaria muito feliz. _ Atropelou Kanon, adiantando-se e rindo-se do próprio comentário. A estrutura de de sua cadeira oscilou perigosamente quando a ponta da bota de Milo acertou o pé do seu assento, forçando-o a aterrissar para fora.

_ Diabos! Não me dê coice. _ Blasfemou, indo parar de costas para a pia. _ Onde foi parar o seu espírito esportivo? _ Falsamente desconsolado ele girou um anel de prata no seu dedo anelar.

Sorri de lado. Era humanamente impossível não se encantar com a maneira despreocupada com a qual Kanon lidava com as coisas. Sempre com um sorriso janota e bonachão e uma tirada sátira garimpada na ponta da língua que ele disparava a torto e a direito quando bem lhe aprouvesse. Ele era um piadista que não levava nada a sério, menos ainda a ferro e fogo.

Tão diferente de Milo que enxergava a vida em polos extremos, em preto e branco, sem a ponte intermediária do meio-termo, do cinza, suas verdades eram tão absolutas e prepotentes que não sobrava espaços para outras que não fossem ás suas. Independente da situação o seu caráter controlador e intransigente não o permitia se dobrar a tal, mesmo que posteriormente ele reconhecesse um erro eu duvidava que o seu orgulho o fizesse voltar atrás ou desculpar-se.

_ E então. _ Pressionou Milo, voltando-se para o gêmeo denominado Saga.

_ Bom, Máscara também esteve por lá, e você sabe que os métodos dele de extrair informações são... _ Fez uma careta de asco após uma pausa. _ Bastante persuasivos, mas...

_ Sei, sei... _ Interpôs Milo, irrancudo. _ pule as apresentações e vá direto ao ponto. _ Espanou o vácuo com impaciência.

_ O de sempre. Não houve progresso. _ Sentenciou num dar de ombros, passando um rápido olhar sobre mim, sua testa franziu e eu mais senti do que notei que ele estivera sendo econômico com suas palavras por conta da minha presença no recinto, e internamente eu o agradeci por isso.

_ Ugh! Veremos se esse voto de silêncio vai perdurar quando for a minha vez lhe fazer uma visita. _ O mundo girou ao meu redor e a náusea subiu com um caroço até a boca e eu a engoli para dentro novamente, a vertigem amoleceu meu corpo com aquela única frase verbalizada por Milo, mesmo estando de costas eu podia sentir o sorriso sádico que eu já havia presenciado anteriormente realçando as curvas delgadas de seus lábios.

_ Você realmente tem o espírito diabólico, Milo. _ Gargalha Kanon. _ O unicórnio pode ser uma coisinha estúpida e um lesado, mas ele ainda tem sua serventia como bode espiatório, então manera na hora de fazê-lo cantar a verdade ou vamos acabar com uma baixa de “soldado” raso a menos sem precisão. _ Estremeci, sentindo minha pressão querendo viajar ao zero, embora a conversa estivesse em código, não era difícil juntar as peças e deduzir que se tratava de algo violento.

Não importa o que digam. A violência me assustava.

_ Ele tem um ponto. _ Expôs Saga.

_ Talvez, vai depender do que ele tem a dizer. _ Considerou Milo, imparcial, convergindo sobre mim seu olhar celeste estranhamente... afável? Fiquei disperso, não muito seguro que eu não estivesse interpretando aquilo errado. _ Mas isto é um assunto que eu só tratarei mais adiante, quando voltar de minha pequena incursão. _ Ligeiro, pôs-se para fora do banco, as mãos ágeis erguendo-me junto a si no processo. Aproveitando a oportunidade amassei o lenço que ainda segurava e joguei-o no saco de lixo atrás de mim, topando com o cenho arqueado de Milo observando-me numa expressão que irradiava malícia e volúpia ao retomar minha posição.

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Esquivei o rosto para os jardins fora da janela, amaldiçoando o genes desfavorecido de minha pele clara por não esconder o rubor purpúro.

_ Certo! Vou averiguar com o Costanzo se não houve nenhum avanço nesse meio tempo. Estou mesmo precisando de um pouco de ação, está tudo tão monótono ultimamente que já começo a sentir os efeitos do tédio me enferrujando. _ Kanon informou, afundando o dedo na calda de chocolate do bolo e provando-o.

_ Deixe o Máscara saber que você anda chamando-o pelo nome de nascença, com a ácides com que ele estava quando chegou da boate ontem seria pedir pra levar patada. Não é preciso nem dizer que quem sofreu com isso foi o infeliz que ficou sobre sua tutela no interrogatório servindo de cobaia para dar vazão ao seu descontrole. _ Obliterou Saga. _ Não foi algo bonito de se ver. _ Conclui ele, sua face sóbria transformando-se numa sombria, presumida.

Kanon apenas fez um som de descaso com a garganta, lambendo o dedo adocicado pela raspa.

_ O que foi que pegou para o lado do Italiano?_ Interveio Milo, parecendo tão interessado naquilo quanto Kanon.

_ Ninguém sabe, e nem ele disse. Mas peguei por alto alguns rumores entre os seguranças de que ele teria tomado uma perdida na boate. Só não me pergunte em que sentido, porque estou tão por fora disso quanto os outros. _ Disse, descruzando os braços.

_ Vacilão. _ Soltou Kanon, gozador.

_ Vamos. _ Dei um pulo para trás com a voz de Milo próximo ao meu ouvido despertando-me de meu transe com aquela conversa criptografada para o meu entendimento. Algo naquele diálogo me incomodava, mas eu não conseguia chegar ao fundo daquela impressão.

Certo de que eu o seguia, ele não não se voltou para trás enquanto deixávamos a cozinha e pisávamos o exterior da casa. Levei a mão no rosto, sentindo algo frio derretendo-se e ensopando a minha tez, e surpreso, contemplei o firmamento, a neve disseminava seus flocos como uma grinalda casta e imaculada pela terra, embora a luz do sol ainda se fizesse presente, negando-se a apagar, ao que tudo indicava o inverno chegaria mesmo mais cedo naquele ano.

O som retilínio de chaves se chocando advertiu-me de que havíamos chegado no nosso destino. Era a cobertura de uma garagem no subsolo, refugiei-me da chuva branca de granulos na guarida do estacionamento, a variedade diversificada de veículos de diferentes marcas e designes ali, na maioria esportes, me impressionou, uma coletânea só vista em concessionárias ou em mãos de colecionadores de carros. Milo desativou o alarme de um jaguar encostado um pouco mais afastado dos outros, encaminhando-se até ele comigo em seu encalço.

_ Não vai usar o mesmo de ontem? _ Arrisquei, timidamente, intercalando o olhar para o veiculo que ele manobrara na noite passada.

Ele fez uma negativa com a cabeça.

_ Os pneus do jaguar tem mais aderência a pista em época de chuva ou com a estiagem úmida da neve. _ Abaixou-se sobre as rodas, suas mãos checando a consistência das correntes de trás.

Gesticulei em anuência enquanto ele limpava a graxa da mão com uma flanela tirada do porta-malas, batendo-a novamente ao atirar o pano alaranjado de volta ao lugar. Destrancando a porta, ele segurou a do bagageiro para que eu entrasse, botei-me para dentro sentindo um aumento brusco de temperatura em relação ao lado de fora por conta do aquecedor ligado. Em poucos segundos o carro deslanchava para fora dos portões, o rádio sintonizado numa estação local rodando alguma música instrumental desconhecida.

Olhei pelo pará-brisa vendo a neve redecorar as ruas, pinheiros, sakuras, viadutos e campos silvestres das reservas, acumular-se em camadas nos passeios e chaminés dos sobrados, conferindo aos templos e monastérios Budista e Xoguns uma paisagem de presépio Natalino. A ventania impetuosa arrancava as vegetações rasteiras, encurvando as árvores dos parques botânicos. Um velho provérbio Hindu dito por Dégel pouco antes da fatalidade que lhe roubou a vida reverbou na minha cabeça, “Por mais duro que seja o coração de um homem, Camus, lembre-se, não existe árvore que o vento não tenha balançado”. Oh! Doce ironia. Contudo, isso, como tudo mais na vida não era uma regra generalizada, talvez tivesse sido para Dégel, mas haviam os que eram imunes a tais ventos, pessoas como Milo, que assim como os bambus esvoaçando do lado de fora, tal como eu sabia, permaneceriam intactos e inabaláveis mesmo após furor com que investia as tempestades, sua sólidez jamais se curvaria a nenhuma força da natureza.

_ Gostaria de ser capaz de saber o que se passa nessa na sua cabeça. _ Pelo retrovisor, eu vi o seu pé esmagar o pedal, um brilho indistinguível cruzando suas feições através do vidro, calei-me por alguns segundos, sem saber como proceder com aquela confissão tão inesperada vinda dele.

_ Não há nada relevante neles, como você muito provavelmente deve supor. _ Fui esquivo, meus pensamentos não eram algo que eu pretendesse compartilhar com ele, realmente. Não no único lugar onde eu me permitia ser livre de tanta pressão e cobrança, para onde eu podia fugir quando o mundo se tornava demais para mim.

E isso não era algo que eu permitiria que mudasse.

_ Devo? _ Replicou, diminuindo o volume do rádio. _ Não sei se você sabe, Camus, mas infelizmente eu não sou dotado de dons premonitórios ou de onisciência para que eu saiba ou deixe de saber algum coisa. E você meu caro, não tem se mostrado uma das pessoas mais fáceis de se lê, na maior parte do tempo eu sequer consigo imaginar o que você está pensando. _ O inconformismo e o desagrado estavam patentes naquela admissão feita de forma tão contrafeita pelo seu tom de voz, os dentes cobertos pelo maxilar enrijecido e os olhos semicerrados sob os supercílios longos relanceados de canto sobre mim, deu-me uma vaga ideia do quanto aquilo, mais do que quaisquer coisa até então, atormentava-o.

_ Então enfim encontramos uma limitação para a suas “múltiplas capacidades”. _ Saudei-o numa mesura irônica, não podendo deixar aquela passar. Suas mãos se apertaram sobre o volante. _ Já estava ficando desapontado achando que isso nunca fosse acontecer. Pensei que não houvesse lugar onde você não tivesse olhos e ouvidos. _ Eu estava adorando a sensação do poder de dár a última palavra, era embriagante, eu poderia me acostumar com isso, contudo eu estava grato pelo cinto de segurança estar preso ao meu corpo quando o carro freou brusco frente ao meu edifício.

_ Está entregue, sem extravio. Como o combinado. _ Anunciou, afiado, canalizando sua atenção no meu rosto, cinismo vazando como num quador sem filtro pelo seus lábios.

Cocei as vistas ignorando seu tom de burla.

_ Obrigado. _ Forçei-me a dizer, abrindo a porta.

_ Sabe, você não está totalmente errado numa coisa, Camus... _ Meus dedos pararam na maçaneta. _ … atualmente só existem dois lugares onde não tenho acesso, nem possuo olhos e ouvidos, e por isso temo... sua mente... _ Voltei-me para ele, prendendo a respiração quando ele levantou seu braço e tocou de leve a minha têmpora com a ponta de seus dedos. Não ousei desviar meu olhar do seu, e nem mesmo recuar um centímetro sequer. Seu dedo frio pela neve que confeitava a grande metrópole do lado de fora arrepiou minha pele como em outras vezes, mas mantive a calma e a clareza de pensamentos. Seu braço tombou para o lado do corpo, seu toque anteriormente em minha testa, descerram até alcançar o lado esquerdo de meu peito. _ … e seu coração.

Estupefação. Era isso que meu rosto retratava.

De todas as coisas que eu esperava escutar dele essa jamais havia sido ao menos uma das que havia cogitado. O que aquilo significava? Que talvez, apenas talvez, ele sentisse alguma consideração e afeição por mim? Não! E se eu estivesse interpretando errado? Lendo em entrelinhas que nunca foram escritas? Pensando bem devia ser isso mesmo, seu descontentamento era com o fato de que ele não podia ter controle sobre meus pensamentos e sentimentos.

Apenas isso.

Puro egocentrismo.

Oras! O que eu estava pensando?

Meus olhos procuraram os seus, uma resposta atravessada engatilhada na ponta língua, todavia, pude ver um brilho diferente iluminar-lhes e julguei por bem calar-me. Senti-me ser tragado por eles, absorvido por aqueles Diamantes azuis e profundos poços que continham algum tipo de chama que eu não fazia ideia do que era. Suas safiras opalas mostravam a insanidade pungente que tinha por dentro de seu ser, o passado e o presente intrincados num único tempo, no qual o único pilar que sustentava toda aquela loucura era algo intraduzível que eu não seria capaz de descrever apenas olhando. O que ele estaria pensando? Fosse o que fosse ele parecia à anos luz de distância, e sejam quais fossem os rumos tortuosos que estes tomavam pareciam torturá-lo, desaquietá-lo. Estampado em seu semblante, era perceptível a satisfação e o desconsolo que era eu estar ali com ele, degladiando-se entre si. Curioso, se eu fizesse uma auto-análise aquela não era a primeira vez que eu flagrava aquele tipo de olhar dele sobre mim. Era algum tipo de desatino e desvario causado sempre que eu estava por perto. Eu não poderia botar em palavras o que era aquilo, mas de uma coisa eu tive certeza, era algo maior e mais cru do que a própria obsessão e insanidade.

Dentro de seus olhos é onde se encerra seus demônios.

Catatônico, embaralhado e sem reação com aquela prévia vislumbrada pelos seus cobaltos, puxei o capuz da blusa para cima, encobrindo minha cabeça. O fato é que quando eu me sentia encurralado ou a ver navios, como naquele momento, eu fugia ou recorria ao sarcasmo para me defender daquilo que me era desconhecido.

Eu escolhi a primeira opção.

_ Preciso ir. _ Vocalizei, polido, extinguindo o assunto, recebendo de sua parte em contrapartida um assentimento breve de cabeça antes de que eu pudesse pular para o passeio.

Senti seu olhar não se desgrudar de minhas costas enquanto fazia a travessia para o outro lado da rua e desaparecia pela portaria do prédio sobre o olhar inquisidor do sindico.

Soube que ele havia partido quando o motor do jaguar rugiu alto ganhando a pista