O Esboço dos Anjos
9 Vive La Revolucion - Vive La Guillotine
Notas iniciais

Quando acordei já me lembrava de tudo. De fato o tempo todo que passei sem me lembrar de Caio parecia um sonho, mas no final das contas a melhor lembrança que eu tinha dele era tudo o que eu mais precisava para me acalmar dos temores e dos demônios do meu passado.
Nada poderia trazer meu irmão de volta, mesmo não sendo o responsável psicologicamente pelo que aconteceu com ele, foram minhas mãos que mataram alguém do meu próprio sangue, alguém que um dia eu já amei e admirei como irmão mais velho. Eu precisava encarar os fatos... Caio decaiu do céu de sua sanidade e eu o vi arrancando as penas de suas asas até que elas se tornassem rubras e de couro liso como as de um monstro infernal, não fiz nada além de desviar de seus ataques e ajudar minha mãe a tentar sair da frente de um trem desgovernado que obviamente passaria por cima de qualquer um que tentasse para-lo... ou era isso que sempre dizíamos a nós mesmos. Talvez o que meu irmão mais desejasse era poder voltar atrás... mas as drogas não deixaram ele escutar seu próprio eu, ou ninguém mais.
Em algum momento meu irmão começou a me querer morto, do “Não se mete na minha vida” fomos para o “Vou me livrar de você, um dia eu vou” e eu nunca entendi o por que disso. Sempre fiz o que ele me mandava desde quando eu era um bebê, até levava a culpa no lugar dele quando quebrava alguma coisa, eu olhava para ele e via um modelo de vida. Eu sempre fui submisso a ele, então por que quis me matar?
–Cara. Hey! – Flinn estalava os dedos diante de meus olhos enquanto Nile, Katzea e Ophelia me olhavam como se algo estivesse escrito em meu rosto.
Estávamos no salão de jogos sentados na mesa grande e oval que fica no começo da sala, nessa sala havia um grande telão para jogarmos os diversos consoles que estava lá, com uma grande estante de jogos também. Parecia uma loja de vídeo game.
–Sim... ?
–Tem algo perturbando você? – Katzea e Flinn estavam perfeitamente esquecidos da noite anterior. Ela me fez sua pergunta com o mesmo grau de preocupação que teve comigo quando estava limpando o sangue de meu rosto.
Olhei para Ophelia, que estava do lado oposto da ponta da mesa, ela moveu sua boca gesticulando para eu dizer que não.
–Eu estou bem, só fiquei distraído.
–Mas você estava com uma cara de que ia chorar. Está com dor? – Nile se levantou de seu lugar e foi até mim.
Eu não podia mais confiar no Nile, mesmo ele sendo uma boa pessoa, Marius fez algo que nunca vai estar em posição para receber perdão. Não de mim ou dele.
–Já disse que estou bem.
Eu me levantei e comecei a andar na direção da porta que dava para a varanda.
–Louis, espera. – Olhei para trás e vi Ophelia vindo até mim. Ela colocou a mão em meu ombro e nós dois saímos juntos.
Não ficamos na varanda, eu pulei sua pequena cerca e fui para a praia. Eu nunca vi o mar pessoalmente, já que aquela era a primeira vez que eu viajei para fora do Amazonas. Era tão lindo, mas eu tinha medo de me aproximar demais dele.
A onda se desmanchou antes de bates em meus pés, mas a emoção de ver sua espuma branca tão perto valeu a pena.
–Eu quero contar para Nile, mas eu não sei como ele vai reagir.
–Precisa ser rápido, não sei se o papai vai fazer isso agora quando acordar, ou depois de checar se seu chip esta concertado. Você acha que está?
Ela se sentou no chão e olhou para mim com sua mão sobre os olhos, protegendo-os do sol.
–Vejamos, você tem algum arquivo bom ai com você?
–Tenho de violão.
–Serve... aliais eu sempre quis aprender a tocar violão.
Sentei-me ao seu lado e ela encostou sua cabeça em meu ombro.
– Primeiro: Você precisa se concentrar, mas acredite, é mais fácil do que aparenta.
–Sei... depois vem as palavrinhas mágicas.
–Não zombe dos códigos! – Ela beliscou meu braço com força. Tive vontade de lhe arrancar uma mecha de cabelo a força. – Tente.
Eu me mantive bem concentrado, como Nile já havia me falado na vez que tentou me ensinar a tocar piano, eu podia visualizar perfeitamente minhas lembranças de uma maneira tão clara que poderia se equiparar ao menu de cenas de um filme. Eu estava encantado com a beleza daquilo quando.
SOLICITATION#Ophelia0423(YES---NO)
–O que é isso flutuando na minha frente... ?
–Não tá na sua frente, seu cérebro é ligado aos olhos burrão, ai você tem a impressão de que a solicitação ta na sua frente.
–Ah sim... – Eu olhei bem para a mensagem e falei para mim mesmo que “Sim”. Então ela desapareceu.
–E então, funcionou?
–Acho que sim.
Escutei passos atrás de nós então olhei por cima de meu ombro, duas pessoas haviam parado ali e estavam esperando que eu levantasse meu rosto. Era Katzea e Marius.
–Ola... – Eu disse, Ophelia manteve sua cabeça em meu ombro, mas olhou para cima.
Katzea olhava confusa para nós dois, ela sabia que havia algo ali entre mim e Ophelia, mas estava imaginando o tipo errado de relação. Eu não amava Ophelia, eu estava sendo usado por ela e ela estava sendo usada por mim. Éramos sócios, parceiros de crime, mas não éramos Bonnie e Clyde
–Ola meus filhos, vejo que estão se deleitando à praia.
–Sim! – Ophelia abriu um grande sorriso, mas Marius ficou sério, eu me assustei muito mais que Ophelia.
–Katzea, você tinha coisas para fazer com Ophelia, não tinha? – Ele olhou para ela, os mesmos olhos negros e frios. Aquilo era uma ordem?
–Si papa. Vamos mana, precisamos nos encontrar com o Nile.
Ophelia olhou para Marius que a encarava como quem repreende uma criança, seus olhos estavam ficando semicerrados, até que ela se levantou e acompanhou Katzea de cabeça baixa.
–Eu... vou jogar vídeo game com o Flinn então...
–Não.
Eu queria me afastar dele, alguma coisa estava muito errada e eu estava ficando com medo de olhar para Marius.
–Mas...
–Não vai a lugar nenhum. – Sua voz grossa que geralmente tinha um tom sofisticado, estava brusca.
Ele segurou meu braço com força, então institivamente me levantei e o puxei de volta, tentei correr em vão, pois um terrível som agudo me fez sentir que meus tímpanos estavam prestes a explodir.
“Assim que acordei, vi que alguém havia mexido no meu precioso computador, então decidi olhar o que tinha mudado. Sabe o que tinha mudado?”
Não conseguia falar, eu apenas grunhia de dor e me contorcia na areia, era uma das piores coisas do mundo... como agulhas cobertas de ferrugem e se esfregando uma na outra entrando pelos seus ouvidos e indo direto para seu cérebro. Por que aquilo? Ele não estava me castigando, estava me torturando para que eu admitisse... e na minha posição não haviam muitas opções.
–Você me... Argh! – Eu não conseguia, ele precisava parar para me escutar. – Para! Por... – Eu gritei, esperando que alguém me escutasse. -...favor!
–Me dê apenas UM motivo... eu posso escutar o que você pensa, então não precisa falar. Só me mostre o que você fez.
Eu passei tudo em minha cabeça, infelizmente tudo. Katzea e o beijo, meu contrato com Ophelia, tudo o que ela falou sobre os planos dele para conosco e até mesmo meus planos para ele. Eu me rendi de tanta dor... como um fraco. Então a dor sessou e eu relaxei meus músculos, deitando de bruços na areia, eu me sentia como uma gelatina que havia sido eletrocutada. Marius me segurou em seus braços como uma criança, aquela já era a segunda vez que ele fazia aquilo.
–... Não... por favor... – Ele provavelmente estava me levando para o laboratório. Aquilo seria meu fim.
–Não vou deixar você me abandonar. – Ele caminhava calmamente como se não estivesse preocupado com o que estava prestes a fazer. – Você é meu, eu fiz você, tenho direito de fazer o que quer que seja com você... mas não leve isto para o lado ruim, é para seu bem.
Entramos na sala de jogos que já estava vazia e desarrumada, o que era estranho, pois Katzea não deixava ninguém sair sem arrumar tudo. Eu tentei virar meu rosto para observar, mas eu não conseguia.
–O que você fez comigo... ? – Eu não podia me mover.
Estávamos no corredor e a caminho do elevador, ele olhava constantemente para ambos os lados.
–Veja... – Ele fez um pequeno esforço para segurar meu braço e me mostrar um pequeno alfinete preso em minha pele. – Coloquei uma substancia que impede você de receber estímulos elétricos vindos do cérebro. Em outras palavras, um tranquilizante bem forte. Você estava com tanto medo de mim que quando agarrei seu braço não sentiu a picadinha. – Ele piscou para mim.
–O que você pretende fazer comigo? – Estávamos parados diante do elevador e eu rezava para que ele nunca chegasse.
–O mesmo que fiz com o Nile, você será bem mais feliz, acredite.
–Não... VOCÊ será bem mais feliz. Você quer que nós amemos você acima de tudo... você quer ser nosso Deus?
–Eu já sou.
–Eu me enojo de você.
–Você é mesmo uma joia bem rara, meu filho Louis. Eu amo igualmente vocês cinco, mas você é diferente, quanto mais você me rejeita mais eu quero fazer de você um perfeito anjo.
–... Onde está todo mundo?
–Enquanto você se contorcia no chão, mandei que Nile dividisse... “chiclete” com eles. – Ele falou aquela palavra de maneira tão irônica que fez sua boca criar em um de seus cantos um pequeno sorriso.
–O chiclete estava... – perdi meu fôlego por um segundo.
–Sim, estava com um tranquilizante, mas não como o seu. Eles dormiram e eu os fiz andar até o...
A porta do elevador se abriu e lá de dentro alguém golpeou a cabeça de Marius com alguma coisa metálica. Caímos ambos no chão, a pessoa saiu e eu pude ver quem era. Nile estava usando o mesmo capacete que Marius pôs em mim no dia em que retirou minhas lembranças. Marius ficou desacordado e eu não sabia o que falar da sena que acabara de acontecer.
–Você tá bem irmão? – Ele me estendeu sua mão.
–Não posso me mover.
–Certo, vamos dar um jeito.
Ele retirou o alfinete de meu braço e me arrastou para dentro elevador, em seguida arrastou Marius também.
–Como saiu do transe?
–Nunca entrei nele, parece que nosso pai achava que eu era completamente insano de ser fiel a ele em todos os momentos, então ele não me botou em transe.
–Onde estão os outros?
–Eles provavelmente já estão acordando do transe, já que o nosso pai está desacordado.
Com a chegada do elevador podíamos ver de longe a porta do laboratório aberta e Katzea saindo de lá.
–Kattie! – Nile gritou e acenou.
Ela correu até nós, Flinn e Ophelia saíram do laboratório um tanto atordoados, mas seguindo Katzea, que tinha um olhar aterrorizado em seu rosto ao ver Marius e eu jogados no chão.
–O que houve?! Por que acordamos no laboratório?! Papa, acorde o que aconteceu?!
–Não, não, não tente acorda-lo, isso só tornaria as coisas piores! — Implorei para ela.
–Louis, o que você tem?
–Estamos em perigo Kattie, preciso de ajuda para tira-los daqui.
Nile colocou sua mão no ombro de Katzea, ela olhava para cada um de nós, confusa, mas então se aproximou de mim e segurou meus braços, puxando-me para fora. Nile então tirou Marius do elevador em seguida.
–Se não dermos um jeito... ele destruirá tudo o que temos.
Quando os outros dois chegaram e finalmente estávamos reunidos em torno do homem que arruinou nossas vidas de maneira mais sutil para uns do que para outros. Katzea colocou meu braço sobre seus ombros e me puxou com o outro, segurando minha cintura e me deixando “de pé”.
–Nile, o que devemos fazer... ? – Todos olharam o jovem de capacete.
Ele olhou vagamente para cada um de nós. Por respirou bem fundo e uma expressão que nunca imaginaria ver em Nile apareceu, ele estava furioso.
–Vamos destruir esses chips.
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