O Esboço dos Anjos
10 Evolução

Ophelia nunca contou para Nile sobre os planos de nosso pai, pois acreditava que ele já sabia. De fato talvez soubesse, mas não acreditava que poderia fazer algo para impedir, já que tudo avançava rapidamente.
Quando explicamos a situação para Katzea e Flinn, me arrependi por alguns segundos, uma vez que Marius era um alguém de muita influência e inspiração para eles, principalmente Flinn, que nunca teve um bom relacionamento com sua mãe e ganhando conforto paternal através de Marius. Katzea não estava acreditando que todos os testes e todos os momentos que passaram acabariam resultando em zero, pois ela percebeu que como objetos eles eram seus adorados filhos, mas ele não se sentia obrigado a aceitar suas personalidades.
–Você tem certeza que isso vai funcionar? – Eu perguntei para Nile, que estava amarrando Marius numa cadeira.
Nile havia colocado o capacete em seu inventor, mas apenas depois de ajustar certas coisas.
–Absoluta. O capacete além de ser um amplificador também bloqueia a saída de qualquer tipo de onda. É como um celular envolta de alumínio.
–Incrível.
Katzea e Ophelia estavam usando o aplicativo vermelho que eu havia visto antes. Ophelia estava tomando cuidado para que Katzea não acessasse nem as minhas nem as dela.
–Queria saber como você descobriu tudo isso, Lia.
–Lia? – Katzea virou para mim.
–... Algum problema...? – Eu perguntei enquanto meus joelhos tremiam.
–Na verdade nenhum.
Ela batia levemente o pé no chão, aquilo me deixava angustiado. Eu estava a porto de gritar dentro daquela sala, pois Marius poderia acordar a qualquer instante, Nile precisava achar um modo de desativar por completo nossos chips... e Flinn, ele estava abatido e isolado de todos nós, uma vez que Marius era tudo que ele tinha... ser traído daquele jeito não era normal. Tentei me aproximar, fiquei a sua frente.
–Cara...
–Não, não me peça pra compreender a situação. – Respirou fundo e virou seu rosto para o outro lado. – Eu... eu sabia que não deveria ter saído da casa da minha mãe. Ela me mandou vários emails no começo do ano, sabia? Dizendo que ela e Jacque sentem minha falta.
–Jacque é seu irmãozinho?
–É...
Ele cobriu seu rosto com ambas as mãos, massageando sua pele... estava cansado.
–Não precisa entender, Flinn. Só não quero que fique sozinho ai.
Sentei-me ao seu lado e dei tapinhas em suas costas, ele riu e olhou para mim com uma cara sonsa. Olhou para Katzea e apontou para ela.
–E então... como vai a guerra dos 2 dias?
–O que?!
–Fala sério, você já gostava dela. Eu vi! No aeroporto.
Eu me lembrei de ele parecer bem chateado naquele aeroporto.
–Você... não ficou com, sei lá, ciúmes né cara?
Ele gargalhou e seus dentes de tubarão poderiam brilhar naquele momento, ele segurou meus ombros e os sacudiu um pouco, tentando se controlar.
–Olha... só um pouco. Mas logo depois você virou meu bro, Louis. Eu gosto de você de um jeito que eu nunca gostei do Jacque ou Nile. Mas é claro que eles são meus irmãos, gosto deles também!
–...Acho que talvez...
Nós rimos alto, mas algo parecia mais alto e ao mesmo tempo parecia sussurrar em nossas cabeças. Senti um calafrio subir minha coluna, Flinn me olhou assustado e ambos nos viramos para Nile, que olhava com desdém para Marius.
“Miserável.”
Eu escutei, pelo visto todos escutaram também, pois Katzea e Ophelia também olharam para Nile e em seguida Katzea olhou para mim, assentindo com sua cabeça. Devagar se aproximou de mim e eu segurei sua mão, levantei minha mão pedindo para Ophelia permanecer lá onde estava, pois aquele mesmo programa poderia colocar a pessoa em sono profundo. Se Nile se agitasse e atacasse Marius, precisaríamos de um plano B.
–Nile se afaste no nosso pai...
–Você é burra Katzea?! Tem coragem de chamá-lo de pai depois disso?! Ele nunca quis a verdadeira você, o que ele realmente quer é um robô chamado Katzea! Que fique idolatrando ele e fazendo tudo o que ele quer e que ele possa sair exibindo pro resto do mundo.
Ele explodiu, se afastou de Marius e se deitou no divã, com suas costas viradas para nós. Katzea apertou minha mão e seu rosto vermelho derramava lágrimas, da primeira vez que abriu a boca não pode dizer nada, mas então encheu sei peito de ar.
–Eu não pedi pra nascer! Você acha que eu me sinto a mesma agora sabendo de tudo isso! Eu disse pra minha mãe que ela tinha que escolher entre mim e o meu padrasto e ela preferiu ele! O nosso pai era tudo o que eu tinha... – Ela não parava de gritar com Nile, e se aproximava dele a cada vez que dizia algo. Eu não ousava soltar sua mão. – Minha mãe me amava, mas ela era totalmente submissa àquele idiota! Eu não tenho mais nada Nile! Mais nada...
Ela já não conseguia mais falar, seus soluços não lhe permitia nem mesmo respirar direito. Eu a puxei para mim, abraçando-a com toda a força que eu tinha, sua cabeça buscava conforto em meu peito.
–Eu estou aqui, Katzea... não vou sair daqui, você me tem.
–Louis... eu pensei que ele me amava...
–Ele amava todos nós, mas... o poder que esse chip nos dá, nós faz sentir que podemos ter tudo o que quisermos... – Ela me olhou, eu enxuguei suas lagrimas com a palma de minha mão. Beijando seus olhos na tentativa de conforta-la. – Não podemos ter tudo no mundo, nem podemos mudar tudo no mundo. Eu acho que agora entendo qual era a dele.
–Entende mesmo? – A voz de Marius.
Então nos viramos para ele, Nile se levantou e correu para perto de mim, Ophelia fez o mesmo. Estávamos reunidos perto dele. Estava acordado.
–Acordou... – Flinn sussurrou com medo.
–Já estou acordado há uns... 10 minutos, só estava escutando... mas agora fiquei curioso, meu adorável Louis. Você me entende? Vou lhe dar uma tentativa de me provar isso...
–Ou o que?
–Ou a mesma coisa que fiz com as memórias de Caio, farei para que vocês esqueçam de tudo o que aconteceu a 4 dias trás. Nada de revoltas de meninos mal criados... vocês apenas olhariam para mim e me socorreriam.
Nos entre olhamos. Mas Flinn segurou meu ombro e me puxou para longe de Marius.
–Se você falhar, tenho um plano B. Eu corro o mais rápido que eu posso e tampo a boca dele. – Sussurrou para mim.
–Certo...
Voltamos para os outros. Nile o olhava enfurecido, eu coloquei meu braço envolta de seu ombro para mantê-lo controlado.
–Eu já posso chamar você de Marius desde quando Ophelia me disse a frase código para que as minhas lembranças voltassem. Mas eu vou continuar chamando você de pai apenas por 0,0004% de respeito pelos mais velhos que eu tenho em relação a você.
–Obrigado. – Ele sorria, mas seus olhos gelados e negros nunca me deixaram sentir confortável perto dele.
–Eu entendo você por que você nós amou depois que percebeu que não éramos meras experiências suas, mas você teve medo, pois mesmo sendo seus filhos nós não éramos completamente você, não éramos obrigados a amar você e mesmo amando não haveria garantia que você nos convenceria de que o melhor para nós era sermos grande, sábios, poderosos... – Eu me aproximei de seu corpo amarrado do tronco aos pés na cadeira e coloquei minha mão em sua face. – Pai, o único que veio para cá por conhecimento, grandeza e pela tentativa de se livrar do passado... fui eu, mas eles... eles amaram você e até mesmo idolatraram você pelo tempo que durou tudo isso. Então por que a única pessoa que estava aqui pelos objetivos que você desejava foi a única a lhe trair?
–... – Sua boca estava entreaberta, estava sem reação.
–Nile amava você, Katzea amava você, Flinn amava você e Ophelia amava você... mas não pelo que você daria para eles ou pelo que você era como cientista, inventor, poliglota... eles te amavam, na verdade eu sinto que no fundo ainda amam, por você ser o nosso pai.
Seus olhos se fecharam, ele parecia um tanto acabado.
–CODE-END.OF.THE.OUTLINE.OF.THE.ANGELS#00000
Ao ele falar aquilo, não tive tempo para tampar sua boca, pois realmente me assustei no começo por não conseguir reagir, ele se jogou no chão e parecia convulsionar... sangue saia de seu nariz. Por um momento achei que ele estava morrendo.
–Marius! – Me lancei sobre ele e rasguei um pedaço de minha camisa, amarrando em sua boaca para que ele não mordesse sua própria língua.
–Louis, mio Dios! – Katzea cobriu seus olhos e se escondeu atrás de Nile.
Flinn e Ophelia me ajudaram desamarra-lo. Eu o segurei e o abracei até que tudo aquilo parasse. Quando recobrou sua consciência, olhou para cada um de nós e sorriu... ele ficou sentado por um tempo com uma mão sobre seus olhos e outra limpando o sangue.
–O que você fez?!
–Destruí meu chip, ele explodiu dentro da carapaça de cálcio...
–Você... estúpido, carece de juicio! (não tem juízo!) – Katzea dizia explodindo de chateação.
–Não há nada demais nisso, os destroços não penetraram na minha carne...
–E esse sangue?!
–Choque elétrico... vou passar minha vida tendo leves dores de cabeça ocasionas, mas não vou morrer... nada que me incomode...
Ophelia o abraçou com força, o que o fez abrir um grande sorriso. Ela antes tremia de medo no fundo... eu estava quase gostado de tê-la como irmã. Quem sabe em breve ela não melhore de seus mimos.
–Você está nos... “liberando”.
–Acho que é o melhor a se fazer... o mínimo que eu poderia fazer pela grande desgraça que fiz e a maior ainda que tentei fazer. – Ele tirou seu capacete, de fato eu não podia mais sentir seu chip. – Acho que acabaria fazendo isso mesmo sem o seu maravilhoso sermão, meu filho. Ver como se sentiram depois que descobriram o que eu estava fazendo... me deu dores no peito que pensei que nunca mais sentiria de novo.
–Obrigado por fazer. – Eu me levantei e fui até Katzea.
–E nossos chips também pararam de funcionar?
–Parcialmente, já que o impacto da morte do meu os fez desligar por alguns dias, mas em breve poderão usa-los novamente com a mesma potência. Eu prefiro que permaneçam com eles, não só pelos benefícios, mas para que vocês se mantenham seguros e bem escondidos, principalmente no seu caso, Louis.
–É justo.
–Se lembre de que seu nome é Jack agora... – Katzea riu.
–Nile. – Marius se levantou ainda tonto, Flinn lhe serviu de apoio. – Eu sei que pedir perdão pela sua mãe nunca vai ser o suficiente... mas...
–Eu também não sei se eu aceitaria, mas por enquanto eu só gostaria de me manter afastado de você. Pelo bem de nós dois... não sei mais do que eu seria capaz de dizer... seria grosseiro ou até mesmo desumano, mas eu não sou assim. Nem mesmo quero chegar perto de ser.
–Compreendo...
–Eu posso ficar? – Ophelia perguntou com sua voz de criança.
–Claro que sim... – Marius alisou seus longos cabelos.
Eu olhei para Katzea que sorria vendo Ophelia ao da de nosso pai. Ao olhar para mim, seu sorriso se tornou tímido e ela tentou desviar seus olhos.
–Não sei pra onde vou depois daqui... mas eu me sentiria péssimo em ficar longe de vocês agora depois de tudo que a gente passou.
Flinn se aproximou de mim aos poucos e sem que eu percebesse que ele estava atrás de mim, deu-me um empurrão e eu me bati em Katzea.
–Flinn! Qual é a sua?!
–Katzea, o Louis quer te dizer uma coisa... – Ele mexia suas sobrancelhas compulsivamente.
Idiota.
–Flinn...!
Ele saiu correndo, enquanto eu olhava para Katzea com uma cara de cavalo em mim.
–Louis, você tá vermelho. – Ela começou a rir.
Ela de fato aconchegante escuta-la rir, eu segurei seu rosto e a beijei de leve, diferente dela que tentou quebrar nossos narizes da última vez.
–Isso já é outra história. – Marius se aproximou. – Eu não crio que isso seria bom para vocês... mas eu não sou mais o comandante deste navio. – Ele levantou suas mãos numa posição de desistência, em seguida foi até o cano de ferro na entrada do laboratório e a levou consigo até o computador. – Está na hora de abandonar o navio.
Ele começou a espancar o computador, quebrando e tudo o que podíamos fazer era observar as faíscas voando para todos os lados.
–O que está fazendo?! – Nile gritou correndo até ele e puxando o cilindro de suas mãos.
–...- Marius não sabia o que dizer.
–Esperei uma vida pra fazer isso. – Nile começou a jogar as coisas no chão e a bater nos HDs, telas, CPUs com ajuda de Marius.
Era uma bela cena, mas eu queria ir embora daquele lugar, olhei para Katzea que ao me ver sério me olhou confusa.
–Acho que eu vou embora Katzea.
–Posso ir com você...?
–Melhor você voltar pra casa, não?
–Eu não sei...
A abracei novamente. Sentia que se a soltasse ela sumiria para sempre como no fim de um sonho.
–Somos dois. Acho que Flinn vai voltar pra casa com certeza.
–Então vou ficar com você...
–Obrigado.
–Hey Nile! – Olhei para os destruidores e chamei um deles.
–Sim... – Estava ofegante.
–Pra onde vai depois que acabar?
–Eu sei lá, acho que Bora Bora... Bora Bora é bonito... – Foi a primeira vez que o vi sorrindo daquele jeito.
–Caso isso seja agora, é melhor ter sobrado dinheiro nas nossa contas, por que vamos transformar aquele jato em um ônibus.
Marius se sentou no chão, estava cansado e tonto, o galo em sua cabeça estava roxo. Eu queria rir, mas não seria muito educado.
–Vocês têm 10.000 € na conta de cada um de você... não falta dinheiro para uma semana de farra até que os chips voltem, ai vão poder ser mais corruptos do que qualquer senhor de terno por ai... mas me prometam só uma coisa...
–O que?
–Arrumem empregos também... para não desconfiarem e também algumas carteiras a mais... Nile pode fazer umas extras, não?
–Sim...
–Ah... e liguem no natal, só para eu saber como estão...
–Tudo bem.
–Louis...
Ele se levantou e foi até mim, parecia um tanto triste, mas ao mesmo tempo feliz.
–Obrigado por não estar morto.
–Digo o mesmo. Para nós dois...
Ele me estendeu sua mão e nós nos cumprimentamos. Eu me afastei e segurei a mão de Katzea, fomos juntos para os quartos... havia muita coisa para guardar em malas, eu mal podia acreditar que destruí o projeto de mais de 30 anos de um homem... Precisava agradecer a Caio, sem aquele idiota eu não sei o que seria de meus outros irmãos.
Enquanto eu carregava minhas malas, Flinn chamava o jato e Katzea se despedia de Ophelia. Eu disse a Ophelia que um dia quem sabe ela encontraria alguém menos chato que eu, ela me disse “Claro que não!” e me beijou na frente de Katzea, ela ficou pasma, mas não ficou brava... tomara que recobre suas lembranças depois que o chip voltar a funcionar. Estávamos finalmente partindo, eu decidi que gostaria de ficar na Alemanha até que os chips voltassem, eu e Katzea conheceríamos a família do Flinn; claro que não os incomodaríamos ficando em sua casa. Eu queria circular por Berlim junto de Katzea, queria visitar muitos lugares com ela.
Quem sabe conseguir visitar minha mãe em segredo, é claro que tentar ficar o máximo possível com ela. Ela com certeza vai adorar Katzea.
Agora que os cucos estavam fora de seus relógios, tudo o que eu mais queria era tentar não me sentir ou agir como um. Havia algo que minha mãe sempre dizia, que quando conhecemos nosso verdadeiro eu há duas possíveis reações, podemos cair em chamas ou voar nas nuvens... quando pensei ter chegado ao meu eu, me senti como se estivesse em queda livre, até que desabafei com Marius. No fim eu nunca quis ser grande de verdade, eu não preciso ser sábio... mesmo que seja legal ser sábio. Depois que confessei aquilo para ele, percebi que também estava confessando para mim mesmo.
Agora sendo livre de meu irmão Caio, de Joyce, de Marius e do meu antigo eu, acho que finalmente chegou a hora de abandonar este velho ninho, certo de que não vou cair.
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