O Elixir
6 Sobre uma necropsia e insonia
Notas iniciais
“Se sente bem?” Falou depois de me encarar por tempo demais.
“Err... acho que sim.”
“Não sentiu nenhuma onde de calor ou uma leveza na cabeça?” Ela continuou questionando desta vez sussurrando como se quisesse contar um segredo.
“Não, eu não tive nenhuma onda de calor nem isso ai na minha cabeça, Maura.”
“Ah.” Ela murmurou antes de encolher os ombros claramente decepcionada com o que acabara de ouvir.
“Então por que você estava ouvindo pelas paredes?”
“Eu não estava... eu vim saber sobre a necropsia. Precisamos montar a linha do tempo.”
“Só por isto?”
Aquelas perguntas me incomodavam e Maura era esperta o suficiente para perceber. Eu estava pronta para dar outra desculpa e sair pela tangente daquela conversa, mas de um momento para o outro o interesse que ela tinha nos olhos desapareceram, ela simplesmente deu as costas para mim e caminhou em direção os corpos.
Por um momento parecia que eu a havia desapontado em algo que até então não fazia a mínima ideia. Desaponta-la era o tipo de coisa que eu tinha como talento natural; era algo que acontecia sem que eu percebesse e muita das vezes era difícil saber o que eu tinha feito ou dito.
E naquele momento percebi que a desapontei e novamente sem saber como.
Caminhei para perto dela; a vi colocar seu jaleco descartável prender seus cabelos e calçar as luvas de nitrila tudo de forma silenciosa e ordenada. Quando terminou, ela encarou as três vítimas como se pedisse perdão para o que estava prestes a fazer.
“Vou começar com o Jason.” Ela falou rapidamente se aproximando do corpo do garoto e eu apenas concordei. Maura posicionou o canhão da maquina de radiografia em direção a cabeça do Jason e a imagem apareceu estampada no visor.
“O que está vendo?” Perguntei.
“Ossos jovens e saudáveis.” Falou. “O osso parietal este bastante fragmentado ainda há fragmentos da bala dentro do crânio, mas a maior parte saiu pelo osso parietal.” Ela deixou o canhão de lado e abriu a boca do garoto iluminando o interior com uma lanterna. “Veja, o palato esta perfurado, foi por aqui que a bala entrou e parte dela saiu pelo topo da cabeça.”
“Espera, seria meio difícil uma execução nesta posição o atirador teria que colocar o cano da arma quase a 120° dentro da boca da vitima.” Indaguei. “É meio difícil para alguém atirar desta posição, a menos que o Jason tenha atirado contra si mesmo.”
Maura apenas concordou e continuou o exame analisando os outros ossos pelo radiografia.
“Vou abri-lo.” Apanhou um bisturi e respirou fundo buscando o último ar limpo que pairava sobre nós e assim como ela, fiz o mesmo já sabendo o odor que exalaria após a abertura. Fez a incisão em Y, separando pele e a pouca camada de tecido adiposo expondo assim costelas e os órgãos abdominais; com cuidado Maura retirou o estomago e o pôs em uma balança, depois o fígado e assim se seguiu.
Ela não falava, apenas continuava a retirar os órgãos saudáveis com destreza e os colocar em uma balança. Isto ia demorar até ela chegar à parte que me interessa, que era o cérebro, ia demorar muito e aquele silêncio estava acabando com o pouco de paciência que eu tinha.
“Por que um garoto de 13 anos atiraria contra a sua cabeça?” Comecei a dar passos por volta da mesa evitando olhar para o corpo quase vazio do menino.
“Não sabemos se foi exatamente isto. Os técnicos vão trazer os resultados dos testes que pedi antes de você chegar chutando meu extintor.” Ela falou depois de deixar mais um órgão sobre a balança fazendo um som repulsivo.
Suspirei totalmente rendida.
“Esta bem, me desculpa pelo extintor eu só fiquei curiosa, ok?” Maura sabe vencer qualquer um pelo cansaço. “E tudo o que eu vi quando cheguei foi um cara colocando uma agulha no olho do Jason.”
“É para a dosagem de potássio para determinar a hora da morte com maior precisão.” Mais um órgão deixado sobre a bandeja. “Por que você estava curiosa sobre o Doug?”
“Não sei, rolou algo entre você e esse Doug?” Parei de andar em círculos e fiquei diante dela, suas mãos estavam prontas para cortar mais uma vez a carne fria outra vez. No entanto, seu bisturi parou por alguns segundos como se uma onda de choque a tivesse paralisado, era uma pergunta que eu precisava fazer já que aquilo, de certo modo, estava remoendo em minha cabeça.
“Por que me pergunta sobre isto?” Ela voltou a si e continuou a cortar.
“Hmm... só curiosidade.”
“A última vez que o vi ele estava nu em cima do telhado de uma casa, ele pulou e caiu na grama. Quebrou alguns ossos e ficou meses longe da faculdade. Quando ele voltou eu já não estava mais lá e nunca mais nos vimos.”
“E eu achando que ele era inteligente, mas agora ele é só um idiota comum.” Me calei por alguns instantes a observando usar o bisturi totalmente concentrada.
“Ok, você pretende ter alguma coisa com ele?” Questionei por fim e ela parou mais uma vez de cortar erguendo o olhar para mim.
“E se eu pretender?” Sua voz soou calma, mas não menos desafiante, seu olhar dourado brilhava preso nos meus enquanto seu sorriso era completamente lascivo e sem saber exatamente o porquê, aquilo me paralisou senti o meu sengue correr mais rápido enquanto meu coração seguia seus movimentos quase sem controle. Conhecia Maura por muito tempo, mas não me lembro de ver aquela expressão em seu rosto e mesmo soando estranho tenho que admitir, por algum motivo aquilo me excitou.
“Perdeu o bom senso?” Respondi tentando voltar ao meu estado anterior. “Não acha estranho um cara, que salta de telhados pelado, aparecer depois de tantos anos apenas para conversar? E se ele tem parte nisto aqui e se aproximou para saber mais sobre a investigação?”
“Acha que o Doug tem participação nisto? Quanto exagero, Jane.” Ela riu e aquilo me provocou ainda mais.
Foi quando percebi que uma garota surgiu ao lado de Maura e a entregou alguns papéis. A jovem me olhou rapidamente com medo e sem esperar muito deixou os papéis perto das bandejas de órgãos que Maura continuava a retirar.
“Jane?” Ela voltou-se para mim desta vez totalmente séria após deixar as folhas de lado. “Doug não é o assassino.”
“Como pode saber?”
“Por que você já tem o assassino.”
XXX
Lembro que naquela noite não conseguia dormir. Sempre que eu fechava os olhos à imagem de Jason pálido surgia sem cerimonias alguma me perturbando os sentidos. Eu não conseguia entender como um adolescente de 13 anos possa fazer tanto estrago antes de meter uma bala na cabeça.
O teste de pólvora e balística além do DNA encontrado de baixo das unhas de Isa e as impressões digitais deixadas na chave de fenda Philips apontam diretamente para ele. Era loucura não? Pensar que um garoto que aparentemente tinha tudo o que precisava tivesse assassinado a sua família de forma tão brutal e depois se matado.
Qual foi o motivo de tanta fúria?
Aquela noite estava quente e nem meu ventilador ou meus pensamentos me ajudavam a dormir. Levanto-me da cama sentindo o meu corpo cansado de tal forma que arrasto meus pés até a cozinha. Talvez comer alguma coisa me faça relaxar, era este o plano, mas quando abro a geladeira tudo que vejo é uma garrafa de água quase vazia. Droga, eu deveria ter passado no mercado hoje, mas com tudo esqueci completamente.
Pego a garrafa e coloco o líquido restante em um dos copos deixados no balcão e caminho em direção ao meu sofá. Sinto minhas costas se afundarem no encosto e sem querer libero um leve suspiro.
Pela manhã, eu teria que conversar com o pai de Jason algo desagradável de se fazer, aquilo iria acabar com o resto do meu dia dizer a ele que o filho foi o responsável daquele desastre.
Ergo meu queixo e fecho os olhos novamente esperando por coisas ruins. Mas naquele momento, não foi à imagem de corpos, bala ou sangue que veio desta vez, e sim um lampejo de um olhar dourado e uma expressão desejosa pregada em um sorriso. A imagem de Maura surgiu como uma onda batendo em rochas em um dia tempestuoso e, por mais estranho que poderia ser, pensar nela me fez relaxar os músculos de meu corpo e aquecer meu baixo ventre. Quando dei por mim, aquela sensação que me abateu rapidamente se foi me deixando totalmente confusa.
Que merda foi está?
Maura era minha melhor amiga não é certo pensar nela desta maneira ainda mais depois de um dia como hoje. E sim, ela estava diferente desde que voltou do México agindo como se me escondesse algo. Ainda tem aquele tal de Doug ressuscitando dos mortos.
Patético certo? Como se uma mulher como a Maura fosse se interessar por um cara como ele.
Eu estava tão perdida em meus pensamentos que nem senti um toque caloroso em meu ombro esquerdo; tão quente quanto o calor que fazia naquela noite.
“Por que não vem para cama?” A voz masculina ecoou doce em meus ouvidos me forçando abrir os olhos. “Está sem sono de novo?”
“Só vim beber água.” Respondi antes de beber todo o líquido em meu copo em um único gole. “Pronto!”
Dean estava parado ao meu lado com os braços cruzados contra o corpo me observando.
“É o caso ou só sede?” Ele questionou afastando uma mecha do meu cabelo desarrumado do meu rosto.
“É complicado, não posso falar sobre, você sabe.”
“Entendo.” Ele suspirou aproximando ainda mais o seu rosto do meu rosto. “Mas não é apenas o caso que tira o seu sono... você não parecia estar pensando sobre trabalho agora a pouco.”
“Não mesmo, era na Maura.”
“Ok, eu deveria sentir ciúmes?” Ele franziu a testa e se afastou um pouco.
Aquilo me fez rir, é sempre a mesma historia de que Maura e eu somos um casal, às vezes até mesmo o Dean acha isso. Pelo jeito é difícil para as pessoas ver uma amizade e não enxergar outra coisa.
“Seria meio estúpido sentir ciúmes disso não acha?” Afastei-me dos seus braços. “Estou indo dormir Gabriel, amanhã tenho um dia carregado.” Caminhei de volta para o quarto ignorando completamente a presença de Gabriel logo atrás de mim.
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