O Elixir
9 Sobre uma camisa manchada e salmão apimentado
Notas iniciais
Maura
Finalmente aquele analgésico estava fazendo algum efeito, quase não sinto aquela dor de cabeça incomoda e finalmente consigo voltar a trabalhar normalmente. Continuo a leitura do laudo batendo levemente o topo da caneta na minha mesa.
Corno posterior lesionado... corte dorsolateral esquerdo.
Viro a página.
Ruptura do corpo caloso... mesencéfalo em plano sagital...
Palavras que ganhavam forma e cores com as fotos e esquema, estruturas que agora estariam pálidas, rígidas e frias em uma das gavetas do necrotério. Por fim deixo minha assinatura e o carimbo antes de passar para o próximo laudo a ser conferido.
“Dra. Isles!” Ouço a voz agitada de Susie a minha porta e ergo o olhar a encarando curiosa. Ela, no entanto para, hesita e respira fundo antes de dizer algo.
“Houve um tiroteio em um colégio. Não sei informar o número de mortos ou feridos.”
“Ok, querem que eu vá até lá?... Estranho não terem me contatado por telefone.” Levanto da cadeira retirando o jaleco de meu corpo. Neste momento olho novamente para Susie que mantinha um olhar assustado e tremulo.
“Não Dra...” Ela disse. “A Detetive Rizzoli foi atingida só me informaram que ela está no hospital geral.”
Naquele instante talvez meu coração tenha esquecido de bater, talvez meu cérebro tenha processado a informação de forma errada. Não sei como descrever, eu apenas me senti caindo, em uma queda sem fim a um poço escuro e inabitável. Abrir rapidamente a gaveta da minha mesa e apanhei as chaves do meu Lexus e caminhei o mais rápido o possível para o estacionamento.
Não me lembro exatamente como, mas quando dei por mim estava caminhando pelos corredores daquele hospital.
O fato de você ser um médico te dar certas regalias, eu só precisava mostrar a identificação que todas as portas se abriam sem perguntas. Foi assim que cheguei a um corredor ao lado dos quartos onde vi a detetive Athanasiadis sentada em um dos bancos com o queixo baixo apresentando cansaço.
Ela deve ter ouvido o som dos meus saltos sobre o piso porque imediatamente virou o olhar marrom para mim.
“Olá Dra.”
Não vejo o seu rosto apenas observo o sangue espirado na sua camisa branca como um pincel espalhando tinta vermelha em uma tela vazia.
“Jane... Onde ela está?” Perguntei prontamente.
“Quarto 302, mas é melhor entrar depois, o cara do FBI esta com ela.”
Dean, com tudo aquilo, esqueci completamente dele. Fecho meus dedos em minhas mãos tentando controlar a minha ansiedade.
“Ela está bem.” A detetive continua. “A bala pegou de raspão fizeram o curativo nela e agora só está tomando a medicação.” Ana sorri sem jeito antes de erguer os braços até a cabeça se esticando procurando um melhor modo de se acomodar naquela cadeira incomoda.
“E você está bem?” Me volto para ela ainda incomodada com aquela mancha de sangue.
“Se quer saber se o sangue é meu, não... ele não é, é da teimosa da Rizzoli. Não estou ferida Dra. Isles, agradeço a preocupação.”
“Eu sei, só quero saber se está bem.” Respondo me sentando no outro branco a sua frente.
“Bem... Vi um adolescente receber uma bala na cabeça depois de atirar contra outros adolescentes, minha colega me deu um baita trabalho e daqui a pouco vou ser interrogada por horas pela corregedoria. Digamos que não seja um dos meus melhores dias, mas vou sobreviver.” Ela sorriu encolhendo os ombros novamente e eu tento fazer o mesmo porém, estou angustiada demais para tentar sorrir.
“Ela sempre faz isso não é?” Athanasiadis quebra o silêncio. “Te deixa angustiada, preocupada, cansada... Sei que não a conheço direito, mas se aceitar um conselho, é melhor dizer a ela como se sente do que sofrer assim, não acha?”
Desvio o meu olhar e o coloco em meu colo e sem perceber aperto ainda mais os meus dedos contra a mão.
“Não posso.” Minha voz é tão fraca que até mesmo eu não consigo ouvi-la. “Não posso colocar nossa amizade em risco eu não suportaria... Prefiro tê-la como amiga a não tê-la de modo algum.”
“Ah sim, a amizade de vocês! Pode chamar isto assim se quiser, mas ninguém mais diz que rola apenas amizade Dra. Isles, até eu que sou de outro departamento consigo ver o que aparentemente vocês duas se negam a ver.” Ela ri baixo me fazendo encara-la novamente sentindo-me totalmente constrangida e exposta. “Acho que você subestima a Jane, e a Jane subestima você e isso só vai levar a mais sofrimento.”
Neste momento, vejo Gabriel passar por nós a passos largos, apressado como um foguete, nem ao menos se deu conta que estávamos ali no corredor. Ouço Ana respirar fundo enquanto ainda estou presa em suas palavras. Ela então levanta e ergue os braços novamente alongando os músculos de seu corpo como se fosse um gato que acabou de despertar.
“Agora posso ir para o departamento colocar o ocorrido em relatório.” Falou por fim com uma total preguiça estampada em seu rosto. “Diga a Rizzoli que ela me deve outra camisa, já que está toda manchada.” Ela sorriu e eu consegui retribuir desta vez antes de vê-la partir.
Quando chego ao quarto 302, Jane está sentada na cama com a bolsa de medicação pendurada no suporte. Bato na porta e aparentemente ela não reage permanecendo com o olhar para a janela como se estivesse em outro lugar.
“Você não cansa de levar tiros?” Digo me aproximando vendo o conta gotas da bolsa de soro pingar a medicação para as veias de Jane.
“Você não cansa de abrir gente morta?” Ela se voltou para mim com as sobrancelhas erguidas.
Paro e penso por alguns segundos.
“Teve uma vez que tinha várias necropsias em um dia, no final eu sai bem cansada.”
“Hoje quase foi um desses dias cheio de necropsias para se fazer.” Sua voz rouca estava mais abatida do que eu imaginei e aquilo me entristeceu.
“Mas não foi.” Falei. “O garoto parou de atirar por sua causa. Você é a heroína.”
“O garoto esta morto Maura, eu que o matei! E se não fosse por Athanasiadis, que me empurrou para o chão, eu teria recebido a bala em cheio. Ela sim foi à heroína.” Ela suspirou cansada antes de colocar os olhos negros nos meus.
“Mas os outros estudantes estão vivos porque você estava lá, é um mérito só seu não haver mais adolescentes no meu necrotério hoje.”
Ela se inquieta, se movimenta tentando se livrar, talvez de sua culpa, mas o acesso em sua veia a mantem no lugar fica em silencio e volta a encarar a janela.
“Ana disse que você a deve outra camisa.” Falei atraindo novamente o seu olhar para mim.
“Vou dar quantas camisas ela quiser depois de hoje.” Ela sorri ainda que de maneira fraca.
“A Ana...” Jane continua. “Ela está interessada em você. Ela mesma quem me disse.”
“Espera, o que?” Respondo totalmente surpresa.
Mas que porcaria de elixir que não acerta nunca!
“Jane, você deve ter entendido errado.” Digo a ela como se dissesse a mim mesma.
“É talvez.” Ela suspira e novamente seus olhos escapam dos meus. “Gabriel está voltando para Washington.”
Aproximo-me mais um pouco parando a sua frente.
“Não quero ser chata em dizer isto, mas eu avisei você que...”
“Eu pedi para ele voltar ao FBI.” Jane me calou rapidamente. “Cansei de olhar para a cara dele.”
“Jane...” Murmurei surpresa.
Senti sua mão no meu pulso me puxar para mais perto, obrigando-me a sentar ao seu lado na cama de hospital. Neste momento, sua cabeça deita em meu ombro esquerdo e o cheiro suave de seu cabelo invadiu minhas narinas, senti a sua respiração quente tocar a pele do meu pescoço como um beijo provocativo fazendo aquecer o meu o peito, como um vulcão prestes a explodir, e temo que Jane consiga ouvir as batidas sem ritmo do meu coração.
“Fica comigo esta noite.” Ela murmura. “Não quero ficar sozinha Maur.” Sua voz rouca atingiu o meu ouvido suavemente como uma brisa fresca da manhã.
“Você não vai ficar.” E eu a abracei. Respirei fundo inalando mais uma vez aquele aroma enquanto afagava os cachos negros contra a minha mão. “Você não vai ficar sozinha.”
XXX
Chega à noite, pálida e cálida como das outras vezes. Eu poderia dizer que estava impaciente, cansada e sem sono como o de costume, mas naquela noite, eu estava totalmente feliz e confortável enquanto preparava o salmão para o jantar. Jane estava muito bem, e pelo visto, aquele conforto que eu sentia se transmitiu para ela também.
Ela até mesmo se propôs a alimentar o Bass, mesmo com meu cágado recusando qualquer alimento que vinha de suas mãos.
“Tem certezas que esse bicho está vivo?” Ela desistiu de obter a atenção de Bass e caminhou para perto de mim. “Toda vez que o vejo ele está dentro daquela casa dele.”
“É casco.” Digo. “Ele está bem só com medo de você.”
“Hmm... Acho que causo esse efeito em muito machos.” Ela contornou o balcão da cozinha chegando mais próximo e assim pude ver uma de suas mãos sobre o abdômen juntamente com uma breve expressão de dor.
“Sente dor?” Perguntei me voltando para ela, no entanto, Jane apenas nega com um aceno de cabeça.
“O que está fazendo?” Mudou de assunto demostrando o interesse no salmão dentro da forma.
“A nossa janta.” Abro um sorriso gentil. “Enquanto não está pronto, pode tomar um banho ou ver um filme se quiser.”
“Não, quero te ajudar.”
“Jane... Você acabou de sair do hospital, não precisa.” Vejo quando ela apanha o moedor de pimenta e sorri.
“Claro que precisa! Sou quase italiana, cozinha estar no meu sangue.”
Inclino a cabeça para o lado quase certa de que aquilo não fazia o menor sentido. Mas não contestei, ela parecia estar bem por estar ali e eu queria apreciar cada minuto ao seu lado.
Abro o caminho para ela passar e chegar até a forma, e percebo que ela vacila por alguns instantes evitando olhar para mim. Pergunto-me se ela sabe, se ela sabe que a amo e a desejo, que estou feliz por vê-la bem, por vê-la viva. Se ela sabe que comprei um elixir do amor, e agora ela me considera tola e se sente desconfortável quando está próxima a mim.
Ela aponta o moedor de pimenta para junto da forma segurando-o firmemente.
“O segredo, Maura.” Ela fala. “É saber como segurar.”
“Estamos falando da pimenta, certo?” Questiono sem me da conta que estou incrivelmente próximo ao seu corpo vejo suas mãos tensas se esforçando para manter a firmeza ao segurar o moedor. Não sei ao certo se foi o cilindro frouxo ou a força que ela aplicou, mas no momento que Jane virou a manivela o moedor de pimenta se partiu ao meio espalhando pimenta moída pelo ar.
Fechei meus olhos rapidamente e evito respirar o ar apimentado me afastando para trás.
Ouço-a rir roucamente e aquilo me faz rir mesmo sem querer.
“Desculpe Maur.” Ela diz tentando parecer séria desta vez. “Acho que o peixe já era.”
Foi quando abri os olhos e vi o salmão, antes rosa, agora totalmente preto coberto pela pimenta.
“Mas que...” Balanço minhas mãos no ar tentado dissipar a ar apimentado. “Jane! Era nossa janta.”
“Eu sei, eu sei. Mas você podia ter me avisado que o moedor estava quebrado.”
“A culpa é minha?” Dificilmente aquilo poderia ser verdade.
“É Dra. Isles, é sua.” Ela ri mais uma vez e eu ao ouvir seu riso esqueço completamente que o meu futuro jantar estava arruinado. “Não se preocupa, vou pedir comida para nós.”
O que era para ser um salmão ao molho de laranja, virou uma pizza de peperoni!
Mas eu não tinha do que reclamar, nós comemos, conversamos, rimos de eventos passados e aquelas pequenas ações, que para muitos eram consideradas cotidianas, para mim era o verdadeiro sabor de estar vivo e poder compartilhar isto com alguém do qual eu realmente amo.
Mesmo assim era possível ver que as feições de Jane se modificavam em tempos, às vezes se fechava, às vezes ela corava e eu imaginava que tudo era devido à dor que eventualmente surgia. Em todos os momentos fiz questão de permanecer ao seu lado, para fazê-la tomar seus medicamentos, trocar seus curativos, tratar de suas feridas e tentar roubar um pouco de sua dor para mim.
E quando fomos dormir... Bem... Eu dormi ao seu lado.
E no meio da noite, naquele quarto escuro, sinto que ela se agita ao meu lado, mas depois ela para, depois volta a se mexer , isso por uma ou duas vezes. Viro-me, mas apenas vejo a sua silhueta daquele lado da cama.
“O que foi, está sentindo algo?” Questiono preocupada.
“Estou sem sono.” Sua voz soou suave e clara, porém muito abatida me despertando completamente.
Estico meus braços e a puxo para mim e a aperto contra meu corpo tentando aconchega-la, acalma-la para que voltasse a dormir; mas ela não voltou e eu também não. Ficamos em silêncio e noto o calor do seu corpo me envolver, aquilo me estremece e acho que ela sente, já que começou a estremecer levemente, e assim então fecho os olhos enquanto sua respiração cálida e úmida atinge a pele do meu peito nu arrepiando cada pelô do meu corpo.
“Seu cheiro é bom.” Ela diz e minha boca se torna seca.
“É o cheiro do meu creme.” Falo.
“Não, o seu cheiro natural, é realmente muito bom... eu queria...”
A sinto se mexer contra meus braços e ouço um coração bater acelerado, não sei dizer se é o dela ou o meu; talvez seja o meu, já que naquele momento sinto seus lábios úmidos na base do meu pescoço. Abro meus lábios e um leve gemido escapa, mais uma vez, outro breve roçar de lábios um pouco a cima do meu pescoço e acho que estremeço, que me arrepio, que enlouqueço.
Sei que ela sobe sobre mim, que toca meu rosto com seus dedos como se desenhasse a formas da minha face através do escuro. E então sinto seus lábios quentes, macios e impetuosos desta vez contra os meus, e ao abrir meus lábios parece que a atraio ainda mais para mim.
Sua língua surge e toca a minha ela geme e estremece, e eu sinto o seu gosto, sinto o seu toque me invadir me fazendo explodir mais uma vez, me embriagando, não por bebida, mas pelo seu beijo.
E aquilo cresce se tornando urgente, tão urgente que me sinto em uma queda livre como areia em um tubo, mas não, não se engane, não estou seca como areia, estou molhada, escorrendo como água, como tinta, e eu quero mais... Preciso de mais.
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