O Elixir
17 Sobre o silêncio
Notas iniciais
Maura
Cheiro de madeira, terra molhada e... silêncio. Nenhum som de motor ou de escapamento de carros, até o latido do cachorro do vizinho parecia ter sumido.
“Noite muito silenciosa.” Pensei, até os grilos do meu jardim pareciam estar dormindo. Senti algo duro e incomodo pressionando as minhas costas; foi quando percebi que não estava no conforto da minha cama, muito menos em minha casa. Abri os olhos, mas estava escuro demais para ver alguma coisa.
Na tentativa de me levantar virei o corpo para o lado e minha cabeça bateu contra a parede e rapidamente voltei a me deitar, antes mesmo que eu pudesse falar algum palavrão, daqueles que a Jane sempre falava quando sentia alguma dor; tento virar para o outro lado e novamente dou de cara com outra parede. Neste momento, meu coração deu um salto, e mais uma vez tentei me erguer, e como das outras vezes bati com a cabeça.
“Merda!” Falei tentando me acostumar com a dor das pancadas massageando o escalpo com os dedos. Ergui os braços e senti obstáculos em todas as direções, pranchas de madeiras ásperas estavam erguidas em minha volta e imediatamente o pânico me tomou. Comecei a socar, arranhar as paredes, a ponto de senti as farpas penetrarem em meus dedos como pequenas agulhas. Fiquei ofegante rapidamente e parei de me movimentar.
Eu estava dentro de uma maldita caixa!
Como um estalo lembrei-me do cheiro azedo do clorofórmio e da pressão do tecido em meu rosto, e novamente senti uma nova onda de pânico se espalhar dentro de mim, imediatamente balancei a cabeça tentando me controlar.
“Não há tempo para isso Maura, pense!” Digo ainda arfando.
Esticou o braço direito em direção à parede e o braço esquerdo para a outra parede, talvez a distância entre as duas fosse pouco mais de dois metros? Levantei um dos braços até à cabeça para medir o teto, o espaço era o suficiente para que eu pudesse ficar sentada.
A adrenalina ainda fluía dificultando meu raciocínio; então, fechei meus olhos e respirei fundo, todos aqueles exercícios de respiração que aprendi na yoga seriam bem úteis agora, inspirar e expirar era o básico para se manter calma, no entanto, o quanto de ar ainda me restava ali?
Movimentei um dos pés e sentiu que algo se afastou. Tateei com os dedos o fundo da caixa até encontrar algo frio, provavelmente algum objeto de metal; tateei todo o objeto de forma cilíndrica encontrando uma saliência em sua superfície. Senti uma pontada de alivio quando pressionei ali e a luz tomou conta do local. Era uma lanterna de fabricação simples, porém, eficiente.
Não havia tempo para que meus olhos se acostumassem com a luz, era preciso estudar onde eu estava, achar alguma brecha para poder escapar. No entanto, aquelas paredes não mostravam falhas, assim como o teto e o chão da caixa. Era possível ver pequenos furos no topo onde o máximo que poderia passar por eles eram, não sei, formigas?
“Pelo menos ar não ira faltar.” Falei novamente.
Parece que o meu sequestrador tinha tomado todas as providências para me manter viva, só não sabia por quanto tempo.
Varri os olhos pelo chão da caixa e encontrei um conjunto de pilhas embaladas, foi quando comecei a rir de tão surreal que aquilo era. Por que prender uma pessoa em uma caixa de madeira com uma lanterna e pilhas?
Por fim, percebi que não acharia respostas se continuasse rindo daquela forma, olhei para meu corpo, para o meu vestido amarrotado, o vestido que escolhi para aquele dia, procurei por cortes ou rasgos, mas não encontrei nada. Pelo menos eu ainda estava usando as minhas roupas e isso era um bom sinal.
Toquei a meu rosto a procura de ferimentos ou marcas, fiz o mesmo para o resto do corpo, encontrei um curativo feito com bandagem no meu antebraço e imediatamente me lembrei do corte feito na minha tentativa de fuga ainda no estacionamento.
O que será que o Doug quer com tudo isto?
Jane estava certa sobre ele, e eu não acreditei já que estava tão concentrada no elixir e no seu suposto efeito que nem sequer notei algo estranho na aproximação de Doug. Ah, como fui estúpida, como me arrependo de ter comprado aquela maldita garrafa, e por mais que eu tentasse esquecer essa minha estupidez, ela continuava me perseguindo como uma sombra que agora me aprisionou em uma caixa.
Levo minhas mãos até as têmporas me esforçando a me concentrar, não tenho tempo para me lamentar preciso descobrir como fugir dali.
Fechei os olhos e voltei para o exercício de respiração mesmo sabendo que aquilo não estava ajudando muito.
“Jane... Por favor.” Murmurei pesadamente esperando que de alguma maneira ela pudesse me ouvir.
XXX
As horas pareciam intermináveis ali, e eu não fazia ideia por quanto tempo eu estava naquela caixa, já dormi e acordei pela terceira vez, não havia como saber se era noite ou dia, simplesmente perdi a noção do tempo. Certa vez li em um artigo sobre homens deixados em uma caverna sem luz do dia por 45 dias, seu ciclo sono e vigia haviam se misturado, o corpo acordava e dormia sem orientação alguma se tornando uma grande confusão cronológica.
Já se passaram 45 dias? Não com certeza não, talvez se tenha passado algumas horas ou talvez um dia. Eu sentia o suor escorrer do meu rosto até o decote do meu vestido, eu estava com fome, estava com sede estava fraca demais para pensar com clareza, mas eu sei que Jane está me procurando, sei que preciso voltar para seus braços e exatamente por isto eu ainda não podia me render. Liguei a lanterna mais uma vez, fiquei observando a luz atingir as paredes da minha prisão de madeira, não era possível que Doug tenha feito algo tão perfeito assim que não há nenhuma chance para eu escapar.
Neste instante ouço passos próximos a mim seguidos de um leve bater na caixa.
“Doutora?”
Ouvi uma voz masculina me chamando e imediatamente meu coração saltou em meu peito e por instinto desliguei a lanterna.
“Doutora?”
Mas uma vez aquela voz totalmente estranha me chamava batendo na madeira. Não era a voz de Doug, poderia ser alguém que veio me resgatar ou aquele homem poderia ser um aliado de Doug apenas checando até onde vai minha resistência.
Coloco minha mão em minha boca evitando assim fazer algum som; permaneço em completo silêncio enquanto ouço o seus passos ao redor da caixa. De repente tudo fica mudo e percebo que o homem se afastou, não por muito tempo, ele ainda caminha e agora posso ouvir mais passos junto aos deles.
“Maura?” Ouço a voz grave de Doug me aterrorizando. “Sei que esta me ouvindo.”
“Deixe-me sair Doug.” Tive coragem de dizer algo desta vez.
Uma pequena portinhola se abre na caixa empurrando algo para dentro.
“Pegue, não coloquei nada na comida ou na água, pode ingerir tranquila.” Ele falou.
Liguei a lanterna mais uma vez e vi o que havia a minha frente, uma garrafa de agua mineral e um sanduiche embrulhado em alumínio.
“Como vou saber se o que diz é verdade?”
“Se eu quisesse te fazer mal já teria feito, não acha?”
“Ora, que tipo de mal estamos falando?” Indaguei com ironia. “Prender alguém em uma caixa não é fazer mal o suficiente?”
Ele ficou mudo por alguns segundos. Não ouvia nenhum som do outro lado e começo a pensar que talvez ele tenha ido embora.
“Você não me ligou Maura, me fez esperar.” Ele não se foi, ainda estava lá com a voz bem mais audível desta vez.
“Céus! Você me prendeu em uma caixa porque eu não te liguei?”
“Se tivesse me ligado, talvez agora poderíamos estar tomando um café, ou bebendo alguns drinks em um bar ou talvez em um restaurante caro. Depois te levaria para a casa e foderíamos como dois coelhos no cio durante horas e você teria gostado, eu teria gostado também. Afinal, quem não iria gostar de um programa deste com a Dra. Isles? Seria bem mais confortável do que isto aqui.”
Neste momento me encolho sentindo um calafrio se apossar do meu corpo e imagino o que pode ter acontecido comigo enquanto estava desacordada, indefesa, enquanto Doug poderia reclamar o seu prêmio.
“Deve estar se perguntando se toquei em você?” Doug continua. “Não, não toquei, apenas fiz o curativo em seu braço.”
Respirei fundo enquanto sentia que lágrimas subiam em meus olhos e eu não sabia se era de alivio ou desespero.
“Se tivesse ligado Maura, não estaria ai agora. Enfim, você se colocou ai.” O ouço suspirar antes de tudo ficar em silêncio novamente.
“O que você quer de mim Doug?” Questionei me mantendo o mais firme o possível, precisava mantê-lo falando até finalmente achar algo que pudesse usar contra ele.
“Apenas te manter longe.” Ele diz. “É bem difícil arrumar a casa com você lá fora vasculhando tudo, sendo o cérebro da polícia de Boston.”
“Então era você quem era o responsável pela droga? Tenho que te dizer que apanhou a pessoa errada. Não fui eu quem descobriu o trembolona no corpo dos meninos Doug, claramente não sou o cérebro da polícia, sou apenas a legista. E você sabe muito bem que virão atrás de mim, então todo o seu esforço em me sequestrar apenas chamou a atenção para você.”
“Mas é exatamente isto, Maura. Eles vão dar voltas te procurando, me dando o tempo necessário para limpar a sujeira.”
“De que sujeira estamos falando?” Indaguei me aproximando ainda mais da parede de madeira. “Deixe-me sair Doug, é bem mais fácil conversar sem este obstáculo entre nós.”
Ouço leves batidas na lateral da caixa seguido de um enorme silêncio, esperei ansiosa que de alguma forma minhas palavras o tivesse convencido a me libertar. Porém para meu desespero ouço passos se afastando.
“Coma Maura.” Sua voz ecoou distante. “Preciso que aguente por mais algum tempo.”
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