O Elixir
18 Sobre memórias azuis
Notas iniciais
Jane
“Que tipo de pessoa a é Dra. Isles?”
A pergunta de Athanasiadis me trouxe de volta para dentro do carro de polícia, eu estava tão concentrada no que estávamos prestes a fazer que nem ao menos me dei conta que ela estava sentada no banco do passageiro ao meu lado.
Olho de relance para ela e vejo quando fecha a última alça do colete a prova de balas em volta da cintura.
Volto minha atenção novamente para a avenida, não antes de conferir pelo retrovisor se Frankie e Korsak estão logo atrás com todos os veículos da patrulha do departamento seguindo o último sinal de GPS do celular da Maura.
Minhas mãos pressionam o volante e eu suspiro refletindo sobre a pergunta da Ana.
“Que tipo de pessoa é a Maura?” Ah, eu poderia ficar horas falando sobre a Maura.
“A Maura tomou um elixir.” Respondo com um breve sorriso. “Um elixir do amor.”
“Isso é algum código para sexo entre você?” Ana questiona confusa antes de se acomodar novamente no assento.
“Não é código algum, e de onde você tira essas conclusões?” Digo, e no mesmo instante Ana inclina a cabeça pensativa.
“Olha.” Continuo. “Maura comprou um elixir no México que, era capaz de fazer a pessoa que você ama se apaixonar por você.”
“Hmm, tipo uma poção mágica?”
“Isso.”
Sinto o olhar de reprovação da Ana sobre mim.
“Poções mágicas não existem, Rizzoli.” Ela diz.
“Eu sei, mas de alguma maneira estou mais apaixonada do que nunca estive na minha vida.”
“Isso não muda o fato que poções mágicas não existem.”
“Obrigada por me dizer algo que já sabia, Ana.” Falo antes de revirar os olhos parando o carro no local indicado. “O que estou tentando dizer é que às vezes a Maura pode parecer bem ingênua, que sempre precisa de proteção, mas garanto que ela é bem mais forte do que eu ou até mesmo você. E ela nunca desisti sem uma boa briga.”
“Era o que eu precisava saber.” Ana falou antes de saltarmos do carro.
A noite avançava quando nos concentramos próximo ao porto de Boston. Foi ali que um patrulheiro, fazendo a sua ronda, localizou o furgão cinza e podemos cruzar a informação do sinal emitido pelo GPS do celular da Maura. Enquanto Frankie e Korsak circundavam o perímetro, eu estava na dianteira com a minha arma .40 em um uma das mãos e a lanterna em outra tendo Athanasiadis como reforço. Fizemos sinais para o resto da equipe se posicionar em volta do local repleto de contêineres, e cada passo que eu dava em direção ao furgão era uma batida violenta contra o meu peito, já que não havia como saber o que nos esperava ali.
Mesmo assim me aproximei com cautela, iluminando cada espaço do veículo com a minha lanterna. O furgão estava vazio, no entanto as chaves ainda estavam na ignição, parecia que o veículo foi abandonado sem hesitação entre dois contêineres gigantescos. Contornei o furgão pela esquerda, enquanto Athanasiadis fazia o mesmo pela direita, até chegarem à parte de trás.
E naquele breve segundo, eu hesitei.
A firmeza que eu carregava comigo simplesmente desapareceu. Lembrei-me das imagens da câmera de segurança, onde Maura foi arrastada para aquele furgão como um cachorro vai para a carrocinha; lembrei-me de tantos outros casos em que corpos foram encontrados nos fundos de veículos como aquele; corpos de pessoas das quais nunca havia visto na minha vida.
Mas não, não daquela vez; era impossível ser imparcial já que eu via Maura todos os dias durante anos, eu a conhecia, conhecia o calor de seu corpo, conhecia os fios claros de seu cabelo, conhecia o brilho nos olhos, conhecia o sorriso meigo, conhecia cada ponto da sua personalidade.
Era isto que eu queria guardar nas minhas memórias e não o que encontraria naquele furgão.
Sinto que minha garganta se fecha e minhas pernas estremecem, uma gota de suor escorre pela minha testa até meu pescoço e ainda permaneço olhando fixamente a maçaneta da porta do veículo pensando se devo abri-la ou não.
Ana mantinha o olhar redondo sobre mim esperando em silêncio alguma atitude ou ordem.
“Não consigo!” Pensei rendida aquela sensação que me prendia a um estado catatônico.
Logo, Athanasiadis tomou o comando daquela força tarefa e girou a maçaneta da porta que se abriu instantaneamente. O interior do furgão foi iluminado com as luzes das lanternas tornando visível o seu conteúdo e todos ali reunidos desceram suas armas de volta para o coldre.
“Traga a equipe de perícia, agora!” Disse Ana através do rádio.
Senti uma enorme dificuldade para respirar me fazendo baixar a cabeça apertando os olhos contra as mãos. Quando o ar voltou para o meu corpo olhei novamente para o interior do furgão, havia um corpo sim, mas para meu alivio não era o de Maura.
“O filho da puta esta brincando com a gente!” Falei enquanto desviava das poças de sangue dentro do veículo me agachando próximo do corpo.
“Deve estar se divertindo.” Ana falou ao meu lado. “Esse é o Tomas Brewer.”
“E este é o celular da Maura.” O aparelho estava ligado sobre o corpo ensanguentado do pai de Mike.
“Está parecendo queima de arquivo a todos que trabalhavam na Dolphin.” Ana continuou. “Além de uma mensagem modesta e bastante clara como: Hey policiais, estamos com um dos seus.”
Acenei com a cabeça erguendo o queixo me deparando com respingos de sangue e manchas por toda a traseira do furgão. Sai de dentro do veículo e olhei para as laterais onde homens vasculhavam o terreno. Resolvi me afastar dali, tentar respirar normalmente, fazer com que minhas mãos parassem de tremer, mas aquela sensação de incerteza, de raiva, de impotência e culpa apenas aumentava no meu interior.
Ergui os olhos para o céu noturno sem nuvens onde a Lua cheia brilhava.
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“É bem aqui.”
Movimentei a cabeça em negação enquanto o vento batia em meu rosto me fazendo estreitar os olhos.
“Maur, não tem nada aqui! Por favor, vamos voltar.” Falei e por mais que eu tentasse Maura estava relutante em deixar a praia.
“Não Jane, está prestes a começar, sente-se.” Ela se acomodou sobre a areia com um sorriso enorme estampado no rosto.
E eu suspirei rendida, devia ser... não sei, umas 3h ou 4h da manhã e ela me trouxe para a praia em um dia de folga alegando que queria ver um espetáculo.
Quem faz espetáculos a este horário da madrugada?
Acomodei-me ao seu lado na areia e fiquei observando o mar à frente da mesma forma que ela fazia.
“Nossa, que divertido não me lembro de me divertir tanto assim.” Falei aborrecida e totalmente com sono. “O que raios vamos ver aqui afinal?”
“A arribada.” Ela falou sorrindo. “É um fenômeno biológico em que milhares de tartarugas emergem do mar para depositar seus ovos nesta praia.”
“Que nojo! Você me trás até aqui para me mostrar tartarugas parindo?” A encarei totalmente sem paciência. “Agora sim vou para casa, adeus.”
Quando estava prestes a me levantar, sinto as mãos de Maura em volta do meu braço me mantendo sentada na areia.
“Olha ali.” Ela indica com a cabeça em direção ao mar e quando finalmente olho para frente, vejo inúmeros animais caminhando juntos em direção a areia quase em uma marcha militar.
“Caretta caretta. São as tartarugas marinhas.” Maura volta a falar com o entusiasmo de sempre. “Elas voltam para a praia que nasceram apenas para desovar. Não se sabe o motivo para fazerem isso, mas sempre retornar juntas depois de 10 anos. Nunca presenciei isso ao vivo! É tão emocionante não acha Jane?”
Volto-me para ela e a vejo sorrindo com um forte brilho nos olhos claros, e por mais surreal que aquilo pudesse parecer, estar ali foi um dos poucos momentos que realmente fez sentido para mim.
Durante alguns minutos, permanecemos em silêncio apenas ouvindo o barulho das ondas e o som tranquilo do vento que nos atingia. A Lua cheia brilhava e sua luz refletia na água e nas incontáveis tartarugas que cavavam a areia fazendo os ninhos. A beleza daquela visão noturna fez com que o mundo que conhecíamos, repleto de maldade, morte e sangue, não existisse mais. Aquele cenário, ou como a Maura dizia espetáculo, era um manto escuro que nos envolveu, um manto seguro e muito confortável como um cobertor usado, que bloqueava qualquer medo ou pensamento ruim que pudesse vir à tona.
“Sinto-me satisfeita.” Maura quebrou o silêncio. “Satisfeita por estar viva e poder ver esse espetáculo! Poder sentir o vento, ver o reflexo da lua na água, sentir a areia sobre os meus pés, e claro, ver as tartarugas em seu regresso para casa depois de anos nadando pelos oceanos. São em momentos assim, ao seu lado Jane, que percebo o quanto estou satisfeita com a vida que tenho.”
Maura volta a me encarar sorrindo abertamente. Observo aquele rosto de sutil delicadeza e sinto meu coração descompassar contra o peito. Maura era linda, era muito linda, ainda mais quando sorria daquela maneira gentil. Naquele momento, abri os lábios para dizer o quanto ela era linda, o quanto eu também estava satisfeita por estar ao meu lado, que haveria mais momentos como aquele entre nós, mas a única coisa que consegui fazer foi esboçar um sorriso constrangido antes de entrelaçar os meus dedos em suas mãos.
“Então...Qual delas é a mãe do Bass?” Questiono.
Vejo quando ela junta as sobrancelhas me encarando como se não acreditasse no que ouvia.
“Bass é um cágado, Jane.” Ela diz. “Ali são tartarugas marinhas.”
Comecei a rir antes de deixar um breve beijo no topo de sua cabeça.
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“Naquela noite, a lua estava exatamente como agora.”
Eu pensava enquanto continuava com o olhar preso no céu. Aquele dia foi a última vez que parei para ver a Lua, e agora vejo o seu brilho em toda a sua forma completa, me iluminando exatamente como fez com as tartarugas na areia.
O vento me atingiu mais uma vez levantando os meus cabelos contra meu rosto, olhei ao redor observando atentamente todos aqueles contêineres a minha volta.
"Você está lutando para voltar para casa exatamente com as tartarugas que tanto admira, não é mesmo, Maur? E eu juro vou leva-la para casa, não importa a qual preço, por isto Maur te peço... por favor, deixe-me senti-la novamente."
Sussurrei em uma prese desajeitada enquanto uma das minhas mãos batia fortemente na lateral de um dos contêineres.
Ouvi o barulho de carros se aproximando, a equipe de perícia já estava pronta, vasculhando o furgão cinza. Caminhei lentamente em direção as sirenes que brilhavam enquanto eu recriava mentalmente todos os passos até aquele local.
Eu estava tão concentrada que tropecei em algo me fazendo perder o equilíbrio, quase indo parar de cara ao chão. A luz da Lua iluminava sutilmente onde meu sapato bateu e aquilo foi o suficiente para chamar minha atenção. Logo, me aproximei iluminando o local com a minha lanterna. A terra que se encontrava ali encobria parte da pequena trava que quase me derrubou. Afastei a terra rapidamente com as mãos analisando com cuidado cada detalhe. Era um abrigo nuclear, daqueles apenas vistos em filmes cinematográficos com malucos e suas teorias sobre o fim do mundo. Puxei a trava e meu coração deu um salto ao ouvir o som da porta se abrir liberando assim, o caminho para uma escadaria.
E então, ergo o olhar novamente em direção as sirenes e vejo Athanasiadis juntamente com Korsak e Frankie conversando com os técnicos da perícia. Não havia tempo para aquilo, não havia tempo para tentar entender o que houve naquele furgão, portanto retirei a arma do coldre destravando a trava de segurança antes de respirar fundo, enchendo meus pulmões com o ar daquela noite de verão.
“Maura...” Sussurrei. “Está na hora de te levar para casa!”
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