O Elixir

19 Sobre levar para casa ou deixar ir


Notas iniciais
Opa gente boa voltei! As coisas estão se concluindo então espero que gostem desse cap. Boa leitura =)

Maura

Se existir algum inferno, o calor que fazia ali dentro era comparado a este inferno.

Eu estava desidratando rapidamente, basicamente toda água que eu ingeria era liberada pelo suor que escorria do meu corpo e nem ao menos sei quando terei outra garrafa de água aqui comigo.

Faz muito tempo desde que ouvi a voz de Doug pela última vez, e agora quem me trás a comida é o seu ajudante silencioso, que não fala por mais que eu insista em faze-lo se comunicar. Ele vem, deixa a comida e depois ouço os seus passos se afastando. Deve ter sido instruído a permanecer em silêncio quando esta perto da caixa. Doug era esperto, ele sabia que o silencia iria me enlouquecer rapidamente e era exatamente isto que ele queria.

Minha cabeça encosta-se a uma das paredes de madeira, estou confusa , estou exausta e já não sei por quanto tempo ainda posso aguentar ali.

Fecho os meus olhos, acho que sinto sono ou é apenas a confusão mental flutuando em meu cérebro por causa da desidratação.

“Jane...”

Só o peso daquele nome foi o bastante para me fazer abrir os olhos novamente. Eu estava em uma situação ruim, bastante ruim, mas ainda me preocupava com a Jane e o que deveria estar acontecendo lá fora. Ela era a única pessoa que ainda me importava, a única pessoa que surgia em minhas memórias sem permissão alguma.

“Jane...”

Demoramos muito tempo, não é Jane? Para finalmente esclarecer que o que sentíamos não era uma simples amizade. Claro que entendi primeiro, afinal, não sou tão cabeça dura quanto você, mas saber que te amava me deixou tão feliz, tão eufórica e ao mesmo tempo tão assustada aponto de sofrer pelos cantos com medo e exatamente por isto, demorei para dizer o que sentia, demorou para acontecer algo entre nós. Agora, sinto tanto a sua falta Jane, sinto falta da sua companhia dos seus abraços, dos seus beijos, sinto falta da sua voz rouca e do seu cabelo desalinhado, sinto falta até do seu sarcasmo exagerado.

Estiquei um dos braços e apanhei a lanterna mais uma vez, a luz se espalhou me fazendo estreitar os olhos incomodada.

Jane... Esperamos por tanto tempo, não é justo não viver isto agora!

Observo o objeto cilíndrico de metal e mordo o lábio inferior com a ideia que me surge. Reúno as forças que me sobraram rasgando a lateral do meu vestido até a cintura deixando minhas pernas mais livres. Concentro-me na lanterna novamente , deslizo o dedo sobre o botão, ligo e desligo, ligo e desligo, ligo e desligo. E ao fazer isto ouço um Tac, cada vez mais alto.

Não é justo Jane, eu quero viver esse sentimento com você!

Respirei fundo e abri o compartimento das pilhas e tudo ficou escuro novamente.

XXX

Parece que a comida está a caminho.

Ouço passos do outro lado, passos do meu sequestrador silencioso e meu coração dá um salto, fazendo-me pressionar cada vez com mais força o pequeno filete de metal da polaridade da lanterna. Eu me enchia de forças pela vontade de sair dali de pode encontrar a Jane novamente, mas acima de tudo, eu me recusava a permanecer presa feito um animal!

Não pretendia desistir, seguiria com o plano até o fim e a única coisa que me faltava naquele momento era ter uma chance, por mais breve que seja. Inspirei o ar necessário algo que fizesse com que a ansiedade que aflorava não interferisse nas minhas ações.

Agora os passos estavam próximos o suficiente, e sem demorar mais bati no teto da caixa.

“Hey... N-Não estou... m-muito bem.” Minha voz estava pesada e fraca como um paciente em estado grave. No entanto, o homem do outro lado não respondeu se limitando apenas a caminhar de um lado para o outro.

“Esta... difícil... Por favor...” Continuei a falar ao mesmo tempo em que batia de maneira insistente na madeira. “O ar... P-Por favor.”

Por fim, me calei tapando minha boca com as mãos esperando que aquilo tenha sido o suficiente.

Depois de alguns minutos, o homem para de andar em círculos.

“Doutora?” Ele me chama, e eu permaneço calada, imóvel, apenas esperando. Ele volta a me chamar e ainda continuo em silêncio.

Sei que ele se afasta, sons de ferramentas sendo reviradas ecoam do outro lado, talvez esteja procurando algo que pudesse usar para checar se ainda estou viva. De repente um barulho no teto da caixa me mantem ainda mais alerta.

É agora!

Pressiono firmemente o metal escondido em minha mão.

“Finalmente, doutora.” O homem diz, enquanto forçava a ferramenta contra a tampa da caixa fazendo um som claro de madeira se quebrando, abrindo o caminho para a luz da qual eu não estava mais acostumada me fazendo encolher.

Ele aproximou o rosto para checar se eu estava viva, foi quando a coragem e a força, que eu achei terem me abandonado, voltaram a circular em meu sangue; uma presa acuada reage ao seu predador com fúria para continuar vivendo e ali, eu era a presa enfurecida.

Virei-me rapidamente e desferi o golpe certeiro contra seu rosto. Senti que perfurava a sua carne da mesma forma que senti inúmeras vezes a pressão do corte do bisturi nos corpos em meu necrotério.

O homem gritou levando as mãos ao rosto antes de cair ao chão se debatendo.

Eu tinha segundos para me levantar por completo sair da caixa e correr até a saída mais próxima, e isto era bem difícil, já que fazia algum tempo que eu não colocava os pés no chão. Logo, cambaleei para subir os degraus da escada posta pelo homem silencioso dentro da caixa e quando finalmente sai, cheguei a cair de joelhos no chão de concreto enquanto a luz daquela câmara machucava os meus olhos. Não havia tempo para aquilo e imediatamente impulsionei toda a força em minhas pernas para ficar de pé como um cervo recém-nascido desesperado para se levantar e continuar vivendo.

A adrenalina fluía como um jato por todo o meu corpo fazendo com que meu coração martelasse contra meu peito deixando minha respiração bem pesada. Dei alguns passos cambaleando e novamente meus joelhos e mãos tocam o chão.

Levanta Maura!

Coloco todas as forças nos braços e me ergui novamente. Com um olhar rápido registrei dezenas de detalhes ao mesmo tempo, as paredes, o chão, caixas de papelão, o armário cheio de medicamentos, o corredor... Tomei a decisão sem ter a consciência disto; apenas corri, mesmo com todas as dificuldades, em direção ao corredor estreito, para longe daquele homem que gritava logo atrás de mim.

O medo não me fez congelar; pelo contrário, aguçou meus sentidos me deixando mais ágil dentro daquele corredor subterrâneo. Estava quase no fim, a ponto de ver a luz da câmera à frente, a luz que indicava a saída do meu cativeiro. E de repente ouvi aquele som surdo, do qual eu conhecia muito bem, me impulsionando para frente. Minha respiração, antes acelerada, parecia não existir mais; levei uma das mãos ao abdômen e senti o líquido quente banhando os meus dedos, esperei a dor, mas não, não senti nada além do instinto de continuar a correr.

Você está quase lá!

Movimentei a cabeça afastando a turbidez dos meus olhos me forçando a continuar avançando, e assim, continuei correndo. Não corri em zigue-zague, já que em um campo aberto essa é a melhor maneira de fugir de alguém armado; eu apenas corri sem pensar como faze-lo, não ia me render agora, ainda mais quando estava tão perto de sentir o vento no rosto novamente. No entanto, por mais que minha vontade fosse imensa, minhas pernas enfraqueceram novamente me fazendo encostar o ombro à parede de concreto.

Levei a mão onde provavelmente fui atingida e neste momento sinto o gosto de ferro em minha garganta, o componente principal da hemoglobina que escorria como um filete pelo canto da minha boca. Apertei minha mandíbula porque eu sabia muito bem o que aquilo significava.

Merda! Onde foi parar? Estômago, pâncreas...

Tentei me reerguer para correr de novo, usar a adrenalina que fluía pelo meu corpo a meu favor, continuar para longe dele. Ergui o dorso me esforçando ao máximo e exatamente neste momento ouço novamente o mesmo som surdo juntamente com gritos ecoando pelo corredor.

Eu não sei ao certo quantas vezes ouvi o mesmo som ou quem gritava, talvez meu cérebro só estivesse revivendo o momento em que fui atingida pela primeira vez, mas aquela confusão de sons não durou muito de repente tudo se tornou em silêncio. Ergui os olhos e vi a silhueta de uma mulher que se aproximava. O cheiro que emanava dela era tão familiar quanto à visão daqueles cabelos negros.

“Jane...” Murmurei dobrando os lábios em um sorriso vitorioso antes de me deixar cair sobre seus braços.

“Hey Babe, te peguei. Esta segura agora.” Jane sorriu, um sorriso caloroso e ao mesmo tempo preocupado ao ver o ferimento no meu abdômen, ouço quando ela grita algo no rádio policial antes de colocar suas mãos sobre mim, pressionando a ferida na tentativa de impedir que mais sangue esvaísse.

“Preciso de cirurgia.” Murmurei. “Acho que o baço... recebeu todo o impacto da bala.”

“Veja só, está supondo coisas agora Dra. Isles?” Jane sorriu inquieta antes de seu rosto se fechar por completo. “O resgate esta vindo, aguenta só mais um pouco, ok?” Sinto que ela pressiona ainda com mais força o ferimento antes de erguer o queixo e olhar em todas as direções como se procurasse por algo.

“Ele esta morto?” Questiono.

“Não sei.”

Estreito os olhos sentindo pela primeira vez a ardência e a dor se espalhando pelo meu corpo como uma chama pronta para me consumir.

“Jane... Escuta.” A chamo com a voz tão fraca que nem reconheço como sendo a minha. “Fui atingida no abdômen do lado esquerdo e estou perdendo sangue muito rápido. Ali atrás vi um armário enorme com medicamentos, algumas agulhas... procure por... noroepinefrina, noroadrenalina...”

“Não posso te deixar sozinha Maura, pode ter mais alguém aqui.” Ela diz com um crescente desespero na voz.

“Só tinha ele aqui.” Murmuro. “Por favor Jane...”

Ela contorce os lábios, claramente relutando em me deixar, e eu sabia que ela tinha razão a qualquer momento o próprio Doug poderia voltar e aquele pensamento me aterrorizava tanto quanto o meu sangue fluindo pelo furo na minha barriga.

“Tudo bem olha para mim...” Ela diz me obrigando a encarar os seus olhos escuros. “Não importa como esteja difícil apenas continua acordada, ok? Fale-me sobre as tartarugas marinhas.”

Tartarugas marinhas comuns?” Suspirei enquanto Jane me colocava gentilmente encostada na parede. “É a única espécie do gênero Caretta, você pode chama-la de tartaruga amarela se preferir... o casco delas é amarelado.

Jane saiu em disparada pelo corredor adentro ouço quando ela derruba caixas de papelão que estavam no caminho. Ergo o queixo vendo a luz branca do teto e respiro totalmente exausta.

“O-Os filhotes.” Continuo. “Ao eclodirem do ovo se guiam pela luz da Lua para... chegarem ao mar.”

“Pronto Maura.” Ouço a voz de Jane novamente me fazendo encara-la. Entrego-lhe um dos meus braços indicando onde ela deve fincar a agulha. Jane não vacila e logo sinto a droga entrar em minha veia e se espalhar de forma sistêmica. Imediatamente libero um sorriso fraco fechando os olhos dando boas vindas a ela.

“Isso deve nós dar tempo.” Ela retira o casaco do seu terno cinturado o embrulhando sobre a minha ferida.

“C-Como... me achou?” Questionei sentindo os olhos pesados.

“Eu senti você.” Ela diz enquanto envolvia meu corpo tremulo com os braços. “Vai ficar tudo bem, agora vou cuidar de você.”

“Oh... Também senti você.” Sussurrei antes de deitar minha cabeça na curva de seu pescoço me rendando completamente ao cansaço.

XXX

Quando despertei não encarei o escuro, nem o medo, nem o calor infernal de uma caixa de madeira, apenas encarei as luzes do teto de um quarto de hospital repleto de embrulhos de presentes e um vaso singelo de flores. Havia até um balão vermelho coberto de assinaturas e escrito em letras garrafais brancas ‘Bem vinda de volta Dra. Isles.’ flutuando a minha frente; certamente as crianças na pediatria ficariam com bastante inveja daquilo.

Eu ainda estava fora de mim, anestesiada demais para entender como cheguei naquele quarto e mesmo na minha confusão mental, eu sentia algo envolver a minha mão esquerda, algo cálido e confortante como um toque materno em seu bebê, então desviei o olhar para aquela direção me deparando com o rosto de Jane sorrindo docilmente.

“Oi.” Ela disse.

“Oi.” Sussurrei.

E finalmente percebi que aquilo havia terminado.

Notas finais
Quem imaginou que a Maura ia dar uma de MacGyver só para viver o sentimento que ela tem pela Jane? Muito fofis. Acho que estão se perguntando: Cade a Ana? O Doug? E o próximo cap? É, vai ta tudo lá então até a próxima =P