O Elixir

20 Sobre o desfecho de um caso


Notas iniciais
Hey!! voltei oh. Precisei ficar um tempo longe resolvendo umas coisas, mas voltei com mais um (Viu não vou abandonar vocês ^^). Aqui eu concluo o caso, espero que gostem. Boa Leitura =)

Jane

Fazia mais de 48h que eu não pregava os olhos, nem sequer tive tempo para um banho ou uma refeição descente. E agora que estou sozinha em um dos toaletes do departamento começo a sentir os sintomas do cansaço.

Molho o meu rosto com água fria na tentativa de parecer menos exausta, retiro minha camiseta verde e me deparo com a mancha do meu sangue que agora se misturou a outra mancha vermelha, a mancha do sangue da Maura se tornando em algo grande, escuro e bastante nojento. Aquilo me incomoda tanto que arremesso à camiseta para longe tentando afastar a lembrança daquele abrigo nuclear e de como encontrei a Maura ali, fraca, ferida e mesmo assim lutando pela vida; uma luta que se estendeu até o hospital durando horas em uma sala de cirurgia.

E quando ela abriu os olhos... Finalmente consegui respirar aliviada por saber que a Maura ainda estava ali, que venceu algo que muitos teriam desistido mesmo antes de tentar.

Olho para o espelho e me pergunto se eu também teria vencido algo assim, se fosse eu dentro daquela caixa, esquecida e sozinha na escuridão, se eu conseguiria sair de lá ainda com minha sanidade intacta. Seja como for, agora eu tinha a real certeza de que a Maura era uma mulher extraordinária, que eu a admirava, a respeitava, a amava e eu não ia esperar mais para dizer o quanto sou privilegiada por tê-la ao meu lado.

Enxuguei o rosto e sorri. Vesti a camiseta branca reserva que guardada em meu armário ajeitando posteriormente o resto das minhas roupas. No entanto, aquilo ainda não havia terminado, ainda existia alguém que eu adoraria enfiar dentro de uma caixa.

E assim eu faria.

Quando sai do toalete e caminhei em direção à sala de interrogatório vi Athanasiadis a frente com seus cachos castanhos bastante chamativos, a sua pele levemente bronzeada, as mesmas roupas do dia anterior, a camisa vermelha com um decote a vista preenchido com o distintivo pendurado no pescoço, e para acompanhar o kit a la grega da vez, a expressão de cansaço estampada no rosto. Ana estava tão esgotada quanto o resto de nós. Ela parou a alguns metros a minha frente, estreitou os olhos me analisando de cima a baixo o que me deixou bastante constrangida.

Permaneceu assim por alguns segundos, em silêncio me encarando, talvez pensando o porquê eu estava ali. Quando abro os lábios para dizer que ela estava me incomodando com aquilo, ela dobrou os lábios em um breve sorriso estranho e bem enigmático acenando com a cabeça antes de adentrar a sala de interrogatório. Eu deveria estar acostumada com aquelas expressões bizarras dela, mas a verdade era que Ana ainda era uma grande incógnita para mim.

Quando adentrei a sala, Doug estava sentado à frente, acomodado na cadeira com os cotovelos sobre a mesa. Ele ainda mantinha aquela mesma postura elegante de quando o conheci no escritório da Maura. E pensar que um homem bem vestido com seus cabelos cuidadosamente cortados, olhos suaves e charmosos era o responsável pelas piores horas que passei em minha vida.

Como dizem, os bonitos são sempre os piores.

Mantive-me afastada, encostada na parede ao lado da porta com os braços cruzados tentando controlar a fúria que fluía dentro do meu peito. Se Ana não estivesse na sala, Doug já estaria indo para o hospital e com certeza eu seria a guia daquela viagem.

“Dr. Doug Cavaradossi.” Athanasiadis puxou uma cadeira e sentou-se a frente dele. “Posso evitar as apresentações?”

Doug a encarou de forma desentendida, mesmo sabendo o real motivo para ele estar ali não era uma simples blitz na estrada com pontos na habilitação.

“Detetive da divisão de narcóticos Ana Athanasiadis e a detetive Jane Rizzoli da divisão de homicídios, certo? Soube de vocês pelos jornais. Não há como esquecer rostos tão bonitos assim.” Ele desviou o olhar da Ana e o lançou para mim fazendo meu estômago embrulhar.

“Você é bom com rostos e com nomes Dr! Era exatamente essa sua habilidade que nós queríamos.” Athanasiadis apanhou a pasta que trazia retirando uma porção de fotos as enfileirando diante de Doug.

“Reconhece estes rostos aqui?” Ela apontou com o indicador para cada uma das fotos. Doug deitou os olhos sobre elas e ficou em silêncio.

“Deixa eu te dar uma ajudinha.” Athanasiadis continuou. “Susan Smith foi encontrada aos pés da escadaria de sua residência com o pescoço quebrado e uma bala no peito, ela possuía dois filhos, Isa de 9 anos encontrada no andar de cima com 9 perfurações no corpo e o segundo filho, Jason de 13 anos encontrado com o topo da cabeça aberta por causa de uma bala.”

Começo a caminhar em volta da mesa tentando analisar as feições dele, curvatura das sobrancelhas, o foco dos olhos, o leve dobrar de lábios, tudo parecia coincidir com alguém que viu algo e se sentiu chocado com aquilo. Será mesmo que Doug se incomodava olhando as fotos da sua obra de arte?

“Mike Brewer de 14 anos.” Ana continuava a falar. “Responsável pelo tiroteio em seu colégio também morreu com uma bala na cabeça, porém o seu pai, Tomas Brewer, foi encontrado na traseira de um furgão com um corte no pescoço de orelha a orelha e por último, mas não menos importante, Edward Bishop morto a tiros em um abrigo nuclear. Como pode ver Dr; é um número bastante considerável de mortes.”

“Sim. Não é o tipo de coisa que se vê todos os dias.” Ele a encarou novamente, desta vez com o olhar bastante surpreso. “Acham que sou responsável por isto?”

“Não achamos... Temos certezas que é.”

“Bom, espero que tenham como provar isso detetives.” Doug sorriu. “Até onde eu sei o garoto cometeu suicídio enquanto o outro foi abatido juntamente com o tal Edward pela policial ali em pé.”

Ele inclinou a cabeça em minha direção me fazendo parar a sua frente.

“Curioso não acha Doug?” Desta vez foi a minha voz que ecoou pela sala. “A detetive Athanasiadis não lhe disse quem matou o garoto do colégio ou o cara do abrigo, essas informações não vazaram na imprensa então... Como exatamente você sabe quem disparou?”

“Sei que jogo quer que eu entre detetive, mas não há como provar que tenho algo com estas mortes tão... drásticas.”

Aquele cara era um sociopata nato de ego inflado, não era nem preciso todas aquelas avaliações da Maura para ver isto.

“Ainda não terminei com a sessão de rostos Dr. Cavaradossi.” Ana apanhou outras fotos e as deixou a frente dele. Doug movimentou levemente as sobrancelhas tentando simular emoções de desconforto, o que claramente ele não sentia.

“Este é o Dr. Don Muller, ele foi asfixiado enquanto sua esposa Sara, foi encontrada boiando em sua piscina, ambos assassinados pelo filho adolescente, Matt. Isto aconteceu no verão passado no estado da Califórnia. O que nós não sabíamos até então, era que Don pesquisava o composto 19-Nandrolona, o principal princípio ativo do Trebolona, juntamente com o seu parceiro. Um belo dia, os resultados dos testes ficaram bem ruins levando 4 adolescentes para o hospital, Don concluiu que o composto era perigoso demais para humanos e decidiu interromper as pesquisas.”

Athanasiadis fez uma pausa talvez esperando que ele dissesse algo, mas tudo o que ele fez foi cruzar os braços contra o corpo.

“Mas o parceiro de Don não queria interromper a pesquisa só porque alguns adolescentes recrutados para os testes tiveram efeitos colaterais graves, não é mesmo?” Ana questionou com um belo tom sarcástico em sua voz. “Don jogou milhões em investimentos fora, só porque perdeu algumas cobaias, ora perder cobaias faz parte de qualquer experimento científico, não parecia ser justo perder dinheiro por algo tão trivial assim.”

“Ele precisava pagar não é?” Falei antes de puxar uma cadeira e me sentar a sua frente. “Foi ai que você administrou o 19-Nandrolona no filho dele levando o garoto a um surto psicótico assassinando sua família. Não havia outro suspeito para aquele massacre familiar, assim o caso foi tratado como uma fatalidade. Você viaja pelo país tranquilamente, se fixa em Boston e leva uma vida normal até começa outra linha de pesquisa onde Susan e Tomas trabalhavam... Só que eles descobriram sobre o caso na Califórnia, eles sabiam quem era o verdadeiro responsável pelas mortes. E você não podia deixar que as coisas voltasse para o começo, para a estaca zero, então resolveu usar a mesma tática, fazer com que os filhos assassinassem os pais através de uma superdose de anabolizante.”

“Detetives.” Doug riu ironicamente. “Acho que estão perdendo o tempo na polícia, deviam seguir carreira no cinema já que esta história iria render um bom filme. Mas sem nenhuma prova de tudo isto, vocês não podem me manter aqui, então se não houver mais nada gostaria de ir embora.”

“Parecia um plano perfeito, um assassinato familiar sem envolvimento de terceiros.” Falei chamando a atenção dele para mim outra vez. “Mas você não esperava que o Mike não seguisse o plano, ao invés de atirar contra Brewer, ele atirou contra os colegas da turma e seu pai saiu ileso disto tudo. Então você precisava agir para... Como você disse a Dra. Isles? Ah sim, limpar a sujeira.”

“A Maura?” Ele sorriu ainda fingindo estar incomodado. “Faz muito tempo que não converso com a Maura detetives, claramente vocês estão cometendo um grande erro aqui.”

“É você quem cometeu erros Doug e um deles foi sequestrar a legista chefe a aprisionando em uma caixa de madeira.”

“Por que eu prenderia a Maura em uma caixa?” Falou ofendido.

“Para desviar nossa atenção. Você sabia que iriamos parar as investigações para procurar a Dra. Isles o que daria tempo de sobra para assassinar Tomas Brewer, a última pessoa viva que sabia do seu segredinho.”

“Está acreditando em uma vítima de sequestro que nem ao menos viu o meu rosto porque estava em uma caixa, qual júri no mundo ira me condenar com provas tão superficiais? Vamos detetives, me digam o que podem fazer para me condenar por estes crimes?”

O pouco de paciência que eu tinha estava sumindo com aquele jogo de simulação, logo me impulsionei para frente batendo as mãos sobre a mesa.

“Vou dizer o que vamos fazer.” Minha voz soou forte e clara o bastante para assustar até a mim mesma. “No mínimo você vai para a prisão por sequestro e cárcere privado, e se encontrarmos um fragmento de DNA seu na Maura vou fazer questão de arrancar seus testículos e faze-lo comer.”

“Então sugiro procurar com cuidado Rizzoli, porque me parece que o único DNA em encontraram na Maura é o seu.”

“Tem tanta certeza que não temos provas o suficientes para te condenar?” Athanasiadis começou a falar na tentativa de quebrar a tensão que se formou. “Não é presunção demais até para um médico?”

Ana começa a bater os dedos sobre a mesa de ferro fazendo um som claro e irritante. Doug a encarou antes de dar um longo suspiro entediado, foi quando ele percebeu que os dedos de Ana não batiam sobre a mesa nua, e sim sobre uma pasta.

“Temos todas as anotações do Dr. Don Muller, além do depoimento do próprio filho dele e o resultado do teste toxicológico comprovando o 19-Nandorlona, além de impressões digitais em um frasco de comprimidos que foi apreendido pela polícia da Califórnia. E o mais interessante é que são as mesmas impressões que encontrei em outros frascos na residência de Susan e Tomas e por todo o abrigo nuclear onde você mantinha a Dra. Isles em cativeiro.”

“Os policiais da Califórnia entraram em contato conosco passando todas as informações sobre o seu caso, nós apenas complementamos as evidências. Não é interessante quando as policias estaduais cooperam entre si?”

Falei com um enorme sorriso estampado no rosto.

Os olhos de Doug alternavam entre mim e Ana, um olhar silencioso e vazio assim como as linhas em seu rosto perfeito, agora que sua máscara havia caído, não havia mais o porquê esboçar emoções. Ele se considerava tão esperto que nem ao menos se deu conta dos próprios erros e mesmo com tudo desmoronando a sua volta, ele parecia não se importar, simplesmente dava de ombros como se não fosse nada demais.

Tenho que admitir, aquele sujeito foi um dos piores que já enfrentei.

“E como vai ser?” Ele falou com desdém.

“Vou te dizer.” O encarando seriamente. “Você vai voltar para a Califórnia, a terra onde é verão o ano inteiro, pena que você não verá uma única fresta de luz do Sol, porque a cela é totalmente escura e apertada; ficara sozinho por grande parte do tempo e quando sentir que a loucura está consumindo o seu cérebro, a sua sentença será lida no tribunal. E você sabe que o estado da Califórnia tem pena de morte, certo? E vou fazer o possível para estar lá para ver a luz indo embora desses seus olhos sociopatas.”

Doug abriu um sorriso largo e asqueroso, talvez o sorriso mais verdadeiro até então.

“Rizzoli e Athanasiadis... Vocês são exatamente tudo aquilo que ouvi! Tenho certezas que ficaram enfurecidas, horrorizadas, com medo, tudo ao mesmo tempo durante todos esses dias e mesmo assim fizeram o impossível para continuar seguindo o protocolo policial.”

Ele aproximou o seu tronco ainda mais da mesa tentando de alguma maneira, parecer ameaçador.

“Não seria bem mais divertido se apenas deixarem suas emoções falarem por si e atirarem em mim aqui mesmo?” Sussurrou.

Ana levantou-se, foi até a porta e chamou alguns oficiais da polícia da Califórnia que rapidamente entraram na sala algemando as mãos largas que Doug possuía, ele não resistiu, apenas manteve aquele sorriso como se aquilo tudo fosse a última peça do seu jogo doentio.

“Jane...” Ouvi a sua voz grave perto da porta me fazendo virar até ele. “Diga a Maura que vou sentir saudades.”

Estreitei os olhos não acreditando naquilo em que ouvia. De repente o sangue nas minhas veias ficou quente, tão quente que me fez respirar pausadamente. Como aquele desgraçado tinha coragem de mencionar o nome da Maura deste modo? Parti em sua direção sem nem ao menos saber o que estava prestes a fazer, eu apenas queria fazer algo para arrancar aquele sorriso nojento do seu rosto.

Foi então que senti algo segurando o meu pulso, firme o bastante para desviar minha atenção do Doug. Ana me encarava da mesma maneira estranha que sempre fazia, o olhar de reprovação forte e certeiro me fazendo recuar antes de entrar em um caminho sem volta.

Depois que ele deixou a sala, finalmente soltei o ar preso em meus pulmões.

Athanasiadis soltou meu pulso e agora vejo as marcas de seus dedos na minha pele.

“Obrigada.” Falei esfregando o pulso. “Mas não precisava deixar meu pulso roxo.”

“Acabou Jane.” Ela disse soltando um longo suspiro. “Não quero ter que explicar o porquê você bateu em um cara desarmado e rendido. Eu só quero ir para casa, tomar um longo banho, lavar meu cabelo, tomar um bom vinho e me masturbar antes cair no sono.”

“Mas o que..? É esse tipo de informação que eu não gostaria de saber. Você sabe que estão nos ouvindo do outro lado daquele vidro, certo? Korsak, Frankie... e mais alguns homens da Califórnia.”

A imagem de Frankie tendo um ataque cardíaco com esta declaração da Ana surgiu em minha cabeça, já que ele andava a seguindo igual um cachorro esperando a atenção carinhosa do seu dono.

Pobre irmãozinho.

No entanto, Ana lançou um olhar rápido para o vidro espelhado e balançou os ombros, aquilo não a afetava, o que ela dizia simplesmente não a afetava nunca. Ana era a definição da sinceridade, e por mais estranho que tenha sido eu me acostumei com esse jeito dela.

“Obrigada, obrigada por tudo." Falei. "Você é uma ótima policial Ana; será sempre bem vinda na homicídios... ou se você quiser uma amiga para conversar...”

Ela olhou para mim e sorriu com a pasta outra vez nas mãos.

“Você também é uma ótima policial Rizzoli, merece a fama que construiu. Mas é bastante cansativo trabalhar com você então vou ficar na narcóticos durante um bom tempo, mas estou aberta a convites para beber assim que a Dra. Isles deixar o hospital.”

“Ok! Vou colocar seu nome na lista de convidados para a bebedeira.”

“Por falar em beber.” Ela falou franzindo o cenho. “Você não me disse do que era feito o elixir.”

“Ah, era apenas uma tequila mexicana comum.” Digo.

“Tequila?”

“Exato! Tequila.”

“Mas isso não faz sentindo algum.” Ela inclinou a cabeça levemente para o lado.

“Acredite. Nada nessa vida faz sentido.” Sorri.

Notas finais
O Frankie realmente teve um ataque cardíaco, um leve pelo menos =) No próximo terá Rizzisles sim. Até lá ^^