O Décimo andar
26 O Confronto de Titãs
O Copacabana Palace brilhava sob as luzes da orla, mas o verdadeiro espetáculo estava dentro do Salão Nobre. O Congresso Nacional de Direito Penal havia reunido a elite jurídica do país. O mármore polido, os lustres de cristal e o som dos brindes de champanhe criavam uma atmosfera de poder e intelecto.
Eloah chegou por último, propositalmente.
Ela não usava mais as roupas discretas de São Paulo. Eloah vestia um macacão de alfaiataria em seda branca, com um decote em "V" profundo e as costas nuas, exalando a sofisticação solar do Rio. O cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto e impecável, e em seu pescoço, apenas um colar de diamantes que ela mesma comprara.
Ao entrar no coquetel, o burburinho diminuiu.
— "Aquela é a Cavalcante?" — sussurrou um desembargador.
— "A própria. Dizem que o Ministério Público não move uma palha sem consultá-la," — respondeu outro.
Beatriz se aproximou, entregando-lhe uma taça de espumante.
— "Você está uma deusa. Metade dos advogados de São Paulo está tentando descobrir quem é a 'mulher de branco' que tomou o mercado carioca."
— "Que continuem curiosos, Bia," — Eloah sorriu, mas seus olhos varreram o salão.
No centro do círculo principal, cercado por juízes e políticos, ele estava lá. Arthur Meirelles. Os cabelos agora estavam mais grisalhos nas têmporas, o que lhe conferia um ar ainda mais imponente. Ele segurava um copo de whisky, ouvindo um colega, até que, como se sentisse uma mudança na pressão do ar, ele virou o rosto.
O impacto foi quase físico. O tempo parou no meio do Salão Nobre. Arthur congelou, a taça paralisada a caminho dos lábios. Ele não via a "menina" do nono andar; ele via uma força da natureza que ele mesmo ajudara a moldar, mas que agora era completamente independente dele.
O Diálogo no Coquetel
Após a palestra de abertura — onde Eloah foi aplaudida de pé por sua tese sobre crimes cibernéticos — o coquetel seguiu para o terraço, de frente para o mar. Eloah estava sozinha, sentindo a brisa, quando ouviu o som de sapatos caros sobre o piso de pedra.
— "O Rio de Janeiro realmente te fez bem, Dra. Cavalcante," — a voz de Arthur ecoou, mais grave do que ela se lembrava, carregada de uma melancolia contida.
Eloah não se virou de imediato. Ela tomou um gole de sua bebida, sentindo o sal do mar nos lábios.
— "O Rio não me fez bem, Arthur. Ele apenas me deu o espaço que São Paulo, e certas pessoas, tentaram me tirar."
Ela se virou lentamente. Arthur estava a dois passos dela. A proximidade trouxe memórias de elevadores travados e beijos proibidos, mas o olhar de Eloah era inquebrável.
— "Sua palestra foi magnífica," — ele admitiu, ignorando a alfinetada. — "Sua interpretação sobre a retroatividade penal foi... audaciosa."
— "Audácia é a minha especialidade agora. Você deveria saber, foi quem me ensinou que o risco faz parte do contrato," — ela retrucou, com um sorriso gelado.
Arthur deu um passo à frente, baixando o tom de voz para que os outros convidados não ouvissem.
— "Eu acompanhei cada caso seu de longe, Eloah. Cada vitória. Eu sabia que você chegaria aqui."
— "Acompanhou de longe porque foi o que você escolheu. Você decidiu que eu não podia ser grande ao seu lado, então eu decidi ser gigante sem você."
— "Eu fiz o que achei que era certo para a sua carreira!" — Arthur sussurrou com urgência, a máscara de frieza começando a rachar.
— "Não, Arthur. Você fez o que era fácil para o seu ego. Você teve medo de que, em dez anos, eu te olhasse com ressentimento. Pois olhe para mim agora, cinco anos depois. Eu não sinto ressentimento. Eu sinto vitória. E a única pessoa que perdeu algo naquela noite de chuva em São Paulo... foi você."
Arthur ficou sem palavras, o copo de whisky esquecido na mão. Eloah se aproximou dele, apenas o suficiente para que ele sentisse o perfume de jasmim dela, o mesmo de anos atrás, mas agora misturado com o cheiro de sucesso.
— "Aproveite o congresso, Dr. Meirelles. Mas lembre-se: neste estado, o tribunal é meu. Se precisar de alguma orientação sobre como o Direito funciona no mundo real, minha secretária pode agendar um horário para você."
Ela tocou o ombro dele levemente, um gesto de condescendência que doeu mais que um tapa, e caminhou de volta para o salão, deixando-o sozinho sob o luar de Copacabana.
Arthur olhou para o mar escuro, sentindo o peso da coroa que ele mesmo havia colocado na cabeça dela. Ele a queria livre, e agora ela era tão livre que ele não tinha mais lugar no mundo dela. O caçador havia se tornado a presa, e o tribunal da vida tinha, finalmente, dado o veredito: o erro dele tinha sido o maior acerto dela.
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