O Décimo andar
27 Audiência
O sol da manhã no Rio de Janeiro entrava pelas janelas do Tribunal de Justiça, mas o clima dentro da sala de audiências era gélido. Eloah estava em seu elemento. De um lado, uma jovem mãe, trêmula, com marcas que a maquiagem não conseguia esconder totalmente. Do outro, um empresário influente, cercado por advogados caros, mantendo um sorriso cínico no rosto.
No fundo da plateia, sentado discretamente, Arthur Meirelles observava. Ele tinha cancelado seus compromissos no congresso apenas para vê-la em ação. Ele queria ver se a "Dra. Cavalcante" era tão implacável quanto a mulher que o enfrentara na noite anterior.
O Embate
Eloah caminhou até o centro, parando a poucos centímetros do réu durante o interrogatório. Ela não tinha papéis nas mãos; tinha apenas o desprezo absoluto no olhar.
— "O senhor se descreve como um 'homem de família', não é?" — Eloah começou, a voz calma, mas carregada de veneno. — "Um pilar da sociedade. Mas diga-me, em qual código de ética o senhor aprendeu que socos são argumentos e que o silêncio de uma mulher é o seu troféu?"
— "Foi uma discussão que saiu do controle, Dra. — o homem respondeu, tentando manter a voz firme. — Ela sabe ser muito provocativa."
Eloah soltou uma risada curta, que ecoou como um chicote.
— "Provocativa? Uma mulher de 50 quilos provocou um homem que frequenta a academia cinco vezes por semana a ponto de ele precisar quebrar as costelas dela? O senhor não é um homem 'provocado', o senhor é um covarde que usa a força física para compensar a mediocridade do seu caráter."
— "Olha como fala comigo!" — o réu explodiu, levantando-se.
Eloah nem sequer piscou. Ela deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dele.
— "Sente-se. O senhor não está na sua sala de jantar aterrorizando sua esposa agora. Aqui, o senhor é apenas um réu prestes a ser descartado pela sociedade que finge integrar. O senhor olha para este tribunal e vê leis, mas eu olho para o senhor e vejo um parasita que se alimenta do medo alheio. O seu dinheiro comprou esse terno, mas não consegue esconder o cheiro de medo que o senhor está exalando agora que percebeu que não tem controle sobre mim."
Arthur, no fundo da sala, sentiu um calafrio. Ele conhecia aquela força. Era a mesma menina que ele tentou "proteger", agora destruindo um monstro com a precisão de um cirurgião.
O Recesso
O juiz bateu o martelo para um recesso de 20 minutos. Eloah saiu da sala sem olhar para ninguém. No corredor deserto, ela sentiu a presença de Arthur antes de ouvi-lo.
— "Você foi impiedosa," — ele disse, aproximando-se. — "Eu nunca vi alguém desmantelar um réu dessa forma. Você o reduziu a nada antes mesmo da sentença."
Eloah parou e o encarou. Havia fogo em seus olhos.
— "Pessoas como ele não merecem piedade, Arthur. Elas merecem o espelho. Eu apenas segurei o espelho para ele se ver."
— "Eu tive medo por ele por um segundo," — Arthur confessou, com um meio sorriso triste. — "Você é... magnífica, Eloah."
— "Guarde seus elogios para as suas palestras, Dr. Meirelles. O meu trabalho ainda não terminou."
O Veredito
Ao retornarem, o silêncio era absoluto. O réu já não sorria; ele estava pálido, evitando o olhar de Eloah. O juiz limpou a garganta.
— "Este tribunal não pode ignorar a brutalidade dos fatos e a tentativa de manipulação da verdade. Diante da gravidade das lesões e do histórico de opressão, julgo o réu culpado. Fixo a pena em 10 anos de reclusão em regime fechado, sem direito a recorrer em liberdade."
O som das algemas sendo fechadas no pulso do homem foi o único barulho na sala. Eloah fechou sua pasta com um estalo seco. Ela se virou e viu Arthur de pé, aplaudindo-a silenciosamente com o olhar.
Ela passou por ele no corredor, apenas sussurrando enquanto caminhava para a saída:
— "Dez anos de silêncio para ele. E uma vida de liberdade para ela. É assim que eu trabalho no Rio."
Arthur ficou parado, vendo-a desaparecer na luz forte da calçada de Copacabana. Ele percebeu que a "menina" não existia mais. Eloah era agora a justiça em pessoa, e ele era apenas um espectador de um espetáculo que ele mesmo, por medo, escolheu não protagonizar.
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