O sol da manhã no Rio de Janeiro entrava pelas janelas do Tribunal de Justiça, mas o clima dentro da sala de audiências era gélido. Eloah estava em seu elemento. De um lado, uma jovem mãe, trêmula, com marcas que a maquiagem não conseguia esconder totalmente. Do outro, um empresário influente, cercado por advogados caros, mantendo um sorriso cínico no rosto.

​No fundo da plateia, sentado discretamente, Arthur Meirelles observava. Ele tinha cancelado seus compromissos no congresso apenas para vê-la em ação. Ele queria ver se a "Dra. Cavalcante" era tão implacável quanto a mulher que o enfrentara na noite anterior.

​O Embate

​Eloah caminhou até o centro, parando a poucos centímetros do réu durante o interrogatório. Ela não tinha papéis nas mãos; tinha apenas o desprezo absoluto no olhar.

​— "O senhor se descreve como um 'homem de família', não é?" — Eloah começou, a voz calma, mas carregada de veneno. — "Um pilar da sociedade. Mas diga-me, em qual código de ética o senhor aprendeu que socos são argumentos e que o silêncio de uma mulher é o seu troféu?"

​— "Foi uma discussão que saiu do controle, Dra. — o homem respondeu, tentando manter a voz firme. — Ela sabe ser muito provocativa."

​Eloah soltou uma risada curta, que ecoou como um chicote.

​— "Provocativa? Uma mulher de 50 quilos provocou um homem que frequenta a academia cinco vezes por semana a ponto de ele precisar quebrar as costelas dela? O senhor não é um homem 'provocado', o senhor é um covarde que usa a força física para compensar a mediocridade do seu caráter."

​— "Olha como fala comigo!" — o réu explodiu, levantando-se.

​Eloah nem sequer piscou. Ela deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dele.

​— "Sente-se. O senhor não está na sua sala de jantar aterrorizando sua esposa agora. Aqui, o senhor é apenas um réu prestes a ser descartado pela sociedade que finge integrar. O senhor olha para este tribunal e vê leis, mas eu olho para o senhor e vejo um parasita que se alimenta do medo alheio. O seu dinheiro comprou esse terno, mas não consegue esconder o cheiro de medo que o senhor está exalando agora que percebeu que não tem controle sobre mim."

​Arthur, no fundo da sala, sentiu um calafrio. Ele conhecia aquela força. Era a mesma menina que ele tentou "proteger", agora destruindo um monstro com a precisão de um cirurgião.

​O Recesso

​O juiz bateu o martelo para um recesso de 20 minutos. Eloah saiu da sala sem olhar para ninguém. No corredor deserto, ela sentiu a presença de Arthur antes de ouvi-lo.

​— "Você foi impiedosa," — ele disse, aproximando-se. — "Eu nunca vi alguém desmantelar um réu dessa forma. Você o reduziu a nada antes mesmo da sentença."

​Eloah parou e o encarou. Havia fogo em seus olhos.

— "Pessoas como ele não merecem piedade, Arthur. Elas merecem o espelho. Eu apenas segurei o espelho para ele se ver."

​— "Eu tive medo por ele por um segundo," — Arthur confessou, com um meio sorriso triste. — "Você é... magnífica, Eloah."

​— "Guarde seus elogios para as suas palestras, Dr. Meirelles. O meu trabalho ainda não terminou."

​O Veredito

​Ao retornarem, o silêncio era absoluto. O réu já não sorria; ele estava pálido, evitando o olhar de Eloah. O juiz limpou a garganta.

​— "Este tribunal não pode ignorar a brutalidade dos fatos e a tentativa de manipulação da verdade. Diante da gravidade das lesões e do histórico de opressão, julgo o réu culpado. Fixo a pena em 10 anos de reclusão em regime fechado, sem direito a recorrer em liberdade."

​O som das algemas sendo fechadas no pulso do homem foi o único barulho na sala. Eloah fechou sua pasta com um estalo seco. Ela se virou e viu Arthur de pé, aplaudindo-a silenciosamente com o olhar.

​Ela passou por ele no corredor, apenas sussurrando enquanto caminhava para a saída:

— "Dez anos de silêncio para ele. E uma vida de liberdade para ela. É assim que eu trabalho no Rio."

​Arthur ficou parado, vendo-a desaparecer na luz forte da calçada de Copacabana. Ele percebeu que a "menina" não existia mais. Eloah era agora a justiça em pessoa, e ele era apenas um espectador de um espetáculo que ele mesmo, por medo, escolheu não protagonizar.