O Décimo andar

28 Marés e Reencontros


O convite para o cruzeiro de gala da Associação de Advogados veio de Ricardo, um velho amigo de ambos que agora atuava como desembargador. Ele, maliciosamente, omitiu a lista de convidados para garantir que seus dois "pupilos" favoritos estivessem presentes.

​O navio era uma joia flutuante, cortando as águas escuras do Atlântico sob um céu estrelado.


​Eloah terminou de se arrumar em sua suíte privativa. O vestido vermelho de seda era leve, terminando no meio das coxas e contrastando com a brancura de sua pele. Ela aplicou o perfume de jasmim — sua marca registrada — e deixou que os cabelos loiros caíssem em uma cascata natural sobre os ombros. Ela não parecia a advogada implacável do tribunal; parecia a mulher que sempre fora no fundo: apaixonada e livre.

​Sentindo necessidade de ar puro antes do coquetel de boas-vindas, ela caminhou até a proa do navio. O som do casco cortando a água e a brisa úmida eram o cenário perfeito para seus pensamentos.

​— O oceano sempre faz a gente se sentir pequeno, não é? — A voz surgiu à sua direita, calma, mas com aquele timbre que ainda fazia as mãos de Eloah tremerem levemente.

​Ela não se assustou. De alguma forma, a alma dela já esperava por ele. Arthur estava encostado na amurada, vestindo apenas uma calça de sarja azul-marinho e uma camisa branca com os primeiros botões abertos. Ele não usava terno, nem relógio caro. Parecia apenas um homem.

​— Faz a gente perceber que alguns problemas são gotas em um balde — Eloah respondeu, aproximando-se e apoiando os cotovelos no metal frio, olhando para o horizonte escuro. — O que faz aqui, Arthur?

​— O mesmo que você, eu imagino. Fui "gentilmente coagido" pelo Ricardo a tirar férias — ele deu um sorriso de lado, olhando para ela. — Você está linda, Eloah. Esse vermelho... ele sempre foi a sua cor.

​— Você lembra? — ela perguntou, com um tom de voz suave, sem a agressividade dos tribunais.

​— Eu lembro de cada cor que você usou. Lembro de cada perfume. O jasmim ainda me persegue em São Paulo — ele admitiu, suspirando. — Como estão as coisas no Rio? De verdade.

​— Estão ótimas. Eu construí algo meu, Arthur. Algo que ninguém pode dizer que me deu ou que facilitou para mim. Eu sou feliz lá.

​Arthur assentiu silenciosamente, o olhar fixo no rastro de espuma branca que o navio deixava para trás.

​— Sabe, eu passei esses cinco anos tentando me convencer de que eu fiz a coisa certa — ele começou, a voz carregada de uma vulnerabilidade que ela raramente vira. — Eu olhava para os seus sucessos e pensava: "Viu? Se ela estivesse comigo, talvez não tivesse essa garra". Mas a verdade é que você sempre teve essa garra. Eu só tive medo da minha própria velhice ao seu lado.

​Eloah virou o rosto para ele. A luz da lua refletia nos olhos dela, tornando-os quase transparentes.

​— A idade nunca foi o problema entre nós, Arthur. O problema foi o seu medo de que eu não te amasse o suficiente para envelhecer com você. Você projetou o seu receio na minha juventude.

​Arthur se aproximou apenas um passo. A brisa levava o perfume dela diretamente para ele.

​— Talvez você tenha razão. Eu vi você no tribunal no Rio, defendendo aquela menina... e eu percebi que eu não perdi uma menina. Eu perdi a mulher da minha vida por pura arrogância de achar que eu sabia o que era melhor para o seu futuro.

​— E agora? O que você vê quando olha para mim aqui, neste navio? — ela perguntou, a voz quase um sussurro.

​— Eu vejo a Dra. Cavalcante, a melhor advogada que já conheci — ele sorriu, tocando levemente a ponta dos dedos na mão dela que estava sobre a amurada. — E vejo a Eloah. Aquela que me desafiava no elevador e que me faz sentir que eu ainda tenho muito o que viver.

​Eloah sentiu o toque dele e não se afastou. A conversa era natural, sem as farpas de meses atrás. Era apenas o reconhecimento de duas almas que, mesmo em mares diferentes, sempre navegavam em direção uma à outra.

​— É um cruzeiro longo, Arthur — ela disse, com um brilho suave nos olhos. — Temos muito mar pela frente.

​— Eu tenho todo o tempo do mundo — ele respondeu, envolvendo a mão dela com a sua. — Se você me permitir navegar ao seu lado, eu prometo que desta vez não vou tentar mudar a rota.

​Sob o céu do Atlântico, o silêncio entre os dois não era mais de ausência, mas de uma nova e doce possibilidade.