— Vamos começar, Drum!

Naquela noite, Luiz dormiu na caverna do dragão. Logo de manhã, acordou, e estava bem-disposto para ser seu treinador.

— Só mais cinco minutos...

— Você ainda tá dormindo? Levanta, seu folgado!

Ao tentar chutá-lo, Luiz bateu o pé na armadura dele.

— Ai! Mas que por...caria! Agora, eu perdi a paciência!

Ainda dormindo, Drum foi arrastado por Luiz até o fim da caverna. Sem ter como fugir, o dragão levantou-se.

— Por que insiste em me treinar? Isso não vai dar certo...

— Eu tenho meus motivos, e, silêncio! Interrupções não serão permitidas. Quanto antes acabarmos o treinamento, mais cedo eu poderei ir embora.

— Ah, é? Então me diga, o que devo fazer primeiro?

— Você vai ver! (sorrindo)

Meia hora depois, o campo de treinamento estava completo. Nele havia vários objetos típicos de uma aula de educação física. Bambolês, cones, etc...

— Onde conseguiu tudo isto?

— Eu só trabalho na história, não explico esses detalhes.

— Você não está pensando que eu vou fazer exercícios, não é?

— Sim, você vai.

— E se eu me recusar?

— É uma pena. Achei que gostasse de sua Drill Bunker.

— O que você fez com ela? Escondeu? Garoto, você tá fazendo um jogo muito perigoso, comigo! Mesmo enferrujado, eu ainda sou um dragão!

— Faça o que quiser, mas sem a minha ajuda, você jamais achará sua arma preciosa.

Os olhos de Luiz estavam sérios e penetrantes. Não havia hesitação neles.

— Tsc! Fazer o quê...

Posicionado no campo, Drum estava pronto para começar os testes.

— Muito bem! Antes de começarmos o treinamento, você precisa fazer o aquecimento.

— Certo. O que eu faço?

— Primeiro, cinquenta flexões.

— Só pode estar de brincadeira! Não tem nenhuma chance de...

Luiz sorria de olhos fechados, evidenciando seu lado sombrio. Drum não conseguiu contrariá-lo.

— Tá bom! Tá bom!

Minutos depois, Drum terminou.

— Finalmente acabei! Como eu me saí? (ofegante)

— Horrível! Você levou quarenta minutos! Tem ideia do que isso significa?

— Tenho. Significa que preciso de descanso.

— Não tente brincar comigo! Você sabe muito bem do que sou capaz!

— Fique à vontade. Não me importo mais.

— Tem certeza? Eu falo sério. Vou destruir a sua arma.

— Se esse é o preço para você me deixar em paz, então vale a pena.

— Você conseguiu mesmo me irritar! Escute, Drum. O que estou fazendo é pelo seu próprio bem. Não desista tão facilmente. Logo, logo poderá ser o melhor dragão que este vale já viu!

— Eu não quero ser o melhor. Quero ser apenas ‘’eu’’, então vá embora de uma vez, e não me perturbe mais!

— Mas você precisa...

Luiz percebeu que era inútil prolongar aquela conversa. O desinteresse de Drum era grande, mas a insistência do garoto era maior.

— Você tem razão.

— Eu tenho?

— Sim. Não é certo que eu aterrisse neste lugar, e o obrigue a fazer coisas de que não gosta.

— Que bom que entendeu.

Sentando-se ao lado de Drum, Luiz relaxou as costas sobre ele e deu um longo suspiro.

— Sabe...Não deve ser fácil ser um dragão como você, não é?

— O que... quer dizer?

— Bem, você está ficando velho. Naturalmente, você não deve ter nenhum vigor ou disposição, sobrando.

— Ei, ei! Não sou velho! Sou um adolescente, assim como você!

— Não brinca! É sério?! Puxa vida, você deve estar em uma bela enrascada.

—Certo, seu malandrinho. O que está armando para mim?

— Armando? Imagina. Eu só pensei por acaso que, algum dia, você terá problemas com dragões... Quando isso acontecer, como poderá se defender, ou atacar, sendo um molenga como você?

— Isso não é problema. Eu tenho a minha DRILL...

Nesse momento, Drum lembrou que Luiz havia escondido sua arma, a Drill Bunker.

— Pois é, Drum. Você não tem nada. Só pode contar consigo mesmo. E o que fará agora? A sociedade dos dragões não deixará isso passar, não importa o quanto tente se excluir.

Luiz levantou-se, e já ia embora. Ao pensar no que o garoto disse, Drum ficou preocupado.

— Está bem. Você venceu.

— Perfeito. Eu sabia que não me decepcionaria!

Após dizer isso, Luiz parou para pensar. Drum não estava o decepcionando. Dentre todas as pessoas com quem conviveu, o dragão estava cumprindo seu papel.

Flashback – Anos atrás

— Vieira, Guilherme! Bom dia!

— Bom dia, Luiz!

— Como você está?

— Eu estou bem. Eu queria saber, se vocês queriam ir ao cinema comigo.

— Puxa, eu adoraria, mas não vai dar. Vou sair com a minha namorada...

—E eu tenho judô, Foi mal...

— Mas, já faz semanas que venho pedindo! E vocês nunca têm tempo. Agora estão me deixando de lado! Quer saber? Vocês me decepcionaram.

Fim do Flashback

— O que há com você?

— Nada! Vamos recomeçar!

Voltando para o campo, Drum novamente fez as cinquenta flexões. Mas desta vez foi diferente.

— Uau, cinco minutos! O que aconteceu com você?

— Só acho que estou motivado! (sorrindo)

— Beleza! Agora trinta abdominais e vinte polichinelos!

Seguindo as ordens, Drum fez tudo rapidamente.

— Você está me surpreendendo. É sério, eu não imaginava...

— O que vem agora?

— Ah, claro! Bem, agora é a parte do circuito.

Luiz o levou até o local do circuito. Cones de corrida, trilhas de pneus, dentre outros. Drum deveria completá-lo no menor tempo possível para ser aprovado.

— Puxa, tudo isso. Não vai dá não.

— Como não vai dá, rapaz? Como não vai dá, essa coisa? Saí da caverna, treinei pra caramba!

— Ué...

— Vou contar até três...

— Até três!

Dado o sinal, Drum começou o circuito. Primeiro, correu entre os cones.

— Isso! Vai lá!

Depois, passou pelo trepa-trepa.

— Tá indo muito bem!

Em seguida, andou pelo trajeto de pneus.

— Ótimo! Quase lá!

E por fim, rastejou debaixo, dos arames.

— Meus parabéns! Você terminou.

Terminado o circuito, Drum tomou água e enxugou-se. Luiz aproximou-se dele, com um sorriso de satisfação.

— Dez minutos! Você foi incrível!

— Que bom, né?

— Você passou pela primeira fase, estou muito orgulhoso!

— Só mais um pouco, e aí, você me devolve a arma.

Nesse momento, Luiz sentiu-se mal pelo que estava fazendo. Drum estava se esforçando. Não era certo continuar com a chantagem.

— Bom, sobre isso, eu...

— Hum? Disse... Alguma coisa?

— Eu vou devolver a sua arma! (envergonhado)

— Ah, é?

— É. Você deu duro hoje, e provou ser alguém de palavra. Já que estou abrindo mão da sua arma, você é livre para abandonar os treinos.

Surpreendido com o desempenho de Drum, Luiz sentiu muita vergonha de si mesmo.

— Não, obrigado. Vou continuar com o treinamento.

— O quê?! Você não ouviu, o que eu disse? Estou devolvendo a sua Drill, Drill...

— Drill Bunker.

— É isso! Você não precisa continuar se não quiser!

— Hahahaha! Você é mais trouxa do que eu pensava!

— Ei, qual é a piada?

— É você! Seu tolo. Eu sempre soube onde ela estava.

— Sua arma? Impossível. Está blefando.

— Você escondeu em um buraco que você mesmo fez.

Luiz ficou com a cara no chão... Era verdade, ele havia escondido lá.

— Não faz sentido! Se sabia, porque passou por tudo isto?

— Porque eu gostei de você.

— O quê??? (envergonhado)

— Eu vi que você estava disposto a me ajudar. Mas saiba, garoto, todo este treinamento foi tão fácil quanto tirar doce de criança.

— Não! Você não pode ser mais legal do que eu!

Sinto muito. Eu fingi que estava velho e enferrujado, mas, na verdade, estou na melhor das condições físicas. Sou muito mais forte do que pensa.

O sol brilhou intensamente ao lado de Drum... Estava muito maneiro! Para Luiz, aquele dragão era como um Deus que ele desejava ser. Foi a partir daí que nasceu sua admiração por dragões.

— Eu estava pensando em algo...

— No quê?

— Não, nada. É uma coisa boba.

— Ah, então tá.

Deixando o garoto no vale, Drum já estava saindo.

— Você me deixa ficar... Aqui, com você?

De costas para o garoto, o dragão sorriu.

— Que bom! Estava precisando mesmo de um escravo.

— Do quê você me chamou!? Eu vou te matar!

Enquanto um perseguia o outro fugia, novos companheiros, em um novo mundo. O contrato entre humano e dragão foi firmado. Novas surpresas os aguardam!