O Dragão que não rugia
1 Encontro
Notas iniciais
— Olha só. Quando eu crescer, vou ter um desses pra mim!
— Mentiroso. Dragões não existem!
Luiz Felipe, 6 anos. João Vitor, também, seis anos. Duas crianças, no jardim de infância. Ambos eram crianças, cheias de imaginação, e sonhos. Porém, Luiz ousava mais do que qualquer outra criança. Ter o seu próprio dragão.
— A cor dele vai ser laranja, e o cabelo é amarelo. Tem uma armadura de ferro, e enormes garras.
— Ele é muito bonito, mesmo. Mas esquece. Ele não existe, de verdade.
— Existe sim! E um dia, eu vou encontrá-lo! Acredite em mim!
Os dois viviam brigando, por coisas pequenas. Mas fazer o quê? Eram apenas crianças. Luiz, e João não tinham pressa, em crescer. A infância era muita curta, e devia ser aproveitada. E a forte amizade dos dois, também beirava ao seu fim.
— Você vai mesmo embora, Luiz? Eu vou sentir sua falta!
— Eu vou voltar! Eu te prometo!
— E o seu dragão? Você vai trazer ele, pra gente brincar?
— É claro! Não se preocupa, João.
Os dois se abraçaram, e se despediram. Luiz ia mudar de cidade. João, acreditava em seu retorno. Mas, ele nunca mais o veria, novamente.
— A gente vai voltar, né mãe?
— É claro, filho.
— Eu prometi que quando voltasse, levaria o meu dragão. João vai morrer de inveja!
A mãe do pequeno Luiz sorria. Mas por dentro, sentia-se mal pela mudança. Não queria vê-lo triste, mas não havia solução.
— Espere por mim, meu amigo.
Agora, era tudo uma questão de tempo. Luiz sonhava com o dia que retornaria, levando consigo o dragão. Sua imaginação fértil brotava, cada vez mais.
— Meu nome é Luiz, e eu espero me dar bem com todos vocês! (Feliz)
Luiz mudou de escola, e já se apresentava aos seus novos colegas.
— Eu sou James. É bom te conhecer.
— Eu sou Ikki. É um prazer.
— Eu sou Marcos. Tudo bem?
Luiz não mudou de escola, apenas uma vez. E sim, várias vezes. O garoto mal fazia amigos, e era transferido. Ele nunca conseguiu fazer uma amizade, que se mantivesse por muito tempo. Passaram-se vários anos. Frustrado, com os acontecimentos, Luiz parou de se enturmar, e se afastou de pessoas. Qualquer um que tentasse se aproximar, era rejeitado de forma fria.
— Oi!
— Oi.
— Tudo bem?
— De certa forma.
— Que bom, né?
Aos dezesseis anos, Luiz vivia sua vida como um adolescente normal, do ensino médio. Vítima de bullying, sua fama não era a das melhores. O nerd, o esquisitão, o antissocial. Para ele era normal, ouvir esses tipos de piadas, todos os dias. Mas, ele nem ligava. Não se sentia mal. Já havia se acostumado a tempos. Era apenas mais um dia, como outro qualquer. E sendo levemente bonito, também sofria cantadas de garotas.
— Sabe, eu te vejo por aí e tenho tanta vontade de conversar contigo. Quer ser meu amigo?
— Não, obrigado.
— Mas, por quê?
— Eu tenho problemas de relacionamento com pessoas. Gosto de ficar sozinho.
— Mas, eu gosto de você. Se você me der uma chance, prometo que não vou te decepcionar.
— Acho muito improvável.
— Como pode ter tanta certeza?
— A gente conversa, vira amigo, a gente briga, ou você arruma um namorado, e me esquece. Então, a escola acaba. Faremos faculdades diferentes, e perdemos contato. No fim, só restarão as lembranças, e a saudade. Não, eu não quero ter que passar por isso. E não acredito, que você tenha algum potencial para fazer tudo diferente.
Quando reparou, a garota havia sumido.
— É bom, que tenha entendido.
Terminada a aula, Luiz foi embora, ouvindo sua música favorita. Adeus, sociedade.
— Por que as pessoas insistem em falar comigo? Não veem, que eu quero ficar sozinho? Por que acham que amizade, é essencial? (Pensando)
Esses tipos de pensamentos, eram muito comuns, em sua cabeça. Coitado. Ou não. Na nossa concepção acreditamos que ele é um rapaz solitário, que precisa de amigos, e um psicólogo. Na concepção dele, cortar qualquer tipo de relação, era a melhor forma, para não se decepcionar no futuro.
— Está chovendo. Que merda.
A maioria dos solitários adorava chuva. Já Luís, odiava. Para ele, a chuva só causava chateações, e transtornos.
— Tomara que isso, não atrapalhe a minha volta pra casa.
Sinal de pedestres, verde. Muitas pessoas atravessavam a rua, inclusive Luiz. Não havia escolha. Ele jamais poderia cruzar a faixa, sem que alguém o acompanhasse.
— Ei, olha por onde anda, cara!
— Desculpe.
Luiz havia esbarrado, em um homem. Que desagradável. Aquele contato, com uma pessoa, o deixou enojado.
— Vou embora daqui.
Para evitar qualquer outro contato, Luiz correu o mais rápido que podia. Bairro movimentado, dez da noite, e tempo chuvoso. Fatores malditos, que o atrasavam.
— Cuidado, aí!
— AAAAAAHHHHHH!
A tampa do bueiro estava aberta, e Luiz caiu dentro do buraco. Era tão profundo, que ele não sabia quando ia parar de cair. Minutos depois, aterrissou em algum lugar.
— Onde estou? Que lugar é esse?
Era um vale. Repleto de terras verdes, e colinas pequenas. Uma visão muito linda.
— Quero chegar logo, em casa. Como faço para sair daqui? (Pensando)
De repente, algo sobrevoou sua cabeça, a uma velocidade incrível.
— Me diga que isto, é um sonho.
Sim, era um dragão. E não apenas, um. Uma revoada inteira de dragões. De todas as cores, e formas. Grandes e pequenos, ferozes e mansos. O vale estava repleto deles.
— Acho que vim parar na China. Que azar.
De repente, uma lembrança veio à mente. Momentos de sua infância, onde ele desenhou um dragão, pela primeira vez.
— Vai ser muita coincidência, se ele existir mesmo.
Tirando lápis e papel, da sua mochila, Luiz desenhou o dragão que havia feito, anos atrás.
— Ei, reconhece esse dragão?
Luiz viu um dragão passar, e aproveitou para pedir informação.
— Conheço. Ele vive naquela caverna.
— Obrigado.
— Ei, garoto!
— O que foi?
— Por que quer encontrá-lo?
— Não é da sua conta, figurante.
— Como é que é?
Luiz acabou de insultar um dragão! O mesmo, poderia tê-lo matado, ali mesmo, mas o garoto não se intimidou. Luiz também, é muito maneiro.
— De acordo, com a informação daquele dragão, ele deveria estar aqui. Mas eu não o vejo, em lugar algum.
— Quem ousa entrar na minha caverna?
Uma voz tenebrosa, chegou aos ouvidos de Luiz.
— Será possível?
Ao virar as costas, Luiz deu de cara com o dragão, que procurava. Sim, era ele. A mesma cor, o mesmo cabelo, a mesma armadura. Tudo era igual.
— Talvez agora, eu possa morrer em paz.
— Não na minha caverna, sai já daqui!
O destino dos dois mudaria para sempre nesse encontro. Muitas surpresas os aguardavam.
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