O Dragão que não rugia
2 Decisão
— É você, mesmo...
Luiz ainda estava, meio atordoado, por encontrar seu dragão. Não é sempre, que a gente tem essa sorte.
— Anda moleque, cai fora.
— Você não pode me expulsar, assim.
— E por que, não?
— Porque, eu criei você.
Sem rodeios, e sem conversa fiada, Luiz foi direto ao ponto. Agora que sabia, que seu dragão era real, ele não deixaria que o réptil escapasse.
— Hahaha! De onde você inventou isso?
— É verdade! E eu tenho como provar!
— É mesmo? (Sarcástico)
Luiz entregou seu desenho, ao dragão. O mesmo, levou vários minutos para analisá-lo.
— Eu te desenhei, quando eu tinha seis anos. Veja. Você, e o meu desenho são idênticos.
Era um dragão diferente da maioria. Pele laranja, armadura de cor amarela, capa vermelha, e garras afiadas. Além disso, era bípede.
— É realmente verdade!
— Pois é!
— Você me criou!
— É isso aí!
— Palhaçada.
— É o quê?!
Cuspindo fogo no papel, o dragão fez o desenho queimar até as cinzas.
— Eu tenho o original lá em casa, sabia?
— Estou pouco me lixando.
— Você não acredita em mim, não é?
— Não, imagina! Claro que eu acreditei. Você me desenhou, e PUF! Eu nasci. História super-convincente. Ah, vê se cresce! Não acha, que é muito grandinho para brincar de faz-de-conta?
Luiz corou de vergonha. O dragão tinha razão. Não havia como, um desenho ganhar vida. Fazia muito tempo, que ele não ficava tão próximo de alguém, desse jeito. E esse ‘’alguém’’ era um dragão! Encontrá-lo, foi a experiência mais estranha de sua vida. O menino questionava a si mesmo, do que estava fazendo.
— Desculpe-me, o incômodo. Já estou de saída.
— E já vai, tarde!
Ao ver Luiz indo embora, o dragão começou a mudar de ideia, a seu respeito. Apesar de detestar companhia, decidiu dar uma chance a ele.
— Ei, moleque.
— O que você quer?
— E-Eu, bem.... Você pode ficar mais tempo, se quiser.
— Não, valeu. Tô de boa.
— Ah, então tudo bem. Tchau!
Luiz deixou a caverna, mas o dragão não parava de pensar nele.
— Esse com certeza, é o dia mais esquisito da minha vida. Agora, eu só preciso sair daqui.
Fazendo um binóculo, com as mãos, Luiz observou todo o vale.
— Como assim, você já vai embora?
— Ai, que susto!
O garoto, quase teve um ataque do coração. O dragão, apareceu novamente.
— Você não vai a lugar algum, desse jeito. Está completamente, perdido.
— Como sabia que eu estava perdido?
— Dragões tem uma ótima visão, das pessoas!
— Faz sentido.
Era mentira. De alguma forma, o dragão havia sentido, que Luiz precisava de ajuda.
— E então? Você vai me dar uma carona pelo céu?
— O que está dizendo? Acha que eu tenho cara, de táxi?
— Isso é diferente, do que eu esperava. Nos filmes, o dragão e o garoto, voam juntos pelo céu. Bem, tanto faz.
— Caso não tenha reparado, eu não tenho asas!
— Ah, é. Tinha me esquecido. Aos seis anos, desenhei um dragão sem asas. Que vergonha.
— Cale-se! Eu não preciso de asas, porque eu tenho isto!
O dragão mostrou à Luiz, uma broca gigante. Essa, era sua arma especial.
— Que enorme! Afinal, o que é isso? Não me lembro de ter feito isso, para você.
— É a minha ‘’Drill Bunker’’. Com ela, eu posso perfurar qualquer coisa, em poucos segundos.
— Que legal. E o que você vai fazer, com isso?
— Não é óbvio? Eu vou perfurar a terra, e você vai ser capaz de voltar ao seu mundo. Do mesmo modo, que chegou até aqui.
Luiz pareceu não acreditar, no que havia escutado.
— Você ficou louco? Isso nunca vai dar certo!
— E você já experimentou? Não vamos saber, até tentar!
— Só um idiota, tentaria fazer uma coisa dessas!
— ‘’Idiota’’? É assim que me trata, depois de vir aqui, para tentar te ajudar? Qual é o seu problema?
— Eu não tenho problema! Eu não pedi a sua ajuda, e nem a de ninguém! Não pedi para vir, a este mundo, e agora, tenho que pedir a ajuda de dragão vestido de homem de ferro? Não, obrigado. Eu só quero voltar pra minha casa, e ficar sozinho no meu quarto, droga!
O garoto estava, visivelmente, alterado, e nervoso com tudo aquilo. Por mais que tentasse, não conseguia se acalmar.
— Então você vai se acovardar, e fugir de todos à sua volta? É isso que pretende fazer?
— E daí?! Vai fazer o quê?
— Francamente. Você é igualzinho a mim.
O dragão colocou a broca no chão, e sentou-se ao lado de Luiz. Olhou para o céu estrelado, e refletiu.
— Quem disse que, fugir, não é uma opção? Os outros não deveriam nos julgar, usando o senso comum.
— O que quer dizer?
— Os descolados têm sua fama. Eles são o exemplo. Suas ações influenciam na vida de todo mundo. Seus feitos são aclamados, por todos. São adorados, e respeitados. Já os anormais, nunca terão tal atenção. Refugiados em suas cavernas, não conseguem enfrentar seus adversários. São humilhados, e pisados. E não sentem prazer, com a vida que levam.
— Agora me diz algo, que eu não saiba.
— Muitos anormais não sabem, que o pior adversário deles, são eles mesmos.
— O quê?!
— A única coisa que nos impede de tomar uma atitude, e mudar nossas vidas, são nós mesmos. Eu posso inventar mil desculpas, para faltar na escola. Mas, se estiver disposto a ir, então é só levantar o rabo da cama, e ir.
— Credo, o que disse foi nojento.
— Desculpe. Eu esqueci, que estava falando com um humano.
Risos. Momento de descontração. Luiz estava estranho. Sentia um calor agradável, no coração. Aquele dragão, poderia ser o motivo? Não, impossível.
— Todos esperam que eu também seja um descolado. Querem que eu faça coisas grandiosas, como eles fazem. Mas, alguém já perguntou o que eu quero?
— Eu sei, como é...
— Se eu quiser ficar, o dia todo na minha caverna; se eu não quiser falar com ninguém, e daí? Eu sou anormal, e gosto de ser assim. Se não gosta de mim, se afaste!
— Isso tá errado!
Luiz levantou-se, e o encarou, com olhos de desaprovação.
— Você é um dragão! Olhe para você! Veja a armadura, que está vestindo. Dê uma olhada nessa super-arma. Mas, o mais importante, é essa capa de herói vermelha. Você não deve ser, igual a mim! Essa sua personalidade, não combina contigo! Não foi assim, que eu o idealizei, há dez anos atrás.
— Eu já estou enferrujado. Minha armadura também. Não há mais nada, que eu possa fazer.
— Ah, tem sim! Não vou deixar, que vire um velhote antes do tempo.
— E o que pretende fazer.
— Eu vou mudar você, Drum.
— Do que você me chamou?
— Drum. Esse é nome que escolhi para você, naquela época. Só hoje, consegui lembrar. Drum Bunker Dragon Fang Slade Terrestrial, décimo terceiro.
— Não pode ser! Esse sempre, foi o meu nome! Como você já sabia?
— Acredita, em mim, agora?
— Não mesmo!
— Vai ser desconfiado assim, lá na casa da sua mãe!
Olhando para o pôr-do-sol, Luiz deu um sorriso.
— Prepare-se, Drum! A partir de hoje, eu vou te treinar!
Luiz decide se tornar um treinador de dragão! Como Drum, se sairá nele? A união entre os dois, está confirmada!
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