O Dragão que não rugia
3 Treinamento
— Vamos começar, Drum!
Naquela noite, Luiz dormiu na caverna do dragão. Logo de manhã, acordou, e estava bem-disposto para ser seu treinador.
— Só mais cinco minutos...
— Você ainda tá dormindo? Levanta, seu folgado!
Ao tentar chutá-lo, Luiz bateu o pé na armadura dele.
— Ai! Mas que por...caria! Agora, eu perdi a paciência!
Ainda dormindo, Drum foi arrastado por Luiz até o fim da caverna. Sem ter como fugir, o dragão levantou-se.
— Por que insiste em me treinar? Isso não vai dar certo...
— Eu tenho meus motivos, e, silêncio! Interrupções não serão permitidas. Quanto antes acabarmos o treinamento, mais cedo eu poderei ir embora.
— Ah, é? Então me diga, o que devo fazer primeiro?
— Você vai ver! (sorrindo)
Meia hora depois, o campo de treinamento estava completo. Nele havia vários objetos típicos de uma aula de educação física. Bambolês, cones, etc...
— Onde conseguiu tudo isto?
— Eu só trabalho na história, não explico esses detalhes.
— Você não está pensando que eu vou fazer exercícios, não é?
— Sim, você vai.
— E se eu me recusar?
— É uma pena. Achei que gostasse de sua Drill Bunker.
— O que você fez com ela? Escondeu? Garoto, você tá fazendo um jogo muito perigoso, comigo! Mesmo enferrujado, eu ainda sou um dragão!
— Faça o que quiser, mas sem a minha ajuda, você jamais achará sua arma preciosa.
Os olhos de Luiz estavam sérios e penetrantes. Não havia hesitação neles.
— Tsc! Fazer o quê...
Posicionado no campo, Drum estava pronto para começar os testes.
— Muito bem! Antes de começarmos o treinamento, você precisa fazer o aquecimento.
— Certo. O que eu faço?
— Primeiro, cinquenta flexões.
— Só pode estar de brincadeira! Não tem nenhuma chance de...
Luiz sorria de olhos fechados, evidenciando seu lado sombrio. Drum não conseguiu contrariá-lo.
— Tá bom! Tá bom!
Minutos depois, Drum terminou.
— Finalmente acabei! Como eu me saí? (ofegante)
— Horrível! Você levou quarenta minutos! Tem ideia do que isso significa?
— Tenho. Significa que preciso de descanso.
— Não tente brincar comigo! Você sabe muito bem do que sou capaz!
— Fique à vontade. Não me importo mais.
— Tem certeza? Eu falo sério. Vou destruir a sua arma.
— Se esse é o preço para você me deixar em paz, então vale a pena.
— Você conseguiu mesmo me irritar! Escute, Drum. O que estou fazendo é pelo seu próprio bem. Não desista tão facilmente. Logo, logo poderá ser o melhor dragão que este vale já viu!
— Eu não quero ser o melhor. Quero ser apenas ‘’eu’’, então vá embora de uma vez, e não me perturbe mais!
— Mas você precisa...
Luiz percebeu que era inútil prolongar aquela conversa. O desinteresse de Drum era grande, mas a insistência do garoto era maior.
— Você tem razão.
— Eu tenho?
— Sim. Não é certo que eu aterrisse neste lugar, e o obrigue a fazer coisas de que não gosta.
— Que bom que entendeu.
Sentando-se ao lado de Drum, Luiz relaxou as costas sobre ele e deu um longo suspiro.
— Sabe...Não deve ser fácil ser um dragão como você, não é?
— O que... quer dizer?
— Bem, você está ficando velho. Naturalmente, você não deve ter nenhum vigor ou disposição, sobrando.
— Ei, ei! Não sou velho! Sou um adolescente, assim como você!
— Não brinca! É sério?! Puxa vida, você deve estar em uma bela enrascada.
—Certo, seu malandrinho. O que está armando para mim?
— Armando? Imagina. Eu só pensei por acaso que, algum dia, você terá problemas com dragões... Quando isso acontecer, como poderá se defender, ou atacar, sendo um molenga como você?
— Isso não é problema. Eu tenho a minha DRILL...
Nesse momento, Drum lembrou que Luiz havia escondido sua arma, a Drill Bunker.
— Pois é, Drum. Você não tem nada. Só pode contar consigo mesmo. E o que fará agora? A sociedade dos dragões não deixará isso passar, não importa o quanto tente se excluir.
Luiz levantou-se, e já ia embora. Ao pensar no que o garoto disse, Drum ficou preocupado.
— Está bem. Você venceu.
— Perfeito. Eu sabia que não me decepcionaria!
Após dizer isso, Luiz parou para pensar. Drum não estava o decepcionando. Dentre todas as pessoas com quem conviveu, o dragão estava cumprindo seu papel.
Flashback – Anos atrás
— Vieira, Guilherme! Bom dia!
— Bom dia, Luiz!
— Como você está?
— Eu estou bem. Eu queria saber, se vocês queriam ir ao cinema comigo.
— Puxa, eu adoraria, mas não vai dar. Vou sair com a minha namorada...
—E eu tenho judô, Foi mal...
— Mas, já faz semanas que venho pedindo! E vocês nunca têm tempo. Agora estão me deixando de lado! Quer saber? Vocês me decepcionaram.
Fim do Flashback
— O que há com você?
— Nada! Vamos recomeçar!
Voltando para o campo, Drum novamente fez as cinquenta flexões. Mas desta vez foi diferente.
— Uau, cinco minutos! O que aconteceu com você?
— Só acho que estou motivado! (sorrindo)
— Beleza! Agora trinta abdominais e vinte polichinelos!
Seguindo as ordens, Drum fez tudo rapidamente.
— Você está me surpreendendo. É sério, eu não imaginava...
— O que vem agora?
— Ah, claro! Bem, agora é a parte do circuito.
Luiz o levou até o local do circuito. Cones de corrida, trilhas de pneus, dentre outros. Drum deveria completá-lo no menor tempo possível para ser aprovado.
— Puxa, tudo isso. Não vai dá não.
— Como não vai dá, rapaz? Como não vai dá, essa coisa? Saí da caverna, treinei pra caramba!
— Ué...
— Vou contar até três...
— Até três!
Dado o sinal, Drum começou o circuito. Primeiro, correu entre os cones.
— Isso! Vai lá!
Depois, passou pelo trepa-trepa.
— Tá indo muito bem!
Em seguida, andou pelo trajeto de pneus.
— Ótimo! Quase lá!
E por fim, rastejou debaixo, dos arames.
— Meus parabéns! Você terminou.
Terminado o circuito, Drum tomou água e enxugou-se. Luiz aproximou-se dele, com um sorriso de satisfação.
— Dez minutos! Você foi incrível!
— Que bom, né?
— Você passou pela primeira fase, estou muito orgulhoso!
— Só mais um pouco, e aí, você me devolve a arma.
Nesse momento, Luiz sentiu-se mal pelo que estava fazendo. Drum estava se esforçando. Não era certo continuar com a chantagem.
— Bom, sobre isso, eu...
— Hum? Disse... Alguma coisa?
— Eu vou devolver a sua arma! (envergonhado)
— Ah, é?
— É. Você deu duro hoje, e provou ser alguém de palavra. Já que estou abrindo mão da sua arma, você é livre para abandonar os treinos.
Surpreendido com o desempenho de Drum, Luiz sentiu muita vergonha de si mesmo.
— Não, obrigado. Vou continuar com o treinamento.
— O quê?! Você não ouviu, o que eu disse? Estou devolvendo a sua Drill, Drill...
— Drill Bunker.
— É isso! Você não precisa continuar se não quiser!
— Hahahaha! Você é mais trouxa do que eu pensava!
— Ei, qual é a piada?
— É você! Seu tolo. Eu sempre soube onde ela estava.
— Sua arma? Impossível. Está blefando.
— Você escondeu em um buraco que você mesmo fez.
Luiz ficou com a cara no chão... Era verdade, ele havia escondido lá.
— Não faz sentido! Se sabia, porque passou por tudo isto?
— Porque eu gostei de você.
— O quê??? (envergonhado)
— Eu vi que você estava disposto a me ajudar. Mas saiba, garoto, todo este treinamento foi tão fácil quanto tirar doce de criança.
— Não! Você não pode ser mais legal do que eu!
Sinto muito. Eu fingi que estava velho e enferrujado, mas, na verdade, estou na melhor das condições físicas. Sou muito mais forte do que pensa.
O sol brilhou intensamente ao lado de Drum... Estava muito maneiro! Para Luiz, aquele dragão era como um Deus que ele desejava ser. Foi a partir daí que nasceu sua admiração por dragões.
— Eu estava pensando em algo...
— No quê?
— Não, nada. É uma coisa boba.
— Ah, então tá.
Deixando o garoto no vale, Drum já estava saindo.
— Você me deixa ficar... Aqui, com você?
De costas para o garoto, o dragão sorriu.
— Que bom! Estava precisando mesmo de um escravo.
— Do quê você me chamou!? Eu vou te matar!
Enquanto um perseguia o outro fugia, novos companheiros, em um novo mundo. O contrato entre humano e dragão foi firmado. Novas surpresas os aguardam!
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