O Dom
1 Prólogo
-12 de Setembro, Localização Desconhecida, 2:34 am –
Chuva, correntes de chuva, banhavam sem fim o chão frio de alcatrão desgastado pela passagem contínua de uma rua anteriormente movimentada e agora deixada ali ao abandono, em junção de todo o restante ambiente rústico e quase desprovido de movimento humano, um dos poucos cantos onde a espécie mais inteligente e manipuladora do planeta Terra deixara quase intocável.
Em contraste e no meio de grande vegetação, tanto rasteira com igualmente as balançáveis árvores despidas, uma habitação pouco cuidada e em princípio sem proprietários rangia, ao sentir a força do vento que a abalava de alto a baixo, tornando a velha madeira de pinho molhado, um mau material para sustentar por muito mais tempo toda aquela estrutura.
- Tenho medo… — Sussurrava a pequena e frágil voz de rapariga, de poucos anos e fita vermelha a prender-lhe o cabelo loiro em rabo-de-cavalo. Estava agarrada à cintura de uma mulher alta, mesmo que sentada, também ela de cabelos loiros despenteados e até aos ombros. A mãe afagava-lhe as poucas lágrimas que começavam a correr pelo seu rosto, fazendo de seguida um movimento ondulatório na sua cara para a acalmar.
Ao pé das duas, estavam igualmente uma mulher e dois homens, cujos rostos eram ocultados pela escuridão da noite e pelo desligar das luzes da casa. O último homem, estava de joelhos a espreitar pela única janela dirigida à frente da casa, atento em todo e qualquer movimento.
Só o som bravo da natureza se manifestava de momento. O grupo de pessoas permanecia em silêncio e daqueles que era possível ver a face, um medo de morte os assombrava. Um ruído de madeira a estalar foi tornar mais evidente, todo o ambiente pouco à vontade do grupo. À medida que todas as cabeças se preparavam para tomar atenção à casa em si, já uma figura escura, alta e completamente oculta de reconhecimento estava parada a poucos centímetros de todo o aglomerado, centrado entre a pequena mesa de jantar e os electrodomésticos velhos e usados da esquerda, que do nada começavam a chiar e produzir algumas faíscas pouco normais.
- Tu? Tu… – Comentava o homem que até então estivera pegado à janela e agora colocava-se de pé, frente a frente para o inimigo, apanhado pela fraca luz do exterior. A primeira expressão fora de surpresa, mas a segunda palavra proferida pela sua boca, que emanava fumo que era produzido pela diferença de temperatura entre o seu corpo e o ar frio da noite, indicava reconhecimento breve.
O suposto protector da casa lançava o corpo a correr sobre o novo sujeito, como se já soubesse perfeitamente o que estava a enfrentar. Ao mesmo tempo muitas coisas ocorreram. A rapariga pequena soltou um grito de medo, a mãe da mesma amparou-a e levantou-se a carregar a filha, assim como o resto das pessoas, espalhando-se pela cozinha de dois em dois. O “observador” não teve muito espaço de manobra, ao ser atacado em pleno voo por três pequenas faíscas que apareciam rapidamente do pulso do atacante sem rosto. Contorcendo-se no chão, o resto da multidão tentava dispersar-se e fugir da ameaça.
A mãe, carregava a sua filha chorona nos ombros, enquanto tentava a todo o custo percorrer o perímetro da sala e chegar à porta de saída. Por entre os gritos de outros ferimentos e até mortes, por entre o som que a ventania produzia violentamente ao atingir o frágil local, um trovão longínquo de uma trovoada próxima, assolou o ar, ao mesmo tempo que um raio azul e espesso percorreu a canela da mulher, que a fez proteger a filha ao cair sem apoios no chão. Depois de um grunhido de dor a sua face virou-se sem rodeios para o desconhecido, que era possível ser agora visto coberto por um manto de corpo total negro, sobre a luz intermitente que a electricidade fora do normal produzia sobre os fios condutores da habitação.
- Deixa-nos! – Gritava ela, ao ver o oculto aproximar-se a passos lentos, mas largos, quase que em câmara lenta. – Deixa-nos em paz! – Reforçou sem sucesso, sem voz para produzir grandes ruídos e já de lágrimas nos cantos dos aterrorizados olhos azuis.
A figura apenas esticou as mãos na sua direcção e um último grito de terror puro soou. Se não fosse uma área na maioria desértica e sem vida, era possível reparar uma forte luz que explodia de toda a casa, iluminando alguns metros de distância. Ao fim de 60 segundos, a luz parou e um relâmpago natural caiu bem perto da casa de madeira, produzindo depois o poderoso trovão. Nenhum outro som soou por ali.
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