O Dom
2 Beginning
-12 de Setembro, Portland, 8:30 am-
- “Pelo que conseguimos apurar até agora, 100 pessoas espalhadas na maior parte dos estados da América do Norte foram dadas como desaparecidas e sem rasto a seguir por familiares, amigos e as próprias autoridades locais. Todos estes acontecimentos foram, por coincidência, decorridos sem excepção nas últimas 48 horas…” – Prosseguia o interlocutor e pivô do canal de notícias, que na altura estava ligado numa pequena televisão plasma.
A moradia estava calma e em silêncio, para além do barulho da TV que estava ligada e onde a hora das notícias tinha acabado, pelo que agora transmitia publicidade a que ninguém estava a tomar atenção. Para além disso alguém se tinha deixado dormir e a juntar-se à sua respiração calma e o seu ressonar estridente. Deitado numa posição estranha na velha poltrona beije de um lugar da família estava Adam, um rapaz de 18 anos, cabelo loiro e desgadelhado, completamente descontraído e sem se dar conta do que passava no mundo em seu redor. Foi o som da porta a abrir que o acordou de sobressalto. E como que num feixe de imagens, lembrou-se de tudo o que tinha a fazer.
- Merda! – Sussurrou como um castigo para si mesmo, enquanto se levantava de um salto apenas para começar a correr pela sala, quase derrubando a mesa ao faze-lo. Pelo caminho encontrou a pessoa que entrara em casa naquela altura. Gustava, a empregada da família Derek, trazia o seu material de limpeza nas mãos e com o vulto de Adam a passar sobre ela, quase que o deixou cair.
- Desculpe Gustava! – Não parou e encaminhou-se para o corredor principal, onde tinha as malas de viagem já feitas. Começou a pegar nelas, quando a mulher mexicana, de idade e cabelo apanhado, o voltava a encontrar e pousava as coisas.
- Menino Adam, para que a correria? Parece que foge de um fantasma! – Nessa altura Adam corria a outra ponta da casa e voltava para amontoar nas malas, o resto dos seus pertences, incluindo escova de dentes e lâmina da barba.
- É quase isso. Esqueci-me completamente que o avião é hoje às quinze. – Ao arrumar o resto das coisas, pareceu ver Gustava olhar de relance para o relógio na parede da sala. Eram 14 horas e 30 minutos.
- E os seus pais? Não se vai despedir? Tenho a certeza que estão a voltar não tarda nada do shopping!
- Não há tempo, ainda tenho de apanhar um táxi para o aeroporto e já vou eu muito atrasado. Diga-lhe que gosto muito deles e que levo tudo o que preciso. – Dizia aquilo pois já visitara Boston, para onde ia viver a partir daquele mesmo dia. Esteve lá com a família o ano passado e pelos vistos lá teria futuro, um emprego fixo, um apartamento já escolhido e comprado para viver, algo melhor que certamente encontraria em Portland, que mesmo sendo a cidade mais ecológica de todos os Estados Unidos da América, estava a passar por um certo desemprego, para mais que as perspectivas de emprego eram pouco animadoras, ou trabalhar com o ambiente, ou resumir-se a uma empresa de classe média. Desde novo Adam sonhou envergar na vida empresarial superior e digna de renome e na outra ponta do país, lá bem para os lados de Nova Iorque, Washington DC ou até Miami mais lá em baixo. Ali o céu parecia ser o limite de oportunidades. Para mais tinha em Boston parte da sua família, alguns tios maternos e primos bem afastados. Se necessitasse de algo, podia sempre recorrer a eles.
- Direi menino... Ai, terei tantas saudades dessa carinha. – Ao dizer isso, aproximou-se e puxou as bochechas do rapaz, fazendo-o esboçar um sorriso. – Foram tantos anos, até parece que foi ontem que entrei por aquela porta e dei de caras com um rapazote de 10 anos a olhar para mim desconfiado.
- É verdade... Eu prometo que vos venho visitar sempre que puder.
- Se lá tiver piores condições, não excite em se colocar no primeiro avião que partir de Boston nesse dia! Eu mesmo o vou buscar ao aeroporto!
- Está descansada Gustava, eu sei onde nasci e cresci. – Voltou a sorrir e nessa altura uma buzina soou lá fora. Certamente era o táxi que ele chamou. Passou uma última vez por toda a casa para se despedir por agora, sem se esquecer, claro, o quarto desarrumado de adolescente que deixava para trás. Pegou na mochila às costas e arrastou a mala com rodas pelo chão polido da casa, avistando antes de sair pela porta, a empregada de origens hispânicas no canto da parede do corredor, acenando para se despedir, enquanto Adam pareceu ver-lhe correr pelo rosto uma lágrima solitária.
Devia ser por isso que os seus pais tinham saído naquele dia. Talvez não quisessem ter o mesmo momento de despedida que o Derek teve com a empregada de longa data. Já tinham falado da sua partida por dias a fio, mas aquele momento era mesmo o pior. Deixar o local onde nasceu para trás, de maneira a vingar na vida de trabalho. Tinha de ser e o que tem, tem muita força. Continuou a arrastar as malas pela calçada do bairro, até chegar perto do carro amarelo e o motorista se oferecer para colocar a bagagem nas traseiras. Adam seguiu para a porta esquerda e entrou nos bancos de trás do táxi. O homem de cabelo grisalho entrou no lugar do condutor e preparou a chave para começar a conduzir.
- Então, para onde vamos seguir senhor? – Disse, ao virar-se para trás e apoiar a mão sobre a cadeira do carro.
- Para o Aeroporto Internacional de Portland, se faz favor. – Respondeu Adam ainda de olhar posto na sua casa, aquela que sempre será a sua primeira casa. Depois, o carro começou a andar e para além da sua casa, todas as casas dos vizinhos do bairro. As árvores, a relva do bairro sossegado nas redondezas de Portland.
Uma lágrima começou a escorrer pelo seu rosto, junto com toda a nostalgia que estava a sentir. Recordava tudo o que podia e aquilo que esteve apagado durante anos a fio. Mas entretanto fez-se mais forte e secou-a do rosto, voltando a sorrir para a janela, onde reflectia o seu rosto. Uma nova vida ia ter começo agora e ainda faltava mais de 2 dias de viagem de avião para lá chegar.
-12 de Setembro, Nova Iorque, 8:56 am-
Um dia que nasceu como outro qualquer e mesmo antes de o sol ter tempo para se levantar por completo no horizonte, mesmo que por cima das nuvens que sempre acompanhavam o céu, já Nova Iorque, a cidade que nunca dorme, ou nunca pode dormir, tinha movimentação desde muito cedo. A maior parte dessas pessoas eram trabalhadores que corriam agora para os seus empregos.
O mesmo acontecia com Dwayne Maurice Carter, apelidos que apenas usa devido a uma família rica e bem generosa o ter acolhido aos 15 anos, órfão desde que se conhece a si mesmo. Descia do seu grande apartamento no prédio nº5 em Upper West Side, enquanto ajeitava a gravata avermelhada no pescoço, não que gostasse de andar assim vestido de fato, mas a vida empresarial que levava desde à uns meses obrigavam-no a andar assim apresentado, com o risco de os esforço para o colocar como chefe numa das empresas que controlava o senhor Josh Carter, seu pai adotivo, não resultar em nada e Dwayne queria criar nele um sentimento de realização e sucesso. Por isso ali estava ele, a descer os últimos degraus da rua e a encaminhar-se para o seu carro pessoal detestando, acima de tudo, ter de recorrer a transportes públicos, para ele isso atrapalhava e demorava ainda mais qualquer viagem. Para mais desde que descobrira um segredo sobre ele mesmo aos 16 anos.
Nesse tempo já tinha sido adotado pelos Carter, mas ainda era muito desligado dos mesmos. E um dia, quando se tentou voltar a matricular num dos colégios particulares de NY, devido à sua expressão de frieza e as respostas ríspidas que gosta de dar às pessoas, arranjou logo confusão no segundo dia de aulas com um matulão sénior do liceu. Foi ai que descobriu um pouco sobre si mesmo, algo sobrenatural que nunca contou a ninguém, com o risco de ser dado como um órfão maluco e insano: Tinha um poder. Nesse mesmo segundo dia de liceu como caloiro andou à briga com Flint Wall, o playboy da turma 2 e abriu ai o seu primeiro portal. Até hoje o fanfarrão de barba por fazer é dado como desaparecido, mas Dwayne quer pensar que ele continua bem, perdido, mas salvo, para descanso da sua consciência.
Montou-se no carro e olhou uma última vez pelo espelho frontal, vendo de o cabelo preto estava bem alinhado depois de o ter penteado para trás com um pente fino naquela manhã. Ligou a ignição e depois arrancou quando arranjou um espaço entre três táxis e uma carrinha de gelados. Pretendia seguir pelas estradas mais calmas àquela hora, podia não ser o melhor para chegar ao emprego em 4 minutos, mas era melhor para os seus níveis de stress. Podia com isso ultrapassar as 9 horas da manhã, o horário que tinha de cumprir, mas que se lixasse.
Conduziu e parou uma data de vezes pelas ruas tapadas por arranha-céus de todos os tamanhos e feitios, já a luz era pouca vinda do sol, ainda se tornava mais escura com aquilo. Sempre viveu perto de Nova Iorque e estava habituado a tal clima, mas também já teve a oportunidade de viajar para cidades mais quentes e não sabia porque, mas tinha um fraquinho por elas. Abriu a boca ainda com sono e virou à esquerda quando o trânsito o permitiu.
Novamente colocou o pé sobre o travão, mas desta vez para deixar passar uma mulher com os seus 25-35 anos, distraída com o seu telemóvel na orelha direita, a conversar alegremente enquanto passava na passadeira. Nesse momento o rapaz de negócios olhou para o porta-moedas, descobrindo se sempre tinha ali deixado o cigarro que perdeu na noite anterior, mas pelos vistos não estava, teria de continuar a procurar ou comprar um maço novo para aliviar o stress.
Ao voltar a olhar a rua, apercebeu-se que estava numa situação completamente diferente da de quando o seu olhar se desviou. À frente, numa rua mais à frente vinha a grande velocidade um camião cisterna, desgovernado, ao ser conduzido aos zigue-zagues e atrapalhando a passagem de outros carros. Ainda não tinha provocado nenhum acidente, pois as ruas por ali até estavam pouco movimentadas, mas agora seguia em contra-mão e a mais de 120 kms por hora, em direcção à mulher distraída que estava naquele momento mesmo em frente do seu carro, atenta apenas ao que estava à sua frente e ao maldito telemóvel que lhe estava a tomar toda a atenção que naquele momento necessitava.
- Não! – Disse para si mesmo, seco e ciente do que estava preste a ter que fazer.
Dwayne teve de escolher o que fazer. Claro que se ia salvar a ele próprio, mas não o podia fazer sozinho. Não que pudesse saltar do carro e ainda ter tempo de pegar na mulher, mas sim devido ao poder que descobriu à anos. Tinha de voltar a admitir que o tinha na sua posse, mas naquele momento até foi a coisa em que menos pensou, já que movimentou-se quase por instinto de sobrevivência. Fixou o olhar na mulher que finalmente tinha-se apercebido da sua sorte e apenas paralisou quando o camião estava a metros de a atropelar, já que no cruzamento tinha chocado com outro carro e derrapado, fazendo a cisterna deslizar pelo solo em circulo. Primeiro o espaço-tempo distorceu-se perto do rapaz dentro do carro e ele entrou para essa fenda depois voltou a distorcer o espaço, tornando-o relativamente pequeno entre ele e a mulher que queria salvar. Sabia o que estava a fazer, mas não como o fazer, afinal sempre que o usava, era como se já tivesse aprendido à anos, como um bebé aprende a chorar. Pegou nela e depois voltou a aparecer no passeio direito daquela estrada, onde passavam várias pessoas, todas elas apenas atentas ao acidente que ia ocorrer. Também porque o poder de Dwayne acontecia em intervalos de segundos, sem dar tempo para o olhar humano ter atenção para reparar, não estivesse também ele a controlar de certa forma o correr do tempo.
Deu-se um fortíssimo choque frontal e ambos os veículos explodiram e depois começaram a arder e fumegar. A senhora, já tinha deixado o telemóvel de lado, perplexa com a situação e chocada talvez afetada ainda pelo choque que recebeu ao perceber que ia certamente morrer e logo a seguir a situação de esse sentimento desaparecer ao estar no meio do passeio, quase caída no chão, segurada pelas mãos de um rapaz de fato e gravata.
- Mas... mas que! – Atónica, olhava para Dwayne com olhos bem abertos e a boca a tremer.
- Tenha calma, conseguiu cair para o lado e por pouco não era apanhada, ficou inconsciente e agora acordou. Espere por uma ambulância e tenha mais cuidado para a próxima. – Mentiu ele, ao tentar esboçar um sorriso que acabou por sair como um movimento ligeiro no rosto para depois a largar ao começar a ouvir sirenes por perto. Olhou uma última vez para onde deixara o carro e apenas viu uma bola preta a deixar fumo e a arder e pensou na sorte que muitas vezes tinha em conseguir fazer o que fazia. A mulher do telemóvel ainda tentou voltar a olhar para o seu salvador, mas apenas encontrou o vazio e quatro polícias a chegarem perto dela.
No cimo de um prédio por cima dela, Dwayne olhava-a uma última vez, com o fato preto e a gravata a esvoaçarem para um lado e o outro. Depois voltou a desaparecer, para agora estar perto da sua empresa, olhou o relógio e viu que eram 9:05. Até que não estava muito atrasado.
O que era para ser um dia normal no trabalho acabou por correr de maneira diferente. Afinal agora tinha de voltar para casa com a sua habilidade sobrenatural para evitar os táxis e tratar de arranjar um novo transporte o quanto antes. As pessoas poderiam começar a estranhar.
Ao entrar e chamar à atenção da rececionista no rés-do chão, cumprimentou a mesmo e preparou-se para chegar ao seu andar naquele grande empreendimento. Pelo caminho, antes de conseguir chegar ao elevador mais próximo, reparou que alguém o seguia e ao olhar para trás, deu de caras com um outro rapaz de rosto sorridente a olhar para ele. Esse rapaz de fato cinzento deu-lhe uma valente pancada nas costas, não fossem eles grandes amigos e também quase meio irmãos.
- Chris, então! – Cumprimentou Dwayne, recebendo um valente aperto de mão. Tratava-se de Christopher Carter, rapaz de cabelos cor de avelã, da mesma idade que ele, filho do homem rico que era o dono supremo daquela multinacional empresa de calçado desportivo. Tinham uma grande amizade desde os seus 14 anos, quando eram colegas de escola. Depois disso Chris tomou conhecimento da situação dele e acolhera-o na sua mansão. Também ele era chefe na empresa, só que de um sector diferente. Enquanto Dwayne estava como líder do sector de vendas e comércio no andar 10, Christopher geria o gabinete dos desenhadores no andar 23.
- Atrasado como sempre, não? – Dizia ele, ao entrarem em conjunto no elevador, apenas ocupado pelos dois.
- Não acho que esteja muito. Tive apenas um contratempo pelo caminho. – Retorquiu Dwayne, um pouco menos ríspido que o costume, afinal estava com o amigo. Ao mesmo tempo carregava no botão transparente com o número 10 desenhado e as portas fecharam.
- Que tipo de contratempo? Alguma gaja? – Riu alto ao lançar-lhe um olhar que só os amigos reconheciam uns nos outros e esse mesmo riso ecoou pelo compartimento fechado.
Com um rosto carregado de azedum, Dwayne respondeu.
- Não... Mas antes fosse. Acabei de ficar sem carro. Nada de grave para mim, mas acho que ele não vai voltar a trabalhar. Tenho de comprar um novo. – Só ele sabia que o não trabalhar, não se tratava de nada de mecanicamente reparável, afinal a última vez que viu o seu carro topo de gama preto ele era apenas uma bola grande e amarrotada de “nada”.
- Ui algum problema no motor não? Acontece... – Chris viu o amigo simplesmente acenar.
O elevador acabou de subir e ao ser ouvida uma pequena campainha de aviso, as portas de metal abriram-se e o rapaz de cabelos negros saiu no seu andar. Do interior do transporte, o outro rapaz gritou para ele, antes que as portas se fechassem.
- Tens planos para logo? Vamos beber algo?
- Fica para amanhã, prometo. – Disse Dwayne, despedindo-se do colega com um sorriso breve.
- Eu não me esqueço então! – Confirmou o outro e depois carregou no botão e as portas finalmente fecharam-se. O jovem seguiu pelo corredor sobre comprido. Um dia de trabalho estava a ponto de começar, mais um de tantos outros monótonos.
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