O Dom

1 Introdução


A água escorria em grande quantidade pela torneira. De frente ao espelho estava um homem, olhando para seu reflexo. Conseguia identificar o começo da velhice aparecendo em seu rosto, pequenas rugas em vários lugares, e alguns pelos brancos em sua barba. Sua expressão triste fazia com que ganhasse mais idade. A torneira continuava despejando jatos de água, mas ele não estava prestando atenção naquilo. Uma torneira aberta era um pequeno grão de areia no meio de tudo que havia acontecido. O nome dele era Samuel Ollie, trinta e cinco anos. Um dos melhores advogados, talvez o melhor, em fechar acordos do país. Antigamente quando olhava aquele rosto quadrado, com proporções exatas, olhos azuis escuros, nariz fino e pontudo, cabelos castanhos e lisos, ele sentia orgulho. Sentia como se fosse o homem mais lindo da face da terra. Agora o que ele enxergava no espelho era um homem tão horrível por dentro, que seu exterior começava a refletir aquilo. Sentia nojo de si mesmo.

— Como chegou tão baixo? — questionou o reflexo no espelho.

Samuel foi retirado de seus pensamentos quando a água na pia acumulara a ponto de transbordar e começar a cair em seu sapato. Ele se assustou, e tirou seu pé do lugar por instinto. Olhou seu sapato molhado, e lembrou que o havia mandado engraxar mais cedo. Todo o trabalho jogado fora, ele pensou. Ficou irritado por aquele tipo de pensamento ter sido o primeiro a surgir em sua mente, após tudo que acontecera.

As imagens do que havia feito mais cedo voltaram a sua mente, o golpeando por dentro sem parar. Ele não aguentava mais. Sentou-se no chão molhado, e ficou lá. Seu terno azul escurecendo por causa da água. Não levantaria nunca mais se pudesse.

A torneira continuava aberta.