O Dom
2 Capítulo 1
No lugar onde Samuel Ollie trabalhava festas em comemoração a metas batidas, ou casos fechados, aconteciam raramente. E uma dessas poucas vezes, ele foi o motivo. Era sábado à noite, e o prédio onde a S&D Associados era situada estava reservado para esta festa. Todos os funcionários do escritório foram convidados, desde o associado sênior, até as pessoas responsáveis pela limpeza. Aquilo incomodara pessoas como Samuel, pois não achavam necessária a presença de pessoas que não tiveram influência nenhuma naquela conquista. Mas suas reclamações não foram ouvidas, por isso diversos faxineiros estavam próximos a nata dos advogados, com seu ternos emprestados. A imagem era engraçada, pois alguns vestiam ternos grandes demais, outros calças que pareciam mais bermudas. Um deles chamou a atenção de Samuel. O funcionário era alto e magro, mas seu terno emprestado deveria pertencer a um homem obeso, vê-lo naquele traje o fez lembrar-se de um personagem de desenho animado. Comentou com seus colegas, e todos riram em alto e bom som, não se preocupando em disfarçar quais eram os alvos das risadas.
A comemoração era em homenagem ao acordo mais lucrativo nos últimos dez anos da empresa, que fora fechado por Samuel Ollie no mesmo anterior. Uma faixa com seu nome e uma frase parabenizando sua conquista estava na entrada do local.
Samuel estava rodeado de outros associados. Carmichael, Jones, Silva e Martinez. Samuel simpatizava com apenas dois do quatro, Jones e Silva, pois eles eram bons no que faziam, e mereciam ocupar a cadeira onde estavam. Carmichael e Martinez em sua opinião chegaram onde estavam por sorte, eles eram da velha guarda, não tiveram que sobreviver ao mercado de trabalho atual, que era uma guerra constante. Jones tinha quarenta anos, moreno, um pouco mais alto que Samuel. Careca, pois era a única forma de disfarçar sua calvice herdada do seu avô paterno, e pequenos olhos pretos. Silva era um pouco mais velho, quarenta e dois. Era o menor dos cinco, com um pouco mais de um metro e setenta, frequentemente era motivo de piada pelos corredores por causa de seu tamanho. Silva não era um homem feio, mas não tinha nada de atrativo, seu rosto era comum. Cabelos escuros, penteados para o lado. Olhos castanhos, e um rosto triangular. Carmichael e Martinez tinham mais de cinquenta anos. Samuel nunca procurara saber a idade exata, mas chutava que passava de cinquenta e cinco, talvez algo próximo dos sessenta, não por causa de suas aparências, mas sim pelo jeito de falar, e agir, eles eram antiquados. Carmichael possuía um rosto redondo, no topo de sua cabeça havia uma coroa de cabelos castanhos, com uma careca brilhante no meio. Usava óculos o tempo todo, mesmo não necessitando. Seus olhos eram verdes, e diversas rugas começavam a aparecer abaixo deles. Martinez era negro, e quem quer que apenas o olhasse acharia que tinha uma idade próxima a de Silva, ou Jones. Ele não aparentava a idade. Sua pele negra brilhava, dando um aspecto de novo, até a pele de sua cabeça raspada tinha esse efeito. Martinez fazia academia desde seus vinte anos, e por isso preservava músculos grandes e fortes em todo seu corpo, visíveis inclusive quando estava vestido de terno. Samuel de inicio gostara de Martinez, e ficara surpresa quando descobriu sua idade, mas quando o conheceu melhor percebeu que ele era apenas uma cópia de Carmichael, ou talvez fosse o contrário. Não importa, Samuel não gostava de ambos. Mas ele tinha que admitir, os dois eram ótimos advogados. Fechavam tantos acordados quanto ele, Jones e Silva, alguns meses até mais, e sempre utilizando seu métodos da velha guarda.
— Então Samuel, quando irá nos contar o segredo do acordo? – perguntou Martinez.
— Afinal, todos nós estamos cientes de que aquela empresa deixara claro que nunca fecharia o acordo conosco. E foram sérios quando disseram isso – disse Jones, antes que Samuel pudesse responder a pergunta de Martinez.
— Caros amigos, não preferem meu salário ao invés de saber o segredo? – perguntou Samuel brincando. – Afinal, é praticamente a mesma coisa.
Todos riram da brincadeira de Samuel. Uma risada educada do lado de Carmichael que estava se corroendo por dentro para descobrir como ele conseguira fechar o acordo com a empresa que ele ficara dois anos negociando para no final ter que se afastar, e passar o caso para Samuel.
— Nosso amigo não vai revelar o segredo, e não devemos culpar ele. Afinal, são esses segredos que fazem dele um dos melhores daqui – disse Silva; colocou o braço no pescoço de Samuel, e o chacoalhou um pouco, sorrindo para seu companheiro de trabalho.
— Então desistam, e troquem o disco – disse Jones se dirigindo a Carmichael e Martinez, que entenderam a mensagem e começaram a falar de outro assunto.
— Já escolheu seu assistente, Samuel? – perguntou Martinez, que bebia um pouco de champagne da taça que o garçom lhe entregara.
— Ainda não – respondeu Samuel. – Nenhum deles me agradou.
— Nem mesmo o tal de... – Jones parou, tentando lembrar o nome do candidato a vaga de assistente que ouvirá falar durante a semana; aparentemente ele foi o melhor em todas as matérias durantes os cinco anos de faculdade, e passara no exame da ordem na primeira tentativa, sem ingressar em nenhum curso preparatório. – “Alguma coisa Lut”.
— Tiago Lut – Samuel corrigiu.
— Isso mesmo – disse Jones.
— Ele é bom, preciso admitir. Mas simplesmente não atendeu as minhas expectativas. Ele chegou na entrevista falando sobre erros que eu cometi na minha carreira.
Os quatro olharam com uma expressão de desaprovação ao ouvir o que o assistente fizera. Carmichael sorria por dentro, pois desde o primeiro dia que ouviu falar de Samuel Ollie tem a vontade de trazer algo a tona que fizesse as pessoas ao seu redor perceberem que ele não é um advogado tão bom assim.
— ... acha que tem cabimento isso? Vir criticar seu futuro chefe em uma entrevista de emprego?! – continuou Samuel; o jeito como falava demonstrava um pouco de raiva, mas quem o conhecesse melhor saberia que estava calmo por dentro. Aquilo não o afetara em nada.
Aquela conversa durou um pouco mais de uma hora. Tempo o suficiente para todos os convidados chegarem, e a comemoração ter inicio. Chamaram Samuel até o palco para dizer algumas palavras de agradecimento, que foi até lá de bom gosto.
— Me pediram para subir aqui e dizer algumas palavras bonitas – Samuel começou. – Bem. Todos vocês sabem que sou bom com palavras, caso contrário não teria conseguido o motivo desta festa – todos riram do comentário. – Mas o intuito de uma festa é aproveitar. E não irei tomar o tempo de vocês para me verem fazendo o que faço todo dia, que é falar – Samuel levantou a taça com a mão direita, enquanto continuava falando com o microfone em sua mão esquerda. – Queria agradecer a diretoria pelo reconhecimento, e realizar um brinde em homenagem a esta empresa, ela merece.
Após o discurso de Samuel o local foi dominado por barulho de taças se chocando, pessoas rindo e parabenizando a empresa em voz alta.
Ele desceu do palco e voltou ao seu grupo, onde foi recebido com sorrisos, e congratulações pelo discurso.
— Sucinto – disse Jones, enquanto parabenizava seu colega. – Gostaria que os discursos de todos fossem assim. Dormiria menos em festa corporativas – ele deu uma risada após o comentário, e Samuel retribuiu.
— E eu achando que você iria homenagear o Palmeiras por estar sendo rebaixado novamente – caçoou Silva. – Já estava me preparando para te agredir quando voltasse.
— Preferi ficar calado sobre isso – disse Samuel. – Não achei que seu time precisasse que a realidade cruel fosse exposta novamente, e na frente de diversas pessoas de influência – o sorriso de Silva sumira. – Então, de nada pelo ato de caridade que realizei. Salvei seu time de mais uma humilhação pública.
Exceto Silva, todos riram do comentário. Samuel percebeu que seu amigo começava a levar a brincadeira a sério e se aproximou dele dizendo frases para apaziguar a situação entre os dois. Funcionara, e os cinco voltaram a conversar de assuntos aleatórios até o fim da festa.
O problema é que agora algo dominava os pensamentos de Samuel, o candidato que apontou seus erros. Não o havia contratado, pois sentira-se ameaçado por ele, e não podia admitir um sentimento como aquele o dominar. Não era certo o que ocorrera, um jovem de vinte e dois anos o intimidando.
Aquele assunto o abominou durante algum tempo, até decidir sair de lá e ir para seu apartamento dormir um pouco. Mas precisava de companhia, noites solitárias não eram mais seu estilo.
Samuel avistou uma jovem conversando com dois funcionários da empresa. Ela era alta, cabelo longos, negros e lisos, caindo sobre seus ombros descobertos. Sua pele morena do Sol chamava mais atenção por causa do vestido preto que vestia. Ele cobria o necessário de seu corpo, desde o busto até um pouco acima do joelho. O tecido do vestido estava colado em seu corpo, revelando uma silhueta perfeita. Seria esta jovem seu entretenimento da noite.
— Olá, senhorita... – ele disse, esperando que ela completasse a frase.
— Olá senhor Ollie – ela respondeu; não demonstrava a intenção de continuar falando, e revelar seu nome.
— Estou curioso sobre uma coisa. Você trabalha aqui?
— Eu poderia dizer que sim, afinal sei seu nome – ela disse, um sorriso inocente, mas falso, surgia em seu rosto.
— Todos sabem meu nome – ele retrucou.
— Ninguém gosta de pessoas convencidas – o sorriso inocente fora substituído por um ousado; Samuel entendia que ela estava se divertindo com aquilo, mas o tempo corria e não tinha humor para conversas longas.
— Ninguém? Então estou perdendo meu tempo conversando com você. Agora está bem claro que não me acompanhara até meu apartamento – ele disse; seu sorriso sumira e antes que ouvisse a resposta da jovem ele iniciou uma caminhada na direção contrária dela.
— Ei, senhor Ollie – ela chamou, levantando um pouco sua voz.
Samuel não dormiria sozinho esta noite.
A jovem chamava-se Angelina, tinha vinte e quatro anos, e acompanhara um amigo, que gostaria de ser mais do que isso, até o evento. Cursava Direito, e imaginou que seria uma boa oportunidade conhecer um dos melhores escritórios de advocacia do país. Agora estava deitada na cama de Samuel, debaixo de seu edredom cinza. Suas roupas tornaram-se parte da decoração do quarto, algumas no chão, outras em cima de cômodas, e algumas na mesa de seu computador. A jovem sucumbira ao sono, mas ele continuava acordado, e cheio de energia. Não pensava mais no candidato. Estava pensando em como era bom ser ele. Samuel possuía tudo que queria, desde carros, até convites para os lugares mais exclusivos. Não importava-se com amores, o romance para ele era ter uma garota nova a cada dia em sua cama. A única paixão que possuía era seu trabalho.
Tirou o edredom que cobria suas pernas, e levantou-se da cama. Foi até o outro cômodo do apartamento, onde ficava seu mini bar, e pegou uma garrafa de whiky importada, ganhara de Jones na semana passada em homenagem a sua conquista. Abriu uma gaveta onde estavam diversos copos de vidro. Pegou um e despejou um pouco do liquido amarronzado nele. O gosto da bebida o fazia lembrar-se novamente de quão bem sucedido era. Um sorriso satisfeito brotou em seu rosto. Colocou o copo na bancada e voltou para a cama.
Puxou o edredom, revelando parte do corpo de Angelina. Ela era ainda mais bonita sem roupa. Poderia acorda-la e ter outra rodada do que acontecera minutos atrás, mas logo seria manhã, e precisava dormir.
Deitou ao lado da jovem, e em poucos segundos adormeceu. Não sonhara, apenas fora vitima de uma lembrança do passado.
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