Após uma temporada das minhas férias de verão na Flórida, especificamente em Jacksonville, volto para minha vida patética e tediosa em Nova York. No geral, não sou do tipo que adora viver na cidade grande, mesmo pelo fato de eu ter nascido em uma. Quem eu sou? Bom, meu nome é Melanie, 16 anos, vegetariana, hm, é o que eu posso revelar no momento. Não, não faço o tipo de garota “enigmática”, ou coisa parecida, na verdade, na maioria das vezes encontro dificuldades até mesmo para me autodescrever, o que, pelo meu ver, não é problema algum, já que posso passar boa parte do meu tempo sendo, involuntariamente, meu próprio enigma. Apesar dessa minha tendência muitas das vezes desastrosa e até difícil de compreender, sou literalmente normal, como qualquer outra garota de 16 anos: tenho minhas manias, hobbies, ideias, planos, sonhos e preferências... Só ainda não as descobri.

Quarta-feira, 10.

Hoje, pela manhã, acordei de bom humor, o que pra mim era um recorde. Mas não era por algo qualquer. O fato é: falta menos de um mês para as inscrições do “Ler Para Viver”. Trata-se de uma competição anual em que são sorteados cinco dos candidatos que se submetem a cumprir com as exigências descritas no regulamento do evento. O prêmio do vencedor seria nada mais, nada menos que o gloriosíssimo 1º lugar no ranking dos Melhores Escritores Amadores de Nova York. Para alguns, não é grande coisa, mas para mim é tudo o que uma garota como eu poderia querer. — Com “como eu” quero dizer: desprovida de talentos intelectuais, musicais ou qualquer outro termo linguístico que envolva “arte”. Nunca passou pela minha cabeça que ser um escritor significasse ser um artista, afinal, você estaria apenas criando histórias fictícias sobre um personagem fictício em um ambiente fictício para pessoas que apreciam um mundo fictício. Nada mais que isso. Disseram-me uma vez que se você se opõe à criatividade, você automaticamente está dando espaço ao seu lado artístico, e, convenhamos que criar algo fictício necessita demasiadamente de criatividade. Mas ainda sim, não me considero uma artista por apenas saber escrever e inventar histórias.

Dirigi-me até meu banheiro e fiz minha higiene. Eu não poderia perder tempo, pois já eram 7: 30 e deveria estar na escola exatamente às 8: 00 em ponto. Chegar atrasada nos lugares já tinha se tornado um clichê meu. De volta ao meu quarto, vesti o que encontrei pela frente em meu guarda-roupa: um jeans azul meio desbotado, uma blusa regata da U2 e uma jaqueta preta por cima, com meu velho indispensável all-star para complementar o resto do look. Para finalizar, penteei meu cabelo para trás e o deixei solto mesmo. Eu não tinha mais tempo para inventar penteados dignos do tapete vermelho, até porque eu gosto do básico, eu gosto de não ter que fazer o tal coque frouxo para ir até a padaria. Gosto de ser distinguível. Estava quase terminando de me arrumar quando ouvi minha mãe chamando, em um tom do tipo "MELANIE, DESÇA JÁ DAÍ! OU ESQUEÇA SUA INSCRIÇÃO E TODAS SUAS CHANCES DE TER UMA VIDA SOCIAL DIGNA!". Ok, talvez eu tenha exagerado um pouco, enfim... Desci rapidamente até a cozinha, peguei uma maçã e a mochila em cima da cadeira e corri direto para o carro. Sentei no banco do carona. Foi barra ter que aguentar minha mãe reclamando o caminho inteiro do meu atraso diário, até que enfim chegamos ao colégio. Para mim, seria mais um dia olhando para o relógio a cada dois minutos durante a aula de biologia da Srta. Parker, mas a verdade é que depois daquela manhã exaustiva, nada mais seria o mesmo. Minha vida mudaria de uma forma inimaginável.