O Doador de Pensamentos
2 A Ponta do Iceberg
Naquela manhã, tudo parecia diferente. Eu não sabia exatamente por qual razão, mas ainda sim algo dentro de mim insistia em deixar aquela sensação estranha passar despercebido. Assim que chegamos ao nosso destino, mamãe estacionou em frente à entrada dos alunos. Era meio constrangedor chegar à escola de carona com a mãe coruja super-protetora, quero dizer, a maioria dos alunos da minha idade já tinha seu próprio carro, sua própria carteira. Mas eu não. Eu era a garota antipática e esnobe que chegava sempre de carona na caminhonete velha dos pais. Mas tudo bem. Dylan e Beatrice eram meus melhores amigos, eu tinha facilidade em me comunicar com as pessoas, mas na maioria das vezes só eles, apenas eles me compreendiam, não que eu fosse fácil de compreender.
– E aí, abelha rainha?! O que manda?
– Vai se catar, Dylan! – Disse eu dando de ombros. Tínhamos o costume de sempre esperarmos uns aos outros antes de entrarmos no “corredor da morte”, que era como chamávamos o “hall” do colégio. Tínhamos traumas das macabras e mais assustadoras idiotices fatais que o Jason Parker tinha feito com alguns dos alunos do 7º ano. E o pior: Eu era “alguns dos alunos do 7º ano”. Mesmo já fazendo quase três anos do acontecimento desse fato extremamente vergonhoso, eu me lembrava como se fosse uma semana atrás, eu sinceramente não queria recordar isso, mas sempre que eu chegava àquele corredor aqueles mesmos pensamentos vinham à tona: Era uma manhã como outra qualquer. Estávamos voltando da exaustiva aula de educação física do professor Carlos. Quando voltei ao vestuário, notei alguns rastros no chão de algo que parecia ser mel. Achei aquilo tudo um tanto bizarro, fui seguindo os rastros, até que encontrei uma mochila que não era minha dentro do meu porta-trecos (sim, eu tinha um porta-trecos dentro do meu vestuário, era um armário, mas isso era muito clichê, então, o nome era porta-trecos mesmo.). Quando abri, saiu algo lá de dentro, voando, rumo a não-sei-aonde. Eu, imprudentemente, enfiei minha mão dentro da mochila e... adivinhem! Um exército de abelhas! O resultado foi frustrante: Sai correndo como uma louca, indo direto para a sala de enfermagem, coberta apenas por uma toalha. Tudo que me recordo são os sons e risadas altas das líderes de torcida e dos caras do time de futebol da escola. Tá aí o motivo do meu apelido clássico “abelha-rainha”. A minha sorte, é que o pessoal que estava presente neste dia, tinham todos já se formado, e, por incrível que pareça, a maioria deles estavam estudando na universidade de Nova York, inclusive Jason. O que significava que eu não iria mais sofrer com as piadas constrangedoras daqueles alunos da classe social hierárquica estudantil, que, pelo meu ver, era bem mais alta que a minha.
– Wow! Parece que alguém acordou de mau-humor hoje... – Disse Dylan com desdém.
– Não é mau-humor, é só que... Esse apelido já cansou, e você como meu amigo deveria me chamar da forma que um amigo chama uma amiga, não acha?
– É... Foi mal aí.
– E aí, Mel? Está preparada pra competição? – Disse Beatrice vindo até nós, feliz, correndo em passinhos curtos, pois seus saltos não a permitiam poupar sua caminhada.
– Estou, acho. E você? Vai participar também ou essa sua alegria tem outro motivo... hmm... especial?
– Aiin a quem estou tentando enganar?! Ok. É o Nathan! Ele me convidou para ser o par dele no baile de formatura.
– Baile? Ainda faltam meses para o baile.
– Pois é. Significa que ele deve estar muito interessado mesmo em me levar, né? Pra me convidar assim tão previamente...
Nathan Johansson era o garoto mais cobiçado do colégio. Apenas uma garota de muita sorte mesmo teria o imensurável privilégio de ser convidada pelo próprio a ser seu par para o baile. E sim. Tris, com todas suas manias chatas e defeitos, era essa garota de sorte.
– Ok. Srta. Johansson. Curta seu momento, porque agora é hora da primeira aula do dia. – Disse eu tirando do bolso da mochila um papel com os horários das minhas aulas. — E a próxima é... Filosofia. Droga! Detesto filosofia!
– Tá brincando?! Acho que você deveria gostar, já que demonstra ser uma garota tão culta. – Disse Beatrice em um tom de deboche. Reviro os olhos em resposta.
Percebo que Dylan está distraído olhando alguma coisa, que pelo que parece, deve ser algo muito importante, capaz de deixa-lo tão focado. Então, só por curiosidade, pergunto:
– O que tem de tão interessante aí?
– Ah, acho que você não vai gostar nada...
– FALA LOGO!
– Ok. Depois não diga que eu não avisei. Bom, pelo que parece, seu professor de Filosofia já passou pelas principais e mais populares escolas do bairro. E em todos os colégios em que ele deu aula, o comportamento de alguns alunos mais próximos dele mudou completamente.
– Como assim? E qual é o problema? Isso é bem sinistro, na verdade. – Disse Tris entrando no assunto.
– Calma, já vou explicar. Posso continuar? Mel?
– Prossiga. – Eu disse. Estava mesmo interessada em saber alguma coisa sobre aquilo.
– Ok. Depois de algum tempo, os pais de alguns desses mesmos alunos os encontraram jogados no meio deserto do subúrbio. Mortos. Já os outros...
– Os outros o quê?
– Não sei direito. Mas muitos dos familiares testemunharam algo que fez parecer que esses alunos se suicidaram.
– Credo! Esse cara é algum tipo de masoquista? – Perguntou Beatrice.
– Não. Deve ter alguns problemas psicóticos ou sei lá. Mas seja o que for a ficha dele está bem suja, hein!
– Isso é ridículo! Com certeza é algum conto de terror bizarro, típico dos colégios desse bairro.
– Sem querer tirar o seu barato, Mel, mas isso me parece ser bem real.
– Fontes?
– wikiescolarium.com
– É isso que você faz no seu tempo livre? Pesquisa de sites bizarros que revela casos bizarros de professores bizarros? – Questionou Tris.
– Na verdade não. Essa minha “pesquisa” foi bem aleatória, se você quer saber.
– Que ótimo. Só uma coincidência. E de qualquer forma, eu nunca me deixaria influenciar por uma pessoa desconhecida. A aula tosca dele não vai mudar merda nenhuma na minha vida, vocês vão ver, eu garanto!
– Honestamente, Mel. Essa pesquisa não pôde ter sido tão aleatória assim. Deve ter algum podre por trás disso tudo, e por incrível que pareça esse site é a ponte que nos levará a solucionar esse mistério. – Disse Tris, com ar de seriedade. Ela sempre foi um tanto dramática. Eu não sabia se ria, ou se apoiava essa ideia maluca dela.
– Quer saber? Vocês estão ficando malucos! Não temos obrigação de desvendar nada. Isso não tem nada a ver com a gente! Não é da nossa conta! Se esse professor quiser enterrar mais alunos com as filosofias medíocres dele, que seja. Eu sou impotente quanto a isso. Eu só quero levar uma vida normal nessa droga de colégio, até o fim do ano. E acho que meus amiguinhos queridos poderiam se esforçar só um pouquinho para que isso aconteça. Certo? Enfim. Adoraria se mudássemos de assunto.
– Desculpa. Já estou uns 7 minutos atrasada pra aula. A gente se fala no intervalo entre as duas últimas aulas, pode ser?
– Ok. Mas, por favor, esqueça esse assunto. Não existe nenhum professor alucinado, tá?
– Tá. – Disse Tris com ar de riso.
– Vou-me indo também, Mel. Até daqui a pouco. – Disse Dylan.
Enquanto caminhava em direção à sala de aula, fui pensando no que Dylan e Beatrice haviam dito: será mesmo que devíamos tomar providências quanto àquela situação? Será que se ignorássemos seríamos os próximos a tipo... Morrer? Ou será que tudo aquilo era uma piada de mau gosto para me assustar? Não. Eles não seriam capazes de fazer algo desse tipo. Ou seriam? Ah... Eu estava cada vez mais confusa, e pela primeira vez na vida, eu estava realmente com medo. Mas não o tipo de medo que se têm quando se cai de paraquedas, por exemplo. Mas um tipo de medo indescritivelmente nauseante e amedrontador, do tipo que chega a causar um frio na espinha. Mas, por quê? Qual era a função daqueles pensamentos? Por que eu teria que acreditar em um inventário escolar online idiota? Por que tantas perguntas?
À medida que eu ia me aproximando da porta da sala, a tensão aumentava ainda mais.
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