O Diário do Padre Thomas
4 20 de Outubro, 2003
Hoje fui visitar mamãe, fiquei muito feliz em poder vê-la, mas fiquei preocupado com algo.
Hoje, quando cheguei no seu quarto, ela abriu um sorriso enorme de satisfação e alegria, seus olhos brilharam ao me ver. Eu também não consegui esconder a alegria em ver minha amada mãe sorrindo, pois se eu estivesse na situação que ela estava, com certeza não conseguiria me sentir bem em nenhum momento. Perguntei como ela se sentia e como estavam sendo os dias dela no hospital. No meio da conversa ela me contou que teve um pesadelo e os acontecimentos que se sucederam não saíam de minha mente. Quando pedi para que ela me contasse o que sonhou, as palavras dela foram mais ou menos assim:
—Sonhei que eu estava em minha casa e em volta de mim haviam várias rosas roxas. Foi quando começou a tocar uma música familiar, não consigo me lembrar de onde eu conhecia aquela música, mas sei que já a ouvi. Abriram a porta e entraram sem se convidar. Tinha uma mulher magra, muito linda e de cabelo comprido, visualmente uma mulher muito bela. Junto dela estava uma garotinha com um olhar vazio e inexpressivo. Então foi quando entrou uma pessoa que me causou um certo incômodo. Era Yuli, sua ex-namorada, ela me olhava com um ódio nítido no olhar. Ela parou por cima das rosas e falou que sua cor preferida era o vermelho. Foi então que ela ajoelhou por sobre as rosas e abriu os braços, proferindo umas palavras um tanto quanto incomuns. A mulher que havia entrado junto dela, foi em direção a um dos braços e a garotinha em direção ao outro. As duas possuíam navalhas nas mãos e começaram a perfurar o pulso de Yuli, rasgando a carne de seus braços em direção ao seu peito. Pararam de cortar assim que percorreram todo o antebraço dela. Yuli começou a chorar, porém suas lágrimas não eram comuns, eram lágrimas de sangue, que formavam uma cachoeira doentia junto ao sangue que caía de seus braços, cobrindo as rosas e aos poucos iam transformando a cor das mesmas em um vermelho puro. Yuli já estava pálida quando me disse que eu pagaria por tudo o que eu fiz. A mulher que cortou um dos braços dela me falou algo que me deixou pensativa, foi algo mais ou menos do tipo — aqueles que possuem dívidas devem pagar, os pecadores que se escondem em pele de cordeiros são piores que os demônios e eu vim buscar quem é pior do que a mim. – Depois das palavras pronunciadas pela mulher misteriosa, Yuli soltou um grito demoníaco e me disse em alto e bom som que, nenhuma flor fica de pé durante a eternidade, elas acabam murchando e se desmanchando em esquecimento eterno, e assim será com você. Então eu acordei assustada aqui, desde então fiquei com esse sonho maluco na cabeça, já pensou que loucura meu filho?
Mamãe me disse essas coisas hoje e eu me senti muito mal com tudo aquilo. Curiosamente, eu pude sentir o cheiro do perfume de Yuli no local. Minha mãe então me perguntou se eu lembrava de uma música e fez alguns sons com a boca. Aquilo me causou terror e espanto, pois a música que ela tentava reproduzir, era a mesma música que eu e Yuli costumávamos ouvir juntos. Senti um leve arrepio na espinha, quando eu vi Yuli bem em minha frente. Esfreguei os olhos com força e forcei a visão. Aparentemente, não havia mais ninguém ali além de nós. Perguntei para mamãe se ela estava sentindo aquele perfume, ela balançou a cabeça em sinal negativo dizendo que não estava sentindo cheiro algum.
Entreguei para ela um presente que eu havia comprado. Era uma caixinha de música, com uma bailarina dentro. Como o esperado ela adorou, eu sempre soube que ela adorava coisas relacionadas à dança, principalmente ao balé. Ela já havia me confessado certa vez que seu sonho era ser bailarina, mas por culpa de seu pai não pôde seguir seu sonho e teve de casar cedo. Fiquei mais um tempo com ela e decidi ir embora para a igreja. Prometi a ela que rezaria por ela e que voltaria em breve para visitá-la. Sua alegria se foi de seu rosto, pude ver nitidamente a sua tristeza ao me ver saindo, porém eu precisava viver a minha vida. Mas pensando melhor, eu tenho realmente uma vida?
Enquanto eu caminhava pelos corredores do hospital eu vi muito sofrimento. Pessoas sangrando, algumas com metade da perna cortada. Em uma cama um homem estava amarrado por cintos e se debatia, gritava como um porco quando está sendo sacrificado. Uma mulher vomitava sangue e se contorcia no chão de dor. Eu estava horrorizado com tudo, como aquilo era possível? Foi quando me esbarrei em alguém. Era Sasha, ela me recepcionou com um sorriso e me disse:
—Porque essa cara? Por acaso estava olhando com a alma? Olhe novamente e veja o que seus olhos físicos enxergam, e eu posso lhe dizer que a realidade era o que você viu e não o que costuma ver todos os dias.
Fiquei confuso e resolvi olhar para trás. Tudo o que eu havia visto tinha desaparecido. Ali estava um homem deitado em uma maca tomando soro na veia e um pouco mais no canto da parede estava uma mulher com a perna enfaixada, provavelmente vítima de alguma torção. Um garota estava encolhida em um canto reclamando de dor de estômago, enquanto a mãe estava de pé falando com o médico. Mas não foi apenas as cenas chocantes e horrendas que presenciei que desapareceram, Sasha também sumiu.
Enquanto estava a caminho da igreja, fiquei pensando por um longo tempo o que a expressão “olhar com a alma” queria realmente dizer. Sasha seria uma ilusão de minha mente? Se ela não fosse, o que ela poderia ser? Um demônio? Minha vontade de rir começou quando pensei nisso. Teoria idiota esta das existências de tais seres desprezíveis.
Quando cheguei na igreja, me deparei com uma garota loira que estava ajoelhada e concentrada em sua oração. Passei por ela bem devagar para não atrapalhar a sua oração, mas ela me surpreendeu com um “boa tarde”. Respondi amigavelmente e ia continuar andando até uma sala que tinha ao lado, quando ela pediu para que eu esperasse falando em tom autoritário:
—Espere Padre Thomas. Onde o senhor pensa que vai? O senhor precisa se confessar.
Olhei espantado para a garota que estava em minha frente. Como poderia uma figura tão delicada daquelas falar daquela maneira autoritária? Perguntei o nome da garota e o que ela procurava, a mesma me respondeu sem rodeios:
—Me desculpe senhor Thomas. Onde é que estão meus modos não é mesmo? Bom, meu nome é Eleonora e eu vim para que o senhor pudesse se confessar. Em seus olhos eu vejo o terror, a morte e a indecisão, e isso me deixa profundamente preocupada.
Naquele momento fiquei parado como uma estátua, pensando quais os motivos para aquela garota estar dizendo aquilo. Eleonora era uma garota bem jovem, provavelmente tinha uns 17 anos, era magra, branca, loira e era dona de orgulhosos olhos verdes. No começo, pensei ser apenas uma jovem maluca, mas ela sabia de coisas estranhas. Sua sabedoria era imensa, ela falava com um magnetismo inexplicável. Seu olhar era firme e ela parecia sempre saber do que falava. Ela então insistiu mais uma vez irritada: “_E então senhor Thomas, quando irá começar sua confissão? O senhor pecou e precisa se redimir por isto.”
Dessa vez eu que me irritei e respondi a ela com um tom meio irritado, dizendo que eu não precisava me confessar com ninguém e que minha consciência estava limpa.
Olhei atentamente para a garota, mas ela pareceu inexpressiva. Eleonora então me falou: _Senhor Thomas, a vida não é da forma como o senhor pensa. Quem foi William afinal?
Quando ela me falou esse nome, eu fiquei surpreso. Como ela poderia saber sobre William? Talvez ela pudesse ser outro fruto dos meus delírios recentes. Fiquei interessado e pedi para ela prosseguir com o que ela sabia sobre mim. Ela então continuou:
—Sei muita coisa ao seu respeito meu caro. Sei que você não deveria ser um padre de verdade, pois isso exige vocação e dedicação, e não apenas seguir os caprichos de uma mãe que está doente. Sei também sobre sua pobre ex-namorada que se suicidou, talvez isso não seja necessariamente sua culpa, mas o senhor deixou tudo isto caminhar para este fim. Agora, vou te falar sobre algo que o senhor acha que sabe, mas no fundo está inocente. Quem foi William afinal? Seria ele vítima do destino? Ou um psicopata cruel e sem escrúpulos? Veja senhor Thomas, a filha de William nunca foi humana, ou melhor dizendo, ela era um demônio. Sara é a princesa do inferno e vive na consciência de todos os psicopatas, ela é a herdeira do trono da grande Sasha. William sempre foi psicótico e sempre maltratou sua mulher. Pobre Marta, tinha de conviver com esse peso, afinal ela amava o cara. Uma coisa que William não mentiu, foi sobre a viagem e o acidente que tiveram. Outro fato, foi o de William começar a liberar seu instinto assassino depois da morte de sua mulher. Desde então, os delírios com a jovem Sara só pioraram. Aquela que ele amava como filha foi sua principal ruína. A loucura de William era algo real, fato que Marta nunca cogitou.
Eu estava perplexo, aquilo não fazia sentido. Ou melhor, fazia até mais sentido do que eu imaginava. Mas e a foto da família? O homem havia me entregado a foto antes de morrer. Comecei a sentir tonturas e a ficar nervoso, pedi para Eleonora se retirar e voltar outro dia, eu precisava pensar. A garota concordou e se despediu com um sorriso.
Fui embora da igreja mais cedo hoje, este fato me incomodou de modo significativo. Quando cheguei aqui no meu apartamento, meu primeiro ato foi ir até a minha gaveta e pegar a foto, que para meu espanto não possuía a imagem de Sara. Fiquei pensativo, com certeza eu havia ficado maluco. Escutei risos vindos do banheiro novamente, aquilo só poderia ser um pesadelo. Peguei minha toalha, pois precisava tomar uma ducha depois daquele dia cansativo. Fui até o banheiro, a porta estava fechada e as risadas vindas do interior do local estavam intensas. Fechei os olhos e contei até três, abri a porta com rapidez e o silêncio se impôs. Respirei aliviado e fui tomar meu banho. Voltando para o quarto, senti o perfume de Yuli. Estou aqui agora terminando de descrever o que ocorreu hoje. O perfume de Yuli está cada vez mais intenso e pra piorar, as risadas vindas do banheiro começaram novamente e estão se juntando à música que eu e Yuli escutávamos. Sinceramente, hoje não estou com vontade pra mistérios, irei fechar meus olhos e dormir, com certeza isso não me matará e acordarei com vida novamente amanhã.
Fale com o autor