O Diário do Padre Thomas
5 21 de Outubro, 2003
Hoje eu acordei todo acorrentado em minha cama, minha boca estava amordaçada. Yuli estava por cima de mim, ela tinha uma faca em mãos. Enquanto ela admirava a faca eu comecei a entrar em desespero, tentei me mexer de todas as formas, mas sem sucesso algum. Foi quando Yuli me encarou seriamente, levantou a faca acima de sua cabeça enquanto olhava fixamente para mim, foi quando suas mãos vieram de encontro ao meu corpo e a faca atingiu o meu estômago com vontade, eu gritava e ela ria. Foi quando acordei, mas não em minha cama, estava eu em outro sonho horrível e que me incomodou profundamente. Sonhei que eu estava caminhando em um local cheio de sangue, com pessoas presas ao chão clamando por ajuda. Alguns me xingavam e me amaldiçoavam, ouvi uma gritar para mim:
—Você não é padre. Você pertence ao inferno, aqui é o seu verdadeiro lar.
Continuei caminhando sem rumo, lágrimas caíam de meus olhos inexplicavelmente. Sentia um aperto no peito, mas não sabia o porque daquilo. Aproximei-me de uma porta identificada com o meu nome. Abri a mesma e dei de cara com Sasha, ela estava nua e crucificada em uma cruz, presa em sua barriga por pregos e crucificada junto de Sasha estava Sara, ilustrando a forma da misteriosa cruz de quatro braços que William me entregara. As duas gritavam de dor, com sangue e ferimentos espalhados por todo o corpo. Fui até elas em desespero, precisava ajudá-las a sairem de lá, quando então começaram a cair em gargalhadas. Sem entender eu continuei tentando soltá-las, quando elas me falaram em voz demoníaca:
—Você nos pertence padre, e estará conosco em breve. O senhor não possui uma fé firme na bondade de seu criador, e isto será o motivo de sua queda.
O rosto de Sasha tomou proporções estranhas, ela parecia não ter um rosto, foi quando um fogo consumiu o corpo das duas, enquanto continuavam rindo e se contorcendo em meio às chamas. As paredes do lugar em que eu me encontrava, começaram a tremer e o chão se abriu. Cai em um local diferente, logo à minha frente estava a figura da mesma cruz em cima de um trono. Alguém então chamou minha atenção, era Sara me dizendo:
—Adore-me senhor padre e lhe darei tudo aquilo de que necessitas. Basta se ajoelhar perante mim, se não fizer agora fará algum dia, eu represento a raça suprema.
Respondi que aquilo era loucura e que era apenas um sonho, a garota então prosseguiu: _Ótimo senhor Padre, está no caminho certo. Ao invés de clamar pelo seu deus, ou de dizer que nunca me adorará, preferiu apenas dizer que tudo isto é ilusão de sua mente, estou enormemente satisfeita. Em breve nos veremos.
Enquanto ela começou a desaparecer, risadas parecidas com as que vinham de dentro do banheiro quase todas as noites, começaram a surgir em ritmo infernal. Colocaram a mão por cima de meu ombro, era Yuli, ela parecia sufocada em seu próprio sangue, mas permaneceu ali, sorridente, enquanto William surgiu atrás de sua figura com uma aparência satisfeita dizendo: _Eu não lhe disse que as vadias adoram isso senhor padre?
O despertador tocou e eu acordei, com um suor monstruoso e respiração ofegante.
Pela tarde eu me senti mal. Meu estômago e minha cabeça estavam arrasados. O local que eu havia visitado em meu sonho permanecia estampado em minha mente. Só de pensar que aquele poderia ser um inferno real, já embrulhava o meu estômago. O cheiro pútrido do local, os gritos de dor e tudo o mais que eu havia observado se completavam. Ainda não sei como criei forças para abrir o confessionário, mas mesmo assim o fiz, tinhas duas pessoas esperando para se confessarem. Um homem alto de terno e gravata, aparentemente um executivo da alta sociedade, esperava ansiosamente para ser atendido. Uma senhora que frequentava a minha missa, também aguardava.
Entrei no confessionário e esperei até que um dos dois entrasse para começar a desabafar sobre as desventuras de suas vidas e os pecados mais inimagináveis possíveis. O homem entrou primeiro, parecia ter um ar bem sério e sem qualquer pista de humor. Ele começou: _Padre, eu pequei. E não foram uma ou duas vezes, foram várias. Não sei por onde começar, sinto que não estou indo a lugar nenhum dentro da minha vida.
Observei interessado para o estranho que estava ali do outro lado, a confissão dele começou um tanto diferente, mas continuei em silêncio, o mesmo prosseguiu: _Eu não sei mais o que fazer, tudo está me consumindo. A dor padre, a dor me satisfaz. Eu não sei como posso gostar disso, mas adoro me mutilar. Eu sinto um prazer doentio em tudo isto. Me ajude, como posso parar com isto?
Nota: (Eu permaneci imóvel. Não sabia se deveria dar algum conselho, ou dizer apenas “os seus pecados estão perdoados, vá ali pro canto e faça algumas orações”. Sem qualquer decisão em saber o que fazer, apenas pedi que me explicasse o que acontecia realmente.)
O sujeito começou a rir bem devagar e com um ar de euforia começou: _Eu me corto. Eu gosto que me machuquem. Não vejo erro nisso, eu estou confuso. Eu sou casado senhor padre, mas minha mulher não faz o que eu gosto. Eu procuro na rua, homens, mulheres ou qualquer coisa que esteja disposta a me machucar. Olhe isto.
Em um movimento rápido, o homem se levantou e começou a tirar o paletó, logo rasgou a blusa que estava por baixo, levantou as duas mãos e enfiou as duas ao mesmo tempo em suas costelas. O sangue jorrou, enquanto o homem gritava de dor, ao mesmo tempo que parecia sentir prazer com seu ato. Com horror e asco pela cena, gritei com ele: _Pare com isto, por favor.
Ele então sorriu, tirou as duas mãos da carne e num gesto sobrenatural, se levantou pela gravata, esta que foi apertando aos poucos seu pescoço. A voz do homem ficou irreconhecível, algo demoníaco saía de suas cordas vocais, como se fosse um ritual. Enquanto ele pronunciava coisas indecifráveis, algo parecido com vômito escorria de sua boca. O barulho de sua voz foi ficando insuportável. Conforme ia ficando mais alto, minha cabeça parecia que ia explodir. Coloquei minha cabeça por entre minhas pernas e gritei com todas as minhas forças: _Pare, por favor pare. Não aguento mais isso, por favor vá embora!
Logo a senhora que frequenta minhas missas falou: _Me desculpe padre. Nunca pensei que ficar sem dar o dízimo fosse algo tão ruim.
Nota: (Um choque de realidade bateu. O que estava acontecendo afinal? Ela estava ali dentro este tempo todo? Devo estar ficando louco.)
Me recompus e me desculpei rapidamente. Disse a ela que eu andava muito preocupado com a saúde de minha mãe e isto estava me dando nos nervos. Ela assentiu compreensiva e disse: _Tudo bem padre, devo fazer algo para que eu receba o perdão?
Recomendei uma oração e que ela voltasse a contribuir com o que pudesse. Respirei aliviado por alguns segundos. Assim que ela saiu Yuli surgiu do outro lado do confessionário, com uma voz grossa dizendo: _Vai queimar no inferno Thomas.
Pulei para fora do confessionário e cai aos tropeços. A velhinha veio andando meio cambaleante perguntando se eu estava bem. Respondi qualquer coisa e sai dali rapidamente. Corri até o banheiro, joguei água em meu rosto e olhei para minha imagem no espelho. Eu estava acabado, fazia tempos que eu não via meu próprio rosto. Dei-me conta de que estou me tornando apenas um fantasma de mim mesmo. Respirei fundo e repeti para minha imagem: _Isto é tudo loucura. Tudo isto não existe, a confissão de William me provocou isto e me deixou histérico, preciso me acalmar, nada disto existe de verdade.
Ao fim da tarde, fechei a igreja e voltei para o meu apartamento para descansar. No caminho, um garoto me entregou um folheto interessante, que indicava que o Padre Cristiano estaria na cidade amanhã. Este padre era famoso por desafiar os preceitos da igreja e dar sua própria explicação sobre os demônios. Ao que tudo indicava, ele acabara de chegar para expulsar um demônio de um garoto que dizia estar sendo atormentado por espíritos do mal.
Deitei agora à pouco na cama, hoje não ocorreu nada de anormal no apartamento. Talvez hoje eu possa finalmente dormir sem nada à me atormentar.
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