O Diário de Júlio
2 Me enviei uma encomenda.
Minha mãe havia pego um táxi até o hospital, e uma enfermeira que assistiu nosso lamento aconselhou a não voltar para casa dirigindo, poderia ser perigoso. Trouxe minha mãe na garupa até em casa, foi uma viagem cansativa para chegar a um lugar onde esperou horas apenas para receber uma má notícia, que desperdício.
Eu? Não sabia oque pensar de mim, meu pai sempre pensou no meu futuro e dizia inúmeras vezes, "... e quando eu não estiver aqui?", nunca levei a sério é claro, mas agora eu entendia, eu era uma daqueles, daquele ditado, só se valoriza oque tem quando se perde, não que eu não desse valor ao meu pai, mas merda, como eu queria ter dito varias coisas, perguntado.
Estacionei a moto na oficina, e minha mãe veio atrás, eu e meu pai morávamos em cima da oficina, era um bom metro quadrado, e não tínhamos que pagar aluguel, mas dormir de tarde era um luxo, devido ao barulho da oficina. Um pequeno preço. Abri a porta do elevador e minha mãe entrou comigo, ficamos em silêncio, era muito estranho para mim, as únicas mulheres que já levei em casa eram minhas namoradas, nunca, jamais imaginei que traria minha mãe para conhecer minha casa, um sonho que eu abandonei na infância.
Quando a porta abriu, entrei dentro de casa e olhei em volta, as luzes estavam apagadas, o casaco do meu pai estava na cadeira da mesa da sala, como se estivesse pronto para ser usado, e foi neste momento que a ficha caiu, ele nunca mais iria estar ali, meus olhos marejaram, mas não me entreguei.
– Desculpe meu fi-filho, han, é que eu estou muito cansada para pensar direito, podemos deixar a conversa para amanhã? — disse minha mãe com uma voz abatida. -
Compreendi o modo como a palavra "filho" ficou presa na garganta, aquela mulher não me criou, não me educou, para ela, eu era um estranho, ela havia apenas me posto no mundo, senti que ela não estava muito a vontade com a situação.
– Claro, tudo bem, o quarto do meu pai é no fim do corredor a direita, você pode usar ele, não temos um quarto de hóspedes. — disse tentando ser o mais educado possível. — E o banheiro é no fim do corredor.
– Obrigada. — disse, deixou suas coisas em cima da mesa aonde estava do casaco do meu pai e foi pelo corredor entrando no banheiro. -
Eu não havia jantado ainda, estava esperando meu pai, era costume almoçarmos e jantarmos juntos, como um ritual, ele trabalhava muito e eu estudava e trabalhava, as únicas horas livres normalmente eram essas, então tentávamos ficar juntos. Mas naquele momento a fome me largou, não sentia vontade de comer nada, tirei minha camisa devido ao calor e peguei o casaco do meu pai. Ele tinha um amor por aquele casaco que eu não compreendia, tudo bem, ele não era tão louco por ele a ponto de usá-lo em pleno verão no Rio, mas o mantinha sempre a vista.
Levei o casaco para o meu quarto e me deitei, dormindo tão rápido que não tive tempo nem de tirar as calças.
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Acordei por volta das 9 horas da manhã, tirei as calças e coloquei minha bermuda, quando ia abrir a maçaneta da porta os eventos do dia anterior me abateram. Sabia que ao sair por aquela porta não encontraria meu pai fazendo o café ou cozinhando algo para o almoço, sabia que não teria o tradicional "Bom dia".
Me sentei na cama, o choro já não me vinha mais, olhei para o ventilador de teto, que girava e girava, fiquei ali uns 10 minutos, só olhando, depois me levantei e fui preparar algo para o café da manhã, não gosto de comer fritura de manhã, os campeonatos de jiu-jitsu estavam chegando, não podia me dar o luxo de ganhar peso agora, mas mesmo assim, senti que aquele dia era uma exceção.
Lembrei que estava com minha mãe em casa, não sabia se ela ia acordar tão cedo até que ouvi o barulho da descarga e o chuveiro abrindo, então fritei dois ovos e preparei o café.
Ela saiu do banheiro usando roupas do meu pai, uma bermuda e uma camisa, sem problemas.
– Parece uma delícia! — disse ela com um sorriso no rosto. -
– Está. — respondi com outro sorriso, e mordendo meu pão. -
Tomamos nosso café da manhã em silêncio. Então me levantei e lavei a louça, ela me observava do balcão.
– Bom, imagino que a conversa sobre mim já tenha se adiado tempo suficiente né? — disse ela meio lentamente. -
– Só uns 17 anos.. — respondi sem hostilidade, queria saber sobre aquilo, e realmente sentia uma alfinetada por aquela farsa, mas só de lembrar que meu pai que havia mentido para mim sobre ela, me retive sobre culpá-la, isso seria culpar a ele, e jamais faria isso, jamais estragaria minhas memórias em relação a ele. -
– Desculpe, vou começar de quando nós nos casamos. Seu pai era um mecânico em uma oficina de garagem de um amigo, eu e ele nos conhecemos da academia, foi um encontro qualquer, mas que para nós dois, foi muito forte, nos apaixonamos rapidamente, depois de algumas semanas fazíamos tudo juntos, vivia visitando ele na oficina, e ele não gostava não, dizia que lá não era lugar de mulheres — essa ultima parte ela dizia com um rosto sonhador, e um sorriso bobo no rosto. — mas eu ia assim mesmo. Por volta de 2 anos de namoro, eu engravidei, era inevitável, costumávamos fazer muito sem proteção, então em uma decisão apressada decidimos nos casar. Meu pai possui uma franquia de lojas em São Paulo e era totalmente contra nosso relacionamento, mas eu convenci ele. Gabriel não tinha condições de bancar um casamento na igreja, mas meu pai fez questão de fazer tudo, dizendo que aquilo era assunto do pai da noiva.
– Eu vi as fotos. — disse de repente, já terminando de lavar os pratos e debruçado no outro lado do balcão ouvindo. -
– Sim, foi lindo, perfeito, e 7 meses depois, nasceu a garotinha mais linda que já existiu, Débora, ela puxou a mim, cabelos castanhos e olhos claros, um benção. Começamos a tomar mais cuidado com proteção sexual, e estávamos bancando um apartamento, Gabriel rachando o aluguel com meu pai, por escolha própria claro, conseguíamos sobreviver com uns rasgados aqui e ali, estávamos indo. Mas um ano depois do nascimento de Débora, tivemos uma recaída, e eu engravidei novamente, tivemos uma discussão feia naquele dia. Um culpava o outro, Débora chorava, foi nossa primeira briga séria.
– Então foi por minha causa? — perguntei. -
– Não, não meu filho. — disse minha mãe que deu a volta no balcão me abraçando. — Nós não tínhamos condições de bancar mais duas crianças, seu pai sabia disso e eu também, só não podíamos admitir.
– Pera, mais duas crianças? — perguntei me afastando. -
– Sim Lúcio, eu engravidei de gêmeos. — disse ela séria. — Júlio e Lúcio, assim que decidimos seus nomes. 9 meses depois decidimos pelo divorcio, seu pai decidiu ficar com você e com Júlio e discutimos de novo, acabei ficando com Débora e Júlio, mas eu juro meu filho, eu queria você também, como eu queria, passei todos esses anos sem nunca me esquecer que tinha outro filho aqui. — disse ela com os olhos já lacrimejando. -
– Tudo bem, tudo bem, eu vivi bem com meu pai. — disse rápido tentando acalmá-la. -
Ela parou e olhou em volta novamente, claramente surpresa.
– É, eu percebi, mas então, seu pai e eu não mantivemos uma boa relação depois que você e Júlio terminaram a fase a amamentação, e eu decidi ir morar com meu pai, em São Paulo. A decisão de fazer vocês se esquecerem foi mútua, não podíamos ficar viajando tão frequentemente para fazermos papel de pais para todos os três, então decidimos que iriamos mentir. — disse ela se sentando no banquinho do balcão novamente. -
– Os meus outros dois irmãos também não sabem de tudo isso? — perguntei. -
Ela olhou pra mim com uma cara miserável, eu reconhecia aquele rosto.
– Sua irmã não sabe. Seu irmão.. o ... Júlio, ele... faleceu no mês passado. — ela disse com os olhos em mim. — Você é meu único filho agora.
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Falamos sobre muitas coisas, havia muito oque por em dia, ela me perguntou sobre escola, minhas namoradas, se eu já havia feito sexo(já), quem eram meus amigos, e eu fiz perguntas para ela também, tentamos reaproximar esses 17 anos de perda, que é claro, era impossível durante um café da manhã, mas teríamos bastante tempo dali.
Minha mãe me contou que eu teria que ir morar com ela em São Paulo, pelo menos até completar 18 anos, que eu poderia voltar para o Rio depois, e eu concordei, queria me distanciar um pouco, seria bom.
Decidimos almoçar fora, já era meio-dia, ela se arrumou com as roupas que veio, e eu tomei banho e me preparei, ela estava no quarto do meu pai, desci o elevador e deixei um papel explicando que a oficina não iria abrir hoje na porta de entrada e notei uma embalagem em cima da mesa.
Em destinatário dizia: PARA LÚCIO.
Em origem: J
Abri a embalagem e tinha um livro grosso dentro, preto, na capa nada escrito, um papel caiu dele, peguei no chão, era uma foto, minha. Atrás estava escrito: Júlio Loureno Masqueto. A foto não era minha. Era meu irmão.
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