O Diário de Júlio

3 São Paulo e o Rio, como pode cidades vizinhas serem tão diferentes?


Naquele dia almoçamos em um restaurante especializado em churrasco, comemos bem, sempre fui educado na hora de comer, mas me esforcei um pouco mais ali, minha mãe também era educadíssima, conversamos sobre coisas mais normais do dia-a-dia, como pratos favoritos, qual meu clima favorito, coisas típicas.

De lá minha mãe pediu para passar no banco, ia tirar algum dinheiro para comprar um conjunto, não queria voltar com as mesmas roupas para São Paulo. Fomos ao banco e em seguida ao shopping, ela comprou outro vestido, era um verde musgo muito bonito, acentuava suas curvas me fazendo lembrar o quão jovial uma mulher mais velha poderia ser.

Entrei em contato com o advogado do meu pai enquanto minha mãe ia ao banheiro e ele me disse que havia um testamento.

– E oque dizia o testamento? — perguntei ao telefone. -

– Infelizmente, não o tenho em mãos, mas mesmo que o tivesse, esse tipo de documento é pode ser melhor analisado pessoalmente senhor Lúcio, poderíamos nos encontrar imediatamente se possível. — disse Marcos, o advogado e amigo de meu pai. -

– Sim, claro, hoje o senhor está disponível? — perguntei. -

– Sim, se importa de eu passar na oficina do seu pai hoje a tarde? poderíamos usar o escritório dele. — opinou ele. -

– Ok, estarei te esperando. — respondi. -

– Estarei lá por volta das 15:00 hrs. Até logo. — disse ele desligando o telefone. -

Marcos era um amigo de longa data de meu pai, não era um advogado muito bom, mas também não estava dentre os piores, ajudou meu pai com um processo que estava respondendo de um cliente insatisfeito, meu pai acabou ganhando e recebendo uma indenização por danos morais, oque ajudou na construção de nossa oficina.

– Com quem estava falando? — perguntou minha mãe chegando. -

– Com o advogado do meu pai, queria um pouco de auxílio em saber oque fazer agora, ele me disse que viria na oficina hoje a tarde, para analisarmos o testamento. — disse me levantando do banco. -

– Ah claro, bom, vamos então? Ainda quero ligar para o aeroporto e marcar nossos voos, o enterro será amanha certo? Tudo bem se formos amanhã a noite? — disse ela me olhando, percebi que estava com medo de que eu me sentisse ofendido com a pressa, mas imaginei que ela tinha oque fazer durante a semana. -

– Sem problemas. — respondi. -

Fomos para casa, ela subiu no elevador, disse que ficaria na oficina, queria deixar algumas coisas arrumadas e ligar para alguns clientes, avisando sobre o nosso fechamento por tempo indeterminado.

Liguei para todos eles, uma lista realmente longa, e depois liguei para os dois funcionários, esses sim devem ter ficado cabisbaixos, perder o emprego tão repentinamente assim, deve ser duro. disseram que meu pai havia lhes dado um adiantamento pois estavam precisando, perguntaram se eu queria devolução, neguei, meu pai tinha uma boa poupança.

Por volta das 14 hrs campainha tocou e fui receber Marcos.

O testamento não tinha muitos mistérios, basicamente, resumindo tudo, ele disse: "deixo todos os meus bens para o meu filho Lúcio Masqueto Loureno", ele deixou claro que devia algumas coisas, como peças a outras oficinas, ele tinha todas disponíveis e disse que deveriam ser devolvidas, fora isso, sem problemas.

Também deixou claro que queria ser cremado.

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Eu optei por não assistir a cremação, assisti o caixão entrando mas sai da sala, me disseram que tinha um cheiro horrível, e não queria ter nenhuma imagem de meu pai associada a churrascos humanos.

– Você vai adorar São Paulo! É claro, vai ser uma surpresa enorme para sua irmã, mas ela acostuma. Vamos te matricular na mesma escola dela.. — dizia ela sem parar sobre como eu ia gostar da casa dela e tudo mais. -

Chegamos em casa ela disse que faltava uma hora e meia para o voo, e que não iriamos nos atrasar, tínhamos deixado o almoço pronto, esquentamos e almoçamos, fomos nos arrumar. Eu já pronto me lembrei de algo que não poderia me esquecer. Desci no escritório da oficina e peguei o Diário de Lúcio que havia trancado na gaveta. Coloquei-o na mala e chamamos um táxi.

Uma das coisas que eu mais iria desgostar em São Paulo, é a falta da moto de meu pai, que agora era minha. Minha mãe, com muito desgosto por me dar a má notícia, disse que sabia que no Rio a fiscalização com a idade no transito era um pouco grossa, mas em São Paulo eu não poderia andar, então teria que deixá-la aqui.

O táxi chegou e organizei minhas coisas na mala, e fomos.

Chegamos em tempo, entramos no avião, e percebi que era a primeira vez que iria voar, fiquei animado. Sem turbulência, sem avisos, nada interessante, mas foi muito legal mesmo assim.

Chegamos e fomos direto buscar as bagagens. Sem novidades, achamos tudo e chamamos outro táxi.

Oque eu sentia? Difícil explicar, acho que naquele momento a maioria dos meus sentidos estavam congelados junto com meus ossos. Estava muito frio!

– Nossa, acho que ta meio frio né. — disse minha mãe simplesmente passando as mãos nos braços, provavelmente já acostumada a esse clima. -

– Só um pouquinho. — disse rindo com ela. -

Do táxi, via os prédios realmente altos e constantes se erguendo. Pera lá, não é como se eu fosse um caipira, eu já havia ido ao centro do rio e era basicamente a mesma coisa, mas estar em uma cidade diferente adicionava uma fantasia as coisas.

Minha mãe morava em Santo André, disse que fazia bastante frio de vez em quando, mas nada que um agasalho não resolva. Chegamos ao apartamento de minha mãe em 15 minutos.

Retirei minhas bagagens da mala do táxi e fui as levando até o elevador do edifício. Subimos e as levei até a porta.

Quando minha mãe abriu a porta, ouvi uma vozinha perguntando a ela aonde fora, oque foi fazer, e tudo mais, e então uma garota ruiva com olhos castanhos claros, no meu tamanho ou um pouco mais, me olhou e ficou mais branco do que já era, pálida, seus olhos se vidraram nos meus.

– Jú-júlio? — perguntou ela com uma voz meio trêmula e quase sem ar. -

– Débora, este é Lúcio. — disse minha mãe com uma cara fechada. — Temos muito oque conversar.

É, tínhamos mesmo...

Notas finais
Espero muito que tenham gostado, se puderem fazer alguns comentários...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.