O Diário Rasgado da Filha de Marvolo
1 Onde Eu Vivo
A merda do papel está todo sujo, mas eu sinceramente não espero que alguém tente ler, de qualquer modo.
Quem faria?
Acontece que eu preciso escrever. Eu não posso falar muito por aqui. Não é como se eu tivesse alguma importância.
Quer dizer, é claro que eu cozinho e varro o chão. Mas meu pai diz que a comida é nojenta.
Ele está agora lá embaixo conversando com um sujeito grande. Ele é maior do que nossa porta. Um de seus olhos é estranho, acho que foi furado. E ele tem um cheiro estranho.
Meu pai sempre fala com homens estranhos, mas eu não sei nada sobre eles. Acho que são negócios. A nossa família já foi bastante rica, por isso acho que a honra de meu pai está em fazer pequenos negócios.
O céu está escuro demais. Acho que vai chover muito hoje. Eu sempre tenho medo da chuva.
A água desce em velocidade do céu e inunda nosso mundo, e pequenos rios invadem nossa casa, resfriam nossas paredes e molham nossos colchões. Além do mais, os relâmpagos me assustam. Eu não consigo dormir quando chove. Sempre parece que vai me acontecer algo ruim durante as tempestades e sempre acontece. Tenho a marca da última vez que o céu escureceu assim, bem aqui na minha testa: meu pai não gostou da sopa, principalmente porque uma goteira estava pingando bem no prato dele, então ele me empurrou e eu bati a cabeça na maçaneta da porta, enquanto caia. Sangrou bastante. Não quero que aconteça novamente.
O homem lá embaixo fechou a porta com força, acho que meu pai está feliz por conseguir a melhor parte no trato feito.
Eu preciso recolher alguns cogumelos para cozinhar, agora. Espero que eu consiga escrever novamente em breve.
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